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Entrevista

Jozailto Lima

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Carlos Melo: “Sem Deso, não teria saúde pública”

Publicado em  25  NOV 2017, 20h00

“Privatização da Deso saiu da pauta do Governo”

O ano de 2017 foi marcante para a Deso, a Companhia de Saneamento de Sergipe, que em 2019 vai completar 50 anos. Incluída numa perspectiva de privatização por parte do Governo do Estado, seu mantenedor, ela passou a ser alvo de pancadarias nos quatro cantos do Estado - de sindicalistas a políticos de oposição.

Em nome da sua preservação na condição de estatal, muita saliva foi gasta em eventos, debates, palestras, caminhadas em diversos espaços da sergipanidade. Hoje, esta reação pode ser considerada um mero retrato na parede. Algo passado.

Com exclusividade, o seu diretor-presidente, o engenheiro civil Carlos Fernandes Melo Neto, garante nesta entrevista ao JLPolítica que o discurso da reação à privatização perdeu a validade. Caducou. 

“Esse programa (o da privatização da Companhia) saiu da pauta do Governo. Não está em discussão. O Governo Federal, através do BNDES, fez convênio com alguns Estados, inclusive Sergipe, para desenvolver estudos nesse cenário. Esses estudos não avançaram por aqui e acredito que a privatização não deva ocorrer no Governo de Jackson Barreto”, diz Carlos Melo.

Para além de as relações entre Governo e BNDES não terem avançado, o próprio Carlos Melo tem um ponto de vista fechado sobre a venda da Deso. “Sou contra”, diz. E fundamenta: “Existe uma situação que precisa ser avaliada como o todo e não apenas em partes. O setor privado tem muito interesse em grandes municípios, que são os que trazem retorno. Mas os municípios menores não são atrativos para ele”, afirma.

Isso fundamenta muito bem a visão contrária de Carlos Melo à venda da Companhia. O discurso dele é o da função social, que a Deso não se recusa a praticar. “Aqui na Deso existe o chamado subsídio cruzado. Como só interessa ao setor privado enxergar aquilo que traz retorno financeiro, como ficaria o modelo para o setor público? No Piauí eles privatizaram a parte da região metropolitana de Teresina, e todo o interior está sendo custeado pelo Estado”, diz.

Na visão de Carlos Melo, o papel da Deso não é apenas o de uma comerciante de água. “Sem a Deso, não teria como haver saúde pública. Então, nós não estamos apenas vendendo água e sim trabalhando com saúde pública, com o meio ambiente, com o bem-estar da sociedade e toda uma qualidade de vida”, ressalta.

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Com a mãe Anita Luiza durante a formatura

JLPolítica - Na sua visão de dirigente, qual é o real significado da Deso para os mais de 2,2 milhões de sergipanos?
Carlos Melo -
 Num Estado situado na região Nordeste, uma companhia de saneamento tem fundamental importância para o desenvolvimento. Porque ela leva água para todos os setores da sociedade - do residencial ao empresarial, que tem grande demanda, inclusive na produção de leite. Além disso, há o papel fundamental de coleta e tratamento de esgoto, onde a gente vem avançando muito. Sergipe, em relação ao Brasil e ao Nordeste, está numa posição bem avançada.

JLPolítica - Então o senhor diria que não haveria uma vida saudável em Sergipe sem a Deso?
CM -
 Com certeza. Sem a Deso, não teria como haver saúde pública. Existe um dado da Organização Mundial de Saúde – OMS – que diz que para cada R$ 1 que é investido em saneamento se deixa de gastar R$ 4 com problemas de saúde. Então, nós não estamos apenas vendendo água e sim trabalhando com saúde pública, com o meio ambiente, com o bem-estar da sociedade e toda uma qualidade de vida.

TRABALHANDO COM SAÚDE PÚBLICA
“Nós não estamos apenas vendendo água e sim trabalhando com saúde pública, com o bem-estar da sociedade e toda uma qualidade de vida. Nas regiões que não têm água tratada, os indicadores de doenças ligadas à verminoses são muito altos”

JLPolítica - O senhor vê água, para além da sua capacidade de dessedentação, então como um produto de imunização, que leva, de certo modo, saúde às pessoas?
CM -
 Sim. A gente sabe que em regiões que não têm água tratada, os indicadores de doenças ligadas à verminoses são muito altos. E hoje você tem os mananciais cada vez mais escassos de purezas e poluídos, e o serviço, por mais qualidade que tenha, demanda uma eficiência maior para poder levar água tratada dentro dos padrões do Ministério da Saúde até às pessoas.

JLPolítica - Qual é o conceito fechado de água tratada?
CM
 - Nós seguimos o regulamento que o Ministério da Saúde determina, que são os limites químicos que podem haver numa água tratada, seja cloro, flúor, coloração, etc. São os indicadores que o Ministério estipula para todas as Companhias. A água não pode simplesmente ir branquinha. Tem que ter o percentual de cloro, de flúor, etc.

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"Nós conseguimos garantir uma solidez hídrica em nosso Estado", assegura

JLPolítica - Tirando os poucos municípios que têm SAAEs - Estância, Capela e São Cristóvão -, onde a companhia não consegue chegar bem e por quê?
CM -
 Hoje nós atendemos a 72 dos 75 municípios sergipanos. Entre esses, já temos uma cobertura de água acima de 90%. A região metropolitana tem 100%. Mas há regiões, principalmente as do semiárido, em que todos os conglomerados urbanos estão abastecidos. O que existe são aquelas populações dispersas, difusas. Se você pegar, por exemplo, Poço Redondo, que é um município amplo, todos os conglomerados urbanos estão atendidos. O que existe são as localidades rurais, onde cada casa está distante uma da outra cerca de 100, 200 metros. Mas estamos trabalhando com a ampliação da rede, que já vem sendo feita, e amortizando isso, para que as pessoas que são abastecidas com cisternas pelo Exército passem a ter água encanada.

JLPolítica - Procede a informação de que a Deso era, há 20 anos, a primeira colocada do Nordeste, terceira no Brasil e hoje ocupa o vigésimo lugar em abastecimento de água?
CM -
 Essa informação eu desconheço. E não sei dizer hoje em que posição do ranking ela está. Mas asseguro que há uma cobertura acima de 90% na parte de água e isso dá um índice muito bom em nível de Nordeste.

COBERTURA ACIMA DE 90% DO ESTADO
“Hoje nós atendemos a 72 dos 75 municípios sergipanos. Entre esses, já temos uma cobertura de água acima de 90%. A região metropolitana tem 100%. Mas há regiões, principalmente as do semiárido, em que todos os conglomerados urbanos estão abastecidos”

JLPolítica – Mas a Deso ocuparia a 20ª posição em esgoto?
CM -
 Também não sei lhe pontuar em que ranking estamos nesse aspecto. Mas posso informar que Aracaju tem cobertura de mais de 60% de coleta e tratamento de esgoto. Saímos de 30% há cerca de seis anos e estamos nesse patamar. E em licitação e em obras que nos levarão aos 90%. Porque todas as estações de tratamento foram ampliadas ou duplicadas.

JLPolítica - Mas o senhor fala de Aracaju. E nas demais cidades?
CM -
 A sede da Barra dos Coqueiros, por exemplo, já é 100%. Socorro também, terminando agora. E em São Cristóvão estamos com as obras em andamento para a cobertura também de 100%.

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Filho de pai homônimo - só acrescido do sobrenome Filho

JLPolítica - E saindo da esfera da Grande Aracaju, como está o interior do Estado?
CM -
 No resto do Estado, praticamente não temos esgoto em operação. Há uma pequena parte em Simão Dias, --outra pequena parte em Propriá. O que existem são obras em andamento.

JLPolítica - Resumindo, a Deso não opera com o esgoto no interior.
CM -
 Não há rede para operar. Há tubulações que as Prefeituras administram.

COBERTURA DE ESGOTOS EM LAGARTO E ITABAIANA
“As principais grandes cidades, como Lagarto e Itabaiana, já estão sendo cobertas em 100%. Estão investidos em Lagarto R$ 93 milhões e em Itabaiana, R$ 80 milhões. A primeira parte de Itabaiana já está pronta”

JLPolítica - Há um planejamento para reverter isso?
CM -
 Sim. Hoje já há executados no interior investimentos superiores a R$ 200 milhões.

JLPolítica - Seria utopia imaginar 100% de coleta e tratamento de esgoto em Sergipe?
CM - 
Nas sedes dos municípios, não. O que a gente vai ter dificuldade é nas chamadas comunidades dispersas. Mas as principais grandes cidades, que são Lagarto e Itabaiana, já estão sendo cobertas em 100%. Estão investidos em Lagarto R$ 93 milhões e em Itabaiana, R$ 80 milhões. A primeira parte de Itabaiana já está pronta. E já estamos investindo também em Dores, em Pacatuba, São Francisco e em outros municípios.

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Carlos Fernandes Melo Neto é de 2 de Janeiro de 1975

JLPolítica - O pessoal do Sindisan, que também monitora a empresa, trabalha com uma margem de 48% de perdas. A direção da Deso admite quanto por cento?
CM -
 Em nível de Estado, temos um índice de perda dessa natureza mesmo - em 48%. Aracaju tem uma média de 32% de perdas, tendo setores que são inferiores a 10%.

JLPolítica - Qual é a principal causa dessa perda? É vazamento ou inadimplência?
CM - 
Nem uma nem outra. É roubo de água. É a água “produzida” que a gente não consegue faturar. No meio do caminho ou houve vazamento ou houve desvio. Uma parcela grande dessa água é desviada. Há situações difíceis de controlar. Mas nesta semana ganhamos uma premiação de melhores do Brasil no programa de combate à perda, com o Prêmio Nacional de Qualidade do Saneamento – o PNQS.

A PRINCIPAL CAUSA DE PERDA
“É roubo de água. É a água “produzida” que a gente não consegue faturar. No meio do caminho ou houve vazamento ou houve desvio. Uma parcela grande dessa água é desviada. Há situações difíceis de controlar”

JLPolítica - Essa premiação vem de que?
CM -
 Da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, a ABES, que é a principal referência do saneamento no país. Ela é uma associação que envolve a academia e que avalia a premiação em gestão, onde ganhamos dois prêmios - prata e bronze - e avaliam as práticas. É bom ser premiado como os melhores.

JLPolítica – Mas a Companhia não deveria ter uma brigada de combate aos desvios?
CM -
 Tem. Temos instituído um setor específico de combate às perdas. Esse setor vem sendo fortalecido nos últimos anos, e a gente já reduziu perdas que estavam acima de 50%. Hoje a média é de 32%, pelo menos na capital.

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Com a esposa (Raissa) e os filhos (Ivo e Lucas)

JLPolítica - Qual é a dívida acumulada dos inadimplentes?
CM -
 Algo em torno de R$ 80 milhões.

JLPolítica - O que fazer para resgatar isso?
CM -
 O outro programa que também estamos avançando é exatamente nesse sentido. O de fiscalizar as ligações clandestinas ou suprimidas, e é um programa que já vem nos ajudando a reduzir esse débito através de um projeto de facilitação para o retorno do cliente à adimplência. Já estão em prática os planos de renegociação, que estão contemplando todo mundo com parcelamento de até 48 vezes.

DÍVIDA DE R$ 80 MILHÕES A RECEBER
“Existem órgãos públicos que têm certa dívida e há uma cobrança apenas administrativa. Mas veja, não podemos cortar o fornecimento de uma escola, de um hospital, e a gente vem tratando disso”

JLPolítica - A Companhia consegue medir a incidência de ligações clandestinas?
CM -
 Perfeitamente. Temos algo em torno de 10% a 15% de ligações clandestinas em Sergipe, o que daria aproximadamente 60 mil ligações.

JLPolítica - Mas não lhe soa estranho que a maior parte dos devedores seja composta por órgãos do próprio governo?
CM - 
Sim. Existem órgãos públicos que têm certa dívida e há uma cobrança apenas administrativa. Mas veja, não podemos cortar o fornecimento de uma escola, um hospital, e a gente vem tratando disso. Estamos tendo retorno de parcelamento em algumas áreas e nas outras a gente vem discutindo para amortizar essa dívida.

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Aponta inadimplência de R$ 80 milhões de grandes clientes

JLPolítica – O senhor não pode ser acusado de leniente?
CM -
 Não. Toda a cobrança administrativa e algumas judicias estão sendo produzidas.

JLPolítica - Esses R$ 80 milhões teriam que significado no faturamento da Deso se entrassem?
CM -
 Com certeza, teríamos mais capacidade de investimento para alavancar a cobertura de água, de coleta de esgoto. Seria um benefício muito grande para toda a população.

PARA GARANTIR A SOLIDEZ HÍDRICA
“Os recursos naturais estão cada dia mais escassos. Hoje temos que ter planejamento e estrutura de obras que garantam solidez hídrica. Nos últimos anos, fizemos obras que trazem essa garantia, como a Barragem do Poxim e a duplicação da Adutora do São Francisco”

JLPolítica - Por que a Deso não lança mão dos recursos que o Banco Mundial oferece para investir no combate ao desperdício?
CM -
 Nós utilizamos. Inclusive, uma parte desse programa contra perdas é financiada pelo Banco Mundial. Recentemente, adquirimos 80 mil novos hidrômetros para substituição dos que ficaram lentos e acabaram submetendo a perdas através da medição. Conseguimos parte desses recursos com o Banco Mundial, e outra está sendo investida na fiscalização de ligações suprimidas também. Ou seja, os recursos estão sendo utilizados.

JLPolítica - A imagem que se passa hoje, sobretudo nos setores sindicais, é a de que a Deso e um grande sucatão enquanto empresa. O senhor naturalmente tem outra visão?
CM - 
Discordo dessa visão, até porque toda a sociedade acompanha o serviço que está chegando à sua casa. Em termos de investimentos, com recursos próprios, do Estado e da União, está sendo investido R$ 1,2 bilhão. Mais da metade já foi desembolsada e a outra parte está em andamento em algumas obras. Isso para água e esgoto. Com isso, nós conseguimos garantir uma solidez hídrica em nosso Estado apesar da pior seca que enfrentamos. Não tivemos crise hídrica de grande magnitude em nenhum município. Nós não tivemos colapso no abastecimento. Cerca de R$ 600 milhões já foram usados em obras que estão prontas para conferir essa estrutura.

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"Hoje nós atendemos a 72 dos 75 municípios sergipanos. Entre esses, já temos uma cobertura de água acima de 90%"

JLPolítica – A oferta natural de recursos hídricos do Estado – rios, lagos, açudes, barragens, lençóis – seria algum tipo de entrave a um avanço na melhoria e expansão da Deso?
CM - 
Os recursos naturais estão cada dia mais escassos. Hoje temos que ter um planejamento e uma estrutura de obras que garantam essa solidez hídrica. Nos últimos anos, fizemos obras que trazem essa garantia, como a Barragem do Poxim, a duplicação da Adutora do São Francisco, diversos grandes reservatórios, reforços para as zonas de expansão. E já está no planejamento o que precisa ser feito nos próximos anos. Hoje o São Francisco, principal manancial do nosso Estado, corresponde a 70% de toda a água que a gente consome, e vem sofrendo reduções significativas de vazão. Estamos hoje em 550, sendo que a mínima era de 1200 metros cúbicos por segundo. Isso nos forçou a ajustar diversas captações, chegando ao ponto de irmos, o governador e eu, a São Paulo em busca dos flutuantes da Sabesp para instalar no São Francisco e utilizar caso a vazão seja reduzida ainda mais e não criar nenhum risco ao abastecimento.

JLPolítica – Mas esses flutuantes estão em ação?
CM -
 Não. Estão instalados e prontos para a ação, caso venha a reduzir a vazão. Essa vazão é controlada pela Agência Nacional de Águas - ANA.

SÃO FRANCISCO CORRESPONDE A 70% DA ÁGUA
“Hoje o São Francisco corresponde a 70% de toda a água que a gente consome e vem sofrendo reduções significativas de vazão. Estamos hoje em 550 metros cúbicos por segundo, sendo que a mínima era de 1200”

JLPolítica - A Deso tem responsabilidade social sobre a crise das bacias hidrográficas do Estado? A Companhia faz algo em favor delas?
CM –
 Sim, fazemos um trabalho de reabilitação. Para se ter ideia, dentro da Deso há uma Diretoria de Meio Ambiente e Engenharia, que também lida com a questão social. Uma parcela grande dos comitês de bacias em Sergipe é presidida por funcionários da Deso, que atuam nessa área. Ou seja, nós estamos monitorando. Houve agora aqui o Encontro Nacional dos Comitês de Bacias, com o apoio da Deso. Também estamos enviando dois técnicos para a nova reunião, que será em Minas Gerais. É claro que esse trabalho não é apenas de uma empresa. De um comitê. É da sociedade, que precisa se conscientizar da necessidade de preservação das matas ciliares, da não poluição. Ou seja, que precisa de uma educação ambiental muito forte. E fazemos esse trabalho com as escolas frequentemente. Há um setor voltado só para isso. Que também leva os alunos às estações de tratamento e para fazer plantios.

JLPolítica - De quantas estações de tratamento a Companhia dispõe hoje e em que pé elas estão?
CM -
 Hoje dispomos de mais de 50 estações em todos os polos. Todas elas estão em plena operação. Muitas foram reformadas recentemente, a exemplo da estação do Sertão, uma em Socorro e em outra em Aracaju. Estamos em licitação para a de Itabaiana e a de Lagarto. Na Estação do Centro-Sul, investimos mais de R$ 60 milhões.

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Aponta obras que somam investimentos de R$ 1,2 bilhão

JLPolítica - Não é muito baixo o faturamento de R$ 48 milhões a R$ 50 milhões para quem tem uma clientela de aproximadamente 600 mil consumidores?
CM -
 Estamos acima da média nacional, proporcionalmente. Pelos rankings da Revista Valor 1000, Sergipe, com um número de ligações pequeno se comparado a outros Estados, aparece com faturamento superior a Alagoas, Piauí e Maranhão, por exemplo. E devo dizer que houve um crescimento de 50% do faturamento nos últimos três anos. Saímos de R$ 30 milhões e estamos na casa dos R$ 50 milhões.

JLPolítica - A criação de mais reservatórios e a ampliação das adutoras não deveria estar no topo das prioridades da Companhia?
CM –
 Sim, e está. Dentro desses valores de investimento, que somam R$ 1,2 bilhão, a metade é exatamente para essa parte de adutoras e reservatórios. E a outra para esgotamento sanitário.

DESO E PRESERVAÇÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS
“É claro que esse trabalho não é apenas de uma empresa. De um comitê. É da sociedade, que precisa se conscientizar da necessidade de preservação das matas ciliares. Que precisa de uma educação ambiental muito forte”

JLPolítica - Com 1.700 servidores, em média, a Deso é uma empresa pública enxuta ou inchada?
CM -
 Se compararmos às outras, estamos numa situação enxuta dentro do cenário de empresas públicas. Nos últimos anos, houve concurso e, com ele, um acréscimo de mais de 500 novos funcionários. Em contrapartida, fizemos um plano de incentivo à aposentadoria, que já reduziu em mais de 100 os servidores mais antigos. Com isso, a gente vem mantendo uma empresa enxuta. Quem atua em 72 municípios, além de povoados, precisa de um número coerente de operadores, porque há diversos setores em virtude do seu porte. Nesse prêmio que recebemos, todos esses indicadores foram avaliados. Eles avaliam a gestão. Isso é importante para o nosso Estado. Para se ter ideia, do Norte-Nordeste, Sergipe foi o único premiado.

JLPolítica - Em que pé se encontra o projeto de privatização da Companhia?
CM -
 Esse programa saiu da pauta do Governo. Não está em discussão. O Governo Federal, através do BNDES, fez convênio com alguns Estados, inclusive Sergipe, para desenvolver estudos nesse cenário. Esses estudos não avançaram por aqui e acredito que a privatização não deva ocorrer no Governo de Jackson Barreto.

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"Nesta semana ganhamos uma premiação de melhores do Brasil no programa de combate à perda, com o Prêmio Nacional de Qualidade do Saneamento – o PNQS"

JLPolítica – Há a informação de que a rescisão daquele contrato com o Consórcio Sanear Brasil implicaria uma multa de 10%. Quanto seria isso, e o Estado está disposto a pagar para sair fora?
CM -
 Não existe multa para rescisão. O que existe é: se o serviço for executado, é preciso ressarcir o BNDES. Como o estudo não está sendo executado, nada então. É igual a uma construção: se você vai construir uma casa, por exemplo, e o construtor não construiu nada, você não deve nada a ele. Se ele fizer a fundação, você deve a fundação. Se fizer até o telhado, você deve até o telhado. Se o estudo vier a ser feito, as etapas devidas serão pagas pelo Estado ao BNDES.

JLPolítica - O senhor, pessoalmente, é a favor ou contra a privatização da Deso?
CM -
 Sou contra. Há um cenário que precisa se entender, e que compõe uma grande discussão, que é o de que existe uma situação que precisa ser avaliada como o todo e não apenas em partes. O setor privado tem muito interesse em grandes municípios, que são os que trazem retorno. Mas os municípios menores não são atrativos para ele. Aqui na Deso existe o chamado subsídio cruzado. Como só interessa ao setor privado enxergar aquilo que traz retorno financeiro, como ficaria o modelo para o setor público? No Piauí aconteceu isso: eles privatizaram a parte da região metropolitana de Teresina, e todo o interior está sendo custeado pelo Estado. O Estado tem que aportar recursos para garantir o serviço.

CONSENSO PELA NÃO-PRIVATIZAÇÃO
“O discurso já foi até consensuado em nível de situação e oposição. Todos parecem ter entendido que não é o melhor caminho não só em Sergipe, mas em todo o Brasil, e a discussão esfriou”

JLPolítica - A Deso se sustenta?
CM -
 Sim. A Deso é plenamente autossustentável.

JLPolítica - Ela deixa lucro?
CM -
 Sim, damos lucro. Repassamos ao Estado este ano cerca de R$ 3 milhões.

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"Esse programa da privatização saiu da pauta do Governo. Não está em discussão"

JLPolítica - Qual é o melhor antídoto contra a venda da Deso?
CM - 
O que uma empresa precisa, independentemente de ser pública ou privada, é prestar um serviço de qualidade para a sociedade. Se a sociedade estiver satisfeita com o serviço, com o preço a ser pago e bem-atendida do ponto de vista do serviço, qualquer Companhia mostra que tem qualidade. A partir do momento em que ela não está cumprindo com suas obrigações, a sociedade tem que se manifestar. Os indicadores e a sociedade avaliando o serviço prestado, independentemente de questões políticas, é possível um bom reflexo desse serviço.

JLPolítica - O senhor diria aos movimentos sociais, sindicatos e políticos da oposição que baixassem o discurso com relação à privatização?
CM -
 O discurso já foi até consensuado em nível de situação e oposição. Todos parecem ter entendido que não é o melhor caminho para a empresa, não só em Sergipe, mas em todo o Brasil, e a discussão esfriou. Existia um interesse muito grande por trás dessa privatização e não está ocorrendo mais nesse momento.

SER OU NÃO SER PRESIDENTE DE CARREIRA
“Qualquer pessoa que venha se comprometer a presidir a Deso, independentemente de ser servidor de carreira ou não, estando imbuído de boa vontade e dedicação, tem condições de desenvolver o trabalho”

JLPolítica - Seria arbitrário dizer que a Companhia valeria apenas R$ 3 bilhões?
CM -
 Estamos em andamento com uma avaliação de ativos. Essa foi uma solicitação, inclusive, do Banco Mundial. Mas ainda não temos esse estudo concluído e seria leviano de minha parte avaliar quanto vale a Deso nesse momento.

JLPolítica - O senhor nem chutaria?
CM -
 Prefiro não falar.

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Graduado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo

JLPolítica – Faz diferença a Deso ser presidida por um servidor de carreira, como é o caso do senhor?
CM -
 Acho que qualquer pessoa que venha se comprometer a presidir a Deso, independentemente de ser servidor de carreira ou não, estando imbuído de boa vontade e dedicação, tem condições de desenvolver o trabalho. Acho que ser servidor facilita, porque você já conhece o cenário que está administrando. Por exemplo, aqui entrei como engenheiro, já fui gerente Regional, já trabalhei na área de Operações, na área de Engenharia, cheguei a ser diretor-Técnico, depois fui diretor de Engenharia e Meio Ambiente, saí para ser secretário de Estado num determinado momento e agora diretor-presidente. Com esse conhecimento, a pessoa tem a empresa mais à mão, por conhecer a linguagem dos trabalhadores e, consequentemente, poder realizar um trabalho mais focado.