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Entrevista

Jozailto Lima

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Augusto Carvalho: “Nesse momento de Coronavírus, todos os bares e restaurantes estão sofrendo”

“A política de turismo deixa a desejar e a gente tem problemas muito sérios”
5 de abril - 8h00

Neste momento de pandemia do Coronavírus, todas as áreas da economia do Brasil e do Estado de Sergipe sofrem. E sofrem, ainda mais, pelos horizontes imprevisíveis do que vai ocorrer no curto e no longo prazo - uma vez que tudo depende da evolução do vírus para a doença Covid-19.

Mas o setor de bares, restaurantes e similares - lanchonetes, hamburguerias - foi quase que completamente nocauteado pelas medidas de Governos de municípios, de Estados e da União, que os mandou fechar por completo. Sobrevivem alguns com serviços de pronta-entrega - os delivery.

Isso atinge em cheio a cerca de cinco mil estabelecimentos de lazer e gastronomia espalhados por Sergipe, notadamente em cidades como Aracaju e as demais maiores, que têm movimentos de turismo e de refeições fora de casa. Os impactos previstos pela Associação Brasileira de Bares, Restaurantes e Similares do Estado de Sergipe - Abrasel - “são muitos”.

“Primeiro, com as casas fechadas e a impossibilidade de faturar. Segundo, com a possibilidade de demissão, que está muito grande. A gente negociou com o Governo Federal uma Medida Provisória, que foi publicada na última quinta-feira, 2, no Diário Oficial, pra tentar garantir os empregos”, diz o empresário Augusto Carvalho, presidente da secional sergipana da Abrasel.

“Nesse momento, todos os bares e restaurantes estão sofrendo, porque está tudo fechado. No meu caso, de 40% a 50% já era delivery, e isso deu uma subida agora, mas eu já tinha histórico nessa atuação - meu negócio se chama Ligue Pizza. Hoje é 100% do que eu faturo. Tem casas que não tinham delivery e colocaram, mas talvez corresponda a 10% dos seus movimentos. No meu caso, está correspondendo a 30%, 45%. A depender do dia”, reforça o presidente.

E o pior, para Augusto Carvalho, é que o problema da pandemia chegou num momento em que boa parte do setor está debilitada por anos de recessão econômica no mercado. Ele entende que o Coronavírus e a Covid-19 podem ser um sopro de misericórdia, levando muitos estabelecimentos a morrerem para sempre depois de passada essa pandemia. Sem meios de ressuscitarem.

“Acho que sim. Alguns que fecharam por sete dias, no primeiro decreto, não vão mais reabrir. Porque já vinham numa crise de quatro anos. Quem tinha reserva, já tinha usado ou teve que pagar a folha de março, e agora a de abril, e mesmo usando a MP, vai ter que pagar 25% durante três meses. Pergunto: tirando dinheiro de onde? Se tomar dinheiro emprestado, paga de onde e com o quê?”, questiona.
Augusto Carvalho entende que este é um momento de se discutir o modo de o setor público fomentar o turismo no Estado de Sergipe. “A política de turismo em Sergipe deixa a desejar e a gente tem problemas muito sérios. Com relação ao Governo do Estado, por exemplo, muitos secretários passaram, cada um com sua visão diferente e essa visão acabou afundando o turismo. Não se criou uma cultura. Ao tempo que Bahia e Alagoas se profissionalizaram, dando um pulo, e melhorando sempre e sempre. Nosso segundo maior espaço turístico é Xingó e a quantidade que entra por Alagoas é muito maior do que a de Sergipe”, diz o presidente da Abrasel.

Nesta Entrevista, Augusto Carvalho lembra que há muita informalidade no setor de bares e restaurantes, prevê que isso pode ser prejudicial a sanidade do usuário, entende que há pouco associativismo, mas identifica que a mão de obra dessa área tem melhorado com os cursos de nível superior que aportaram em Aracaju ultimamente.

Augusto José de Carvalho nasceu no dia 4 de julho de 1974. Ele é filho de Augesir José de Carvalho e de Ilce Marques de Carvalho - ele veio para Sergipe acompanhando a mãe, que foi desembargadora federal, e acabou ficando. Ela se aposentou e voltou para Salvador.

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Entre colegas de seu ramo, boa parte dos familiares e militantes da Abrasel
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Com a fillha caçula, Maria Augusta Casé de Carvalho, de 10 anos

IMPACTOS QUE PODEM VIR PARA BARES E RESTAURANTES
“São muitos. Primeiro, com as casas fechadas e a impossibilidade de faturar. Segundo, com a possibilidade de demissão, que está muito grande. A gente negociou com o Governo Federal uma Medida Provisória, que foi publicada na última quinta-feira no Diário Oficial pra tentar garantir os empregos”

 JLPolítica - Quais são os impactos que a pandemia do Coronavírus está gerando sobre os negócios de bares, restaurantes e similares do Estado de Sergipe?
Augusto Carvalho -
São muitos. Primeiro, com as casas fechadas e a impossibilidade de faturar. Segundo, com a possibilidade de demissão, que está muito grande. A gente negociou com o Governo Federal uma Medida Provisória, que foi publicada na última quinta-feira, 2, no Diário Oficial pra tentar garantir os empregos.


JLPolítica - Para a Abrasel, o que é que cabe no conceito de similares?
AC -
Além dos bares e restaurantes, lanchonetes, hamburguerias. A Abrasel tem 25 anos no Brasil e na época não tinha essa quantidade de estabelecimentos que se tem hoje, mas a gente cobria até boates, casas de show. Hoje a gente trata da alimentação fora de casa, então são todos que atendem a isso, como padarias, supermercados, desde que na parte de alimentação. Por exemplo, o GBarbosa tem sopas e nessa parte, se ele tirar CNPJ separado, estaria incluído na Associação também.

JLPolítica - Como é que se encontrava este segmento antes da decisão governamental de fechar todos os estabelecimentos?
AC -
Já estava com faturamento mais fraco por causa da crise que já vem se arrastando há quatro anos. Então, muitas casas reduziram o número de pessoas: eu tinha 30 funcionários e reduzi para 22 no decorrer dessa crise. Agora, já dei férias a seis pessoas, que são as do atendimento no salão. Elas devem retornar daqui a 14 dias. E aí eu vou ter que tomar uma atitude: demitir ou afastar pela Medida Provisória.

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“Nesse momento, todos os bares e restaurantes estão sofrendo, porque está tudo fechado. No meu caso, de 40% a 50% já era delivery, e isso deu uma subida agora". ilustra, dando como exemplo a sua pizzaria

O DELIVERY NÃO VAI SALVAR TODO MUNDO
“Nesse momento, todos os bares e restaurantes estão sofrendo, porque está tudo fechado. No meu caso, de 40% a 50% já era delivery, e isso deu uma subida agora. Mas tem casas que não tinham delivery e colocaram, mas talvez corresponda a 10% dos seus movimentos”

JLPolítica - Entre bares, que vivem mais da atividade especificamente de bebidas, e os restaurantes, quem mais está sofrendo nesta hora?
AC -
Nesse momento de Coronavírus, todos os bares e restaurantes estão sofrendo, porque está tudo fechado. No meu caso, de 40% a 50% já era delivery, e isso deu uma subida agora, mas eu já tinha histórico nessa atuação - meu negócio se chama Ligue Pizza. Hoje é 100% do que eu faturo. Tem casas que não tinham delivery e colocaram, mas talvez corresponda a 10% dos seus movimentos. No meu caso, está correspondendo a 30%, 45%. A depender do dia.

JLPolítica - Quanto por cento da mão de obra dos restaurantes e pizzarias está funcionando nesta hora para atender às demandas criadas pela entrega via delivery?
AC -
Ficou em torno de 30%, que são suficientes para atender à demanda. Tanto eu trabalho quanto minha esposa trabalha na pizzaria, e tenho quatro funcionários na parte interna. A gente tem os entregadores também, que já tinha antes. Esse pessoal foi mantido.

JLPolítica - O senhor acha que muitos bares, restaurantes e similares morrerão para sempre depois de passada essa pandemia?
AC -
Acho que sim. Alguns que fecharam por sete dias, no primeiro decreto, não vão mais reabrir. Porque, como eu disse, já vinham numa crise de quatro anos. Quem tinha reserva, já tinha usado ou teve que pagar a folha de março, e agora a de abril, e mesmo usando a MP, vai ter que pagar 25% durante três meses. Pergunto: tirando dinheiro de onde? Se tomar dinheiro emprestado, paga de onde e com o quê?

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"Em relação ao turismo do Estado, o que posso dizer é que quem atende ao turista são os estabelecimentos da orla e da praia", pontua

MAS ESPERAM CONTAR COM ALGUM AMPARO DO PODER PÚBLICO?
“Sim. Da própria Medida Provisória que saiu, que prevê que a gente pode conseguir fazer um empréstimo com valor reduzido, mas depende dos bancos, de como vão estar eles, dos juros que vão ofertar. O Banese também lançou uma linha de crédito mais justa, mas na verdade não tem sido dessa forma”

 JLPolítica - Os empreendedores desta área esperam contar com algum tipo de amparo, um guarda-chuva, do poder público - do município, do Estado e da União – nesta hora de pandemia?
AC -
Sim. Da própria Medida Provisória que saiu, que prevê que a gente pode conseguir fazer um empréstimo com valor reduzido, mas depende dos bancos, de como vão estar eles, dos juros que vão ofertar. O Banese também lançou uma linha de crédito mais justa, mas na verdade não tem sido dessa forma. E nem todos os empresários têm bom cadastro para isso.

JLPolítica - O senhor estima que depois desta tempestade, o segmento vai levar quanto tempo para se refazer, se recompor?
AC -
Sendo otimista, uns dois anos, pelo menos.
 
JLPolítica - Mas como é que está servido o Estado de Sergipe no aspecto de bares, restaurantes e similares? Eles estão à altura da sua realidade turística?
AC -
Em relação ao turismo do Estado, o que posso dizer é que quem atende ao turista são os estabelecimentos da orla e da praia. No Mercado, há três ou quatro estabelecimentos para isso. E vem melhorando muito. As ofertas também melhoraram muito. Mas a presença do turista em si que não vem melhorando.

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"Nosso segundo maior espaço turístico é Xingó e a quantidade que entra por Alagoas é muito maior do que a que entra por Sergipe", lamenta

CULTURA TURÍSTICA DE SERGIPE DEIXA A DESEJAR
“A política de turismo em Sergipe deixa a desejar e a gente tem problemas muito sérios. Com relação ao Governo do Estado, por exemplo, muitos secretários passaram, cada um com sua visão diferente e essa visão acabou afundando o turismo. Não se criou uma cultura”

 JLPolítica - A Abrasel acha que a atividades turística de Sergipe é tratada à altura das necessidades do Estado e do setor, ou esse tratamento deixar a desejar?
AC -
A política de turismo em Sergipe deixa a desejar e a gente tem problemas muito sérios. Com relação ao Governo do Estado, por exemplo, muitos secretários passaram, cada um com sua visão diferente e essa visão acabou afundando o turismo. Não se criou uma cultura. Ao tempo que Bahia e Alagoas se profissionalizaram, dando um pulo, e melhorando sempre e sempre. Nosso segundo maior espaço turístico é Xingó e a quantidade que entra por Alagoas é muito maior do que a que entra por Sergipe.

JLPolítica - O senhor acha que Xingó está virando um destino alagoano?
AC -
Está sim. Com certeza. Hoje, por Alagoas, você vai a Xingó até de avião. Por Sergipe, só vai de carro. É preciso repensar isso.
 
JLPolítica - Para o turista que visita Sergipe, o que é que pode ser mostrado como prato típico do Estado?
AC –
Essa é uma discussão que a Abrasel faz há vários anos, inclusive com as universidades. Você tem o amendoim cozido, que é algo típico, que não caracteriza um prato. Mas como comida, tem a carne do sol com pirão, mas tenha isso em outros lugares, assim como a moqueca sem dendê. Então, a gente tem que trabalhar nossa culinária. Porque chega-se em Salvador e pergunta qual é a comida típica dali e não se tem dúvida: é o acarajé. Em Minas, tem várias coisas, como o pão de queijo, o torresmo. Eu diria que nem mesmo o pirão de capão também é genuinamente sergipano.

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"Em atividade, são cerca de 5 mil estabelecimentos, segundo dados da Junta Comercial do Estado", estima a quantidade de bares e restaurantes em operação no Estado

DA BAIXA ASSOCIAÇÃO DE EMPRESAS À ABRASEL
“Em atividade, são cerca de 5 mil estabelecimentos, segundo dados da Junta Comercial do Estado. Nosso setor chega a ter cerca de 95% de informalidade. Eu diria que ele deveria se associar à Abrasel e participar desse movimento de fazer crescer a alimentação fora do lar. Crescer com qualidade”

JLPolítica - A Abrasel tem como medir quantos bares e restaurantes existem em atividade em Sergipe?
AC -
Em atividade, são cerca de 5 mil estabelecimentos, segundo dados da Junta Comercial do Estado.

JLPolítica - É alta a informalidade de estabelecimento bares e restaurantes no Estado?
AC -
Sim, muito. Nosso setor chega a ter cerca de 95% de informalidade. 

JLPolítica - Essa informalidade representa riscos à saúde das pessoas e do mercado?
AC -
Também, porque na verdade quando a gente trata dos ligados a Abrasel não quer dizer que todo associado seja 100%, mas pelo menos acredita-se que sim.

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Com os filhos Augusto José Casé de Carvalho, de 16 anos, e de Maria Augusta Casé de Carvalho, de 10

ASSOCIADOS DA ABRASEL E O CUIDADO COM OS ALIMENTOS
“A gente trata bem a manipulação dos alimentos. E se bate nisso há muitos anos. Inclusive, a gente trouxe para cá uma faculdade para capacitar os donos de restaurantes e os gerentes na manipulação de alimentos”

 JLPolítica - Há mais cuidado com o que se elabora?
AC -
A gente trata bem a manipulação dos alimentos. E se bate nisso há muitos anos. Inclusive, a gente trouxe para cá uma faculdade para capacitar os donos de restaurantes e os gerentes na manipulação de alimentos. Depois que a gente conseguiu que a Serigy viesse para cá vieram outras e hoje tem a Unit praticamente disparada. E tem o Senac.

JLPolítica – Então se manipula bem o alimento em Sergipe...
AC -
Nas cerca de 126 casas associadas, posso dizer que sim.

JLPolítica - Não é muito pouco para esse universo de cinco mil estabelecimento?
AC
– É. Mas nesse universo dos cinco mil contém casas que podem estar fechadas, mas não deram baixa na Junta Comercial.

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De seifie e passseio com a sua caçulinha

DA FORMAÇÃO DE CHEF DE COZINHA E GARÇONS
“O perfil do chef de cozinha melhorou muito com a vinda das universidades e de outros profissionais para cá. No caso dos garçons, temos uma questão cultural, porque a educação para atendimento vem de berço. Um bom dia, uma boa tarde, você não vai ensinar”

JLPolítica - Como é que está a preparação da mão de obras para bares e restantes, de garçons a chefs de cozinha, em Sergipe?
AC -
O perfil do chef de cozinha melhorou muito com a vinda das universidades e de outros profissionais para cá. No caso dos garçons, temos uma questão cultural, porque a educação para atendimento vem de berço. Um bom dia, uma boa tarde, você não vai ensinar. Isso está na formação de casa da pessoa. Não vou dizer que são mal educados. Estou dizendo que há coisas que se aprende em casa. E é uma deficiência nossa.
 
JLPolítica - Quem são os maiores preparadores e provedores dessa mão de obra no Estado?
AC -
O Senac. A faculdade em si não forma garçom. Forma gastrólogo. Ele vai aprender a cozinhar, aspectos de administração e a partir daí você começa a gerir um chef, seja assumindo a cozinha de um estabelecimento ou a administração dele.
 
JLPolítica - A Abrasel vê somente Aracaju e dá as costas para os demais 74 municípios?
AC -
Não. Hoje, a gente está com um pé forte em Itabaiana, e construindo uma parceria com Canindé de São Francisco, por causa de Xingó, que são alguns polos gastronômicos com potencial e estamos procurando para promover o desenvolvimento deles da melhor forma.

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Com o casal de filhos e a esposa Polyanna Gomes Casé de Carvalho, que é jornalista e parceira nos negócios

AINDA DO POUCO ESPÍRITO DE CLASSE DO SETOR
“Espírito de classe deixa a desejar não somente nesse nosso setor, mas em outros de forma geral. (Mas) eu aposto nessa força, tanto que estou na Abrasel há 18 anos, desde a época de outros presidentes. Porque eu acredito que você só consegue se desenvolver em conjunto. Sozinho é muito difícil”

JLPolítica - Laranjeiras e São Cristóvão não são convidativos?
AC -
São. São Cristóvão, inclusive, já teve um polo gastronômico, quando tinha aquelas serestas aos fins de semana lá, Chegou até a reunir restaurantes daqui. Mas depois isso acabou, porque vai muito de quem administra o turismo, de quem está à frente.
 
JLPolítica - Há no empreendedor de bares, restaurantes e similares um espírito de classe?
AC -
Não. Esse espírito de classe deixa a desejar não somente nesse nosso setor, mas em outros de forma geral. E outra: com essa crise do Coronavírus vai fazer a categoria se fortalecer, mas que fique a consciência do empresário de que para ele crescer e se desenvolver melhor e com mais qualidade precisa da força do associativismo. Eu aposto nessa força, tanto que estou na Abrasel há 18 anos, desde a época de outros presidentes. Porque eu acredito que você só consegue se desenvolver em conjunto. Sozinho é muito difícil. 

JLPolítica - A Abrasel consegue captar as renovações e novidades empreendedoras do setor?
AC -
Consegue, porque como somos uma Associação nacional, estando presente em todos os Estados. Nosso segmento emprega mais de seis milhões de pessoas no país e temos mais de um milhão de empresas. A gente defende não só o interesse do associado, mas de toda a classe.

JLPolítica - Para concluir, o senhor diria o que sobre este momento ao empreendedor que leva a sério sua atividade?
AC -
Eu diria que ele deveria se associar à Abrasel e participar desse movimento de fazer crescer a alimentação fora do lar. Crescer com qualidade.

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Ele é filho de Ilce Marques de Carvalho, desembargadora federal aposentada