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Entrevista

Jozailto Lima

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Alexandre Porto: “Sergipe é carente de um banco de projetos”

Publicado em 4 de maio de 2019, 20h00

“Sergipe não está quebrado. Tem solução, mas não pode mais esperar”


Nunca o Estado de Sergipe precisou tanto ser pensado em seus aspectos desenvolvimentistas e de futuro, como agora. Nunca o Estado de Sergipe necessitou tanto que se aponte caminhos que o façam avançar e a sair do lugar comum.

Quem pensa assim é o empresário e publicitário Alexandre Porto, 44 anos, com uma boa experimentação prática e teórica nas esferas pública e particular de Sergipe, tendo passado por uma série de entidades de classe e por órgãos de Governo.

Antes que se pense que Alexandre Porto está jogando luzes sobre o óbvio, sobre o que está estampado nas cores da crise que está aí, ele adverte: este Pacto por Sergipe exige um arco de aliança e de esforços de todos. Sem ideologias, sem partidarismos, sem radicalismos. Com desprendimento.

“Na teoria, caberia exclusivamente aos Poderes Executivo e Legislativo, tanto estadual quanto municipal, que através dos seus mandatos são eleitos para tornar o Estado e seus municípios mais fortes e mais pujantes. Na prática, e principalmente nos dias de hoje, essa responsabilidade vai além, envolvendo toda a sociedade através das universidades, das entidades de classe do setor privado, das entidades de trabalhadores, de categorias profissionais, da imprensa e de todo aquele cidadão que deseja viver em um Estado próspero e com perspectivas de futuro”, diz ele.

E neste contexto, Alexandre Porto entende que todos devem agir sem a ilusória percepção de que Sergipe esteja quebrado ou falido. “A ideia de um Sergipe falido ou quebrado não ajuda a recuperação da sua economia. Sergipe não está quebrado. Está em crise. Mas tem solução sim e não pode mais esperar”, diz ele.

Apesar da responsabilidade difusa, que permeia a todos os sergipanos, Alexandre Porto vê o Governo como o agente mais ativo e oportuno para puxar o gatilho do bom debate. “O Governo é o ente apropriado para convocar um verdadeiro Pacto por Sergipe, reunindo especialistas, dirigentes de entidades, intelectuais e pensadores da economia para debater os problemas e apontar o caminho, sem tapar o sol com a peneira, mas também sem avaliações radicais”, diz.

Embora muito opinativo, Alexandre Porto não acha prudente apresentar ideias feitas, conclusas, aqui. Mas tem noções de por onde se iniciar. “Longe de mim querer apontar uma solução para desatar esse nó. Posso dar apenas algumas contribuições, a exemplo da necessidade de retomar o planejamento e a capacidade de pensar, desenvolvendo projetos de longo prazo; atuar no equilíbrio das contas públicas; introduzir a tecnologia e inovação na gestão; fomentar o desenvolvimento do turismo, do agronegócio e das pequenas empresas”, diz ele.

“Empresários, trabalhadores, políticos, acadêmicos e intelectuais precisam estar juntos para tirar Sergipe da inércia em que se encontra. Todos precisam deixar os interesses individuais de lado e mirar no maior de todos os objetivos, que é a retomada do crescimento do nosso Estado, porque sem isso, estão fadados ao fracasso. Mas, nada disso funcionará se não tivermos um líder capaz de unir as classes política, empresarial, trabalhadora e a academia num uníssono desejo de fazer de Sergipe um Estado melhor para as futuras gerações”, completa Alexandre.

Alexandre Porto é técnico em Eletrônica formado pela antiga Escola Técnica de Sergipe. Mas tem grandes vivências práticas no campo dos desenvolvimentos social e econômico. Ele é publicitário profissional e empresário do setor de eventos. Especializou-se nesse segmento nas esferas empresarial e médica, tendo realizado, entre pequenos, médios e grandes, mais de 150 eventos.

Alexandre começou sua atuação profissional no ramo de shows artísticos, exatamente como promotor de eventos. Em 1997, fundou a Êxito Eventos, especializada na organização de feiras e congressos. Atualmente, ele tem se dedicado exclusivamente às atividades empresariais.

Agora em 2019, passou a empreender no segmento industrial, com a fundação da Marcenaria MDF Design, e de comunicação, com a APorto Associados, uma empresa especializada em Consultoria Empresarial e Política. Ele é o comentarista âncora do quadro Ideias e Negócios do Bom Dia Sergipe, na TV Sergipe, que vai ao ar todas as quartas-feiras na TV Sergipe.

  Tem uma extensa ficha de ação e serviços prestados a entidades de classe e órgãos públicos. Foi conselheiro, vice-presidente e presidente da Acese – Associação Comercial e Empresarial de Sergipe -, e da Faciase - Federação das Associações Comerciais e Empresariais de Sergipe. Foi presidente-fundador do Rotary Clube Aracaju Leste e presidiu a Abeoc - Associação Brasileira das Empresas de Eventos/SE. Dirigiu o Aracaju Convention Bureau e presidiu o seu Conselho Curador. 

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Em tarde descontraída com seus filhos, João Alexandre Silva Porto, de 16 anos, e Ana Júlia Silva Porto
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Com sua amada, Mahyra Prudente

DA NECESSIDADE DE RECOLOCAR SERGIPE NA ROTA CERTA
“É preciso retomar o que foi perdido há algum tempo: a capacidade de pensar e de planejar adequadamente, deixando de lado questões politico-ideológicas, traçando uma rota ascendente que nos coloque de volta no patamar que merecemos”

JLPolítica - A quem compete pensar ações públicas para Sergipe, política e economicamente falando, no sentindo macro?
Alexandre Porto -
Na teoria, caberia exclusivamente aos Poderes Executivo e Legislativo, tanto estadual quanto municipal, que através dos seus mandatos são eleitos para tornar o Estado e seus municípios mais fortes e mais pujantes. Na prática, e principalmente nos dias de hoje, essa responsabilidade vai além, envolvendo toda a sociedade através das universidades, das entidades de classe do setor privado, das entidades de trabalhadores, de categorias profissionais, da imprensa e de todo aquele cidadão que deseja viver em um Estado próspero e com perspectivas de futuro.

JLPolítica - O que é pensado hoje lhe basta, lhe contempla, enquanto observador da cena econômica do Estado?
AP -
Tenho acompanhado o desenvolvimento de Sergipe há quase duas décadas, ora como espectador, ora como ator. Nas diversas atividades que desempenhei e cargos que exerci, tive a oportunidade de avaliar pontos de vista diferentes e compreender o que acontece em cada um dos lados do balcão, seja do público, seja do privado. Sergipe está muito aquém das suas potencialidades e reúne condições para se recuperar. Porém é preciso retomar o que foi perdido há algum tempo: a capacidade de pensar e de planejar adequadamente, deixando de lado questões politico-ideológicas, traçando uma rota ascendente que nos coloque de volta no patamar que merecemos. É claro que pensar não basta. Se não tiver ação efetiva, alicerçada no monitoramento dos resultados, tornar-se-á apenas uma pilha de boas ideias. 

JLPolítica - Mas se se esperar pelas famosas entidades de classe dos setores produtivos - obviamente aqui incluindo as representativas dos trabalhadores - não se teria resultados mitigados por pensamentos e interesses confusos e dirigidos?
AP -
Toda entidade representativa busca defender os direitos ou interesses daqueles que elas representam, porém é preciso compreender que o melhor para Sergipe deve estar acima dos interesses de cada classe ou categoria. Empresários, trabalhadores, políticos, acadêmicos e intelectuais precisam estar juntos para tirar Sergipe da inércia que se encontra. Todos precisam deixar os interesses individuais de lado e mirar no maior de todos os objetivos, que é a retomada do crescimento do nosso Estado, porque sem isso, estão fadados ao fracasso.

JLPolítica - Por falar nessas entidades, qual a leitura que o senhor faz delas e seus desempenhos nessa hora tensa da vida sergipana e brasileira? Refiro-me a FIES, Acese, CUT, CTB, sindicatos e que tais.
AP -
Cada entidade tem seu histórico de atuação e a forma de ser conduzida pela sua diretoria. Portanto, avaliar ou comparar o desempenho delas é uma tarefa que requer conhecimento específico de cada uma. Mas de forma cristalina é possível concluir que há uma apatia generalizada quando se trata de colocar Sergipe na rota do crescimento. As entidades, sejam empresariais ou de trabalhadores, têm demonstrado estar olhando exclusivamente para os seus interesses e esquecendo a necessidade de democraticamente debater nosso futuro. Precisam pensar e buscar o melhor para Sergipe e para o Brasil sem deixar-se contaminar pelos interesses politico-ideológicos ou politico-partidários, sob pena de continuarmos em apuros. Está evidente que há uma politização exacerbada nas entidades, inclusive naquelas que historicamente se mantiveram distantes de envolvimento político-ideológico, e isso tem prejudicado o senso crítico, a qualidade do debate e sobretudo o respeito ao contraditório. Esses fatores, imprescindíveis numa democracia, são empecilhos na busca de uma solução rápida e eficiente.

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Com sua mãe, Iane Menezes Santana durante aposição de sua foto na galeria de presidentes da Acese

DO FOCO INDIVIDUALISTAS DAS ENTIDADES DE CLASSE
“De forma cristalina é possível concluir que há uma apatia generalizada quando se trata de colocar Sergipe na rota do crescimento. As entidades têm demonstrado estar olhando exclusivamente para os seus interesses e esquecendo a necessidade de democraticamente debater nosso futuro”

JLPolítica - Falta ou não mais ação ao Banese no campo do fomento ao desenvolvimento do Estado?
AP -
O Banese é uma ferramenta imprescindível para Sergipe e pode ser mais acionada, sobretudo nesse momento, em favor do nosso desenvolvimento. Ampliar as políticas de microcrédito, capitalizar o fundo de aval e torná-lo exclusivo para as micro e pequenas empresas, aplicar mais recursos ao desenvolvimento da cultura e do turismo, expandir a aplicação de recursos do FNE, injetar recursos no fomento a tecnologia e inovação, como também ao agronegócio, são alguns exemplos de ações que podem ser empreendidas e trarão resultados rápidos.

JLPolítica - O senhor subscreve o discurso de terra arrasada que o Governo de Sergipe faz no campo fiscal e financeiro?
AP -
Naturalmente que é notória a situação crítica, especificamente nas finanças do governo estadual, apesar de não concordar com o discurso de “terra arrasada”. Até porque não estamos nesse ponto. Pelo menos ainda, e espero que não se alcance esse nível. Não acredito que esse discurso nos ajude em nada. Pelo contrário, afasta investidores, gera insegurança ao sergipano e cria um ambiente desfavorável a retomada do crescimento.  Mas, é claro que o governo tem que fazer o dever de casa, encontrando os caminhos para sanear as suas contas, adequando as despesas ao atual momento e aumentando a arrecadação. No setor privado, qualquer empreendimento que pense apenas em enxugar despesas, sem incrementar suas receitas está fadado a falência. Não vejo como ser diferente no setor público.

JLPolítica – Eu sei que o senhor leu o artigo “Nunca tivemos tanta necessidade de um pacto por Sergipe”, de autoria Jorge Santana, engenheiro e empresário da área de Tecnologia da Informação, publicado semana passada aqui por este portal. Que virtudes e vícios o senhor localizou ali?
AP -
O empresário Jorge Santana, com quem nutro uma amizade de quase 20 anos e tive o privilégio de ser seu vice-presidente na Acese e posteriormente seu secretário-adjunto na Sedetec, foi cirúrgico na sua avaliação. Sobretudo em mostrar que existem sim caminhos para a retomada do crescimento e em minimizar as críticas ao atual momento e aos responsáveis por nos levar até esse ponto. O momento não é de buscar culpados e sim de termos equilíbrio para encontrar saídas e invertermos a rota descendente em que nos encontramos.

JLPolítica - O senhor acha que o artigo dele contribui para esse bom debate de que tanto se fala, a que tanto se cobra?
AP -
O artigo de Jorge Santana provocou a retomada de um debate que estava silencioso. A repercussão positiva causada é a prova cabal de que o momento é propício para a busca de soluções. Penso que esse artigo pode dar início a um debate para apontar caminhos que verdadeiramente impulsionem Sergipe. Porém, volto a repetir o que disse acima: se não desarmarmos os ânimos, se não deixarmos de lado os interesses das classes e categorias e principalmente os politico-ideológicos, ou partidários, esse debate estará fadado a apenas “levantar a bola”, quando o maior interesse é o de fazer o gol.

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Família reunida em clima de Natal

APOLOGIA À FALÊNCIA DE SERGIPE EM NADA AJUDA
“A ideia de um Sergipe falido ou quebrado não ajuda a recuperação da sua economia. É possível que o governador tenha exagerado nas suas declarações buscando sensibilizar os demais poderes na tentativa de redução das contas. A meu ver foi uma estratégia equivocada”

JLPolítica - A venda da ideia institucional de um Sergipe falido e quebrado compra que saídas e soluções para o Estado?
AP -
A ideia de um Sergipe falido ou quebrado não ajuda a recuperação da sua economia. É possível, e aí vai uma mera especulação, que o governador tenha exagerado nas suas declarações buscando sensibilizar os demais poderes na tentativa de redução das contas. Se foi isso realmente, a meu ver foi uma estratégia equivocada, porque gerou muita insegurança na população, nos empresários e nos investidores. Percebo que o governador já amenizou esse discurso de terra arrasada e está tentando buscar saídas, porém sem muito êxito. 

JLPolítica - O senhor sente falta de uma espécie de uma mea culpa sincera do Governo para determinados vieses do que somos hoje enquanto Estado em crise?
AP -
Se ficarmos buscando culpado ou declarações de culpa, continuaremos sem sair do lugar. O momento é de aprender com os erros do passado, mas também com os acertos. Sergipe já esteve “ruim das pernas” em outros momentos e conseguiu se reerguer, como também já esteve em situações muito favoráveis. Portanto, existem muitas lições que tomamos nos últimos anos e que precisam ser resgatadas. Seja para não errarmos mais, seja para voltarmos a acertar.

JLPolítica - Pelo que o senhor conhece das políticas públicas de Sergipe, sente que haja uma separação entre as práticas fiscais do Estado - as de arrecadação, despesas e receitas, coisas da Sefaz – e as da administração em si do Tesouro do Estado de Sergipe, aquela que gere o fluxo do dinheiro, o quanto ele é?
AP -
Um Estado que só vive com o foco em olhar as despesas não vai a lugar algum. Assemelha-se a um condomínio residencial, onde controla-se o fluxo de caixa e faz-se pouquíssimas melhorias. Um Estado promissor tem que ser desenvolvimentista, pensar no futuro e construir uma gestão que gere maior movimentação na economia. Secretarias de Finanças ou de Fazenda não fabricam dinheiro, apenas arrecadam sua parcela daquilo que é produzido. O dinheiro está no mercado, seja nas relações comerciais entre o público e o privado, ou somente entre privados. Portanto, enquanto o Governo não implementar medidas de gestão que proporcionem o aumento do fluxo de dinheiro no mercado e consequentemente produza tributos a serem arrecadados, não irá ter capacidade de melhorar os serviços públicos e investir em obras que beneficiem a população.

JLPolítica - Seria lícito dizer que a Sergipe falta elaboração de macros projetos no campo desenvolvimentista e a venda deles ao Governo Federal e à incitava particular mundo afora?
AP -
Sergipe é carente de um banco de projetos, seja para buscar recursos no Governo Federal, em instituições financiadoras ou através de recursos não reembolsáveis, seja na atração de investimentos privados. Essa já passa a ser uma tarefa imediata de um Governo que pensa em construir um futuro para o Estado. Reunir técnicos que pensem projetos estruturantes, oportunidades para investidores e possíveis Parcerias Público Privadas, com visão futura, preparando Sergipe para os próximos 30 anos, criando desde já uma expectativa de que está sendo olhado para o futuro e não somente pensando nas contas a pagar do próximo mês.

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Sendo recepcionado, juntamente com todos os ex presidentes, pelo governador Marcelo Déda e seus secretários, em ato comemorativo aos 140 anos de existência da Acese

NÃO É O MOMENTO DE CULPAR NADA NEM NINGUÉM
“Se ficarmos buscando culpado ou declarações de culpa, continuaremos sem sair do lugar. O momento é de aprender com os erros do passado, mas também com os acertos. Sergipe já esteve “ruim das pernas” em outros momentos e conseguiu se reerguer”

JLPolítica - Para o futuro de Sergipe, a Celse e seu investimento na termelétrica serão mesmo sucedâneos da finada Petrobras?
AP -
A Celse é um grande investimento que aportou em Sergipe, fruto das condições naturais que possuímos. Porém, não vejo como ser comparado à chegada da Petrobras no Estado. Naturalmente a Celse irá trazer grandes benefícios tributários ao Estado, sobretudo ao município da Barra dos Coqueiros, que poderá, se bem administrado, transformar a sua face. Se o Governo for proativo, atraindo empreendimentos da cadeia de gás e energia, os resultados serão muito promissores.

JLPolítica - É correto que se aposte todas as fichas apenas nessa perspectiva.
AP -
Não se pode apostar todas as fichas apenas nessa perspectiva. É preciso retomar a atração de empreendimentos em outras áreas potenciais de Sergipe. Retomar as políticas e apoio às micro e pequenas empresas, essas gigantes que são responsáveis pela geração de mais de 50% dos postos de trabalho no país; é preciso expandir a cadeia da ciência, tecnologia e inovação, esse sim, o grande futuro do mundo; estimular o agronegócio, crescente no Brasil; fazer o turismo acontecer de verdade, divulgando nossas potencialidades. Ou seja, se faz necessário abrir o leque de opções e investir energia e vontade política em muitas áreas, ao invés de ficar aguardando apenas que os investimentos da Celse ou da cadeia de gás e energia resolvam o futuro de Sergipe.

JLPolítica - Qual seria a explicação razoável para o fato de sermos tão incipientes em PPPs?
AP -
As Parcerias Público Privadas são excelentes instrumentos a favor do desenvolvimento, porém seu mecanismo, critérios e exigências fazem com que os projetos se arrastem por anos e para isso é necessário que haja foco na construção desses modelos de PPP’s. Penso que dois motivos levam a esse desestímulo na implantação: o primeiro, o fato de esses projetos serem tão complexos, burocráticos e morosos até serem concluídos, e o segundo, o temor dos gestores pelo fato de haver ainda um preconceito da população ao envolvimento privado em áreas que historicamente foram conduzidas pelo setor público. Existem muitas áreas nas quis as PPP’s podem ser implementadas e essa é sem dúvida uma grande solução para Sergipe, porém ainda é preciso conscientizar a população que as PPP’s não são nenhum bicho de sete cabeças e nem que irão destruir o patrimônio do Estado.

JLPolítica - Afinal, qual o nó cego a ser desatado para se tirar Sergipe desse suposto despenhadeiro?
AP -
Longe de mim querer apontar uma solução para desatar esse nó. Posso dar apenas algumas contribuições, como já apontei em outras perguntas acima, a exemplo da necessidade de retomar o planejamento e a capacidade de pensar, desenvolvendo projetos de longo prazo; atuar no equilíbrio das contas públicas; introduzir a tecnologia e inovação na gestão; fomentar o desenvolvimento do turismo, agronegócio e das pequenas empresas. Mas, nada disso funcionará se não tivermos um líder capaz de unir as classes política, empresarial, trabalhadora e a academia num uníssono desejo de fazer de Sergipe um Estado melhor para as futuras gerações. Para isso, necessitamos baixar os ânimos dos mais acalorados, derrubando as vaidades e orgulhos e agindo com humildade na procura das soluções. O Governo é o ente apropriado para convocar um verdadeiro Pacto por Sergipe, reunindo especialistas, dirigentes de entidades, intelectuais e pensadores da economia para debater os problemas e apontar o caminho, sem tapar o sol com a peneira, mas também sem avaliações radicais. Sergipe não está quebrado. Está em crise. Mas tem solução sim e não pode mais esperar.

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Recebendo o então candidato ao Governo Jackson Barreto durante edição especial do Almoço com Negócios

IMPRUDÊNCIA DE COMPARAR A CELSE À PETROBRAS
“A Celse é um grande investimento que aportou em Sergipe. Porém, não vejo como ser comparado à chegada da Petrobras no Estado. Naturalmente a Celse irá trazer grandes benefícios tributários ao Estado”

JLPolítica - Mas este nó pode ser desatado somente aqui, ou depende intrinsicamente do plano nacional?
AP -
Não vivemos em uma ilha e tampouco em outro planeta. Possuímos uma interdependência da política econômica nacional e também dos caminhos da política global, porém não podemos ficar esperando de braços cruzados que tudo se torne favorável e que as soluções caiam do céu ou venham galopando num cavalo branco dos filmes infantis. Existem medidas que dependem ou que seriam impulsionadas pelo cenário externo (nacional ou global), mas muitas outras podem e devem ser tomadas localmente, seja pra produzir resultados imediatos, seja pra preparar Sergipe para o momento em que condições externas mais favoráveis apareçam e assim nos ajude a despontar novamente com indicadores positivos e crescentes. Sergipe tem que fazer o seu dever de casa e não transferir a responsabilidade para terceiros.

JLPolítica - Agrada-lhe esta onda de pensamento à direita e à esquerda no Brasil e em Sergipe?
AP -
O radicalismo nunca levou a nada de bom. Somente a guerras, ditaduras, fome e pobreza. Vive-se hoje em uma sociedade doente pelo extremismo, seja de esquerda (mais tradicional), seja de direita (esse mais recente) e uma verdadeira guerra de acusações e agressões em que cada lado sempre tem a sua versão e a sua razão, mas ambos estão sendo intolerantes, agressivos, desrespeitosos e não admitem o pensamento contraditório. Isso é danoso à nossa democracia e à nossa liberdade de expressão. Receio que hoje seja esse o maior problema que vivemos em nosso país, estendendo-se aos estados.

JLPolítica - O senhor se sente mais à direita, mais à esquerda ou nem uma coisa nem outra?
AP -
Por já ter vivido muitas experiências, convivido com ambos os lados e exercido funções nos dois lados do balcão, me fez adquirir um equilíbrio de ideias e de pensamentos. Entre as defesas extremas da direita e da esquerda, possuo alinhamento com algumas teses liberais e sou fervorosamente contra outras, de igual modo com as teses da esquerda, onde sou favorável a algumas e veementemente contrário a outras. Penso que essa quase obrigatoriedade de escolher um dos lados não é saudável para nossa população. Entendo, e por isso ajo assim, que precisamos ter o nosso senso crítico ativo, para avaliar o que tem de positivo e negativo em cada proposta, em cada defesa, em cada tese e por esse motivo me vejo como alguém capaz de elogiar o certo e criticar o errado, seja ele feito pela direita ou pela esquerda. Equilíbrio e bom senso estão acima de tudo, e talvez seja isso que está faltando ao nosso Brasil.

JLPolítica - O Governo de Jair Bolsonaro lhe surpreendeu pra cima ou pra baixo? Ou não seria hora, ainda, de julgá-lo?
AP -
Ainda é muito cedo, sim, pra fazer um julgamento maior sobre o Governo Bolsonaro. Mas existem medidas acertadas e que já tinham passado da hora de acontecer, como a reforma da Previdência e a desburocratização de pequenos negócios. Em contrapartida, é evidente o despreparo da gestão - seja na incapacidade de diálogo político, na inabilidade de comunicação dos seus ministros ou nas declarações desastrosas do próprio presidente, que parece estar brincando de carrinho ao comandar os destinos do Brasil.

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Ao lado do então Governador de Pernambuco, Eduardo Campo, durante Congresso da CACB

GUERRILHA ENTRE DIREITA E ESQUERDA DESSERVE AO PAÍS
“Penso que essa quase obrigatoriedade de escolher um dos lados não é saudável para nossa população. Precisamos ter o nosso senso crítico ativo. Equilíbrio e bom senso estão acima de tudo, e talvez seja isso que está faltando ao nosso Brasil”

JLPolítica – O que se fazer diante disso?
AP -
Tenho esperança de que essas trapalhadas se corrijam, que sejam meramente solavancos do início da estrada e que mais medidas de combate à corrupção, de equilíbrio das despesas e da expansão do mercado sejam tomadas.  Entretanto, esse Governo está longe de ser o que o Brasil precisa. Entendo que é mais uma etapa que estamos vivendo na democracia brasileira, que nunca experimentou um governo de extrema direita e isso trará reflexos positivos e negativos, alguns sanáveis e outros permanentes. Rogo a Deus que nas próximas eleições surja um líder capaz de atender aos anseios daqueles que não pensam como a extrema esquerda e nem como a extrema direita. Um gestor equilibrado, que valorize o social e que tenha alinhamento com o mercado, alguém com visão de futuro que possa nos inserir na realidade global, que tenha postura e responsabilidade suficientes para fazer o Brasil avançar mais do que nos últimos 30 anos.

JLPolítica – O que lhe sobrou de positivo na experiência de presidir a Acese?
AP -
Tenho um orgulho grande de toda a minha trajetória na vida pública, seja nas entidades empresariais que atuei, nas entidades sociais ou no setor público diretamente. Cada uma dessas etapas da minha vida me tornou uma pessoa melhor, mais experiente, com mais vivências em situações muitas vezes adversas.  Sou o fruto dessas experiências adquiridas em torno desses quase 20 anos. Sem sombra de dúvidas, a maior delas foi presidir a Acese, uma entidade centenária, com raízes sólidas na defesa do empreendedorismo e da livre iniciativa, mas com um viés de pensar o social e defender melhores condições para o desenvolvimento socioeconômico de Sergipe. O que mais me sobrou de positivo foi poder, na prática, liderar conquistas que melhoraram o ambiente de negócios no Estado, sem nenhum viés político-partidário, apenas com o desejo de ver nossas empresas melhores. Senti-me útil ao propósito que a instituição tem como premissa.

JLPolítica - O que permite levar o senhor a pensar e a dizer que o setor de serviços não está crescendo, como aparentemente apontam os números?
AP -
Não sou eu que penso assim. É o que os números dizem. Segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE, em 2018 o Brasil caiu 0,1%, sendo o quarto ano consecutivo de resultados negativos, e Sergipe teve uma variação negativa de 4,6% em relação a 2017, tendo apenas 5 meses do ano com o indicador positivo. Em 2019, o mês de janeiro apresentou alta, seja no Brasil (2,9%) seja em Sergipe (3,9%), porém, em fevereiro já houve novo recuo. Felizmente, a queda de fevereiro não foi suficiente para deixar o saldo negativo no acumulado do bimestre. Estamos longe de dizer que o setor de serviços está equilibrado e em constante crescimento. O sinal amarelo está aceso. Porém ainda é o mais promissor para investimentos, sim, sobretudo para pequenos negócios, pois o investimento, a necessidade de funcionários e o capital de giro são menores. Além disso, tem uma legislação mais simplificada e a gestão é mais fácil.

JLPolítica – Afinal, positivamente, o que estaria crescendo no Brasil atualmente?
AP -
Naturalmente que quando apresentamos as pesquisas, elas consideram uma média dos setores. Mas existem atividades no setor de serviços, no comércio, na indústria e na agricultura que estão em crescimento, enquanto outras estão em queda vertiginosa.

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Ao lado de Albano Franco, homenageando o ex presidente da Acese, Josias Passos, durante o seu centenário

DA EXPERIÊNCIA DE COMANDAR A ACESE
“O que mais me sobrou de positivo foi poder, na prática, liderar conquistas que melhoraram o ambiente de negócios no Estado, sem nenhum viés político-partidário, apenas com o desejo de ver nossas empresas melhores. Senti-me útil ao propósito que a instituição tem como premissa”

JLPolítica - Quais?
AP -
Para exemplificar, podemos citar os setores de tecnologia que estão em rota ascendente, a indústria que trabalha com tecnologia 4.0, o comércio eletrônico, com crescimentos acima de 20%, entre outros. É preciso compreender que a forma de comprar e vender está mudando. As relações comerciais não são as mesmas. Algumas atividades irão desaparecer na próxima década, dando espaço a outros que sequer surgiram ainda. Vivemos um momento de grandes transformações e as empresas que se adaptarem melhor e encontrar as oportunidades certas terão grande crescimento. Já quem não se adaptar, sumirá do mercado.

JLPolítica – O senhor que dá dicas numa TV de grande alcance de como empreender, acredita que os sergipanos são de fato criativo e empreendedores, ou isso é apenas um laivo de autoajuda?
AP -
O brasileiro em geral é muito criativo e empreendedor. Sergipe e os sergipanos não estão fora dessa rota, tanto que os números de abertura de empresas por aqui continuam em alta.

JLPolítica – Empreender ocupa bom espaço no imaginário das pessoas?
AP -
Empreender seu próprio negócio é o segundo maior sonho dos brasileiros, porém nem todos sentem-se seguros em fazê-lo ou em condições de entrar nessa jornada. O que buscamos fazer no quadro Ideias e Negócios é mostrar alguns caminhos, encorajar o sergipano a empreender, apresentando os desafios e as oportunidades.

JLPolítica – Quais os passos mais indicados para isso?
AP -
Se quisermos ter sucesso nos negócios é preciso estar constantemente em aprendizado, através das diversas plataformas disponíveis, a exemplo de cursos de curta duração, palestras, seminários, livros, vídeos, entre outros. Acho que com esse quadro, podemos ajudar aqueles que muitas vezes estão em dúvida sobre o que fazer ou não sabem pra onde ir, principalmente nos momentos atuais, onde empreender tem sido muito mais por necessidade do que por estar preparado.

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Ao lado de Jorge Santana e Laércio Oliveira no plenário da Câmara dos Deputados, acompanhando audiência pública da lei do Simples

DA CAPACIDADE EMPREENDEDORA DOS SERGIPANOS
“O brasileiro em geral é muito criativo e empreendedor. Empreender seu próprio negócio é o segundo maior sonho dos brasileiros. Sergipe e os sergipanos não estão fora dessa rota, tanto que os números de abertura de empresas por aqui continuam em alta”

JLPolítica - Está correto que a reforma da Previdência venha antes da fiscal, ou mesmo da reforma política num sentido lato?
AP -
O Brasil precisa de tantas reformas que fica difícil coloca-las em ordem de prioridade, mas penso que a reforma da Previdência torna-se prioritária para o Governo, porque mexe diretamente na sua despesa, reduzindo assim seu déficit e aumentando a capacidade de investimentos. Como se diz no jargão popular, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Mas o que temos que estar atentos em todas as reformas que possam vir pela frente é que não adianta fechar os olhos e achar que é bom somente pelo fato de precisar ser feita. Tenho visto pessoas defenderem a reforma da Previdência sem sequer ter lido as questões que a envolvem. Defendem-na apenas pelo fato de que é necessário fazer uma reforma para reduzir o déficit público e esquecem que é algo que irá mexer com o futuro do nosso povo - seja trabalhador, seja empresário, seja agente público. Sei da importância da reforma ser realizada, porém é preciso entendê-la antes de sair defendendo com unhas e dentes sua aprovação ou recusa apenas por viés politico-ideológico. Reformas aprovadas ou recusadas apenas por viés ideológico são uma temeridade para o povo.

JLPolítica - O senhor identifica que peso na corrupção público-privada para que o Brasil e Sergipe estejam nessa pasmaceira toda de desenvolvimento?
AP -
A corrupção é algo que afeta todo o setor público, e não somente no Brasil.  É algo que está impregnado nas entranhas das relações de poder. Em países com alto índice burocrático, pouca transparência e baixo interesse da sua população pelas contas públicas a corrupção se prolifera de forma viral, como é o caso do Brasil. Aos poucos, a consciência do brasileiro vai mudando, porém ainda somos um país com as três características que mencionei acima. Por mais que se aumentem as punições, enquanto não solucionarmos esses três fatores, continuaremos a enxugar gelo e a impedir o maior desenvolvimento dos estados e da nação. 

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Durante pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados, defendendo aprovação da lei do Simples.