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Entrevista

Jozailto Lima

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Carlos Cauê: “Não sou marqueteiro que acho que ganhei a eleição”

Publicado em 10  de novembro de  2018, 20:00h

“Belivaldo Chagas tem um tirocínio político incrível”

Quando se fala em eleições em Sergipe, ele é imediatamente associado à alegria de uns e ao terror de outros. Não disputa pleito algum, mas há 30 anos põe açúcar na competição de determinadas candidaturas e soda cáustica na de outras. Erige alguns tantos ao panteão dos vencedores e leva à ruína muito mais outros.

Ele é Carlos Cauê, um quase químico, um jornalista por formação e marqueteiro político por profissão de fé. Ele nasceu no dia 15 de julho de 1961 em Maceió, Alagoas. Pelos caminhos da educação superior, há 38 anos foi convertido num sergipano empedernido, e há três décadas é uma espécie de exterminador profissional de sonhos das gentes que aspiram virar prefeito de Aracaju ou governador de Sergipe. Mas um agente do sucesso dos que chegam lá.

Nos últimos dias 7 e 28 de outubro, Carlos Cauê acabou de liquidar mais uma fatura no campo político, ao ver sagrar-se reeleito com 679.051 votos, ou 64,72% dos válidos, o governador de Sergipe, Belivaldo Chagas, PSD, que desde a pré-campanha “foi um produto” do marketing político liderado por ele e uma reconhecida equipe.

Mas que ninguém pense que esse Carlos Cauê, que ganha campanhas eleitorais em Sergipe desde que fez a primeira delas, a de Wellington Paixão à Prefeitura de Aracaju lá em 1988, carrega por aí, com o peito estofado dos boçais, a ostentação de um vencedor.

Ao contrário. Apesar de saber do peso do seu papel e da sua importância nessa seara, Carlos Cauê encara tudo com uma razoável humildade e está longe de passar recibo como um triunfalista raso. “Não sou marqueteiro que acho que ganhei a eleição. Quem ganha a eleição são os candidatos. Eu não estou disputando nada”, diz ele.

Para Carlos Cauê, nessas horas eleitorais é preciso ter a compreensão do trabalho braçal e sobretudo intelectual que o marketing político exige de quem se atraca com esta áspera atividade. “Eu estou trabalhando. Dando o meu melhor possível para potencializar a imagem do candidato. Para realçar suas características, para mostrar aquilo que ele tem de melhor. Para mostrar o projeto que ele tem para sociedade”, diz ele.

Carlos Cauê defende que isso, no entanto, não pode ser feito apenas com a colher dourada da boa-vontade. Do empirismo. “Eu sempre que posso, busco estudar. Eu não acredito, inclusive, em empirismo nessa área. Acho que marketing é uma técnica calcada em várias ciências. Você precisa estudar e entender essas ciências”, avisa ele.

“Estudar o comportamento do eleitor, sociologia, psicologia, antropologia. Não dá para fazer campanhas por insight. “Ah, tive um insight aqui”. Não é assim. Isso talvez tenha valido a pena lá atrás. O marketing político no Brasil é respeitadíssimo lá fora. Os profissionais daqui são exportados para fazer campanha lá fora. Por que? Porque levam a sério o trabalho”, diz.

Para Cauê, o seu principal “produto” deste ano, a figura pública de Belivaldo Chagas, foi uma mão na roda para o seu trabalho. “A melhor característica dele é ser o que ele é. É ser como ele é enquanto homem, ser humano, político. Enquanto gente. Isso é o maior cabedal dele. É o patrimônio dele”, diz Cauê.

Na comparação com outros candidatos com os quais trabalhou o marketing político, como Marcelo Déda e Jackson Barreto, Cauê aponta Belivaldo Chagas como o mais maleável. “Exatamente por ainda estar se construindo, ouviu mais, entendeu mais, se colocou de forma muito humilde. Não que ele tivesse atitude de Maria vai com as outras. Não. É um homem de opinião, que pensa, que reflete, que tem um tirocínio político incrível. Mais do que muita gente pensa e acha que tem. Mas ele se predispôs, disse assim: “Olhe, estou nessa empreitada, estou chegando agora, é a primeira vez que estou vivendo esse tipo de coisa, vou deixar””, diz Cauê.

Carlos Cauê era um menino de 19 anos quando pôs os pés em Aracaju em 1980. Não era uma ave de arribaçã, como alguns jovens do começo daquela década, e chegou para uma causa nobre: estudar Engenharia Química na Universidade Federal de Sergipe.

Trouxe da sua Maceió um invisível cartão de apresentação para os comunistas sergipanos que, como os demais do Brasil inteiro, viviam no limbo da clandestinidade - era a ditadura militar ainda que sob seus últimos suspiros, sob a batuta do general João Batista de Figueiredo.

Foi aí que Cauê conheceu Edvaldo Nogueira, Ilka Bichara, Álvaro Vilela, Cecília Tavares, José Araújo de Santana e José Carlos Pessoa – todos imbuídos em alimentar os subterrâneos da resistência do PC do B. Na UFS, Cauê foi contemporâneo de Marcelo Déda, que fazia Direito, e se envolveu na política estudantil, presidindo o Caleq - Centro Acadêmico Livre de Engenharia Química - e o DCE - Diretório Central da UFS.

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O seu berço é Maceió, capital alagoana. Mas a capital sergipana o adotou como filho: ele foi aos prantos
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É um babão de Fernanda Rabelo, a filha de 27 anos

UMA EXPLICAÇÃO PARA AS NOVIDADES DE 2018
“Nós vivemos anos e anos numa dicotomia PSDB e PT, e parecia que não existia um mundo além disso. A sociedade nossa é maior do que isso. É plural e complexa. E permitiu que aquilo que estava embaçado por esse binômio emergisse agora”

JLPolítica - Qual a leitura que o senhor faz das tantas surpresas nos resultados desta eleição?
Carlos Cauê -
Acho que é o resultado efetivo das transformações que a própria sociedade brasileira vem vivendo. Nós tivemos em 2013 um grande aquele movimento, marchas, gritos da sociedade ainda meio desordenada, ainda sem saber bem o que queria dizer, mas um recado muito claro já estava ali: “Nós não estamos contentes com o que está acontecendo”. Não se materializou nada em 2014 e nem em 2016. Acho que agora em 2018 foi o grande momento dessa materialização. Em 2014, até pode-se ter tido alguns momentos. Em 2016, também, mas esparsos. O grande momento de materialização foi agora. O principal fator foi a necessidade grande de renovação que a sociedade brasileira está vivendo.

JLPolítica - O senhor diria que havia algo dicotômico pedindo pra ser rompido?
CC –
Sim. Nós vivemos anos e anos numa dicotomia PSDB e PT, e parecia que não existia um mundo além disso. Parecíamos até o Estados Unidos, no embate entre Democratas e Republicanos. E a sociedade nossa é maior do que isso, do que essa dicotomia. É plural e complexa. Ela permitiu que aquilo que estava lá no fundo, embaçado por esse binômio, emergisse agora.

JLPolítica - Aqueles 202 mil votos de frente de Belivaldo Chagas do primeiro para o segundo turno constavam das suas probabilidades estatísticas?
CC -
Nessa proporção não, de jeito nenhum. Achávamos que ganharíamos a eleição com alguns pontos de diferença ali naquele turno. O que na verdade nos alertou e veio constatar outra coisa, que é importante naquela eleição, é a autenticidade. Na verdade, o valor da autenticidade. O valor do política que fala, olha e transmite confiança. Belivaldo começou a fazer isso no primeiro turno e consagrou-se no segundo turno.

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Chorou e vibrou, porque reconhecido como cidadão aracajuano

OS 202 MIL VOTOS DE FRENTE NÃO ERAM ESPERADOS
“Nessa proporção, de jeito nenhum. Achávamos que ganharíamos com alguns pontos de diferença ali naquele turno. O que na verdade nos veio constatar o valor da autenticidade de Belivaldo”

JLPolítica - Do ponto de vista do marketing político, quais as melhores e as piores características de Belivaldo Chagas?
CC -
A melhor característica dele é ser o que ele é. É ser como ele é enquanto homem, ser humano, político. Enquanto gente. Isso é o maior cabedal dele. É o patrimônio dele. Acho que, do ponto de visita negativo do marketing, Belivaldo Chagas é muito carrancudo. É de poucas palavras, que por um lado é bom e por outro, não o é. Ele poderia ser mais loquaz. Ele sorri pouco. Acho que isso pode, em algum momento, ter significado algum ruído negativo. Mas nada decisivo.

JLPolítica - Esse lado fechado dele transmite alguma ruindade de ordem pessoal?
CC – 
Não. Mas às vezes impede que as pessoas o vejam como ele é. Captem o bom dele. Acho que ser assim dá uma certa opacidade naquilo que ele é. Quando as pessoas o olham mesmo, quando ele permite se mostrar, como foi durante o processo eleitoral, sobretudo no primeiro e segundo turno, aí você vê que tem um homem sensível, muito humano, por trás daquela carranca, daquele homem sisudo que ele apresenta. Um homem senhor de si.

JLPolítica - Qual foi o peso da presença de Eliane Aquino como candidata a vice na chapa de Belivaldo Chagas?
CC -
Eliane Aquino foi uma amazona eleitoral. Ela teve um papel importantíssimo. Aliás, é preciso que se diga aqui que o nome de Eliane, inclusive, era cogitado para ser cabeça de chapa. E em alguns momentos ele era. Eliane tem um nível de simpatia muito grande distribuída pelo Estado. Isso é uma herança de Marcelo Déda na vida dela. Mas também é uma conquista dela pessoal, a partir das características, das qualidades dela. Das causas as quais ela se liga. Da militância que Eliane faz em sua vida. Do modo de ser como mulher, como gente.

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Quando o PcdoB padecia seus últimos dias de imposta ilegalidade, ele conheceu Edvaldo Nogueira

DA MELHOR CARACTERÍSTICA DE BELIVALDO
“É ser o que ele é. É ser como ele é enquanto homem, ser humano, político. Enquanto gente. Isso é o maior cabedal dele. É o patrimônio dele”

JLPolítica – Quem, entre ela e Belivaldo Chagas, tinha mais liga junto à sociedade sergipana no campo da imagem pessoal?
CC -
Ela é muito mais conhecida que o Belivaldo. O grau de reconhecimento a Belivaldo e a Eliane lá atrás era muito díspares de um para o outro. E a coligação começou a ver: “Pera aí, será que Belivaldo emplaca?”. Lembra que muita gente achava que não? Os adversários inclusive diziam que ele não ia sair do lugar e que ela poderia ser a candidata, tal o grau de aceitação. Qual era a minha dúvida pessoal enquanto homem de comunicação: “Eliane tem essa simpatia difusa, essa coisa bonita e tudo mais assim. Ok. Mas será que isso segura uma refrega de eleição?”. Enquanto ela está no plano do ok, a pole position está legal, mas será que lá na refrega, quando questionarem “o que você já fez por Sergipe, o que você construiu, quais são os serviços que você prestou a Sergipe, sobreviveria?”.

JLPolítica - O senhor que daria o quê como resposta?
CC -
Nesta seara, acredito que teríamos uma candidatura enfraquecida. Ela, certa e efetivamente, enfrentaria pessoas que já tinham mais serviços prestados a Sergipe do que ela, porque primeiro tem vida pública maior do que ela, trajetória política de serviços prestados a Sergipe maior. Nosso receio era esse e então nós lutamos e seguramos a bandeira de Belivaldo, tanto que em determinado momento ficou claro que não teríamos chances para plano B.

JLPolítica - Mas se o grupo decidisse por Eliane para candidata a governadora, o senhor acha que ela toparia?
CC - 
Acho que sim. Eliane é uma mulher de projeto, e é preciso louvar a atitude dela nessa eleição, porque ela poderia ter ido para uma candidatura de deputada federal, de senadora. Mas ela ouviu diversas pessoas, e eu inclusive cheguei a conversar com ela e a primeira coisa que eu disse: “Eliane, ninguém nessa coligação pode exigir nada mais de você. Você já deu muito e tem o direito de escolher o que você quiser. Agora, eu acho você melhor no papel de ser vice-governadora de Belivaldo”. E ela assim compreendeu.

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Saltou dos bancos acadêmicos da Engenharia Química e foi cata do canudo de jornalista

DA PIOR CARACTERÍSTICA DE BELIVALDO
“Acho que, do ponto de visita negativo do marketing, é muito carrancudo. É de poucas palavras, que por um lado é bom e por outro, não o é. Ele poderia ser mais loquaz”

JLPolítica - O senhor considera que Jackson Barreto foi imprudente ao ter ido a uma eleição de Senado?
CC
- Considero, sim. Veja: Jackson Barreto se preparou para não ser candidato a senador. A vida toda, foi para não ser mais candidato e, portanto, isso abriu a expectativa no nosso grupo de haver quatro vagas majoritárias. Quando mudou de ideia e resolveu ser candidato, Jackson eliminou uma dessas vagas, o que provocou o afastamento do PRB de Heleno Silva do nosso grupo. Ele errou na política. Acho que inconscientemente, inclusive, ele não queria ser o candidato. Tratou o Governo como não sendo mais candidato, e de última hora decide: “Vou ser candidato”. Isso tem um preço. Acho que a candidatura de Jackson, na verdade, é mais de um grupo de amigos, que fizeram pressão para que ele fosse, e de setores da família dele que precisam muito, que gostariam muito que ele fosse senador. A candidatura de Jackson ao Senado não foi uma decisão construída ao longo do tempo. Sabe aquela decisão que você toma de última hora? Foi uma dessas. Mas veja, recapitule: ele fez um Governo que, a partir dos problemas que teve, não conseguiu o que queria, mas um Governo probo, realizador. Mas é um Governo que ficou marcado, maculado, pelo não-pagamento dos salários dos servidores e isso tisnou qualquer avaliação sobre o Governo dele. Claro, aí vem a fala da oposição de que ele é o pior Governo da história. Mas nada disso. É um Governo que teve problemas como qualquer outro.

JLPolítica - Essa derrota de Jackson Barreto macula a biografia dele?
CC -
Uma derrota é sempre ruim. Mas não imagino que o macule. Jackson tem uma trajetória tão bonita no Estado, de resistência democrática importantíssima, tem um trabalho de construção, de serviços, de obras, de realizações, que o imuniza. Tem um patrimônio de realizações em Sergipe inegável. Não acho que saia maculado não.

JLPolítica - Da convivência que o senhor tem com Jackson Barreto, acredita que definitivamente ele se aposenta ou ele tenta alguma coisa lá na frente?
CC -
Marcelo Déda dizia que Jackson é um fenômeno da natureza contra o qual você não pode se opor. E eu digo que Jackson é um fenômeno da natureza, no sentido que você não pode prever o que ele vai fazer. Agora, não vou dizer o que acho que ele deveria fazer. Mas acredito que ele não vá continuar mais na política não.

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Alçou voo para uma bem sucedida carreira de comunicador social e de marqueteiro político

SENSÍVEL E HUMANO POR TRÁS DA CARRANCA
“Quando as pessoas o olham, quando ele permite se mostrar, aí você vê que tem um homem sensível, muito humano, por trás daquela carranca, daquele sisudo que ele apresenta. Um senhor de si”

JLPolítica - O senhor teria que explicação para a triunfante votação de Alessandro Vieira?
CC -
Acho que a eleição de Alessandro Vieira foi regida por alguns fatores. Não quero desmerecê-la. Pelo contrário, acho que é merecedor dos votos que recebeu. As pessoas que votaram nele, com certeza, o tinham como referência de uma aspiração de representação que ele encarnou. Mas acho que tem um aspecto histórico, que é aquilo que a gente começou falando no começo dessa entrevista. Aquele grande movimento de renovação que as pessoas desencadearam a partir de 2013. Acredito que ele foi o grande receptáculo disso. Segundo, o Senado, sobretudo, quando se disputam duas vagas, é o lugar onde a população se sente exatamente mais livre para experimentar. A população dá aquele seu voto de compromisso e no outro, arrisca. Faz aquilo que ela quer. Foi nessa seara que Sergipe elegeu, mesmo no auge de situações de dificuldades da oposição, Gilvan Rocha e José Eduardo Dutra. Tem outro fator também: muitos grupos políticos deliberadamente pediram o segundo voto para Alessandro, para evitar que o voto fosse para Valadares, Jackson ou para André Moura. Acho que setores da nossa própria coligação fizeram isso. Teve pessoas que despejaram voto no delegado Alessandro porque acharam, inclusive, que ele não iria vencer. Acho que tem uma parte significativa do PT que não votou em Jackson, setores da nossa própria coligação que não votaram em Jackson. Repito: não quero com isso desmerecer a vitória do delegado Alessandro. Creio que o principal vetor dele foi a necessidade de renovação que a sociedade deseja.

JLPolítica – Há de se colocar a eleição de Rogério Carvalho dentro do campo das surpresas? Estava se dando ele como derrotado?
CC – 
Não. Eu acho que ele construiu a vitória dele. Um candidato que começou mais cedo, que tinha uma causa, pauta inclusive bem definida, era Rogério Carvalho. Eu participei da pré-campanha dele. Lembro-me como hoje quando nós definimos que ele seria o senador de Lula. Nós combinamos e definimos que fazer campanha em defesa de Lula era o principal trunfo da candidatura dele. E ele fez isso em bairros de Aracaju, cidades do interior. Ou seja, ele foi construindo isso.

JLPolítica - Mas a candidatura de Rogério Carvalho não era uma causa do marketing seu?
CC
– Não. Digamos que trabalhei na pré-campanha e fiz uma consultoria informal na campanha, até porque a candidatura dele estava definida. Fez a pré-candidatura em defesa de Lula, e ele se alçou na disputa como o senador de Lula.

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A partir da primeira eleição de Déda, em 2006, alternou entre o comando do marketing das campanhas e a chefia da Secom dos Governos

ELIANE AQUINO FOI UMA AMAZONA ELEITORAL
“Ela teve um papel importantíssimo. É preciso que se diga que o nome de Eliane era cogitado para ser cabeça de chapa. Eliane tem um nível de simpatia muito grande distribuída pelo Estado. É uma herança de Marcelo Déda na vida dela”

JLPolítica - Na sua visão, qual a explicação para o tombo do senador Antonio Carlos Valadares?
CC -
Acho que em primeiro lugar, ele apostou num erro político. O senador errou a se isolar politicamente. Essa eleição é boa, inclusive, para mostrar ao senador Valadares que ele só obteve vitórias importantes quando estava com grupos fortes mantendo as candidaturas dele, do filho dele e tudo o mais. Ele alçou voos próprios e deu no que deu. Acho que nesse caso pesa também o processo de renovação da sociedade. Sergipe quis mandar para casa ele e Jackson Barreto – e contra isso não há remédio.

JLPolítica - De todos os ataques de segundo turno promovidos contra Belivaldo Chagas por Valadares Filho, qual teria sido o pior?
CC - 
O pior, do ponto de vista da ética, foi quando Valadares Filho tentou dizer que Belivaldo Chagas era um fazendeiro abastado, e mostrou, inclusive, uma fazenda usando uma imagem de um banco de imagens. Isso é de uma fraude terrível. Eu jamais pensei que Valadares Filho chegasse a esse ponto. E acho que a grande, a última grande fraude, foi ele soltar, a três dias das eleições e inclusive no dia das eleições, uma ferramenta ilegal que é o telemarketing, abordando as pessoas como se fosse fazer uma pesquisa e, no entanto, era um contrabando eleitoral. Numa sociedade nossa, em que todo mundo se conhece, se vê, se fala, numa cidade pequena como Aracaju, num Estado pequeno como Sergipe, a fraude é devastadora para o falsário. O que restou foi a perplexidade: como é que um cara faz isso? Como é que ele aspira que as pessoas confiem num homem que é capaz de lançar mão de tal expediente para ser governador? 

JLPolítica - Mas o equívoco no caso da exposição da propriedade rural é apenas o fato de a imagem ser de arquivo?
CC -
Não. O erro é nuclear. O problema está no fato de que Belivaldo Chagas não é esse fazendeiro, não é esse homem que ele tentou induzir e colocar como corrupto. Belivaldo nem é corrupto e nem esse latifundiário que ele tentou passar. O pior é que na construção, na falta de evidências para isso, se vale da fraude da imagem antiga.

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Foi Belivaldo, como governador interino, enquanto vice de Déda, que lhe empossou pela primeira vez como secretário de Estado da Comunicação Social

ELIANE TOPARIA SER CANDIDATA AO GOVERNO
“Eliane é uma mulher de projeto, e é preciso louvar a atitude dela nessa eleição, porque ela poderia ter ido para uma candidatura de deputada federal, de senadora. Mas ela ouviu diversas pessoas”

JLPolítica - Qual foi a reação do marketing de Belivaldo nessa hora?
CC - 
Foi o momento em que nós sentimos nas nossas pesquisas internas que houve uma pequena oscilação fora da margem de erro. E aí nós fizemos o que chamei de final de semana sangrento. Na série Game Of Thrones teve um casamento que ficou conhecido como casamento vermelho. Foi um casamento em que todo mundo morreu. Fizemos um pouco isso. Nós fizemos o final de semana sangrento: pegamos todo o arsenal que não iriamos usar contra Valadares Filho e colocamos no ar num final de semana - durante sábado, domingo e segunda. Esse arsenal tratava do processo que envolve utilização de empresas fantasmas de verbas de gabinete dele. Segundo, o moço velho, ou seja, mostrando pela árvore genealógica que ele não é renovação nenhuma na política porque nasceu dentro da política e viveu da política o tempo inteiro e, terceiro, a utilização do caso do motorista dele preso em Brasília acusado de tráfico de drogas. Veja: nós só usamos o caso do motorista dele quando conseguimos fazer abordagem para que não houvesse ilações diferentes da que nós queríamos colocar. Não quisemos fazer nenhum tipo de insinuação sobre comportamento do candidato. Nada disso. A única coisa que nós queríamos questionar é o seguinte: o homem que se propõe proteger a sociedade sergipana não foi capaz de proteger o seu próprio gabinete, deixando que o crime entrasse ali. E daí?

JLPolítica - Quanto por cento da eficácia de Belivaldo Chagas nas urnas deveu-se ao marketing político?
CC - 
Sinceramente, eu não sei mensurar isso. Acho difícil, inclusive, isso, porque não sou marqueteiro que acho que ganhei a eleição. Quem ganha a eleição são os candidatos. Eu não estou disputando nada. Eu estou trabalhando. Dando o meu melhor possível para potencializar imagem do candidato. Para realçar suas características, para mostrar aquilo que ele tem de melhor. Para mostrar o projeto que ele tem para sociedade. Então, eu saio de fora da disputa, e eu aí não sei mensurar. Sei que é importante. Acho que em outras campanhas o marketing seja mais importante e menos importante. Varia de acordo com cada realidade.

JLPolítica - Mas o senhor não fatura a sua importância no contexto?
CC -
Sei que tive o meu papel. Nossa equipe teve uma atribuição importante. Quero, inclusive, ressaltar aqui o trabalho de uma equipe de primeira qualidade. De pessoas inteligentes, aguerridas, que se deram totalmente para a campanha. Nesse particular, preciso destacar o papel de Rafael Galvão, um rapaz que tem trabalhado comigo há alguns anos em algumas campanhas e que vem se construindo como um profissional de excelente capacidade na condução do marketing político. Foi, sem sombra de dúvidas, meu braço direito nas últimas campanhas, e tem sido um profissional de excelente capacidade. Quero também reconhecer o competente trabalho realizado pela assessoria jurídica da campanha, sob o comando do experiente advogado Paulo Ernani. Tivemos diversas e formidáveis vitórias. Contamos com um time abnegado de advogados que zelou pela boa condução das nossas lides.

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Em 2010, afastou-se para pilotar o marketing da campanha a reeleição de Déda. Em 2011, foi reconduzido a Secom, agora tendo o radialista Chiquinho Ferreira como seu adjunto

JACKSON E A IMPRUDÊNCIA DA DISPUTA PELO SENADO
“Jackson Barreto se preparou para não ser candidato a senador. A vida toda, foi para não ser mais. Tratou o Governo como não sendo, e de última hora decide: “Vou ser candidato”. Errou. Isso tem um preço”

JLPolítica - Qual o risco do marqueteiro ser triunfalista e se dar por vencedor antes da batalha terminada?
CC - 
Eu acho que há todos os perigos numa conduta assim. Eu, inclusive, brincava ao dizer na apuração do primeiro turno, sobretudo, quando estava em 75% das urnas apuradas: “Não vamos comemorar. Deixa chegar aos 80%”. Depois: “Deixa chegar aos 85%, deixa chegar aos 90%”. Ou seja, não gosto de cantar vitória antes do tempo. Já vi candidatos comprar ternos para tomar posse e amanhecer perdidos.

JLPolítica - O marketing pode tornar eficaz a campanha de um político ineficaz? Quais os limites da ação marqueteira?
CC - 
Acho que é impossível. A não ser que se faça embustes. Temos, inclusive, dois momentos importantes desse embuste: um foi em 1989, com o Fernando Collor, e o outro foi agora em 2018, com Jair Bolsonaro. Um a gente já viu no que deu, o outro a gente ainda está pra ver. Agora, de qualquer sorte, nós não podemos deixar de pensar o seguinte: essas candidaturas e vitórias só foram possíveis porque havia na sociedade substrato suficiente para segurá-las. Não podemos dizer que Bolsonaro é um candidato totalmente artificial. Há substratos da sociedade que o legitimaram.

JLPolítica – Quais os seus conceitos para os marketings produzidos pelas campanhas de Eduardo Amorim e Valadares Filho?
CC -
No caso de Eduardo Amorim, acho que ele começou errando ao adotar um slogan que era um posicionamento: “A coragem para mudar”. Eu não concordo com isso. Eu acho que coragem não é a qualidade mais perceptível de Eduardo Amorim. Ele tem muitas outras qualidades: é um médico, um homem que tem trabalho, serviços prestados a Sergipe. Eu acho que o marketing dele deveria caminhar por outro lado. Apostar nele como sendo outra pessoa e não colocar coragem ou eleger isso, colocando nele a grande responsabilidade de ser um líder, de liderar Sergipe. Não é assim. No caso de Valadares Filho, a história do amanhã prometido é mais complicado e complexo. O problema é que Valadares Filho não conseguiu efetivamente desenhar um perfil, uma imagem, na sociedade. A gente olha para Valadares Filho e se pergunta: “Pera aí, o que é mesmo que esse rapaz representa? Quais são mesmo as causas dele? Quais são os posicionamentos dele? Ele está aonde? Ele é guardião do que? Ele é o que?”. A gente fica assim interrogativo. Por isso, é difícil. O discurso dele é genérico: o amanhã, o novo tempo. Sim, mas espera aí, como isso? Uma hora está ali, outra hora está aqui e quando você puxa a folha corrida de serviços prestados e é pífia.

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Em 2014, voltou a se afastar da Secom, com a missão de reeleger Jackson Barreto: venceu de novo. Sales Neto assumiu a Secom

A DERROTA É RUIM, MAS NÃO MACULA JACKSON
“Uma derrota é sempre ruim. Mas não imagino que o macule. Jackson tem uma trajetória de resistência democrática importantíssima, um trabalho de serviços e obras que o imuniza. Tem um patrimônio em Sergipe inegável. Não acho que saia maculado”

JLPolítica - Como o senhor viu o artigo do senador Valadares, atribuindo peso de quase 100% da vitória de Belivaldo Chagas somente ao patrimônio eleitoral de Lula/Haddad?
CC -
Pelo menos aqui neste JLPolítica eu vi que foram produzidos três artigos sobre as eleições. O do David Leite, que vem sendo repetitivo a cada eleição. Repetitivo nas palavras e repetitivo nos resultados eleitorais. Se as receitas que David ostenta fossem suficientes, acho que ele deveria empregá-las nos candidatos que ele apoiou, que tem sido lamentavelmente derrotados nos últimos tempos. Tem o artigo da Eloisa Galdino, que é de generalidades, porque, na verdade, qualquer pessoa fora da campanha escreveria aquilo mesmo que ela escreveu. Talvez ela tentasse reparar uma suposta injustiça minha quanto ao fato de não ter anotado o papel de Eliane na análise que fiz aqui neste portal, o que é desnecessário, pois o meu artigo tratou de refletir sobre a execução de estratégias de persuasão postas em prática pelo marketing. Tão somente isso, o que prescindia de relatos sobre os papéis de atores. Aliás, ela escreve dentro da dimensão da campanha que ela participou, que foi nem só da vice, que foi uma dimensão epitelial. Ela não participou das definições de estratégia política, do seu âmago mais profundo. E tem o artigo do Valadares: na verdade, o senador está se fazendo de desentendido. Ele está querendo dizer assim, sobretudo ao PT: “Olha, esqueçam que em 2014, no segundo turno, eu deixei vocês e fui apoiar Aécio Neves. Esqueçam que eu votei pelo impeachment de Dilma Rousseff. Que meu filho votou pelo impeachment. Esqueçam que em 2016 estivemos contra vocês na disputa pela Prefeitura de Aracaju. Esqueçam que quando Valadares Filho levantou a tese no segundo turno deste ano da corrupção ele estava mirando no PT”. Ele usou a presença do PT em nossa coligação para dizer: “Olha, vocês estão juntos com os corruptos. Eu estou com o delegado Alessandro, que foi eleito nessa onda de ética, do novo e tudo mais. Vocês estão com os corruptos”. O senador Valadares quer que a gente esqueça tudo isso. Quem for besta, que acredite. Isolado politicamente, e atormentado com uma retumbante derrota, ele procura se recompor, tentando dividir nosso bloco, tentando criar dissidências entre nós e busca o PT para isso. Mas, acredito que o Partido dos Trabalhadores saiba bem aonde estão seus verdadeiros aliados.

JLPolítica - A sua tese é de que o senador Valadares está fazendo um aceno de agrado ao PT?
CC - 
Ele está como aquele náufrago lá no mar, que pegou a tábua e sacode um “olha, eu estou aqui. Tem alguém vindo aqui? Alguém pode me salvar?”. É isso o que Valadares está fazendo, porque ele sabe muito bem o peso que foi a derrota política dos Valadares nessa eleição. Começou em 2016 e agora se consagrou.

JLPolítica - O senhor acha que o PT, ao acenar para um protagonismo na eleição de 2020, possivelmente contra Edvaldo Nogueira, estaria acendendo uma chama de parceria nos Valadares?
CC -
Eu acho que muitas das manifestações que estão acontecendo hoje ainda estão eivadas da euforia de um pós-eleição. Acho que tem uma certa necessidade de desabafo do PT, que acho correta e compreensível. Por que? Porque não teve partido mais agredido, vilipendiado, violentamente atacado quanto o PT nessas eleições. Na verdade, a candidatura de Jair Bolsonaro estabeleceu o ódio ao PT concretamente. E o PT sabe quem estava junto com eles nessa hora. O sucesso do PT é um sucesso que se deve muito às prerrogativas, às qualidades e à natureza do trabalho construído pelo PT.

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Voltou a vencer em 2016: Edvaldo retornou à PMA. Este ano, para variar, deixou a equipe de Governo do comunista, para tocar a campanha à reeleição do Galeguinho

VOTAÇÃO DE ALESSANDRO, NECESSIDADE DE RENOVAÇÃO
“Muitos grupos políticos deliberadamente pediram o segundo voto para Alessandro, para evitar que fosse para Valadares, Jackson ou para André. (Mas) o principal vetor dele foi a necessidade de renovação que a sociedade deseja”

JLPolítica - Mas o discurso de Rogério Carvalho parece partir da premissa que Edvaldo Nogueira não foi um petista. Não foi um leitor dele. O senhor defenderia Edvaldo Nogueira nesta altura?
CC -
Eu acho que Edvaldo trabalhou como Edvaldo sempre trabalha. Edvaldo tem um jeito de fazer política com o qual as pessoas precisam se acostumar e respeitar. Qual jeito? De muitas das vezes não deixar clara a sua posição. Mas tendo-as claramente. Eu não tenho dúvida de que Edvaldo Nogueira votou em Rogério para senador. Não tenho dúvidas de que tanto votou e trabalhou internamente quanto onde ele pode para isso. Aliás, lembro-me como hoje que, no alto da desavença entre Jackson e Rogério, foi a voz de Edvaldo que se levantou no Iate Clube e disse: “Olha, vocês dois são os nossos candidatos. Os nossos inimigos não estão aqui dentro não. Estão lá fora”. De modo que eu acho que essa falação toda é resquício dessa euforia.

JLPolítica - Alguém ainda precisa desmontar palanque?
CC - 
Eu acho que precisa. Creio que esses arroubos ainda fazem parte das comemorações e vitórias de setores, mas entendo que a vida é mais sábia que todos e que a política ensina muito. Nós temos um novo Governo a ser instalado no âmbito federal. Um Governo que não elegemos. Um Governo frente ao qual precisamos saber como nos posicionar. Aliás, a esquerda toda precisa se posicionar. Acho que tudo isso é maior do que essas querelas e euforias pós-eleitorais.

JLPolítica - O senhor teme o Governo Federal? Teme o que possa vir?
CC -
Eu não confio no Governo de Bolsonaro. Ele até pode me surpreender, fazendo um excelente Governo. Mas eu não confio.

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“Uma derrota é sempre ruim. Mas não imagino que o macule", avalia, sobre a derrota de Jackson para o Senado

ELEIÇÃO DE ROGÉRIO NÃO VALE COMO SURPRESA
“Eu acho que Rogério construiu a vitória dele. Um candidato que começou mais cedo, que tinha uma pauta inclusive bem definida, era Rogério Carvalho.
Ele se alçou na disputa como o senador de Lula”

JLPolítica – O senhor acha que a oposição de Sergipe tem dificuldade de ressuscitar e se impor?
CC -
Temo que a oposição de Sergipe seja um fenômeno tão qual o ovo da serpente. Traduzindo: que ela surge de entre nós mesmos. Desse agrupamento vencedor.

JLPolítica - Esses incidentes do PT seriam o suficiente para pensar assim?
CC -
Toda vez que um grupo cresce, se torna grande, acontece um fenômeno - não sei se é mitose ou meiose, que as células fazem. Mas elas fazem isso. É um pouco natural da política.

JLPolítica - O senhor não acha uma falácia que se doure tanto a pílula da mídia social e tente se depreciar a campanha pelos canais clássicos dos horários de TV e de rádio?
CC -
Eu acho que a supervalorização das mídias sociais são da parte das pessoas que querem parecer moderninhas. Do tipo: “Olhe, vou falar disso porque está na moda”. Acho que elas têm e tiveram um papel. Mas que o papel não é tão grande como as pessoas acham que tiveram. E não deixo de acreditar nos canais clássicos de comunicação, sobretudo no segundo turno das eleições. No primeiro turno eu dizia o seguinte: a sociedade está nem aí para a eleição. Está muito dispersa, muitos candidatos - aqui, acolá você tinha uma referência mais clara. As pessoas esperaram um pouco. E eu cheguei inclusive a dizer a você que naquela fase o olho no olho, o aperto de mão, valeria muito. E acho que Belivaldo cumpriu bem esse script, porque o que ele fez de caminhada, de carreata, de contato pessoal não é possível contar.

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'Nós vivemos anos e anos numa dicotomia PSDB e PT, e parecia que não existia um mundo além disso", observa

SENADOR VALADARES APOSTOU NUM ERRO POLÍTICO
“Essa eleição mostra ao senador Valadares que ele só obteve vitórias importantes quando estava com grupos fortes mantendo as candidaturas dele e do filho. Ele alçou voos próprios e deu no que deu”

JLPolítica - Qual a diferença elementar no uso das mídias sociais da eleição de 2016 para esta de 2018?
CC -
Eu acho que essas eleições de 2018 consolidam mais o uso das redes sociais. Elas entram definitivamente na pauta das eleições, até pelo fato da legislação ter mudado, permitindo fazer pré-campanha de até seis meses. E como você vai fazer pré-campanha de seis meses se não for nas redes sociais? 

JLPolítica - Passadas a campanha e a eleição, o senhor teria feito algo diferente na pré-campanha?
CC -
Não. Pelo contrário. Eu acho que a pré-campanha é um episódio importantíssimo, de importância nuclear para o êxito da campanha de Belivaldo teve. Belivaldo era um homem pouquíssimo conhecido da sociedade. Tinha níveis de seis pontos percentuais e grande parte do conhecimento dele se deu naquela pré-campanha. De modo que ela deu visibilidade aos seus valores, às suas características.

JLPolítica - Qual a principal lição que se tira do drástico encurtamento das campanhas?
CC -
Diante da pré-campanha, é quase uma falácia esse encurtamento.

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"Um homem sensível, muito humano, por trás daquela carranca", diz, referindo-se a Belivaldo Chagas

O PIOR DE TODOS OS ATAQUES A BELIVALDO CHAGAS
“Do ponto de vista da ética, foi quando Valadares Filho tentou dizer que Belivaldo era fazendeiro abastado. O problema está no fato de que Belivaldo não é esse fazendeiro e nem o homem que ele tentou induzir como corrupto. Isso é de uma fraude terrível”

JLPolítica - Muito também dos precedentes dele, diversos mandatos de deputado estadual, dois de vice, esses seis meses de Governo, se somou?
CC -
Sim, somou. Mas as pessoas não sabem, não se lembravam disso. Já no segundo turno, as pessoas param e disseram: “Epa, agora eu quero ver. Quem são esses dois? O que esses dois estão dizendo?”

JLPolítica – Entre Belivaldo Chagas, Marcelo Déda e Jackson Barreto, qual o mais disciplinado diante das tarefas e das proposições do marketing numa campanhaCC - Belivaldo Chagas. Exatamente por ainda estar se construindo, ele ouviu mais, entendeu mais, se colocou de forma muito humilde. Não que ele tivesse atitude de Maria vai com as outras. Não. É um homem de opinião, que pensa, que reflete, que tem um tirocínio político incrível. Mais do que muita gente pensa e acha que tem. Mas ele se predispôs, disse assim: “Olhe, estou nessa empreitada, estou chegando agora, é a primeira vez que estou vivendo esse tipo de coisa, vou deixar”. É diferente por que? Jackson é macaco velho de várias eleições. Marcelo Déda era um líder nato, um homem que tinha noções de tudo - de televisão, de comunicação, de teatro, cinema, psicologia, então, era um homem-político mais completo do ponto de vista da liderança.

JLPolítica - Quais os riscos de Belivaldo Chagas desbotar nesse formato que tem se mostrado como governador de seis meses, negar o que se propôs na campanha e ser um próximo governador bem diferente do anunciado?
CC -
Não vejo nenhuma chance de acontecer isso, porque acredito muito na autenticidade de Belivaldo. Ele, por exemplo, não fez concessões que poderiam ter feito, inclusive no processo de eleição. E acho que ele não vai fazer no Governo.

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"É um homem de opinião, que pensa, que reflete, que tem um tirocínio político incrível', exalta as virtudes do governador reeleito

O MARKETING E A COMPREENSÃO DA MODÉSTIA
“Não sou marqueteiro que acho que ganhei a eleição. Quem ganha a eleição são os candidatos. Não estou disputando nada. Eu estou trabalhando. Dando o meu melhor possível para potencializar imagem do candidato”

JLPolítica - Belivaldo não vem para um Governo engessado?
CC -
Não. Pelo contrário. Ele, vai agir como um líder, com muita tranquilidade, com relação a isso. E as pessoas já sabem disso. Ele poderia ter feito das tripas coração para ter mantido o perfil anterior da coligação. Mas não o fez.

JLPolítica - Houve mal-estar em torno do espólio de Jackson Barreto na adoção do bordão de que Belivaldo chegou para resolver?
CC -
Jackson Barreto compreendeu que mais importante que o mandato dele para senador era o projeto político que ele estava chancelado ali. E, apesar de pessoas no entorno dele tentarem fazer futrica, ele caminhou solenemente com relação as essas coisas. Entendeu que precisava disso. Entendeu o posicionamento de Belivaldo e a necessidade desse posicionamento. Reside aí um erro da oposição: ela continuou fazendo oposição ao Governo de Jackson, desconhecendo que tinha um outro governador na cadeira. 

JLPolítica - Por que a educação, que aparece como item número um de Belivaldo para o próximo governo, teve um lugar tão tímido na campanha de marketing?
CC -
Porque na campanha de marketing você precisa enfrentar com clareza aspectos que são gritantes na sociedade, como saúde e segurança. Elas doem mais do que a educação. E por que a educação ganha força agora com a educação? Porque Belivaldo tem um compromisso sincero com esse setor. A passagem de Belivaldo como secretário da Educação, marcou-o profundamente. Inoculou nele um respeito e uma admiração pelo fenômeno da educação, que se faz traduzir nisso.

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Avalia o papel de Eliane Aquino na campanha como uma "amazônia" eleitoral"

IMAGEM DE VALADARES FILHO, FRACA E PÍFIA
“Valadares Filho não conseguiu desenhar uma imagem na sociedade. A gente olha e se pergunta: “O que é mesmo que esse rapaz representa? Quais são mesmo as causas dele? Quais os posicionamentos? Ele é guardião do que? É difícil. Você puxa a folha corrida de serviços prestados e é pífia”

JLPolítica - O senhor tem tempo para pesquisar e estudar o universo do marketing político ou é um marqueteiro empírico?
CC -
Eu sempre que posso, busco estudar. Eu não acredito, inclusive, em empirismo nessa área. Acho que marketing é uma técnica calcada em várias ciências. Você precisa estudar e entender essas ciências. Estudar comportamento do eleitor, sociologia, psicologia, antropologia. Não dá para fazer campanhas por insight. “Ah, tive um insight aqui”. Não é assim. Isso talvez tenha valido a pena lá atrás. O marketing político no Brasil é respeitadíssimo lá fora. Os profissionais daqui são exportados para fazer campanha lá fora. Por que? Porque levam a sério o trabalho.

JLPolítica - Deprime-lhe ser rotulado de o marqueteiro do mal?
CC -
 Recebi isso com lisonja, como elogio. Na verdade, quando o senador Valadares em 2016 alcunhou isso aí ele estava tentando encobrir o erro político que eles cometeram nas eleições de 2016, de receber o apoio de João Alves e não esclarecer à sociedade. Se ele tivesse dito “Olha, doutora Maria do Carmo nos procurou e disse que vai votar na gente. Nós somos contra o jeito de governar deles, mas aceitamos?” Mas ele fez o que? Tentou esconder. E, ao fazer isso, tentou enganar a sociedade. Deu no que deu.

JLPolítica - Quando se tenta ocultar algo numa campanha política, ganha mais densidade, mais significação aquele algo que seria ocultado?
CC - 
Sim. Sobretudo, se a população descobrir. Como é que eu digo que sou renovação e faço um telemarketing nos moldes do que Valadares Filho fez, tentando ludibriar as pessoas? Isso é renovação política?   

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'É uma herança de Marcelo Déda na vida dela", justifica o poder eleitoral de Eliane Aquino

A ARMADILHA FEITA PELO SENADOR VALADARES
“O senador está se fazendo de desentendido. Está querendo dizer: “Olha, esqueçam que em 2014 deixei vocês e fui apoiar Aécio. Esqueçam que votei pelo impeachment de Dilma. Que meu filho votou pelo impeachment”. Quem for besta, que acredite”

JLPolítica - O senhor tem pretensão de ocupar alguma Secretaria no Governo de Belivaldo Chagas?
CC -
Não faço planos para o futuro.

JLPolítica - Não lhe passa pela cabeça procurar centros maiores do país para empreender seu marketing político?
CC -
Já me passou. E aqui e acolá surge conviteNessa campanha mesmo me ligou uma pessoa de outro Estado tentando ver. Mas isso é um processo de construção. É um processo que confesso que sou negligente com relação a ele. Talvez no fundo eu gostaria de fazer, mas não disponho a construir.

JLPolítica - O serviço feito em Sergipe lhe basta, contempla?
CC - 
A mim sim, embora eu não descarte essa possibilidade. E digo que, muitas das vezes, tenho vontade de ousar a fazer uma campanha fora. Inclusive até desmitificar uma coisa de mim mesmo. O que acontece: as pessoas dizem: “Cauê conhece muito Sergipe”. Eu digo: “Pera aí, eu num lugar diferente, onde não conheça bem as coisas, como me resolveria na prática do marketing?”.

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Ele, secretário de Comunicação: e Belivaldo, secretário de Educação do segundo Governo Déda; dando posse ao jornalista Luciano Correia como superintendente da Fundação Aperipê: julho de 2011

RAZÕES PARA A EDUCAÇÃO VIRAR COMPROMISSO-CHAVE
“A passagem de Belivaldo como secretário da Educação marcou-o profundamente. Inoculou nele um respeito e uma admiração pelo fenômeno da educação, que se faz traduzir nisso. Belivaldo tem um compromisso sincero com esse setor”

JLPolítica – Discute-se em mesas de bares uma suposta opulência material da sua pessoa em decorrência do marketing político praticado há 30 anos. Como o senhor se encaixa nesse contexto?
CC -
Eu sou um trabalhador, classe média. Um homem que viveu de salário até meses atrás, quando resolvi sair para fazer a pré-campanha.

JLPolítica - São solitárias a ação e a práxis de um marqueteiro político?
CC -
São, muito. Tem decisões que só você toma e, muitas das vezes, contrariando uma equipe e contrariando o próprio candidato. Mas preciso da equipe, sim.

JLPolítica - Quem lhe inspira nessa seara crespa do marketing político?
CC -
Tem um nome que sempre vejo com muito carinho, que é o Nelson Biondi. Carinho, inclusive por um episódio que aconteceu em 2004, quando eu não ia fazer a campanha de reeleição de Marcelo Déda. Eu estava fazendo apenas os proporcionais do PTB. Passado o primeiro dia, antes de começar o horário eleitoral, Marcelo Déda me chamou para fazer a campanha e tinha fechado apenas naquele momento uma assessoria do Nelson Biondi. E foi quase um aconselhamento do Nelson Biondi de que ele me chamasse. Tinha outro profissional que estava na disputa, mas o Nelson considerou que era uma coisa muito estapafúrdia e achava que o caminho mais simples, era o mais ligado ao jeito como eu conduzia as coisas e pensava.

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Culpa do DNA? A filha, Fernanda Rabelo, é graduada em marketing

NÃO DÁ PRA FICAR RICO COM MARKETING POLÍTICO
“Eu sou um trabalhador, classe média. Um homem que viveu de salário até meses atrás, quando resolvi sair para fazer a pré-campanha”

JLPolítica – Financeiramente ao sair de uma campanha dessa o senhor pode ficar um ano sem trabalhar?
CC - 
Não. Eu tenho a mim e uma filha.

JLPolítica - Num ano eleitoral, lhe sobra tempo pra ler e escrever literatura-literária - poemas, contos e textos de teatro?
CC -
Às vezes, durante o processo eleitoral, é difícil textos maiores, por exemplo. Pequenos poemas surgem, até por necessidade. É necessário, às vezes, sair daquela coisa maluca. A gente enterra tanta cabeça, fica tão dedicado aquilo que, às vezes, esquece quem você é quanto ser humano.

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O "Amorável" poeta Carlos Cauê, que assina uma invejável carreira de comunicador social e marqueteiro da política