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Politica & Mulher
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Tanuza Oliveira

Jornalista desde 2010, com formação pela Unit e atuação em veículos impressos e em assessorias de comunicação em Sergipe. É repórter Especial do JLPolítica desde 2017.

Violência obstétrica: é preciso falar sobre ela
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Elisângela Queiroz: “como é possível tratar algo que não pode ser nomeado?”

Uma a cada quatro mulheres sofre violência obstétrica, que pode acontecer não apenas durante o parto, com a agressão em si, mas também em toda a gestação, com a violência psicológica que vai de comentários sobre abertura até a indução a um parto cesariano sem a devida necessidade.

Apesar de ser tão comum, há uma tentativa do Ministério da Saúde de abolir o termo “violência obstétrica”, o que seria prejudicial em diversas esferas, mas principalmente no âmbito das políticas públicas de saúde da mulher. Mas o Conselho Nacional dos Direitos Humanos pediu que o MS voltasse atrás e a questão ainda não está definida. 

“Essa tentativa do MS de abolir o termo prejudica as políticas públicas, porque como é possível tratar algo que não pode ser nomeado?”, questiona a advogada Elisângela Queiroz, que integra a Comissão em Defesa dos Direitos da Mulher da OAB/SE e coordena o Grupo de Trabalho da Saúde da Mulher. 

Para debater detalhadamente o tema, a Comissão realiza nesta quinta, 6, o evento “Violência Obstétrica - nomear para combater”. “O objetivo é fazer com que o tema, o conceito, desconhecido por muitas pessoas, seja colocado em pauta”, diz Elisângela Queiroz.

De acordo com ela, dentro da Comissão o entendimento é o de que o conceito de violência obstétrica, tão praticado nos hospitais do país, não pode ser silenciado. Pelo contrário. “Ele deve ser bastante debatido, fortalecido, para que possa ser modificado”, defende. 

Ela reforça que a prática é comum, segundo dados da Fiocruz, e que mesmo assim muitas mulheres não sabem dizer se sofrem ou não esse tipo de violência, o que pode maquiar os dados. Tudo isso, segundo Elisângela, é reflexo de uma sociedade machista.

“Eu costumo dizer que nós mulheres já conquistamos muito espaços, mas ainda não dominamos o próprio corpo. E a violência obstétrica é uma das mais graves provas disso”, ressalta. Isso porque, de acordo com Elisângela, mesmo sendo um momento em que a mulher deveria ser a protagonista, esse protagonismo é retirado dela.

“É uma violência de gênero muito forte, um reflexo de uma sociedade patriarcal. O exemplo mais claro e cruel disso é o “ponto do marido”, o corte do períneo feito com a justificativa de facilitar a passagem do bebê, mas que estudos apontam o contrário”, analisa.

Depois do corte, na hora da sutura, os médicos dão um ponto a mais, daí o nome “ponto do marido”. “Isso é tratar a mulher como objeto sexual, que não pode sequer parir, e quando pare tem que voltar à atividade. A maioria das mulheres fica destruída depois disso, tanto por causa das lacerações quanto pela dor constante”, revela. 

No debate promovido pela OAB, pelo menos três aspectos dessa violência serão abordados: o da saúde em si, o psicológico e o jurídico. Para isso, três palestrantes estarão presentes: a enfermeira obstétrica Hilca Gomes; a psicóloga e dola (acompanhante de parto) Tamyres Santos e a advogada Jessica Andrade. 

Mas Elisângela chama a atenção para a necessidade de o debate ser feito também na espera política, embora acredite que a pauta - assim como outras dessa esfera feminina - possa ser prejudicada pela falta de representatividade suficiente. 

“Como vamos ter uma legislação que favoreça a mulher se a maioria é de homem no Congresso? Eles não vão compreender, não passam pela gestação e pela violência no parto. Até porque o corpo masculino não sofre nada disso”, ressalta Elisângela. 

O debate ocorre às 18h, na Escola Superior de Advocacia - ESA -, na Travessa Martinho Garcez, antiga sede da OAB/SE.