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Entrevista

Jozailto Lima

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Alberto Almeida: “Aracaju tem de fazer licitação que atenda a quatro cidades”

Publicado em  21  OUT 2017, 20h00

“Perdemos quase 20% dos passageiros”​

A crise bate às portas do sistema de transporte de passageiros de Aracaju e da Grande Aracaju. E vem em forma de números, de evasão de receitas, de inclusão excessiva de gratuidade de passagem - que de gratuidade não tem nada, posto que o usuário ativo, aquele que paga por si mesmo, termina pagando pelos outros.

De janeiro a setembro deste ano, houve um queda de 19% na quantidade de passageiros transportados. Vieram de 61,4 milhões de transportados no mesmo período de 2016 para 49,1 milhões agora. Enquanto isso, o quantitativa de gratuidade cresceu 36% - foi de 2,2 milhões para 3 milhões de pessoas conduzidas.

Mas nem pense que uma das pontas principais do sistema, a dos empresários que o operam, baixa a crista e se dá por vencida. Pelo contrário. “O transporte coletivo em Aracaju tem algumas evoluções. Está à frente de algumas cidades. A integração, por exemplo, aqui começou há bastante tempo e hoje tem um dos melhores sistemas do Brasil e do mundo. Temos também uma rede de transporte que atende à maioria da população. Há aspectos bastante positivos”, diz Alberto Almeida, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Município de Aracaju - Setransp.

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Alberto Almeida tem 53 anos, é advogado

JLPolítica - O que diferencia Aracaju de outras cidades abaixo de um milhão de habitantes no aspecto do transporte coletivo?
Alberto Almeida -
O transporte coletivo em Aracaju tem algumas evoluções. Está à frente de algumas cidades. A integração, por exemplo, aqui começou há bastante tempo e hoje tem um dos melhores sistemas do Brasil e do mundo. Temos também uma rede de transporte que atende à maioria da população. Então há aspectos bastante positivos.

JLPolítica - A cidade é inapropriada para os corredores específicos de ônibus ou tem apenas uma malha pequena própria para isso?
AA -
A questão é de adaptação. Se eu comparar Aracaju a São Paulo, Bogotá, Curitiba, Medellin, vão existir diferenças. Mas isso não impede a adaptação aos corredores. E eles são uma forma barata, rápida e de efeito positivo imediato.

TRANSPORTE E EVOLUÇÃO
“O transporte coletivo em Aracaju tem algumas evoluções. Está à frente de algumas cidades. A integração, por exemplo, aqui começou há bastante tempo e hoje tem um dos melhores sistemas do Brasil e do mundo”

JLPolítica - O Setransp trabalhou bem junto à comunidade a importância da faixa exclusiva ou faltou interlocução?
AA -
Na época, o Setransp participou da divulgação, mas acredito que informação é sempre bem-vinda. Com a informação, você evita algumas surpresas. Então acho que sempre há essa necessidade de divulgação, de ampliação das faixas, de revitalização. O Governo Municipal tem sinalizado para um projeto maior de mobilidade, que abrange não só o transporte, mas outras questões, como ferramentas, tecnologia.

JLPolítica - Até recentemente, havia uma desarmonia entre os dois operadores do sistema, o Setransp e a SMTT. Com sua gestão, essa desarmonia equalizou ou aumentou?
AA -
Não observei em momento algum essa desarmonia. Cheguei em 2013 e já encontrei o Setransp e a SMTT focados na melhoria do transporte público. É claro que uma unidade é fiscalizadora e a outra executora. Por isso, sempre vai haver uma cobrança, e é normal que haja conflitos pontuais. Mas a relação do Setransp e o governo de forma geral é muito saudável.

*FROTA E EMPREGOS 
596
 ônibus.


 3,5 mil empregos diretos.


4,0 mil  empregos indiretos.

*Fonte Setransp

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Com mais três sócios, opera o Grupo Itamaracá, com 12 empresas

JLPolítica - Conhecendo outras praças, como o senhor conhece, diria que o planejamento feito em Aracaju é dos melhores ou precisa melhorar?
AA -
O planejamento do transporte aqui é feito pela SMTT na Capital e tem suprido. Não acho que haja dificuldade. Mas há uma necessidade de renovação da rede, dos semáforos inteligentes e outras tecnologias, e isso é foco do governo municipal atual. Mas Aracaju já tem 90% do que o Brasil pratica. Já está à frente de cidades semelhantes do país. 

JLPolítica - Qual o seu conceito da nossa mobilidade entre médio, bom e ótimo?
AA -
Não vou conceituar. Vou apenas dizer que a mobilidade de Aracaju está, dentro de sua proporção, com a dificuldade que tem Salvador, Recife, Maceió, capitais com entrada de grande volume de transporte individual. Hoje, você não tem dificuldade alguma de comprar um veículo, porque há um incentivo para essa indústria que o setor de transporte não tem.

HARMONIA ENTRE OPERADORES?
“Cheguei em 2013 e já encontrei o Setransp e a SMTT focados na melhoria do transporte público. É claro que uma unidade é fiscalizadora e a outra executora”

JLPolítica - Qual é a interação entre o Setransp e a SMTT dos outros três demais municípios - Socorro, Barra e São Cristóvão?
AA -
A gestão é concentrada na SMTT de Aracaju. Porém, as três gestões tratam com as empresas naquilo que é pontual. Mas as demais SMTTs têm acesso e têm compartilhado com a gente as dificuldades e as alternativas sem nenhum bloqueio.

JLPolítica - Depois de 2014, houve uma queda substancial de gente transportada. Vocês perderam quanto em passageiros/ano?
AA -
Perdemos quase 20% da demanda. Nos últimos dois anos, chegou a 12%. Então, a maior concentração se deu em 2015 e em 2017, quando tivemos esse percentual de perda.

*GRATUIDADE 
11%  parcial. Estudantes.


19%  total. Pessoas com deficiências e profissões beneficiadas por lei federal.  

*Fonte Setransp

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Responde pela Atalaia Transportes, com 190 ônibus e 1,3 mil empregos diretos

JLPolítica - Qual a gravidade disso?
AA -
Significa que é um sistema mais pobre no sentido da capacidade de investimento. Quanto menos gente paga, maior é o pagamento individual e maior a fuga de receita para o setor de transporte.

JLPolítica - Qual o significado de termos 19% de gratuidade no sistema de transporte?
AA -
A gravidade é que os usuários ativos pagam por outros usuários. Se o usuário fosse pago por receita extra tarifária, teria um barateamento e uma capacidade de investimento maiores no setor.

À FRENTE DE CIDADES SEMELHANTES
“Há uma necessidade de renovação da rede, dos semáforos inteligentes e outras tecnologias, e isso é foco do governo municipal atual. Mas Aracaju já tem 90% do que o Brasil pratica. Já está à frente de cidades semelhantes do país” 

JLPolítica – Os senhores dizem que são a favor da licitação e o governo municipal promete. Mas por que que ela nunca acontece?
AA -
A licitação não é um processo simples. É complexo e envolve uma prestação de serviço que você só enxerga quando se aproxima dele. Então é preciso um trabalho muito bem montado, porque a rede de transporte, além de ser complexa, é dinâmica. Então, Aracaju não pode fazer uma licitação que atenda somente a ela, tem que atender as quatro cidades. Agora, com a criação do Consórcio do Transporte, isso deve andar rapidamente.

JLPolítica - Como é que o Setransp encara determinados projetos exóticos que vêm do Legislativo, como esses da parada fora do ponto, do porta-bicicleta nos ônibus?
AA -
Entendo que os idealizadores, quando montam um projeto desses, têm boa vontade de atender à população, devendo, em alguns pontos, requisitar conhecimento técnico, porque as vezes o legislador não tem aquela informação. Até porque ele não tem obrigação de conhecer tudo. Então, acho que a boa vontade é a característica que prevalece, porém é necessária uma opinião técnica.

*ASSALTOS E VANDALISMO
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de janeiro a setembro de 2017.


35%  de queda, comparando-se ao mesmo período de 2016.

*Fonte Setransp

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"A licitação não é um processo simples", explica

JLPolítica - O nível de violência no transporte urbano, com os assaltos, caiu em que percentuais no último ano?
AA -
Caiu 38%, comparando ao ano passado. Foi uma queda espetacular. Agora, o número bom é zero. Mas estamos no caminho de um número tolerável de ocorrências. Porque zerar é muito difícil.

JLPolítica - E a que se deve esta queda?
AA -
Ela é reflexo de um trabalho conjunto das Polícias, através da polícia ostensiva e da inteligência, do Setransp, com a cessão das informações, através das empresas, com mais rapidez, da SMTT e da Guarda Municipal.

PERIGO DA GRATUIDADE
“A gravidade é que os usuários ativos pagam por outros usuários. Se o usuário fosse pago por receita extra tarifária, teria um barateamento e uma capacidade de investimento maiores no setor”

JLPolítica – O senhor não acha R$ 3,50 um valor caro para a passagem em Aracaju?
AA -
É o valor que foi colocado, mas que não cobre os custos do sistema. O cálculo seria em torno de R$ 4, sem considerar esse período de janeiro a julho, que não houve tarifa, gerando um déficit de quase R$ 30 milhões. Esse valor não arrecado, deve-se a alguém. Então você tem que ter a cobertura.

JLPolítica - Os senhores estariam pagando R$ 0,50 para trabalhar? É isso?
AA -
Estamos hoje deixando de investir, reduzindo os custos que são essenciais para poder suportar até que se tenha uma regularização dos valores.

*CUSTOS 
Mão-de-obra:  47,08%


Óleoo Diesel:  19,59%


Impostos e taxas: 6%


Veículos e peças: 22,43%


Lubrificantes e gratuidades: 4,90%

*Fonte Setransp

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Casado, pai de dois filhos e nasceu no Recife

JLPolítica – Ter 72% da bilhetagem previamente vendida é uma média boa, ruim ou ótima?
AA -
É boa, porque reflete que se tem boa parte da população utilizando a bilhetagem. Mas é necessário que cresça, que se busque os 100% da bilhetagem. Porque o uso da bilhetagem representa maior na segurança para o usuário, menos circulação de dinheiro nos ônibus e, consequentemente, menos índice de assaltos. Isso é uma consequência. Mas é uma quebra de barreiras. As pessoas têm mais facilidade em usar a bilhetagem, porque todo mundo usa o celular, um aplicativo, um caixa bancário.

JLPolítica - Sete empresas com 600 ônibus são suficientes para uma população de quase 900 mil habitantes?
AA -
A quantidade de ônibus é suficiente. Acho até que é um pouco mais do que seria preciso, porque estamos disputando espaço e velocidade comercial com os automóveis. Se você deixa um ônibus fluir, ele consegue sair de seis viagens por dia para oito ou dez. Significa dizer que o usuário tem quase 50% mais oferta.

DEFASAGEM DA TARIFA
“O cálculo seria em torno de R$ 4, sem considerar esse período de janeiro a julho, que não houve tarifa, gerando um déficit de quase R$ 30 milhões. Esse valor não arrecado, deve-se a alguém”

JLPolítica - Que milagre se pode fazer no sistema de transporte para ele fluir melhor?
AA -
Não passa na esfera do milagre não. São questões reais que precisam ser implantadas. Elas vão da faixa exclusiva, da prioridade ao transporte público, do controle e fiscalização do clandestino e da criação de possibilidade de integração. Como se vê é uma série de ações, um projeto que o governo municipal tem sinalizado. E está participando agora do “Cidades Inteligentes”, que é um grande passo, onde estão todas as tecnologias em um ambiente só, então essa iniciativa do híbrido municipal vai dar uma alavancada no crescimento das ferramentas disponíveis para o transporte público.

JLPolítica - Estatisticamente, o que significa o transporte clandestino para o transporte público organizado de Aracaju?
AA -
Em primeiro lugar, cria uma evasão em receita no transporte, agravando as dificuldades que se tem. E, mais ainda, é um transporte que você não tem controle. Não tem como dar segurança ao usuário, não tem como dar garantia alguma, porque o órgão gestor não tem capacidade de fiscalizar o clandestino, já que não tem cadastro.

*VOCÊ SABIA?
70% das vias públicas são ocupadas por carros. 


Apenas 30%  de  pessoas, entretanto, são transportadas por carros.


Por dia, 87%  das viagens são operadas pelos ônbus do transporte público. 


Em 40%, é o que aumenta a velocidade dos ônibus, operando em faixas exclusivas.

*Fonte Setransp

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"O transporte coletivo em Aracaju tem algumas evoluções", avalia

JLPolítica - Os terminais de ônibus estão dentro do padrão de qualidade razoável ou devem melhorar?
AA -
Devem melhorar. E devem ser inovados, com modificações. Nos projetos de transportes que estão se desenhando, devem vir com algumas modificações. Por exemplo, terminais mais leves, com um desenho que favoreça o deslocamento das pessoas, com menos impedimento de circulação, até porque foram construídos bem lá atrás, e os terminais de hoje já não são assim.

JLPolítica - Como o Prêmio Setransp de Jornalismo tem contribuído com a melhoria do transporte público de Aracaju?
AA -
Em duas questões: primeiro, temos buscado junto a vocês as críticas e as questões mais presentes, porque vocês têm contato com o usuário lá na frente, com o público geral. É passado pra vocês informações que às vezes não são percebidas por nós, como infraestrutura, dificuldades, avanços. Porque a gente não pode deixar de enxergar que Aracaju tem uma das melhores bilhetagens do Brasil, a primeira integração brasileira e que funciona muito bem, então esses pontos positivos não podem passar despercebidos, e o Prêmio de Jornalismo vem instigar, incentivar a tratativa de todos os pontos positivos e os que precisam melhorar.

UMA BILHETAGEM 100%
“É necessário que cresça, que se busque os 100% da bilhetagem. Porque o uso da bilhetagem representa maior na segurança para o usuário, menos circulação de dinheiro nos ônibus e, consequentemente, menos índice de assaltos.

JLPolítica – Os senhores mudam o perfil e a performance do Prêmio este ano?
AA -
Mudamos, sim. Foi dado um upgrade na sistemática, colocando dois pontos fundamentais: as inscrições podem ser feitas via site, sem precisar de material físico, e a outra é que a pessoa pode participar com mais de um trabalho, embora só possa ganhar com um. Isso lhe tira a necessidade de escolher entre os trabalhos. Isso vai nos dar a possibilidade de conhecer trabalhos com vários focos.

*VIAS EXCLUSIVAS x FAIXAS EXCLUSIVAS 
3,5

metros é a largura média de uma faixa 
900
carros por hora transportam  1,3 mil pessoas.
13,5 MIL
pessoas seriam transportadas por hora com vias exclusivas para ônibus


 Nas "vias exclusivas", apenas ônibus trafegam naquela rua ou avenida.  Aracaju não adota este sistema, tem apenas  "faixas exclusivas"  dentro da via 

*Fonte Setransp

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"O usuário ativo, aquele que paga por si mesmo, termina pagando pelos outros", reclama

EFEITOS DA MOBILIDADE
“Porque estamos disputando espaço e velocidade comercial com os automóveis. Se você deixa um ônibus fluir, ele consegue sair de seis viagens por dia para oito ou dez. Significa dizer que o usuário tem quase 50% mais oferta”