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Entrevista

Jozailto Lima

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Cabo Zé: “Meus filhos estavam ansiosos pela minha morte”

"Vou provar que eles queriam o pior pra mim"
 15 de junho de 2019, 20h00


Polêmica. Em vez de Ribeiro, polêmica bem que poderia ser o sobrenome de José Raymundo Ribeiro, o Cabo Zé. Radialista, jornalista, advogado e político, ele é dos que dão boiada para entrar numa briga e boiadas para permanecer nela.

Com esse estilo, que o Cabo Zé classifica de “um homem autêntico”, ele foi deputado estadual de Sergipe por duas vezes - 1962 e 1982 - e prefeito de Lagarto por uma - 1992.

Brigas, para José Raymundo Polêmica, ops, Ribeiro, sempre foram menus nobres, nos quais se fartou e ainda hoje se farta. E, assim, com o irmão Rosendo Ribeiro Filho, deu asas ao grupo Bole-Bole, que se digladiou com o Saramandaia, liderado pelo oponente e sócio na adolescência Artur Reis e seus descendentes na cidade de Lagarto.

Em 1962, o Cabo - ele nunca foi militar, viu - elegeu-se pela primeira vez deputado estadual numa mesma eleição que fez do irmão Rosendinho prefeito de Lagarto. Mas não é só na política que José Raymundo Ribeiro deixou marcas próprias e profundas.

Aos 23 anos, no comecinho de 1961, seis meses depois de ter se casado com Edla Tavares Ferreira no dia 6 de agosto de 1960 no religioso, ele se casa no civil com Ivanise Barbosa Lima Ribeiro, uma promotora do Ministério Público. Ivanise falecera como procuradora em 22 de junho de 2017, no dia em que completara 82 anos. 

Não era nada escondido. Uma esposa sabia da outra. “Eu dormia uma noite na casa de uma, e uma na casa da outra”, diz o Cabo Zé. Desse consórcio duplo e arrojado, nove pessoas vieram ao mundo. Cinco com Ivanise, quatro com Edla.

Hoje, aos 81 anos, prestes a fazer 82 em 5 de novembro e um infarto recente no currículo (em 29 de junho do ano passado), o Cabo Zé trava a mais inglória das brigas que um homem pode travar: com os seus próprios filhos. Ou melhor, com parte deles. Exatamente com três dos quatro do clã de Edla e com a própria Edla.

Do alto da sua condição de sujeito de escorpião, o Cabo Zé Polêmica desconfia abertamente que a ex-esposa e três dos quatros filhos com ela - ele livra a filha Ana Loura Cleide Ferreira Ribeiro -, lhe tomaram o patrimônio - um sítio em Lagarto, duas casas, uma emissora de rádio, a sede dela, um trio elétrico e um apartamento em Aracaju - achando que ele iria bater as botas.

Além disso, o impediram de entrar na Eldorado FM e o retiraram do ar em um programa jornalístico que ele fazia há décadas na emissora que ele mesmo fundou nos primeiros anos dos anos 1980.  

“Eu senti que os meus filhos dessa parte estavam ansiosos pela minha morte. Senti isso com profundidade, e mágoa. Eles me provocaram de todo jeito para agravar a minha situação. E continuam fazendo isso”, diz o Cabo.

O “dessa parte” citado na fala acima é uma maneira de o Cabo Zé deixar de fora da briga familiar os cinco filhos com Ivanise, a quem ele pede desculpas por ter lhes dado menos atenção e afeto do que aos filhos de Edla.

“Todos eles estão do meu lado, além Ana Loura Cleide Ferreira Ribeiro. Nisso tudo eu fui ruim. Admito: um péssimo pai pra eles. E quando aconteceram essas coisas comigo, pasme, eu recebi a solidariedade de todos os cinco. Todos os meus cinco filhos com Ivanise foram em Lagarto me buscar. Eu fiz aniversário no dia 5 de novembro e não recebi um sequer telefonema de nenhum dos três e nem de Edla também”, diz ele.

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Com o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da Ditadura Militar
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Tem 81 anos e está prestes a fazer 82

JLPolítica - Por que os seus filhos, segundo o senhor, querem lhe destituir do programa que o senhor faz na Eldorado FM e até da posse dessa emissora?
Cabo Zé -
Eu sou um homem autêntico. Eu nunca tive problemas de coração. Mas estava um dia do ano passado no meu programa, na Rádio Eldorado, uma emissora que eu fundei em 1982, e senti uma queima no estômago e quando fiz exame, estava era enfartando. Então fiz um cateterismo e uma cirurgia, e quando acordei estava completamente alucinado. Chamei os meus filhos e perguntei: “Tem muita gente no meu enterro?” E eles me explicaram que eu estava saindo de uma cirurgia. Posteriormente, estava me recuperando e fui para Lagarto com a liberação do médico.

JLPolítica – E lá, o que se passou?
CZ -
Certo dia, deparei com a família toda reunida. Eles me fizeram a proposta de tomar conta do meu patrimônio e de me dar uma mesada. Eu falei que não precisava, porque eu ainda estava lúcido.

JLPolítica – Qual foi a reação?
CZ -
Eles não aprovaram e disseram que iam embora. Voltaram para Aracaju e me deixaram a sozinho em Lagarto. No dia seguinte, meu filho mais velho, doutor Ricardo Ribeiro, veio com a proposta de arrendar a rádio ao prefeito Valmir Monteiro, meu adversário político. Eu me esquentei logo, extrapolei, desconhecendo que estava operado do coração.

JLPolítica - Para além da proposta comercial, o senhor sentiu algo ali mais estranho?
CZ –
Sim. Eu senti que os meus filhos dessa parte estavam ansiosos pela minha morte. Senti isso com profundidade, e mágoa. Eles me provocaram de todo jeito para agravar a minha situação. E continuam fazendo isso. Mas mesmo assim, eu procurei um amigo meu, advogado, e falei que poderia dar todo o meu patrimônio a eles, caso ficasse com a rádio. Ou daria a rádio, e ficaria com todo o resto do meu patrimônio.

JLPolítica - O que é o seu patrimônio?
CZ -
Dentro de Lagarto, eu tenho um sítio de 60 tarefas. Tenho um apartamento aqui em Aracaju, na avenida Beira Mar, tenho duas casas em Lagarto e o edifício da Rádio Eldorado, além da franquia pública da rádio.

DEPOIS DE UMA CIRURGIA CARDÍACA...
“Certo dia, deparei com a família toda reunida. Eles me fizeram a proposta de tomar conta do meu patrimônio e de me dar uma mesada. Eu falei que não precisava, porque eu ainda estava lúcido”

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José Raymundo Ribeiro Neto: destinatário de todas as cotas da Eldorado FM, por repasse da avó Edla

JLPolítica – Mas eles alegam o que para afastar o senhor?
CZ –
Três dos meus quatro filhos com Edla Carvalho Ferreira alegaram que eu não tinha mais condições de comandar mais nada, menos a Ana Loura Cleide Ferreira Ribeiro. Mas eu demonstrei que tinha e tenho condições. Você está conversando comigo para esta entrevista está vendo a minha disposição.

JLPolítica - Mas por que o senhor havia passado anteriormente as cotas de sociedade da Eldorado FM para Edla?
CZ –
Eu passei as cotas, porque quando eu fui candidato a prefeito de Lagarto em 1992, e me elegi, eu não poderia estar à frente. Assim dizia a legislação. Desde então, as costas estão em nome de Edla Carvalho Ferreira. Eu transferi para ela por causa disso. E, surpreendentemente, depois dessa confusão, ela transferiu as cotas da Eldorado FM para um neto, que depois eu descobri que nem neto nosso é.

JLPolítica - Mas como assim?
CZ -
Minha filha Ana Loura Cleide Ferreira Ribeiro teve uma discussão com a mãe do Neto, Tania Cristina, quando soube do fato dele não ser meu neto. Ela não falou absolutamente nada. Daí a minha filha chamou os irmãos Ricardo Ribeiro, que ficou chocado, e Rosendo Ribeiro, que ficou mudo, como se não estivesse acreditando, e o Júnior, que de braços cruzados estava,  respondeu para Loura que já sabia e que não podia fazer mais nada, e que, por isso, não falava com a mãe Tania Cristina na época.

JLPolítica – O senhor o acolheu como mais um dos seus...
CZ –
Sim. Eu dei tudo aí a esse rapaz: formei, dei automóvel zero km, tratava mesmo como a um filho. Minha filha Loura, coitada, teve câncer de pele. Operamos ela, e o médico disse que a cada 90 dias, durante cinco anos, teria que fazer uma bateria de exames. No primeiro exame que faríamos, quando ela chegou ao consultório, foi informada que não pertencia mais ao convênio da Unimed. Ficamos surpresos, porque eu tinha conseguido um emprego para dona Edla no Tribunal de Contas, onde ela se aposentou ganhando R$ 16 mil, e colocamos todos os filhos dela como dependentes. Diante daquela informação do Unimed, eu fui ao Tribunal, procurei o setor competente, e lá me mostraram o documento de Edla tirando Loura da Unimed. Fiquei sem entender.

JLPolítica - Mas os seus cinco filhos com Ivanise estão do seu lado?
CZ -
Todos eles estão do meu lado, além Ana Loura Cleide Ferreira Ribeiro.

FILHOS ANSIOSOS PELA SUA MORTE?
“Eu senti que meus filhos dessa parte estava ansiosos pela minha morte. Senti isso com profundidade, e mágoa. Eles me provocaram de todo jeito para agravar a minha situação”

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José Raymundo avó, ao centro, e José Raymundo Neto, último à diteita: pivô da desavença biológica e patrimonial. Entre avô e neto, Júnior Ribeiro, e do outro lado, Ana Ribeiro e Rosendo Ribeiro, quando ainda havia paz

JLPolítica - O senhor se surpreendeu com a passagem das cotas da emissora de Edla Ferreira, sua ex-esposa, para José Raymundo Ribeiro Neto?       
CZ -
Surpreendi-me por demais. Muitas das vezes o próprio Rosendo, Júnior e Ricardo levavam o documento pra ela assinar, ela ligava pra mim e dizia: “Zé, Rosendo está com um documento aqui. É pra eu assinar?” Aí eu dizia: “Pode assinar”. E esse último documento da transação em favor do Neto eu não tomei conhecimento. Ela passou tudo pra ele, registrou em cartório e quando eu vi recebi foi uma correspondência extraoficial dizendo que eu não entraria mais na rádio. Mais: pra eu não ligar pra rádio mais. E tiraram meu programa do ar.

JLPolítica - Que tipo de falta lhe faz a sua presença na gestão e na gestão da emissora?
CZ –
Rapaz, se você andasse em Lagarto iria saber a consequência disso. Isso me gratifica: eu nunca recebi tamanha solidariedade da sociedade em toda a minha vida. Se eu disser a você que a minha exclusão não fez falta eu estou enganando, porque fez bastante falta. Mas eu estou vivo através do Instagram, do Facebook. Eu estou me comunicando com uma amplitude maior do que a da rádio.

JLPolítica - Mas o senhor tem convicção de que essa mudança de comportamento do seu núcleo familiar da parte de Edla aumentou depois do seu infarto?
CZ -
Tenho, claro. Depois eu vou mostrar a você, eu vou provar a você que eles queriam o pior de mim e pra mim. Eu tenho um amigo advogado, a quem eu pedi que resolvesse o problema, amigavelmente, e ele procurou os filhos, principalmente o Rosendo, e disse: “Olhe, o Cabo disse que vai dar isso, isso e aquilo à sua mãe”. E Rosendo respondeu: “E a gente? E eu?” Aí o advogado lhe disse: “Rosendo, você só vai herdar quando seu pai e sua mãe morrerem. Você já quer herdar agora, com eles vivos?”

JLPolítica - Mas quantos desses bens – o terreno, a propriedade rural, as casas e o apartamento - permaneceram com o senhor? Ou tudo foi pra lá?
CZ –
Tudo, tudo foi pra lá. Sem o meu consentimento.

JLPolítica – Mas aqui cabe um questionamento sério: o senhor não pensou nos outros cinco filhos com Ivanise?
CZ –
É. Nisso tudo eu fui ruim. Admito: um péssimo pai pra eles. E quando aconteceram essas coisas comigo, pasme, eu recebi a solidariedade de todos os cinco. Todos os meus cinco filhos com Ivanise foram em Lagarto me buscar. Eu fiz aniversário no dia 5 de novembro e não recebi um sequer telefonema de nenhum dos três e nem de Edla também.

O TRAJETO DAS COTAS DA ELDORADO
“As cotas estão em nome de Edla. Transferi para ela e surpreendentemente, depois dessa confusão, ela transferiu para um neto, que depois eu descobri que nem neto nosso é”

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O Cabo Zé afagando e sendo afagado pelos netos João Paulo, Lucas e Breno

JLPolítica - O que aconteceu com seu apartamento de Aracaju? Não lhe pertence mais?
CZ -
Com o apartamento, aconteceu o seguinte: quando houve essa divisão, Edla se posicionou lá nesse imóvel da Beira Mar e eu me posicionei lá na outra casa (ele e Edla se separaram há menos de um ano). Agora quando veio essa última campanha que eu era candidato a deputado, eu disse: “Vamos para Lagarto” e o condomínio eu dava o dinheiro a esse suposto neto para pagar. Sabe o que aconteceu? O apartamento está sendo penhorado por falta de pagamento de condomínio, além do IPTU.

JLPolítica - O senhor vendeu de vontade própria o Trio Eldorado?
CZ -
Eu comecei a minha vida como proprietário de trio com uma F-350. Fui na Bahia e vi o Trio Tapajós, me entusiasmei e fiz um mini trio em Sergipe. Mais tarde eu comprei uma carcaça de trio ao Ricardo Trípodi, que foi do Tapajós. O vendedor me telefonou da Bahia, querendo passar a carcaça pro meu nome. Mandei Rosendo lá na Bahia, com meu técnico e Rosendo assinou o documento com a carcaça passado pro nome dele. Eu gastei mais de R$ 2 milhões no Trio Eldorado, mas a carcaça estava em nome de Rosendo e o trio foi vendido agora não por vontade própria minha. Eu tomei como surpresa.

JLPolítica - Quando ele foi vendido?
CZ -
Tem mais ou menos uns 30 dias. Ele vendeu por R$ 420 mil, e fiado.

JLPolítica – Valia mais do que isso?
CZ –
Valia R$ 1,5 milhão. Estão torrando meu patrimônio.

JLPolítica - O senhor está vivendo onde, do ponto de vista de moradia, e de que maneira?
CZ –
Eu estou vivendo na casa de Lagarto e sobrevivendo da minha aposentadoria. Que é mais ou menos.

UMA TRANSAÇÃO SEM SEU CONHECIMENTO
“Esse documento da transação em favor do Neto eu não tomei conhecimento. Ela passou tudo pra ele, registrou em cartório e quando eu vi recebi foi uma correspondência extraoficial dizendo que eu não entraria mais na rádio”

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Cabo Zé no hospital antes da cirurgia, sob os tratos da sua Edla Ferreira

JLPolítica - O que os seus demais cinco filhos com Ivanise acham dessa guerrilha toda com os irmãos filhos de Edla?
CZ -
Estranharam, não é, porque eu sempre vivi para aqueles que agem assim agora e deixei eles cinco meio de lado. Muito embora todos eles tenham recebido uma boa instrução da mãe, e por isso eu não posso negar. Todos são formados. Os de dona Edla também são formados. Mas o Rosendo não foi. Esse não quis estudar.

JLPolítica - O senhor foi, afetiva e materialmente, um pai ruim ou omisso para os filhos que lhe destituem e lhe expropriam agora?
CZ -
Eu fui mais de que um pai para eles. Tudo que eu tinha, era pra eles. Para você ter uma ideia, o Rosendo, principalmente. Eu estava sem carro. Fui no banco, tirei um carro no nome dele, porque no banco quem tem mais de 70 anos não financia mais. Então comprei no nome dele. E quando é agora só faltavam três prestações pra pagar, eu mandei buscar o carro. Ele disse: “O carro é meu”. E ficou com o automóvel.

JLPolítica - O senhor se sente um incapaz, social e intelectualmente falando?
CZ -
Não. Me sinto divinamente bem. Deus tem me ajudado tanto que eu nunca estive tão entusiasmado na minha vida como eu estou hoje.E estou com um projeto que você vai se assombrar. Eu vou trazer, se der certo. Não é para Lagarto não. É pra Aracaju.

JLPolítica - O senhor acha que tudo isso vai ser resolvido na esfera judicial?
CZ -
A essa altura eu acho que sim. Eu posso até aceitar a traição que dona Edla fez comigo - porque tudo isso eu considero uma traição -, mas eu não sei como vou conviver com esses suposto neto

JLPolítica - Não há uma perspectiva de se fazer um DNA para se tirar essa dúvida sobre o Neto?
CZ -
Dona Edla não quer. Ele tem 30 anos hoje e eu cheguei para ela e disse: “Olhe, façamos o DNA. Se ele for meu neto, eu me ajoelho e peço perdão. Agora, se ele não for, tire o meu nome”.  

EM BUSCA DA HERANÇA DE UM VIVO
“Eu vou provar que eles queriam o pior de mim e pra mim. Um advogado procurou Rosendo, e disse: “Olhe, o Cabo disse que vai dar isso e aquilo à sua mãe”. E Rosendo respondeu: “E a gente? E eu?”. “Você já quer herdar agora, com eles vivos?””

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Foi prefeito de Lagarto de 1993 até 1996

JLPolítica - Qual é a chance de o senhor estar errado na questão de José Raymundo Ribeiro Neto e ele ser de fato filho do seu filho?
CZ -
Nenhuma. Eu estou certíssimo, porque não é possível que minha filha Loura iria inventar um negócio desse. Ela não é mais criança. Pode desmoronar uma família. Eu não acredito nisso.

JLPolítica – Desde quando o senhor está separado de Edla?
CZ -
Vai fazer 8 meses. São oito meses que eu não olho para a cara dela. É coisa recente.

JLPolítica - Nessa questão toda, de que lado estão os seus sobrinhos de primeiro grau, o conselheiro Luiz Augusto Carvalho Ribeiro, o Pupinha, e de segundo, o deputado federal Gustinho Ribeiro?
CZ -
Estão radicalmente contra. Contra a minha pessoa. Agora veja: o Gustinho eu lancei como vereador. Como deputado estadual, apoiei. Como deputado federal, apoiei. Votei, pedi voto e fiz discurso. Recentemente a esposa de Gustinho tomou posse como prefeita de Lagarto, não tomei conhecimento. Não fui nem convidado para assistir.

JLPolítica - Mas Gustinho e Pupinha agem contra o senhor?
CZ -
Agem, e vou provar pra você. Certa vez eu fui no Tribunal de Contas e disse: “Pupinha, eu preciso colocar o Neto numa posição e gostaria que você o colocasse no gabinete”. Ele colocou. Posteriormente a esses acontecimentos todos, eu fui lá: “Pupinha, de quem é esse emprego?” Ele disse: “É seu, foi você que me pediu”. Aí eu disse: “Então eu quero que você demita o Neto, que ele está me chamando de sujo, dizendo coisas horríveis de mim”. Pupinha me disse: “Me dê oito dias de prazo”. Com oito dias eu voltei lá, e ele: “Cabo Zé, não vou demitir não. Dona Edla esteve aqui chorou muito...”. Ela não esteve lá. Eu sei que não esteve. E eu respondi no dia seguinte: “Então, Pupinha, a partir de hoje você quando precisar de votos pra seu filho, você procure dona Edla e o Neto. Procure os dois, porque você não conta mais comigo”. Depois tomei conhecimento de que por via de Pupinha e Gustinho, Júnior e Rosendo estão empregados em Aracaju. Não sei onde. Estou apurando.

JLPolítica - O senhor admite que Gustinho é quem está por trás, sendo o mantenedor da rádio?
CZ -
Claro. Ele que está mantendo a rádio. Eles se juntaram a Gustinho e entregaram a Eldorado a ele. Hoje, não posso entrar mais na rádio. Os secretários de Gustinho todo dia estão falando nela. Eles são pessoas incompetentes, são uma vergonha para Lagarto.

TRIO ELDOARO VENDIDO À SUA REVELIA
“Gastei mais de R$ 2 milhões no Trio Eldorado, mas a carcaça estava em nome de Rosendo e o trio foi vendido agora não por vontade própria minha. Eu tomei como surpresa. Ele vendeu por R$ 420 mil, e fiado”

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O Cabo Zé num dos momentos família: nove filhos de dois troncos diferentes

JLPolítica - O senhor encontra em Sergipe um paralelo de destituição de poder pátrio com o que fazem com a sua pessoa hoje?
CZ -
Que eu saiba, não. Seria um caso inédito. São 60 anos de trabalho e de convivência.

JLPolítica - O senhor fez essa história vazar da sua esfera familiar para o público aberto de Lagarto. Qual foi a reação das pessoas de um modo geral?
CZ -
Eu nunca recebi tanta solidariedade: pessoas humildes, que vêm dos povoados de Lagarto, de pés descalços. Todos dizem que o que estão fazendo comigo é um absurdo.

JLPolítica - O senhor se acha um agressivo no rádio?
CZ -
Eu sou autêntico, cabo. O que eu tenho pra dizer, não tenho medo de dizer.

JLPolítica - Destituído de suas chances de usar o rádio, o senhor acha que pode agravar sua situação de saúde?
CZ -
Não. Esse empreendimento de Aracaju de que falei há pouco vai me realizar (ele esfrega as mãos).

JLPolítica - Que tipo de deputado estadual de dois mandatos e prefeito de Lagarto por um foi o senhor? Qual é a visão que o senhor tem de si mesmo nessas passagens por mandatos?
CZ -
Que me perdoem os meus adversários, mas tenho certeza de que se você chegar em Lagarto e fizer uma pesquisa, verá que depois do Cabo Zé a cidade regrediu. Eu era um homem de visão muito larga. Eu fiz um curso de administração de 60 dias na Alemanha, em Berlim. Depois, fui para Londres. Na verdade, conheci sete países, e vi fontes luminosas. Então eu pensei: se algum dia eu for prefeito, vou fazer uma dessas. Eu fiz duas. (Risos). Como deputado, um projeto que me chamou muito a atenção foi sobre o crematório para Sergipe. Eu cheguei a apresenta-lo. Primeiro, falei com Dom Luciano Cabral Duarte, que era o arcebispo da época. Minha mãe ainda era viva e falou assim: “meu filho, estou sabendo que você quer queimar a sua mãe”. (Risos). Aí eu retirei o projeto.

REAÇÃO DOS FILHOS DO NÚCLEO DE IVANISE
“Estranharam, não é, porque sempre vivi para aqueles que agem assim agora e deixei eles cinco meio de lado. Muito embora todos eles tenham recebido uma boa instrução da mãe”

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Com o filho e ex-deputado federal Adelson Ribeiro

JLPolítica - Mas isso ainda não traduz o seu conceito enquanto deputado.
CZ -
Fui deputado durante oito anos e fui leal aos amigos. Fazia política radical contra João Alves no segundo mandato, o de 1983 em diante. Ele precisava de um voto para aprovar um projeto. Cleonâncio Fonseca era meu amigo e conversou comigo. Eu era candidato à reeleição e devia muito a Heráclito Rollemberg. Cleonâncio me convenceu e eu disse que votaria a favor do projeto se ele colocasse Heráclito Rollemberg na vaga do Tribunal de Contas. De madrugada, estou no meu apartamento, quando a campainha toca. Eram João Alves, Heráclito e Cleonâncio. Aí João Alves falou que estava tudo resolvido. Votei pelo projeto e disseram horrores de mim, que eu havia ganhado muito dinheiro. Quando Heráclito estava para ser nomeado, recebi uma ligação do senador Lourival Baptista, dizendo que iria até a minha casa. Ele falou que estava lá em nome do governador João Alves. E me disse que o conselheiro seria eu. Eu disse que ficava muito grato, mas que compromisso é compromisso. E ele nomeou Heráclito.

JLPolítica - Heráclito lhe foi solidário?
CZ -
Nos primeiros projetos do TCE, ele votou contra. E foi bastante criticado. Aí eu fui até ele e disse: “Você votou contra mim?” Mas somos amigos ainda hoje.

JLPolítica - O senhor acha que os atos políticos e administrativos de Valmir Monteiro justificariam mesmo a prisão dele?
CZ -
Praticamente, quem lançou Valmir Monteiro na política fui eu. No começo da administração, alguns amigos chegavam para mim e diziam que estranhavam a posição dele, porque as pessoas convidada para integrar a gestão eram de oposição a mim e ele propunha fazer um grupo e deixar o Cabo de lado. Seis meses depois, eu fui na Prefeitura e disse-lhe que a partir daquele dia nós éramos adversários políticos. Ele perguntou porque eu disse que porque ele não estava cumprindo nada. E disse a ele que assim como eu coloquei na Prefeitura, eu o tiraria. Aí ele disse: “Com que roupa?”, com aquele ar irônico. Começamos a campanha e ele perdeu feio. Hoje, eu digo que quem planta, colhe. Se ele errou, tem que pagar. Eu conheço essa pessoa que tomava conta do Matadouro de Lagarto, e ele disse ao Ministério Público que recebia semanalmente todo o dinheiro da matança e entregava a Valmir. Então, eu acho que errou.

JLPolítica - O senhor tem mágoas por ter dado asas políticas a Valmir e depois ele ter voado sozinho?
CZ –
Não. O que eu tenho é decepção, porque eu não imaginei que ele fizesse isso. Ele nem é filho de Lagarto. Ele é da Água Fria, povoado de Salgado e foi aproveitado pelos Ribeiro.

JLPolítica - Qual o seu conceito da gestão de Hilda Ribeiro?
CZ -
Eu não tenho nada contra ela, porque também nem a conheço direito. Mas eu acredito que ela não vai fazer nada. O marido interfere muito. Aliás, hoje, nós temos seis prefeitos: Hilda, Luíza, Acácia, Gustinho, Áurea e Pupinha.

E SE SENTE SOCIAL E INTELECTUALMENTE INCAPAZ?
“Não. Me sinto divinamente bem. Deus tem me ajudado tanto que eu nunca estive tão entusiasmado na minha vida como eu estou hoje”

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No comando do Programa Falando a Verdade, a Eldorado

JLPolítica - É possível uma cidade ser administrada assim com tantos gestores?
CZ –
Absolutamente não. É por isso que está nessa situação. Estão fazendo agora uma festa lá, que estão gastando R$ 1,5 milhão. Na semana passada, estava com meu irmão numa lanchonete, quando chegou uma pessoa me pedindo ajuda para comprar um colírio, dizendo que era portador de glaucoma. Perguntei se havia ido na Prefeitura e ele disse que não tinha e que não sabiam quando iria chegar. Qual impressão que se tem de uma administração dessa?

JLPolítica - O senhor ainda mantém a intenção de disputar o mandato de vereador por Lagarto em2020?
CZ -
Só se Deus não quiser. Eu sou candidato para moralizar aquela Câmara. Ainda hoje, conversava com um vereador que tem excelente desenvoltura, e ele mesmo disse que a Câmara é uma decepção.

JLPolítica - O senhor consegue visualizar, pelo andar das coisas, quem será o futuro prefeito de Lagarto em 2020?
CZ -
Tem vários candidatos, mas eu acredito que o povo de Lagarto está procurando uma saída nova. Eu, por exemplo, votaria em um sobrinho meu, que já foi presidente do Ipes, do Detran, da Deso, chefe da Casa Civil, secretário de Educação de Lagarto, e que se chama Jorge Ribeiro Prata.

DNA DO NETO SERIA NEGADO
“Dona Edla não quer. Ele tem 30 anos hoje e eu cheguei para ela e disse: “Olhe, façamos o DNA. Se ele for meu neto, eu me ajoelho e peço perdão. Agora, se ele não for, tire o meu nome”  

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Com as filhas Monica e Loura

JLPolítica - E seu filho, o ex-deputado federal Adelson Ribeiro, que tem a simpatia de Valmir?
CZ -
Eu conversei com Adelson e ele disse que não queria mais ser candidato. Com a saída de Valmir, surgiram comentários de que ele o apoiaria. Mas não tenho conhecimento, de modo que meu compromisso hoje é com Jorge.

JLPolítica - O senhor já foi um homem rico. Como se sente hoje na idade avançada?
CZ -
Eu continuo rico, por meu espírito de alegria. Fui eu que fiz as maiores festas de Lagarto. As micaretas, por exemplo, tinham 10 trios elétricos. Pela primeira vez em Sergipe, eu trouxe Chitãozinho e Xororó, Roberta Miranda. Então, me considero um homem feliz da vida. Se esses filhos praticaram isso comigo, graças a Deus tem os que me apoiam.

DA REPERCUSSÃO DO CASO EM LAGARTO
“Eu nunca recebi tanta solidariedade: pessoas humildes, que vêm dos povoados de Lagarto, de pés descalços. Todos dizem que o que estão fazendo comigo é um absurdo”

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Com Pelé. Cabo Zé era deputado estadual, à época

JLPolítica - Sinteticamente, de onde vem o apelido Cabo Zé?
CZ -
Na Revolução de 1964, eu era deputado e fui convocado para comparecer ao 28º BC, que tinha à frente o major Joaldo e o major Serrano, um gaúcho. Lá chegando, fui recebido por um sujeito forte e grande. Aqui tinha um promotor chamado Laurinho Campos, a quem eu chamava de cabo Lauro e ele me chamava de Cabo. Esse rapaz forte, quando me recebeu, perguntou meu nome, outros dados, e também qual a minha relação com juiz de Lagarto, Dr. Osório Ramos. Eu disse que ele era um homem de bem, cumpridor de seus deveres. Um homem sério. Nessa hora, eu estava com sede e falei assim pro cabra grande que me interrogava: “Cabo, me arranje um copo com água”. Ele apontou o dedo para mim e disse: “O senhor me respeite, que eu não sou cabo. Eu sou tenente”. Eu me desculpei, expliquei que tinha o costume de chamar as pessoas assim. Cleto Maia e Viana de Assis, dois deputados da época, haviam sido presos, e eu disse que então me prendesse também. Esse homem forte era Gildo Mendonça, hoje coronel. Tempos depois, eu estava conversando com o presidente do Tribunal de Justiça e ele entrou no gabinete, e o presidente disse que não ia falar com ninguém, porque estava comigo. Eu acredito muito na lei do retorno.

POSIÇÃO DOS SOBRINHOS PUPINHA E GUSTINHO
“Estão radicalmente contra a minha pessoa. Agora veja: o Gustinho eu lancei como vereador. Como deputado estadual, apoiei. Como deputado federal, apoiei. Votei, pedi voto e fiz discurso. Gustinho está mantendo a rádio”

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Loura Ribeiro: uma dissidente do clã de Edla, que acha que o pai Cabo Zé deve ser respeitado no comando do patrimônio