Interviewer 9c963a73b5519178

Entrevista

Jozailto Lima

Compartilhar
Cover image 6068dc56acc79281

Aurélio Belém do Espírito Santo: “Há um manto de ódio sobre o Brasil”

“Advocacia brasileira foi eleita vilã - e isso está errado”
 1 de junho de 2019, 20h00


“Temos que admitir: há um manto de ódio aberto sobre o Brasil”. Quem pensa assim, e com demasiada preocupação em face dos efeitos disso, é o advogado Aurélio Belém do Espírito Santo.

“Estamos vivendo um momento muito preocupante, pois, além da radical divisão do país, há esse clima odiento de discursos agressivos e intolerantes, rotulantes, abusos de fake news, sempre com propósitos maquiavélicos”, completa ele.

E Aurélio Belém do Espírito Santo não diz isso como um mero advogado na planície. Ele fala do alto de dois postos de observação importantes: como secretário-geral da Ordem dos Advogados do Brasil, secção de Sergipe, e como presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas de Sergipe - Abracrim-SE -, cuja posse lhe foi dada na última quinta, 30.  

Para Aurélio Belém do Espírito Santo, essa situação desestabilizante da vida política do Brasil põe em risco o Estado Democrático de Direito e tenta arrastar consigo a estabilidade e a significação que a classe e a carreira de advogado sempre usufruíram na nação ao longo do tempo.

Uma demonstração tácita disso, adverte Aurélio Belém, vem da tentativa de se cassar a instituto do exame da OAB, aquele que qualifica bacharéis de Direito para o exercício da advocacia. “O fim do exame da Ordem é um ataque proposital, direcionado e calculado para enfraquecer a advocacia brasileira como um todo”, acusa Aurélio Belém.

“Ela (a advocacia) foi eleita a vilã da história - e isso está errado. A inimiga do momento, pois é foco de resistência jurídico-democrática. E é muito mais fácil você lutar contra alguém que está enfraquecido do que contra alguém que está fortalecido. Repito: e isso está errado”, diz o advogado.

Nesta hora, a OAB, sugere Aurélio, tem de ser reativa. E fazer valer seu histórico clássico de enfrentamento. Acompanhar tudo com um ativismo aberto. “Com um olhar crítico, cívico e combativo, sem ideologia político-partidária, sempre atenta às manifestações da sociedade, propondo debates e ações, procurando ser ouvida nas decisões mais relevantes da República”, diz ele.

Numa esfera mais específica e particular, a da sua área profissional de advocacia criminal, ele quer fazer da Abracrim-SE uma grande caixa de ressonância. Para Aurélio, tudo começa pela valorização do criminalista. “Ele é um profissional elementar. Quem de nós nunca cometeu um crime? Por menor que seja, por menor potencial ofensivo que tenha, quem de nós nunca ultrapassou esse limite da legalidade penal?”, questiona Aurélio.

“Então, o advogado criminalista cumpre um papel que eu não diria só ligado ao Estado Democrático de direito, mas que é o alicerce desse Estado Democrático de Direito”, reforça. Ele pensa, via Abracrim-SE, em unir mais os advogados dessa área, conceder-lhes prêmios reconhecedores de suas significações e fortalecer a entidade e a classe.

Nascido em Aracaju, Aurélio Belém do Espírito Santo tem 39 anos e é filho do administrador de Empresas e auditor fiscal aposentado da Secretaria de Estado da Fazenda Osvaldo do Espírito Santo e da professora Joana Angélica Belém do Espírito Santo.

Ele é casado com a fisioterapeuta Carol Sacramento e é pai do Lucas Sacramento do Espírito Santo, de 11 anos, e de Leonardo Sacramento do Espírito Santo, de 8.

8f409891862789bc
É conselheiro seccional (2010-2012 e 2013-2015), secretário-geral (2016-2018) sob a gestão de Henri Clay Andrade e repete-se no mesmo posto na gestão de Inácio Krauss, que vai até 2021
Internal image d375af5694613e2a
Nascido em Aracaju, Aurélio Belém do Espírito Santo tem 39 anos

JLPolítica - O senhor acha que evoluirá para uma eficácia real a pregação do fim do exame da Ordem?
Aurélio Belém do Espírito Santo -
Não creio. Só sei que o fim do exame da Ordem é um ataque proposital, direcionado e calculado para enfraquecer advocacia brasileira como um todo. Ela foi eleita a vilã da história - e isso está errado. A inimiga do momento, pois é foco de resistência jurídico-democrática. E é muito mais fácil você lutar contra alguém que está enfraquecido do que contra alguém que está fortalecido. Repito: e isso está errado.

JLPolítica - Com que objetivo estariam querendo enfraquecer a advocacia?
AB -
O objetivo seria o de suplantar, ou de suprimi-la, em sua importância. O fim do exame da Ordem retira da OAB o controle sobre aqueles que compõem a sua própria instituição. É um crime.

JLPolítica - Mas o senhor não vê algo de boçal e pedante que a Ordem avalie a universidade?
AB -
Nós não avaliamos universidades, eis um engano. Elas não formam advogados e sim bacharéis. Nós avaliamos o egresso delas sob um ponto de vista diferente do concurso público, e isso é bom que fique claro. Concurso estabelece número de vagas. Nós estabelecemos limites mínimos de qualificação, técnica e ética, do bacharel em Direito. O número de inscritos é ilimitado, assim como o de aprovados, por isso não há que falar em reserva de mercado. 

JLPolítica - Quais os impactos para a advocacia com a eventual extinção do exame?
AB -
Paulatinamente, poderia dizer que seria o enfraquecimento quase que mortal da instituição, da Ordem, que não teria qualquer controle sobre seus inscritos. Isso não serve ao direito, à sociedade e nem a pessoa do advogado.

A ADVOCACIA BRASILEIRA FOI ELEITA A VILÃ
 “O fim do exame da Ordem é um ataque proposital, direcionado e calculado para enfraquecer advocacia brasileira como um todo. Ela foi eleita a vilã da história. A inimiga do momento”

3c1d0767dd8b5f54
Ele é especialista em Ciências Criminais e Processo Civil e professor de Processo Penal na Faculdade Faser 1

JLPolítica – E para a sociedade?
AB -
Para a sociedade difusamente, o exame cumpre uma função social, já que é um filtro de qualidade. Ora, o cidadão é o destinatário do serviço advocatício, portanto, nada melhor do que ter à sua disposição no mercado profissionais minimamente testados para defender o seu direito.   

JLPolítica - Mas, ideologicamente, o que o governo pensa quando defende o fim dessa fronteira?
AB -
Na verdade, o governo se aproveita de um discurso político de uma classe de bacharéis em Direito crescente que se avoluma na luta contra o exame. Ele se aproveita desse capital político e utiliza uma estratégia que lhe é muito interessante do ponto de vista maquiavélico: ‘enfraqueço o maior obstáculo organizado da sociedade civil e ainda ganho alguns votos com isso’. Lamentável.

JLPolítica - O senhor acredita que há um lobby do ensino particular nesse processo?
AB -
Eu sei que há estelionato educacional sendo praticado hoje no país. Há décadas, com algumas honrosas exceções, as faculdades fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. O exame da Ordem não nasceu gratuitamente, imposto assim pela OAB. Foi fruto de uma construção histórica para um problema histórico da advocacia no Brasil. 

JLPolítica - Ele data de quando?
AB -
Com a lei 4.215, lá em 1963, surge o exame como condição alternativa para ingresso na carreira, que era a aprovação ou realização de estágio supervisionado. A preocupação com a qualidade profissional dos advogados é algo antigo. O exame da Ordem veio para solucionar justamente problemas advindos da baixa qualidade dos bacharéis em Direito, cuja exigência de formatura já fora um meio de controlar o nível técnico dos chamados rábulas, advogados provisionados. Isto é, sem graduação, mas consentidos. Depois do diploma, um estágio prévio ou a prova. A primeira prova foi aplicada em São Paulo, em 1971. 

COM O FIM DO EXAME DA ORDEM...
“Paulatinamente, poderia dizer que seria o enfraquecimento quase que mortal da Ordem, que não teria qualquer controle sobre seus inscritos. Isso não serve ao direito, à sociedade e nem a pessoa do advogado”

860eab074b991a22
É sócio-diretor do Escritório de Advocacia Belém e Castro em parceria com o amigo o advogado Glover Castro

JLPolítica - Qual a avaliação que do senhor faz da gestão de Inácio Krauss à frente da OAB-SE?
AB –
Posso ser, e certamente o sou, suspeito para falar disso (risos). Mas avalio a gestão do presidente Inácio Krauss como muito produtiva. É uma gestão consciente do seu papel. Uma gestão austera. Inácio Krauss é um administrador nato, e tem conduzido com maestria administração interna da Casa dos Advogados e da Sociedade. Tem imposto uma política de valorização da jovem advocacia, da mulher advogada, da advocacia do interior, da advocacia em geral, mas especialmente essas três esferas, que são segmentos que precisam de um apoio institucional mais presentemente. Inácio tem dado isso. Tem sido um cara descentralizador, que tem possibilitado o surgimento de novas lideranças, e isso é muito bom para instituição. Inácio Krauss cumpre a sua promessa de campanha, que é a de avançar. A gestão passada, comandada por Henri Clay Andrade, cumpriu o seu papel, reorganizou a instituição, sedimentou as bases, e agora, erigido sobre esse alicerce, Inácio avança mais. 

JLPolítica - Institucionalmente, a Ordem está preocupada com o estado democrático brasileiro sob Bolsonaro?
AB -
Sim, e muito. A Ordem acompanha de perto, vigilante, até porque essa é uma missão institucional de todo advogado e, principalmente, dos dirigentes de Ordem. Nós juramos proteger a Constituição e o Estado Democrático de Direito. 

JLPolítica - Mas acompanha com que olhar?
AB -
Com um olhar crítico, cívico e combativo, sem ideologia político-partidária, sempre atenta às manifestações da sociedade, propondo debates e ações, procurando ser ouvida nas decisões mais relevantes da República. Mas, temos que admitir: há um manto de ódio aberto sobre o Brasil. Estamos vivendo um momento muito preocupante, pois, além da radical divisão do país, há esse clima odiento de discursos agressivos e intolerantes, estigmatizantes, rotulantes, abusos de fake news, sempre com propósitos maquiavélicos. 

JLPolítica - Na sua opinião, qual o caminho a seguir?
AB -
Para mim, o caminho está sempre no diálogo democrático. Não estamos mais dialogando, mas tentando ganhar no grito, ambos os lados. E assim não avançaremos. Nesse clima, o Judiciário precisa estar consciente do seu papel imparcial de mediador e garantidor. Não deve se deixar pautar pela voz das ruas, crivada de cidadania, sim, mas também de ódios, mas sim pela guarda da Constituição, numa atuação contramajoritária. 

DO FINGIMENTO DAS FACULDADES DE DIREITO
“Há um estelionato educacional sendo praticado hoje no país. Há décadas, com algumas honrosas exceções, as faculdades fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem”

189670cdfda8d556
Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Sergipe em 2002 e no mesmo ano foi aprovado no exame de Ordem

JLPolítica - Voltando à OAB, o senhor acha que a campanha da OAB do ano passado foi uma das mais violentas?
AB -
Lamentavelmente, a eleição da Ordem foi contaminada pela baixaria que já vinha acontecendo nas eleições político-partidárias. Tivemos episódios pontuais de colegas que se digladiaram e baixaram o nível nos debates. Espero que fique a lição, que sirva de aprendizado, porque nós somos uma só classe de colegas, e guia da sociedade, farol, devemos dar o exemplo. 

JLPolítica - Isso já se emendou ou ainda tem feridas?
AB -
Eu acredito que muitas delas já foram saradas, mas sempre perduram algumas cicatrizes aqui e ali. Espero que essas cicatrizes sirvam para chamar a atenção para que possamos nos monitorar e ter a consciência plena de que nosso adversário naquele momento é, na verdade, um colega, e que nós temos que construir uma Ordem para todos. 

JLPolítica - O senhor tem planos de um dia comandar a OAB de Sergipe?
AB -
É claro que comandar a OAB é uma honra para qualquer advogado. Mas confesso que, no momento, não tenho tais planos traçados. Nem projetos nesse sentido. Não penso nisso. Estou, sim, focado em dar minha contribuição para ajudar Inácio Kraus a consolidar o avanço da gestão, para que seja a melhor da história. Estou bem centrado também no meu escritório, desenvolvendo aquilo que mais me motiva, e de que dependo, que é exercício da advocacia, defendendo os interesses daqueles que nos confiam sua liberdade, seu patrimônio, sua família...    

JLPolítica - O senhor acha que a advocacia sergipana vive um bom momento ou está aviltada?
AB -
A advocacia brasileira, eu diria, vive um momento muito complicado. Nós temos um mercado inchado, abarrotado de profissionais. Sofremos com violações de prerrogativas, aviltamento de honorários e questões éticas. Institucionalmente, sofremos ataques como, por exemplo, o da tentativa de impor uma fiscalização pelo Tribunal de Contas da União nas contas da OAB, esse fim do exame da Ordem de que tanto falamos há pouco, a transformação das anuidades em pagamentos facultativos, o que seria o fim de toda e qualquer instituição de classe. E depois ainda seria colocada a culpa nos próprios profissionais, por não pagarem. 

BRASIL VIVE UMA ONDA TENEBROSA DE ÓDIO
“Temos que admitir: estamos vivendo um momento muito preocupante, pois, além da radical divisão do país, há um clima odiento de discursos agressivos e intolerantes, estigmatizantes, rotulantes e abusos de fake news, com propósitos maquiavélicos”

921d57f804294ef4
Atua nas áreas do Direito Penal e Civil

JLPolítica - E nesse contexto, como entra a advocacia sergipana? Está no mesmo pé de igualdade?
AB -
Nós vivemos os mesmos problemas. Sergipe não é uma ilha. Somos atingidos pelos mesmos ataques. Não há nenhuma diferença. Nós não somos privilegiados, pelo contrário. Mas os advogados são bravos. A advocacia ultrapassou momentos de ditadura, de autoritarismo e sempre se impôs como farol, à frente da sociedade, guiando seus passos, tomando a frente nos embates, e ainda não será esse o momento que irão calar ou enfraquecer a advocacia. Se sozinhos somos fortes, juntos somos imbatíveis. 

JLPolítica - O senhor não acha que Henri Clay Andrade pagou um preço alto, possivelmente desproporcional, pelo fato de, sendo presidente da OAB, ter optado por uma candidatura política na disputa ao Senado ano passado?
AB -
Vejo a opção de Henri Clay Andrade naquele momento com bastante naturalidade. Mas, por alguns, foi imposto a ele um preço alto. Mas não tem como se criminalizar essa opção dele. Não há nada de errado nela. Ao contrário. Eu acho que ele conquistou uma posição de destaque na sociedade como presidente de Ordem, por serviços efetivamente prestados, e nada mais justo do que colocar seu nome à disposição, no atual momento em que precisamos de novos líderes, para que a sociedade o escolhesse ou não. E, ao meu ver, ele obteve um resultado bastante significativo, com cerca de 110 mil votos, sendo o segundo mais votado para o Senado na capital. Então, acho que HC, como nós o chamamos carinhosamente, é um nome que hoje ultrapassou os limites da advocacia e tem muito a contribuir com a sociedade sergipana e brasileira. 

JLPolítica – Mas o senhor não acha que foi meio desproporcional a reação de alguns colegas oponentes dele na classe?
AB -
Sim. Acho que alguns foram bastante injustos com o colega Henri Clay, que tem serviços prestados. Podemos concordar ou não com ele em determinados pontos. Isso é livre na democracia. Mas ele tem serviços prestados à democracia e à sociedade, e o preço que foi lhe cobrado por alguns poucos foi demasiadamente injusto. Mas infelizmente é coisa de campanha. HC tem o meu respeito.

JLPolítica - Qual é a importância de o senhor assumir a Abracrim-SE?
AB -
A Abracrim é uma associação de âmbito nacional que já existe há 25 anos, com efetivos serviços prestados à advocacia criminal brasileira. A importância decorre do momento atual, do delicado momento em que vivemos, no qual a advocacia criminal é eleita pelos poderosos de plantão como inimiga, escolhida como vilã nessa hora histórica. Então precisamos nos organizar, somar forças, cerrar as trincheiras para a defesa da advocacia criminal, de suas prerrogativas, e isso sempre em parceria com a OAB, instituição maior da advocacia, a quem devoto minha energia e amor.

DOS ABUSOS COMPORTAMENTAIS NA ELEIÇÃO DA OAB
“Lamentavelmente, a eleição da Ordem foi contaminada pela baixaria que já vinha acontecendo nas eleições político-partidárias. Tivemos episódios pontuais de colegas que se digladiaram e baixaram o nível”

267ca36d82b43022
É membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e Instituto de Defesa do Direito de Defesa

JLPolítica - Como está a advocacia criminal em Sergipe?
AB -
Temos muitos e bons advogados criminais no Estado. O número é crescente. Mas precisamos de organização, porque esses advogados não estão aglutinados em torno de um projeto, de um ideal comum de valorização da classe.

JLPolítica - O que a Abracrim-SE pode fazer por eles? 
AB -
Na verdade, essa é uma das maiores propostas e desafios que pretendemos enfrentar: aglutinar esses advogados e tentar concentrar os esforços nas defesas dos nossos ideais. É preciso ouvi-los, colher as agruras que eles passam no dia a dia, aumentar o associativismo e trazer os filiados à pauta. 

JLPolítica - Qual é a maior demanda da advocacia criminal em Sergipe? 
AB -
A advocacia criminal sempre foi o segmento da advocacia que mais sofreu por causa de violações de suas prerrogativas. Porque nós atuamos em áreas difíceis. Estamos sempre lidando com o crime e suas circunstâncias. É essa a advocacia que frequenta os presídios, as delegacias, os batalhões, que lida com arbitrariedades e abusos. Então, é uma advocacia que tem sido, historicamente, mais sofrida, mais exigida em termos de coragem, de enfrentamento. 

JLPolítica - Qual é o maior pecado praticado contra a advocacia criminalista?
AB -
O maior pecado é o de confundir o advogado com o seu cliente. Esse é um pecado histórico. Essa é a segunda missão que pretendemos enfrentar, com a nova Diretoria e os conselheiros. Vamos conscientizar para valorizar. Conscientizar, inclusive, até o próprio advogado de que ele jamais deve se permitir ser encarado assim e, é claro, cuidar para não confundir e nem ultrapassar os limites profissionais. 

MOMENTO RUIM PARA A ADVOCACIA NACIONAL
“A advocacia brasileira vive um momento muito complicado. Temos um mercado inchado, abarrotado de profissionais, sofremos com violações de prerrogativas, aviltamento de honorários e questões éticas”

Dc3fcb5c75a42638
Para Aurélio, tudo começa pela valorização do criminalista

JLPolítica - Outro pecado não seria o de achar que o criminoso não tem direitos?
AB -
Esse é, sim, um outro grande pecado capital, e acho que a conscientização tem que partir de nós. Nós advogados temos que nos conscientizar primeiro, porque muitos de nós não temos ainda, infelizmente, essa consciência. E depois temos que tentar conscientizar a sociedade. É uma tarefa difícil, mas é possível. Quem nunca cometeu uma pequena infração? Parto do princípio de que não se convence ninguém se você mesmo não está convencido daquilo.

JLPolítica - Quando foi a sua posse local e quando se dará a nacional? 
AB -
Tivemos uma posse administrativa, formal, na última quinta-feira, dia 30, no plenário da OAB-SE, e depois teremos uma posse solene durante o Encontro Brasileiro da Advocacia Criminal - Ebac -, que será realizado em São Paulo, no Salão Nobre da USP. Ali participarei de uma mesa de debates sobre o pacote anticrime, como relator de uma das palestras. Esse é o maior encontro da história da advocacia brasileira. Pelo número de inscritos, qualidade dos temas e palestrantes, será um evento maravilhoso.

JLPolítica - Qual é o senão maior do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro?
AB -
Primeiro, começou tudo errado, porque se deu sem a mínima discussão com a sociedade brasileira. Uma legislação que pretende alterar 13 leis numa tacada só e não inaugura uma discussão com a sociedade, com as entidades jurídicas - a OAB não foi chamada em momento nenhum para discutir o pacote previamente - não pode ser bem-vista. Quando nós do Direito tentamos buscar essa discussão fomos rechaçados - a OAB inclusive. Eu diria que é um pacote autoritário, que busca uma inspiração norte-americana, na qual a nossa história jurídica nunca bebeu. Não vejo com bons os olhos as alterações propostas na disciplina da legítima defesa, a instalação de soluções negociadas como o plea bargain, prisão em segunda instância, endurecimento penal e tantos outros temas que mereciam aprofundado debate. A OAB, IAB, Abracrim apresentaram análises substanciais do pacote e entregaram ao Congresso Nacional. Enfim, o problema é que a inspiração do pacote não parte da realidade brasileira, mas da alienígena.

JLPolítica - Que inspiração seria essa?
AB -
É uma inspiração de trazer o sistema americano common law para cá, baseado em precedentes judiciais, na barganha. E nós temos uma tradição histórica de um sistema baseado na legislação. Há um confronto de ideias e de filosofia do Direito. E nós não podemos engolir isso goela abaixo. 

HENRI CLAY SOFREU INTOLERÂNCIA POLÍTICA
“Ele tem serviços prestados à democracia e à sociedade, e o preço que foi lhe cobrado por alguns poucos foi demasiadamente injusto. Mas infelizmente é coisa de campanha. HC tem o meu respeito”

9cce26bdbd5bd9c7
Ele pensa, via Abracrim-SE, em unir mais os advogados dessa área, conceder-lhes prêmios reconhecedores

JLPolítica - Procedem as observações de que o pacote criminaliza muito os pobres, as pessoas socialmente em situação de risco?
AB –
Sim. Mas não somente os pobres, como os movimentos sociais de um modo geral. É um perigo a forma como o pacote vem a tratar, por exemplo, movimentos que se organizam. O texto, nos moldes em que está escrito, é aberto demais, a ponto de poder incluir nele, inclusive, os sindicatos. É um pacote feito, como eu disse, sem discussão, mas com um propósito punitivista. Revanchista, eu diria. E direito não é instrumento de vindita pública. O velho Rui Barbosa dizia que o que deve valer é a força do direito e não o direito da força.

JLPolítica - Haveria Estado Democrático de Direito também sem o advogado criminalista?
AB -
Ele é um profissional elementar. Quem de nós nunca cometeu um crime? Por menor que seja, por menor potencial ofensivo que tenha, quem de nós nunca ultrapassou esse limite da legalidade penal? Então, o advogado criminalista cumpre um papel que eu não diria só ligado ao Estado Democrático de Direito, mas que é o alicerce desse Estado Democrático de Direito. 

JLPolítica - Ele cumpre o quê no campo aproximativo?
AB -
Ele cumpre, por exemplo, o direito à isonomia de tratamento de todos perante a lei, a exigência dos direitos fundamentais, a defesa da Constituição, do ordenamento jurídico. É o advogado criminalista que às vezes senta ao lado daquele pobre coitado acusado, a quem todos apontam o dedo, e que não tem ninguém por proteção de seus direitos. Ele, o criminalista, é o único que ali senta para fazer valer ou buscar fazer valer os direitos e as garantias da pessoa humana. O advogado criminalista tem uma função não só técnica no processo, mas também uma função social. 

JLPolítica - O senhor diria que o Direito criminal em Sergipe está meio envelhecido? Como ele está em Sergipe?
AB -
Eu não diria envelhecido. Nós recebemos novos advogados e há uma oxigenação. Nós temos uma jovem advocacia crescente, pujante. Precisamos apenas nos organizar. Nós temos um exército do bem, e precisamos nos estruturar, nos associar, e contar com a valorosa colaboração dos advogados mais experientes que podem nos ajudar a traçar um caminho valoroso para advocacia criminal e tentar sair desse momento delicado pelo qual ela passa. 

MISSÃO DA ABRACRIM-SE FRENTE AOS ASSOCIADOS
“Essa é uma das maiores propostas e desafios que pretendemos enfrentar: aglutinar advogados e tentar concentrar os esforços nas defesas dos nossos ideais. É preciso ouvi-los, colher as agruras”

479b2768f23d0870
É filho do administrador de empresas e auditor fiscal aposentado da Secretaria de Estado da Fazenda, Osvaldo do Espírito Santo, e da professora Joana Angélica Belém do Espírito Santo.

JLPolítica - Qual é o caso de maior rumor da advocacia criminalista de Sergipe? 
AB -
Veio à mente agora o caso do assassinato do promotor em Cedro de São João, Valdir de Freitas Dantas, que foi uma grande ocorrência, rumorosa. Eu acompanhei o júri. Mas tem tantos outros mais antigos que eu soube por ouvir dizer, já que não pude acompanhar. 

JLPolítica - Quem é o grande nome do Direito Criminal em Sergipe?
AB -
Temos vários nomes. Estamos bem servidos. Temos jovens talentosos e grandes promessas e também advogados consagrados, cujos nomes já entraram para a história, para os anais da advocacia criminal. Inclusive é uma outra missão que a Abracrim-SE tem, que é a de resgatar esses nomes, homenageando-os com uma medalha, por exemplo, que será criada, começando por esses que nos deixaram um legado importante de enfrentamento à ditadura e a momentos bastante nebulosos da história. 

OS ERROS DO PACOTE ANTICRIME DE MORO
 “Começou tudo errado, porque se deu sem a mínima discussão com a sociedade brasileira. Uma legislação que pretende alterar 13 leis numa tacada só e não inaugura uma discussão com a sociedade”

Da778a2d0a0bf041
É casado com a fisioterapeuta Carol Sacramento e é pai do Lucas , de 11 anos, e de Leonardo , de 8