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Aparte
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Jozailto Lima

É jornalista há 36 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

OPINIÃO - Dignidade para a memória de J. Inácio
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[*] FAVS

Quando o atual Governo do Estado extinguiu a Secretaria de Cultura, sob o eufemismo de “fundir as Secretarias”, o FAVS - Fórum de Artes Visuais -, publicou seu descontentamento e vaticinou, com outras palavras, que a retirada de status de Secretaria abriria o caminho para ações que visariam vilipendiar a Cultura. Ao afirmar isto, acertou.

A insensibilidade tecno-burocrática entrou em ação com aquele capricho tipicamente perverso. Agora a comunidade artística se depara com uma contradição, um retrocesso como sinal dos tempos ora vividos, capitaneado pelo Governo Federal, que extinguiu o Ministério da Cultura e agora ataca a Educação. O governo estadual está seguindo à risca o federal? 

Todos que prezam pela arte e a cultura sabem da importância das bibliotecas e, certamente, as querem atualizadas em todos os sentidos, seja no que diz respeito a acervo, equipamento, estrutura do prédio, serviço oferecido e atendimento ao público. 

A reforma e a modernização da Biblioteca Pública Epifânio Dória são motivos de elogios e aplausos. Em tempos de tanta força da imagem, é compreensível reforçar as letras. Estranho é que, enquanto se eleva a qualidade da Biblioteca Central, se mata a Biblioteca Infantil, projetada para crianças: banheiros, equipamentos, porte das salas, até o pé-direito foi pensado para crianças.

Mas agora será ocupada por setores burocráticos. O pior desta história é saber que estão a empurrar para a desimportância a Galeria de Arte J. Inácio, anexa à Biblioteca. Para o espaço dela, será transferido o que sobrou da Biblioteca Infantil.  
Sendo a Cultura agora tratada como irmã bastarda ou estranha à Educação, e a biblioteca estando sob domínio da Secretaria de Educação, a galeria é vista ali como enclave, algo tolerado, mas incômodo.

Como sobrevida, lhe reservaram o retrocesso: voltará para o hall. O espaço que ora ocupa a Galeria de Arte J. Inácio na Biblioteca Epifânio Dória foi uma conquista da comunidade das artes visuais e do público que a frequenta. 

O hall desta mesma biblioteca, onde anteriormente eram feitas as exposições, não atende as especificações para a montagem de exposições de obras de arte, a ponto de merecer ser chamado de “Galeria de Arte”. 

Sabe-se que até o patrono não se sentia bem ao adentrar o local, por ser aquilo apenas um “arranjo”. Qualquer projeto expográfico que se limite a usar as paredes do hall, deixa as obras espalhadas sem que se possa fazer uma leitura contínua, com unicidade e harmonia delas. Ali, a iluminação sempre foi inadequada.

Além de não ter controle de acesso, o que põe em risco a integridade das obras, é um local de passagem, simplesmente. Dá a ideia de que as peças ali expostas são apenas a decoração do espaço.

Arranjos se fazem quando oficialmente não se tem os recursos. Não é o caso. Pela importância do cidadão J. Inácio para a nossa arte, a galeria que ostente o seu nome tem de honrar todo o legado dele enquanto artista. Jamais poderá ser um arremedo. 

A biblioteca pode muito bem usar o hall para exposições pedagógicas, como sempre faz, que não exigem os parâmetros das exposições de arte. Assim como uma biblioteca é local adequado para livros, uma galeria de arte deve ter também todos os pré-requisitos para acolher exposições de obras de arte. 

E a Galeria de Arte J. Inácio, onde está agora, tem todas as especificações. Podemos enumerar vários justificativas para a galeria permanecer no local conquistado. Entre elas, a estrutura que oferece segurança para frequentadores, artistas e as obras, pois há como controlar o acesso a partir das portas de vidro temperado; o pé-direito alto para os padrões das galerias que temos, o que a torna a melhor galeria de arte disponível em Sergipe no momento; o fato de contemplar artistas de todos os Estados do Brasil que nela fazem exposições, via edital público; a não descontinuidade nas paredes, que podem expor obras de grande porte.

E mais: a iluminação, que antes já atendia os projetos expográficos, com a reforma deverá ficar melhor, e a área ampla, que comporta médias instalações artísticas, assim como considerável quantidade de outras obras bi e tridimensionais.   
Foi o FAVS que, com a militância de vários artistas - e a compreensão e competência dos técnicos da Secult da gestão anterior –, dinamizou a Galeria J. Inácio, que andava um tanto esquecida e paralisada no ano de 2015. 

Ali foram feitas mostras importantes com a participação efetiva do FAVS, que também reivindicou e conquistou o edital público, como uma forma republicana de oferecer aos artistas a chance de participação democrática na ocupação da galeria.
 Comitantemente, nesta série de conquistas, com louvor e dignidade, sugeriu o FAVS que o enorme salão ocioso, onde se reuniam os Conselhos de Cultura e Educação uma vez ao mês, cada um deles fosse efetivado como local adequado para ser instalada a galeria. 

Foi uma decisão administrativa sem trauma, pois tudo estava na então Secult. A possibilidade de mudar a galeria para outro prédio poderá criar vício. No próximo governo os burocratas cismarão e a mudarão. Em outro governo, novamente, a removerão para outro lugar. Quando ninguém mais reagir, eles poderão simplesmente extingui-la. É um fato que pode se repetir, pois há o histórico da galeria que existiu na orla da Atalaia.

É inadmissível aceitar retrocesso. Já basta o Governo Federal tirar do povo a esperança de um futuro sossegado com progresso social e desenvolvimento econômico.  O Governo de Sergipe não pode tratar a arte e a cultura com desdém. A comunidade artística quer o respeito que merece, pois é parte significativa da cultura. 

Todos que a compõe são cidadãos e cidadãs. Portanto, pagam impostos, têm opiniões e votos. A galeria é apenas um item da pauta de reivindicações do FAVS. Os artistas precisam ser ouvidos. Este artigo é sinal de que estão lutando pelo que acreditam e defendem. Abaixo o retrocesso cultural.

Aracaju, 25 de maio de 2019


[*] FAVS - Fórum Permanente de Artes Visual e Sergipe.

Foto reproduzida de postagem feita por Eduardo Cabral, na página do Facebook/MTéSERGIPE.