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Entrevista

Jozailto Lima

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Carlos Augusto Monteiro Nascimento: “Que sirvamos à Ordem e não nos sirvamos dela”

Publicado em  7  de Julho de  2018, 20:00h

“Modelo de gestão da OAB é arcaico, provinciano, midiático e demagógico”

Sem nem bem se aperceber, na campanha pela Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, secção de Sergipe, em 2015, o então candidato e atual presidente Henri Clay Andrade estava cutucando o cão com a vara curta.

O cão, figurativamente, é o ex-presidente Carlos Augusto Monteiro Nascimento, 54 anos, a quem Henri Clay sucedeu como fruto de uma campanha bruta, que arrastou às urnas somente parte - cerca de 50% - dos 10 mil advogados da época - hoje são 12 mil. E por quem fora sucedido em 2010.

Carlos Augusto Monteiro Nascimento perdeu a eleição com a candidata Rose Morais, que obteve 42,56% dos votos válidos dos advogados que votaram, contra os 44,90% de Henri Clay. O resto foi de Cacho.

Passados três anos da gestão dessa que é a terceira de Henri Clay, Carlos Augusto reúne fôlego e parte da classe, atrai Rose Morais como pré-candidata a vice-presidente, e está disposto a ir pra cima e desbancar o atual comando da OAB, cuja eleição será na segunda quinzena de novembro.

Para isso, Carlos Augusto ergue um arsenal de críticas duríssimas a todo o legado da atual gestão de Henri Clay Andrade e de seu grupo de janeiro de 2016 até hoje. Em 20 mil caracteres de fala dele nesta entrevista, Carlos Augusto não cita uma só vez o nome Henri Clay Andrade, mas vai cirúrgica e letalmente na jugular e na canela do espólio dele.

E, nisso, Carlos Augusto não faz uma mínima concessão. A síntese da visão dele é a de que sob o atual comando da Ordem, a advocacia de Sergipe está com a autoestima ao rés do chão - sem prerrogativa, sem respeito, sem condução, sem lideranças de classe que a respeite e a represente com segurança.

Quem acompanhou a campanha pela sucessão da OAB de Sergipe durante sobretudo o segundo semestre de 2015, vai identificar que tudo que Henri Clay duramente criticou ali, hoje é o centro de pauta de Carlos Augusto. Como num diálogo de espelhos, é o que ele promete resgatar e reparar.

“Sou advogado militante, portanto, também sofro diuturnamente e posso testemunhar o momento ruim sem precedentes que a advocacia vive atualmente”, diz, como início de conversa. Convém pontuar, para quem não é da advocacia, que Carlos Augusto e Henri Clay já comeram no mesmo cocho.

Nasceram para a OAB no berço de um mesmo grupo. Em 2010, Carlos Augusto assumiu o primeiro mandato na OAB, resultado de uma eleição em 2009 apoiada pelo então presidente Henri Clay, em cuja chapa da eleição de 2006 ele se elegera conselheiro federal. Na primeira gestão de Henri Clay, Carlos Augusto foi seu tesoureiro. É como se fosse o Sandrão Mezzarano atual.

“Já sucedemos o gestor atual, e bem sabemos como recebemos a Ordem. Era o verdadeiro caos administrativo. Nos seis anos, trabalhamos muito. E não tenho a menor dúvida de que o próximo gestor receberá a entidade em igualdade de condições anteriores à que recebi”, diz Carlos Augusto.

Para o ex-presidente, o atual tropeçou em todas as promessas feitas na campanha 2015 e não conseguiu acostar nada de positivo ao destino da instituição. “O que resgataram foi tudo o que não prestava das duas gestões anteriores, que tinha à frente o atual presidente. Infelizmente, seu modelo de gestão é arcaico, provinciano, retaliador, antidemocrático e meramente midiático e demagógico”, reitera.

Ao não citar o nome de Henri Clay Andrade uma só vez, Carlos Augusto assume que é de propósito que assim procede - embora não haja a menor ternura nisso. Talvez só sofisma de estilo. “Eu disse “modelo de gestão”, porque não quero pessoalizar o debate”, pondera ele, entre o morde e o assopra.

E fustiga: “Se proliferaram os advogados recebendo ninharias para fazer audiências, sobretudo no interior do Estado. O protagonismo social tão anunciado e esperado não aconteceu. Matérias tão caras à sociedade passaram ao largo da Ordem”, diz.

“Cadê a Ordem na CPI do lixo? Cadê as discussões sobre o Plano Diretor de Aracaju? Cadê a atuação da Ordem no tão midiatizado Fórum contra a Violência? Quantas reuniões tiveram? Quais foram as propostas concretas da Ordem para o atendimento aos direitos fundamentais dos cidadãos nos últimos três anos?”, reforça.

Numa análise mais política do processo sucessório da Ordem, Carlos Augusto Monteiro Nascimento admite que há espaço para interação com Arnaldo Machado, o conselheiro federal da gestão de atual que rompeu rumorosamente com Henri Clay e com a base da qual ele veio, que é a mesma de Inácio Krauss, vice-presidente, e de Aurélio Belém do Espírito Santo, o primeiro secretário.

“Todo e qualquer advogado, conselheiro, membro de Comissão, que se alinhe com os nossos propósitos será sempre muito bem-vindo. Queremos ética, respeito, valorização do advogado. O conselheiro Arnaldo Machado é homem de uma inteligência reconhecida por todos e, claro, ele e seus aliados, irmanando-se nos princípios e objetivos que acreditamos, poderão se juntar a nós nessa caminhada”, diz.

Mas ao ex-aliado Inácio Krauss, Carlos Augusto faz uma leitura menos apreciativa. Acha que IK, como o chama, rompeu com ele sem razão aparente e hoje claudica na firmação de uma liderança no novo espaço que ocupou ao lado do atual presidente.

“IK peca pela omissão. É bom homem. Sério, gente boa, maleável, amigueiro, fez um excelente trabalho na Caixa de Assistência nas minhas duas gestões, mas infelizmente não possui o perfil e a postura firme que o cargo exige e impõe”, diz.

PARA EVITAR A DESCONSTRUÇÃO DA OAB
“Hoje verifico que tudo que foi feito vem sendo desconstruído e em descompasso com tudo que acreditamos e valorizamos na entidade que respeitamos. Posso testemunhar o momento ruim sem precedentes que a advocacia vive atualmente”

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Carlos Augusto e Henri Clay já comeram no mesmo cocho
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Nasceu em julho de 1963 , na cidade do Rio de Janeiro

“NÃO BUSCÁVAMOS HOLOFOTES E PIROTECNIA”
“Já sucedemos o gestor atual, e bem sabemos como recebemos a Ordem. Era o verdadeiro caos administrativo. Não tenho a menor dúvida de que o próximo gestor receberá em igualdade de condições anteriores à que recebi”

JLPolítica - Por que o senhor intenciona voltar ao comando da OAB/SE?
Carlos Augusto Monteiro Nascimento -
Inicialmente, é importante esclarecer que não se trata de uma vontade pessoal. Temos um grupo formado por centenas de advogados com afinidades de propósitos e objetivos, que desde a eleição passada permanece unido e invariavelmente se reúne preocupado com os destinos de nossa profissão. Após diversas reuniões restou deliberado o meu nome, por reunir as condições objetivas e subjetivas exigidas para uma pré-candidatura. De minha parte, a força e responsabilidade que me conduz é saber que dei o melhor de mim à frente da instituição, e hoje verifico que tudo que foi feito vem sendo desconstruído e em descompasso com tudo que acreditamos e valorizamos na entidade que amamos e respeitamos. Sou advogado militante, portanto, também sofro diuturnamente e posso testemunhar o momento ruim sem precedentes que a advocacia vive atualmente.

JLPolítica - Qual a diferença elementar da gestão destes últimos três anos da Ordem para a dos seis comandados pelo senhor até o fim de 2015?
CAMN -
Nos seis anos, trabalhamos muito. Já sucedemos o gestor atual, e bem sabemos como recebemos a Ordem. Era o verdadeiro caos administrativo. E não tenho a menor dúvida de que o próximo gestor receberá a entidade em igualdade de condições anteriores à que recebi. Porém, não buscávamos holofotes e pirotecnia. Entre holofotes e resultados, optamos sempre pelos resultados. Nosso principal propósito sempre foi equilibrar as ações corporativas e institucionais. E conseguimos. Enquanto presidente, eu tinha a exata dimensão e respeito pelo Conselho Seccional e também pelas Comissões Temáticas. Todas as matérias, senão as emergenciais, raríssimas exceções, antes da deliberação da Diretoria, tinham essa tramitação normal. Talvez por isso, as sessões do Conselho tinham uma frequência superior a 70% do quórum, e invariavelmente acabavam depois da meia noite, chegando ir até mesmo às 3h da manhã em algumas oportunidades.

JLPolítica – O Conselho tinha as suas funções mais preservadas?
CAMN
- O Conselho era ouvido e era respeitado. A democracia era a tônica das nossas discussões. Hoje, ao contrário, para se ter quórum, durante as sessões, a Diretoria precisa ficar ligando para os membros comparecerem para ao menos completar. As sessões se encerram invariavelmente às 21h. Os assuntos são levados seletivamente. Os conselheiros não se sentem representados, respeitados, ouvidos. Enfim, na maior parte das vezes os temas midiatizados pela Diretoria não passam pela análise e deliberação do Conselho. Isso já ocorria nas duas gestões anteriores do atual presidente e já era previsto esse desencanto pelos conselheiros. Os desagravos, tão decantados pela atual Diretoria, hoje são feitos em sessão interna. Em nossa gestão, os desagravos eram feitos no local em que o advogado foi efetivamente ofendido, sobretudo para demonstrar ao ofensor a força da nossa instituição. Teria uma infinidade de coisas para comparar. Diria aqui que caberia uma entrevista exclusiva só para esse tema.

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Preferiu Sergipe para fazer sua carreira no Direito

“O CONSELHO ERA OUVIDO E ERA RESPEITADO”
“Os assuntos são levados seletivamente. Os conselheiros não se sentem representados, respeitados, ouvidos. Na maior parte das vezes os temas midiatizados pela Diretoria não passam pela análise e deliberação do Conselho”

JLPolítica – Quais os pontos do programa da campanha de 2015 apresentados em nome da futura gestão de Henri Clay Andrade não foram aplicados até agora?
CAMN
- O mote central da campanha passada foi “resgate”. Como eu era presidente, tinha a dimensão e respeito a liturgia do cargo. Tive que escutar e me silenciar em diversas oportunidades sobre inverdades e ofensas proferidas contra mim e a minha gestão. Pintaram um quadro que não refletia a verdade. Mas nada como o tempo. O tempo é o senhor da razão. As mentiras foram sendo descortinadas.

JLPolítica – E o resgate resultou em quê?
CAMN -
O que resgataram foi tudo o que não prestava nas duas gestões anteriores, que tinha à frente o atual presidente. Infelizmente, seu modelo de gestão é arcaico, provinciano, retaliador, antidemocrático e meramente midiático e demagógico. Eu disse “modelo de gestão”, porque não quero pessoalizar o debate. Se proliferaram os advogados recebendo ninharias para fazer audiências, sobretudo no interior do Estado. Os alvarás voltaram a ser liberados somente à parte, ante a desconfiança generalizada por parte dos magistrados aos advogados, fruto da impunidade e leniência da Ordem no tocante ao rigor ao cumprimento do Código de Ética. Hoje precisamos conviver com fotografias lançadas em redes de zap mostrando filas de dezenas ou centenas de advogados para se cadastrarem para atuação na defensoria dativa, como aconteceu em Itabaianinha. Os jovens advogados não querem apenas compor Comissões onde não trabalham, não existe uma única reunião. Querem participar ativamente, se sentir advogados e integrantes da instituição, de verdade, e não apenas para aparecer na foto com o presidente no ato da posse. O protagonismo social tão anunciado e esperado não aconteceu. Matérias tão caras à sociedade passaram ao largo da Ordem. Cadê a Ordem na CPI do lixo? Cadê as discussões sobre o Plano Diretor de Aracaju? Cadê a atuação da Ordem no tão midiatizado Fórum contra a Violência? Quantas reuniões tiveram? Quais foram as propostas concretas da Ordem para o atendimento aos direitos fundamentais dos cidadãos nos últimos três anos?

JLPolítica - Mas segundo o grupo que atualmente comanda a Ordem, a sua gestão também deixou o protagonismo do advogado sergipano ao rés do chão. Qual é a sua versão disso?
CAMN –
É importante destacar que as eleições passadas foram atípicas, e espero que essa recordação negativa passe longe do pleito deste ano. Os advogados e advogados, os cidadãos, a sociedade não merecem reviver aquela guerra que deixou sequelas. O baixo nível foi tamanho, que até perfil fake foi criado por membro da chapa adversária.

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É cidadão sergipano outorgado pela Alese

UM HENRI CLAY ARCAICO E PROVINCIANO
“O que resgataram foi tudo o que não prestava das duas gestões anteriores, que tinha à frente o atual presidente. Infelizmente, seu modelo de gestão é arcaico, provinciano, retaliador, antidemocrático e meramente midiático e demagógico”

JLPolítica – Foi uma campanha que exorbitou as tradições da Ordem?
CAMN –
Foi criado um cenário inexistente. Tivemos que conviver com um palanque literalmente armado à frente da Ordem (como se estivéssemos em campanha político partidária – embora hoje tenhamos a explicação para aquilo). A relação institucional da Ordem com as demais entidades dos três poderes era perfeita. Respeitávamos e éramos respeitados. Quando havia algum problema de ferimento à prerrogativa do advogado, íamos à Corregedoria competente e tentávamos, através do diálogo, resolver da forma mais branda possível. Se não fosse resolvido, representávamos como efetivamente ocorreu. Diversos foram os desagravos feitos em favor dos advogados. Durante a próxima campanha tudo será devidamente esclarecido, e o advogado terá o discernimento para saber quem mentiu durante a última campanha. Como disse, nada como o tempo.

JLPolítica – Qual é a tradução de “a OAB está nas páginas policiais em forma de escândalo”, como o senhor tem dito ultimamente?
CAMN –
Não sou eu que digo. São os fatos relatados no nosso cotidiano, em emissoras de rádio, programas de televisão, jornais, portais, grupos de zap. Denúncias diárias de locupletamento por parte de advogados em detrimento de seus clientes sem uma ação efetiva da Ordem. Não se pode trocar apoio político por leniência na atuação disciplinar. Estamos vivendo um momento de crise ética e moral no país sem precedentes. E a Ordem precisa voltar a ser referência. A Ordem que é uma das instituições mais respeitadas do Brasil precisa dar o exemplo.

JLPolítica – E deve começar por onde?
CAMN –
Para a Ordem ter legitimidade e apontar o dedo para qualquer outra instituição, ela precisa primeiro fazer o seu dever de casa, sob pena de o seu discurso cair no vazio. E é isso vem ocorrendo. A impunidade gera esse tipo de desconfiança, e na ponta da linha quem sofre é o advogado sério, honesto, responsável e, mais ainda, aquele recém-chegado à profissão. Temos uma advocacia limpa e ética, mas precisamos separar bem o joio do trigo. Os bons dos maus, sobretudo para privilegiar os bons. Precisamos, sim, ser implacáveis com o rigor ético. Mas, claro, sempre respeitando o contraditório, o devido processo legal, a ampla defesa. Só desse jeito poderemos reverter o atual quadro de desvalorização e de desrespeito da profissão.

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“Sou advogado militante, portanto, também sofro diuturnamente ”, diz

UM OAB DOS CADÊS SEM RESPOSTA
“O protagonismo social tão anunciado não aconteceu. Cadê a Ordem na CPI do lixo? Cadê as discussões sobre o Plano Diretor de Aracaju? Cadê a atuação da Ordem no tão midiatizado Fórum contra a Violência?”

JLPolítica - O senhor vê possibilidade de incorporação do advogado e conselheiro federal Arnaldo Machado e os demais dissidentes da Ordem aliados a ele ao seu projeto de retorno?
CAMN -
Todo e qualquer advogado, conselheiro, membro de Comissão, que se alinhe com os nossos propósitos será sempre muito bem-vindo. Nossa linha de atuação é muito bem definida. Queremos ética, respeito, valorização do advogado. Que sirvamos à Ordem e não nos sirvamos dela. O conselheiro federal Arnaldo Machado, hoje dissidente, mas que ainda faz parte da gestão atual, é homem de uma inteligência reconhecida por todos, e, claro, ele e seus aliados, irmanando-se nos princípios e objetivos que acreditamos, poderão se juntar a nós nessa caminhada.

JLPolítica - O que o senhor teria a oferecer de diferente à advocacia sergipana em relação às suas duas gestões no comando da OAB?
CAMN –
Olhe, fomos aprovados por duas vezes. A segunda, por recondução em chapa única, com o maior índice de comparecimento às eleições - 78%. Naquela oportunidade, a pesquisa nos deu 85% de aprovação. Ficamos ranqueados como a quinta melhor seccional em nível de satisfação. Nosso compromisso assim que assumimos foi unificar a advocacia em torno de um só projeto.

JLPolítica - De que forma isso se deu?
CAMN –
Trouxemos para dentro da Ordem membros dos grupos de Emília Corrêa e Eduardo Macedo, meus adversários à época. Isso não ocorreu com a atual gestão. O índice de comparecimento nas últimas eleições representou quase a metade do eleitorado. Com a soma dos votos, as duas chapas adversárias ganhariam a eleição, o que denota a pseudolegitimidade do atual presidente. Ele fez o caminho inverso.

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“Cadê a Ordem na CPI do lixo? Cadê as discussões sobre o Plano Diretor de Aracaju?", questiona

HÁ ESPAÇO DE ACOLHIDA A ARNALDO MACHADO
“Nossa linha de atuação é muito bem definida. Queremos ética, respeito, valorização do advogado. Que sirvamos à Ordem e não nos sirvamos dela. Arnaldo Machado e seus aliados, irmanando-se nos princípios que acreditamos, poderão se juntar a nós nessa caminhada”

JLPolítica - Como assim?
CAMN –
Na noite da vitória, tive o desprazer de ter um trio elétrico na porta do meu apartamento com músicas ofensivas ao meu caráter, entrevistas raivosas e com expressões impróprias a quem ocupa uma cadeira de presidente de Ordem. Recebi a deselegância de nem ao menos ser convidado para a transmissão do cargo, e só pude ver minha foto aposta na galeria dos ex-presidentes após dois anos e cinco meses de gestão, em solenidade que se não levasse meus amigos, seria solitária.

JLPolítica – O senhor acusa a existência de revanche de parte da atual Diretoria da OAB?
CAMN -
Sim. Mas não se faz política com revanchismo. Com ódio e com rancor. Faz-se com amor, com o perdão, com a amizade, com a ética, com o respeito e, inclusive, com os adversários circunstanciais, pois todos somos advogados. E isso não será diferente na hipótese de meu retorno à Ordem. Com 12 mil advogados inscritos em Sergipe, temos muita gente querendo trabalhar por uma Ordem melhor. Quero trabalhar com todos e para todos. Trabalhar de verdade. A Ordem é de todos nós, advogadas, advogados, estagiários, estudantes de Direito. Dos cidadãos sergipanos e brasileiros.

JLPolítica – Em tese, não seria mais legítimo que fosse Rose Morais a candidata e não o senhor?
CAMN -
Somos pré-candidatos a presidente e ela a vice-presidente. Como todos bem sabem, Rose concorreu as últimas e honrou muito bem o nosso grupo. Nos mantivemos literalmente unidos durante todo esse tempo. Nossa interlocução com o grupo e com os advogados de uma forma geral nunca foi interrompida. Apenas optamos em não fazer uma oposição ostensiva, sobretudo diante das feridas não cicatrizadas e sequelas deixadas pelo pleito passado. Apesar da descrença, torcemos muito para que a atual gestão cumprisse ao menos um pequeno percentual de tudo o que foi prometido. Porém, o cenário é outro. Caótico. Os advogados sergipanos estão com sua autoestima baixíssima, desesperançosos, e desacreditando na profissão. Diante desse quadro, seria mais que legítima a candidatura de Rose, seja pelo número de votos (42,56% contra os 44,90%), seja postura firme e destemida que adotou durante o processo eleitoral.

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Ergue um arsenal de críticas duríssimas a todo o legado da gestão de Henri Clay

DA RETALIAÇÃO QUE RECEBEU DE HENRI CLAY
“Recebi a deselegância de nem ao menos ser convidado para a transmissão do cargo, e só pude ver minha foto aposta na galeria dos ex-presidentes após dois anos e cinco meses de gestão, em solenidade que se não levasse meus amigos, seria solitária”

JLPolítica – Mas, no entanto, porém...
CAMN -
No entanto, mesmo diante da insistência de muitos, Rose não aceitou, por uma série de circunstâncias pessoais e profissionais que a impediriam de participar no grau de intensidade e dedicação de 2015. Mas, por considerar fundamental e necessária a presença e participação da mulher no processo democrático da Ordem, ela vem para a chapa nessa compartilhamento de liderança. Para nós, a participação da mulher vai muito além do que uma política de cotas ou mesmo numa jogada de marketing para contrapor candidatas mulheres na disputa. Queremos tratar a presença das mulheres no processo político e eleitoral da Ordem e na efetiva ocupação de espaço de decisão dentro da nossa instituição. E essa ocupação de espaço é prioridade e condição intransigível entre nós. Por isso, estamos nessa disputa, juntos, de mãos dadas.

JLPolítica – O senhor já definiu quem fará o marketing da sua pré-campanha e depois da campanha?
CAMN -
Não. Estamos ainda em fase de reorganização do grupo, aglutinação de forças e divulgando nosso propósito em recolocar a Ordem em seu devido lugar.

JLPolítica - A eleição da Ordem dentro do mesmo espaço temporal das eleições gerais do Brasil e do Estado de Sergipe gera algum tipo de prejuízo?
CAMN -
São eleições diferentes. Como disse acima, temos o compromisso de dar um bom tom nas próximas eleições. Nós advogados não podemos permitir que o bom nível das discussões passe longe dos debates e propostas. Com o desequilíbrio verificado nas eleições passadas, todos perdemos. A Ordem perdeu, os advogados perderam, e a sociedade também. A política, como a vida, precisava ser reinventada, redefinida, ressignificada. Precisamos conclamar os advogados a se interessarem pelo nosso pleito, e isso também passa pelo aumento de comparecimento às eleições.

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"Quem se alinhar com os nossos propósitos será sempre muito bem-vindo", convida

POR UMA POLÍTICA DA PAZ E AMOR
“Não se faz política com revanchismo. Com ódio e com rancor. Faz-se com amor, com o perdão, com a amizade, com a ética, com o respeito e, inclusive, com os adversários circunstanciais, pois todos somos advogados”

JLPolítica - Quem é esta advogada lagartense que teria embolsado R$ 100 mil de um cliente e que faz parte da Executiva da OAB?
CAMN -
Como disse, não irei pessoalizar o debate. Os processos disciplinares são sigilosos, mas a Ordem precisa dar resposta às vítimas e a sociedade. Quem paga o preço pela impunidade somos todos nós que procuramos fazer uma advocacia séria, limpa e ética, e posso garantir que é a expressiva maioria dos advogados sergipanos. Infelizmente, voltamos à era em que os advogados são sentenciados moralmente nas emissoras de rádio. Isso gera desconfiança e desvalorização para todos os advogados indistintamente.

JLPolítica - Qual o modelo ideal para as punições por desvio na OAB?
CAMN -
Não pode existir tramitação diferenciada e seletiva de processos éticos disciplinares, deixando prescrever ou mesmo retardar processos de apoiadores, conselheiros, ou até de amigos. A condução tem que ser impessoal, com tratamento igualitário para todos os advogados, sempre resguardado o amplo direito de defesa, claro. Um dos males do nosso país, inclusive apontado pela própria OAB, é o corporativismo. Mas como dito antes, o exemplo tem que vir de casa.

JLPolítica – O senhor aponta para um relaxamento nas questões éticas. E isso é grave. Tem exemplos concretos?
CAMN -
Com questões éticas não se negocia. Advocacia ética é sinônimo de advocacia respeitada.

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"Queremos ética, respeito, valorização do advogado", diz

ELEIÇÕES NA QUAIS TODOS PERDERAM
“Com o desequilíbrio verificado nas eleições passadas, todos perdemos. A Ordem perdeu, os advogados perderam, e a sociedade também. A política, como a vida, precisava ser reinventada, redefinida, ressignificada

JLPolítica – O senhor identifica erro no alinhamento do grupo liderando pelo advogado Inácio Krauss em 2015 ao de Henri Clay?
CAMN -
Fizemos uma gestão compartilhada com Inácio Krauss, que chamamos de IK. Eu à frente da OAB e ele, da Caase. Criei a Comissão de Esportes e a iniciativa de fomentar o esporte como espaço de integração entre os advogados. Assistia a isso nas outras seccionais antes de presidir a Ordem, e resolvi desenvolver isso em Sergipe. Nomeei IK como minha pessoa de confiança para ser meu representante nesta empreitada. Após intenso trabalho em Brasília, consegui trazer o Campeonato Nacional para cá. Novamente deleguei a ele, para, em conjunto, desenvolvermos esse projeto. Ineditamente, franqueei-lhe a palavra na posse da Presidência (nunca aconteceu). Portanto, sempre o tive como pessoa da minha mais alta confiança. Nunca tivemos uma conversa franca e objetiva em que eu tivesse falado que ele não seria meu candidato à sucessão. Surpreendi-me quando o recebi anunciando que seria candidato em oposição a mim. O tempo passa e as informações chegam. As mesmas pessoas que o estimularam a romper injustificadamente comigo foram as que frustraram ou trabalharam contra a candidatura a presidente no pleito passado. E hoje, tudo se repete.

JLPolítica - Qual é o seu conceito da figura de Inácio Krauss, não como um advogado, mas como um líder de classe?
CAMN -
IK é bom homem. Sério, gente boa, maleável, amigueiro, fez um excelente trabalho na Caixa de Assistência nas minhas duas gestões, mas infelizmente não possui o perfil e postura firme que o cargo exige e impõe. Os embates são inúmeros, sobretudo para colocar a advocacia em seu devido lugar. IK peca pela omissão. Durante todo esse tempo, apesar do compromisso firmado pelo seu líder, ficou na *sombra. Não se posicionou em absolutamente nada. Assiste a todas essas mazelas relatadas nesta entrevista sem se insurgir em qualquer momento. Assiste estático e contrariando seus aliados a tudo que o seu líder faz ou mesmo não faz. Até mesmo o sonho de ter um prédio próprio como sede da Caixa de Assistência, na Coroa do Meio, prédio comprado durante nossa gestão, foi sucumbido por ele, a fim de atender os anseios de seu hoje líder político.

JLPolítica - O que é que vai além de apenas um palpite na sua opinião de que IK, como o senhor o chama, não será o candidato oficial de Henri Clay à sucessão dele este ano?
CAMN -
Seja pelos comentários dos membros que participam da gestão, seja pelos corredores dos fóruns, seja pelos seus próprios aliados, todos já tem isso como certo. É só uma questão de tempo para acontecer essa implosão. Prova disso, e já dito por mim neste Portal, é que para se candidatar ao Senado o atual presidente teria que ter renunciado e não se licenciado, como efetivamente ocorreu. IK hoje não tem sequer autonomia de formar sua chapa. Tem que esperar o dono da cadeira voltar e delimitar o espaço de cada um. Além disso, já existem articulações paralelas, formuladas por integrantes do núcleo duro do atual presidente para se fortalecerem o suficiente para novamente IK desistir de seu sonho com o argumento que sua campanha não evoluiu. Essa leitura anunciada por mim hoje já é vista com clareza por muitos.

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Diz que o presidente em exercício, Inácio Krauss, peca pela omissão

ADVOGADOS SENTENCIADOS POR PROGRAMAS DE RÁDIO
“Quem paga o preço pela impunidade somos todos que procuramos fazer uma advocacia séria, limpa e ética, e posso garantir que é a expressiva maioria dos advogados sergipanos. Infelizmente, voltamos à era em que os advogados são sentenciados moralmente nas emissoras de rádio”

JLPolítica – O senhor já tem os três nomes para a disputa dos postos de conselheiros federais da sua pré-chapa?
CAMN -
Nosso grupo é formado por valorosos e qualificados advogados. Não discutimos cargos neste momento. Não existe cadeira cativa pra ninguém. Minha pré-candidatura não foi imposta. Foi uma decisão coletiva e de um grupo que não é subserviente. Todos tem direito a voz e voto. Aqueles que se aliam ao nosso projeto confiam na nossa história, pelo que fizemos na Ordem, em nossos propósitos, nosso discurso, e concluíram que tudo que pregávamos efetivamente aconteceu.

JLPolítica – É lícito imaginar que deve ser bom e profissionalmente proveitoso deixar o escritório pessoal para ir tocar os destinos coletivos da Ordem, como tenta fazer o senhor pela terceira vez?
CAMN -
Temos compromisso, respeito e amor com nossa profissão e nossa instituição. Não podemos ficar impassíveis e omissos com o atual estágio em que vive a advocacia e a nossa entidade. Tudo o que fizemos e no que acreditamos está sendo destruído. Isso não podemos permitir. A covardia e a omissão não se coadunam com o verdadeiro espírito do advogado.

JLPolítica - O senhor usou em que grau a Ordem para impulsionar a sua carreira profissional?
CAMN -
Sergipe é um Estado pequeno e aqui todos se conhecem. Tenho 32 anos de profissão, todos exercidos aqui. Minha história fala por si só. Aquele que entra na Ordem pensando nisso, já entra pela porta errada. A instituição é maior que nós. Nós passamos, a instituição fica. E tem que ficar melhor que nós. Mas devo reconhecer que essa relação com a Ordem me deu um ganho extraordinário para procurar ser uma pessoa melhor, pensar no próximo, respeitar as opiniões contrárias, exercitar o desapego, pois não é uma atividade remunerada, e sobretudo desenvolver um amor incontido e infinito por ela.

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“Se proliferaram os advogados recebendo ninharias para fazer audiências", queixa-se

DOS PECADOS DE INÁCIO KRAUSS
“IK é bom homem. Sério, gente boa, maleável e amigueiro. Mas infelizmente não possui o perfil e postura firme que o cargo exige e impõe. IK peca pela omissão. Durante todo esse tempo, apesar do compromisso firmado pelo seu líder, ficou na sombra”

JLPolítica – Por que o senhor criminaliza tanto a opção política-eleitoral de Henri Clay Andrade em sua disputa pelo Senado?
CAMN -
Isso não é uma verdade. Apenas não comungo da ideia de ele utilizar a instituição como instrumento principal para o seu desejo pessoal. Esse desejo não é novo. Quando das discussões nas eleições passadas, afirmamos que isso iria acontecer. Essa situação foi ensaiada em sua quase pré-candidatura a prefeito em 2012. E isso se confirmou agora. Temas foram midiatizados sem consulta prévia ao Conselho Seccional. A denúncia do conselheiro federal Arnaldo Machado, aqui mesmo nesse Portal JLPolítica, foi grave. Sem qualquer deliberação do Conselho Seccional, os conselheiros foram orientados a não participar da sessão do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Sem qualquer deliberação do Conselho, o pedido de impeachment de Temer foi superdimensionado. Não podemos admitir uma Ordem partidarizada. Uma Ordem que sirva como trampolim para qualquer agremiação partidária. Defendemos uma Ordem sem partido, sem influência e sem aparelhamento de partidos políticos, seja qual for. Queremos nossas prerrogativas atendidas e valorizadas. Queremos uma Ordem forte. Como dito, a Ordem tem que ser maior que nós.

JLPolítica – Mas não seria importante que, através de Henri Clay, a advocacia de Sergipe e a brasileira tivessem uma representação no Senado?
CAMN -
Claro que não é proibida a política na Ordem, até porque nossa atividade é política. Mas ela não pode ser partidarizada. Nossas energias têm que estar voltadas para os interesses da instituição. Procurar ser capa de jornal discutindo intervenção militar no Rio de Janeiro, enquanto aqui em nossa casa os índices estatísticos mostram Sergipe como o Estado mais violento do Brasil, sem que não se veja qualquer discussão concreta, propostas objetivas, demonstrações claras com o problema, não nos parece ser a preocupação da atual gestão. Só discurso, e pouca efetividade e contribuição. Precisamos, sim, alguém que defenda as nossas bandeiras, sempre.

JLPolítica - Qual é a sua concepção da atividade política?
CAMN -
A política faz parte de nossa vida. Todos, de alguma forma, usam a política, inclusive dentro de nossas próprias casas, no nosso trabalho. Isso é elementar. Mas falando sobre política em sentido macro, precisamos enxergar a política em favor do coletivo. Abrirmos mão dos nossos próprios interesses em favor de um plano maior. Entendo política em que se dê espaço para todos se envolverem, discutir e decidir. Fiz minha opção na eleição passada, quando deixei o pseudoconforto de decidir os destinos da Ordem em uma sala fechada e ampliar esse espaço com aqueles que efetivamente contribuíram diuturnamente comigo, trabalhando muito. Nosso país tem que discutir política, diariamente, e não politicagem. Precisamos trabalhar, e muito, para reverter essa crise que nos assola. Discurso bonito, esbravejado, mas sem essência prática, não nos leva a lugar nenhum. O tempo e a história nos mostra isso.

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É casado com Ana Karla Bispo

ARTICULAÇÕES PARA IK DESISTIR DO SONHO
“IK hoje não tem sequer autonomia de formar sua chapa. Tem que esperar o dono da cadeira voltar e delimitar o espaço de cada um
. Já existem articulações formuladas por integrantes do núcleo duro do atual presidente para novamente IK desistir de seu sonho”

JLPolítica - Quando o senhor abre fogo contra o projeto político-eleitoral de Henri Clay não estaria desconsiderando que boa parte da advocacia sergipana endossa esta opção dele? 
CAMN -
Não esqueço que fiz parte do alinhamento político do pré-candidato ao Senado. Portanto, conheço todas as suas estratégias e movimentos. Seu atual objetivo não é uma vontade soberana e muito menos da maioria de sua classe. Prometendo mundos e fundos no pleito corporativo passado, não obteve a maioria, como já registrado aqui. Não é agora, em que todas as suas promessas não foram cumpridas, que terá essa unidade em torno de seu projeto pessoal. Para isso, também não procurou unir a classe. Ao contrário, só fomentou mais divisão.

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Com os filhos: Rodrigo, hoje, tem 12 anos. Heitor já completou seu primeiro ano de vida