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Entrevista

Jozailto Lima

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Cícero Mendes: Mais do que nunca, 2020 será uma campanha das mídias sociais

“Quem quer ser candidato até lá em 2022 já deveria estar nas redes sociais desde já”
19 de julho 8h00

Estas eleições municipais de 2020, sob a égide quase que plena e total das mídias sociais em virtude da pandemia do coronavírus, serão um divisor de águas. Elas fixarão um antes e um depois.

E não somente para políticos que, malafrojados e desatentos, poderão ser pulverizados e desintegrados se não souberem usá-las, como também para os próprios profissionais do marketing político - sobretudo aqueles antigos, classudos, que não se adaptarem e insistirem nas fórmulas prontas. Nas fórmulas antigas.

Estas previsões são feitas pelo jornalista, publicitário e marqueteiro político Cícero Mendes, 46 anos, com 21 de atividade. E Cícero está longe, muitíssimo longe, de ser um abelhudo pitaqueiro da área.

Profissional de Comunicação Social desde 1999, com graduação pela Universidade Federal de Sergipe, Cícero Mendes sempre flanou bem acima da média do setor onde opera com um olhar arguto e uma habilidade de relacionamento incomum, o que deixa muita gente em Sergipe meio desconfortável. Ele é ágil e sem firulas.

Para além disso, Cícero Mendes pós-graduou-se em Mídias Digitais e em Marketing Político, Comunicação e Planejamento Estratégico de Campanhas Eleitorais. E é a partir desse platô que ele fala como convidado da Entrevista Domingueira do JLPolítica.

Sem dúvida, é assertivo e pontiagudo em quase 100% do que revela. Como assim? “O poder dado pelas mídias digitais a cidadãos comuns, que passaram a ter voz em seus reclames, exige políticos melhor preparados para expor suas propostas e opiniões. Quem não acompanhar essa transformação ficará para trás, como já aconteceu com muitos. E eu diria que a classe política está sem o devido preparo ou conhecimento da força que as redes sociais possuem”, diz Cícero Mendes, diretamente ao seu público de trabalho. 

“Acredito que a figura do marqueteiro clássico entrará em extinção. Geralmente são aqueles publicitários ou jornalistas que chegam com fórmula pronta, copiada de campanhas vitoriosas, e acham que podem se repetir com grandes chances de sucesso. Esses estão sendo substituídos pelos estrategistas que enxergam cada pleito de uma forma diferente, analisando o candidato com suas forças e fraquezas”, diz Cícero Mendes, agora diretamente ao povo que compõe a atividade em que trabalha. 

Cícero José Mendes Leite nasceu no dia 31 de dezembro de 1973, na cidade de Aracaju, de onde nunca saiu. É filho do engenheiro civil Romildo da Graça Leite e da comerciária Célia Mendes Leite. Romildo já faleceu.

Ele é casado com a médica Débora Leite, com quem é pai dos gêmeos João Guilherme Fontes Leite e Maria Júlia Fontes Leite, de 15 anos, e de Pedro Henrique Fontes Leite, 13.

Cícero Mendes é dono 100% da empresa Empauta Comunicação e Marketing, que tem 12 anos de mercado, e é sócio meio a meio do publicitário Thiago Jacaúna há dois na Innuve Estratégias Digitais, uma agência integralmente voltada para o conteúdo digital nas esferas política e eleitoral.

Antes de fundar sua própria agência, bateu lavanca no nada promissor mercado de comunicação empresarial de Sergipe - foi editor de Cadernos de Municípios de dois veículos sergipanos, o do Cinform e o do Jornal da Cidade. Passou por diversas assessorias de comunicação, a exemplo da da Prefeitura de Aracaju, da Funcaju, da Cohidro e do ex-deputado federal João Fontes, entre outras.

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Treinando assessores políticas sobre redes sociais
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Cícero José Mendes Leite nasceu no dia 31 de dezembro de 1973, na cidade de Aracaju

CONSEQUÊNCIA DAS ELEIÇÕES SOB A PANDEMIA DO CORONA
“Traz a
diminuição da campanha de rua, como carreatas, comícios, caminhadas e panfletagens, além dos santinhos, panfletos, preguinhas, que podem transmitir o novo coronavírus. Com isso, as redes sociais, que já eram consideradas um meio essencial na busca do voto, tornaram-se ainda mais importantes, ganhando uma relevância maior na disputa”

JLPolítica - O que a pandemia do coronavírus traz de diferente no poder das mídias sociais nesta campanha de 2020 em relação à de 2018?
Cícero Mendes -
Traz a diminuição da campanha de rua, como carreatas, comícios, caminhadas e panfletagens, além do próprio material como santinhos, panfletos, preguinhas, que podem transmitir o novo coronavírus. Com isso, as redes sociais, que já eram consideradas um meio essencial na busca do voto, tornaram-se ainda mais importantes, ganhando uma relevância maior na disputa eleitoral. No entanto, aproveitar corretamente as redes em seu benefício envolve uma série de estratégias que vão, além da escolha dos canais, a entender quem é seu eleitor, promover relacionamento, criar conteúdo atrativo e encantar o público-alvo, tornando-o cativo e fiel às ideias do candidato. No entanto, estratégias erradas podem ocasionar um tiro no pé.

JLPolítica - Tem um meio, um canal, entre os tantos à disposição da sociedade, que deve ser mais levado em conta pela classe política no pleito deste ano?
CM -
Nenhuma campanha eleitoral poderá desprezar as duas principais redes sociais que são o Instagram e o Facebook. Mas o conteúdo, ou seja, aquilo que ele irá divulgar em suas redes para ganhar atenção do eleitor. E o grande desafio é alcançar essa atenção em um meio que é, por si só, de entretenimento, e não informativo em si. A maioria das pessoas que acessa as redes sociais está ali para passar o tempo, buscar um conteúdo que tenha algo a ver com sua profissão, seu hobby, e não para ler sobre política ou políticos. Assim, o grande segredo de um bom conteúdo é “prender” a atenção do eleitor online, aquele conectado às redes, com temas que impactem no seu dia a dia.

JLPolítica - O poder obtido pelas mídias sociais nas últimas eleições ajuda a piorá-las ou a melhorá-las em 2020?
CM -
Depende da forma que você as utilize. Infelizmente, o território das redes sociais se tornou nocivo e violento, com ofensas de todos os tipos, agressões verbais e muitas fake news. Essa realidade exige dos políticos estruturas bem preparadas para conter os chamados haters, pessoas que disseminam ódio e adoram as páginas dos políticos. Mas ao meu ver, o poder dado pelas mídias digitais a cidadãos comuns, que passaram a ter voz em seus reclames, exige políticos melhor preparados para expor suas propostas e opiniões. Quem não acompanhar essa transformação ficará para trás, como já aconteceu com muitos.    

JLPolítica - Para se sentir num bom grau de inserção e de competitividade, quem vai à eleição de novembro já deveria previamente estar nas mídias sociais desde quando?
CM -
Eu diria que quem quer ser candidato até lá em 2022 já deveria estar bem posicionado nas redes sociais desde já. Não se constrói uma reputação eleitoral do dia para a noite. E o tempo é o elemento mais democrático de uma comunicação digital, porque ele pode ser igual para todos os candidatos. No entanto, quem começa antes sai na frente, torna-se mais conhecido e obtém vantagem na disputa. Infelizmente, a maioria dos políticos prefere deixar para a última hora a construção de uma rede social minimamente satisfatória, mas boa parte sem se preocupar com as estratégias corretas.

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Com a equipe do então senador Eduardo Amorim durante São Pedro em Capela

MÍDIA MODERNA X REJEIÇÃO DA VISÃO ANTIQUADA
“Eu diria que a classe política está sem o devido preparo ou conhecimento da força que as redes sociais possuem. Há aqueles que acham que rede social é site informativo para divulgar tudo sobre ele, com textões e fotos pessoais. E isso é totalmente errado. Se o político pensa que fazer campanha nas redes é isso, está totalmente enganado”

JLPolítica - De um modo geral, o senhor consegue aferir como estaria a preparação da classe política para se comportar dentro dos meios de mídias sociais?
CM -
Eu diria que a classe política está sem o devido preparo ou conhecimento da força que as redes sociais possuem. Há aqueles, e eu diria que é a maioria, que acham que rede social é site informativo para divulgar tudo sobre ele, com textões e fotos pessoais. E isso é totalmente errado. Se o político pensa que fazer campanha nas redes é isso, com um conteúdo centrado nele, está totalmente enganado.

JLPolítica - A rede fará milagres para quem, no plano pessoal, não tenha conteúdo e carisma consistentes?
CM -
De forma nenhuma. As pessoas estão cada vez mais atentas à qualidade do conteúdo político/eleitoral. E nesse território não existe uma fórmula pronta de sucesso. Tudo depende do momento, da região, das características do candidato. É preciso tratar as redes sociais como uma estratégia profissional da campanha, com planejamento e produção de conteúdo focado nas demandas do eleitor, e nunca concentrada no candidato. Mas para isso é preciso compreender que a comunicação política mudou muito, e hoje ela é dialógica. Ou seja, pautada no relacionamento, em especial com o seu público-alvo. Quem utiliza de todos os recursos das redes sociais tem uma enorme vantagem em relação aos seus concorrentes que não o façam.

JLPolítica - Existe uma conduta padrão a ser adotada por um candidato nas mídias sociais?
CM -
Existe, e a principal delas é a de não enganar o eleitor. O candidato deve ser verdadeiro e não criar um personagem perfeito apenas com o intuito de passar uma imagem atrativa, mas que não condiz com a realidade. O político deve ser ele mesmo, com suas limitações e opiniões acerca de como ele enxerga o problema do seu bairro, da sua cidade ou do seu Estado. A partir daí ele deve definir uma linha de conteúdo, mas sempre buscando publicar temas que sejam do interesse da população. E as próprias redes sociais são um termômetro de temas que estão fervilhando nos debates online. Em 2020, por exemplo, é possível afirmar que a saúde e o emprego dominarão o debate eleitoral. Já em 2018, no pleito presidencial, as discussões foram em torno do combate à corrupção e da violência.

JLPolítica - O senhor acha que o imperativo das mídias sociais torna as campanhas mais baratas, ou isso não altera?
CM -
As grandes campanhas com contas elevadas sempre existirão. Não deixarão de existir. Disputas presidenciais, de governos estaduais e das grandes cidades manterão aquelas fórmulas do marketing eleitoral profissionalizado, com grandes produções. E isso faz parte do jogo. Mas lógico que com a chegada das redes sociais as oportunidades para os cidadãos comuns elegerem-se para os mais diversos cargos aumentaram. E isso a custo relativamente baixo e até inimaginável há alguns anos. Portanto, é claro que as redes sociais tornaram o processo eleitoral mais barato e acessível.

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Com diretores do IGP em Salvador, elaborando briefing para campanha

MÍDIAS SOCIAIS E MUDANÇA DE PARADIGMA NO MARKETING
“Acredito que a figura do marqueteiro clássico entrará em extinção. Geralmente são aqueles publicitários ou jornalistas que chegam com fórmula pronta, copiada de campanhas vitoriosas e acham que podem se repetir com grandes chances de sucesso. Esses estão sendo substituídos pelos estrategistas que enxergam cada pleito de uma forma diferente, analisando o candidato com suas forças e fraquezas”

JLPolítica - Para o senhor, em que grau ou percentagem as redes direcionarão o voto do eleitor nesta eleição?CM - É difícil estabelecer um percentual exato aí. Eu diria que numa eleição municipal a influência da rede social seja menor, porque numa disputa local ainda há aquela necessidade de um contato e uma proximidade, mesmo em época de pandemia. Ainda é muito forte aquele voto da proximidade, do amigo, parente ou vizinho. Isso nos menores municípios, lógico. Nas cidades de médio e grande porte, a influência das mídias digitais será maior, e com a pandemia, elas serão essenciais para definir, por parte do eleitor, a escolha do seu voto.

JLPolítica - Nas mídias sociais, sairá melhor o projeto que tenha por trás uma mão de obra qualificada de um marqueteiro clássico, ou valerá qualquer um ou qualquer coisa?
CM -
Acredito que a figura do marqueteiro clássico entrará em extinção. Geralmente são aqueles publicitários ou jornalistas que chegam com uma fórmula pronta, copiada de campanhas vitoriosas, e que acham que podem se repetir com grandes chances de sucesso. Esses profissionais estão sendo substituídos pelos estrategistas que enxergam cada pleito de uma forma diferente, analisando o candidato com suas forças e fraquezas, o ambiente da disputa, com suas oportunidades e ameaças, e o comportamento dos eleitores. A partir de uma gama de informações é que são definidas as estratégias de comunicação e de posicionamento do candidato.

JLPolítica - Quais os perigos que um candidato corre ao contratar qualquer um improvisador ou manipulador de conteúdo e produção nestes meios?
CM -
Ele corre riscos enormes, porque quando contrata um profissional de comunicação o candidato passa a confiar à pessoa toda a sua estratégia de campanha, e esse profissional será essencial para o êxito e também para o fracasso. É preciso analisar bem quem está se contratando. É preciso verificar sua experiência e buscar referências. Há muita gente por aí vendendo uma expertise que não tem, e isso é um grande perigo. Há vários exemplos de candidatos que trocaram de equipe ou de marqueteiro no meio da campanha, e geralmente quando isso acontece é um sinal de que a derrota está se aproximando. 

JLPolítica - O que é que a legislação eleitoral permite no uso, pelas candidaturas, da participação do cidadão comum e eleitor no universo das mídias sociais?
CM -
Oficialmente, a única coisa que o eleitor não pode é patrocinar, em suas redes sociais, conteúdo político. Ou seja, não pode pagar para o Facebook ou Instagram que impulsionem aquele determinado conteúdo. No mais, toda manifestação está permitida, seja elogiando ou criticando um determinado candidato. Lógico que os limites, em especial das críticas, devem ser estabelecidos conforme a legislação brasileira, respeitando a honra e a integridade do candidato.  

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Com o sócio Thiago Jacaúna, na Innuve Estratégias Digitais, em mais um treinamento de MKT

HÁ TAMBÉM OS RISCOS QUE AS MÍDIAS SOCIAIS TRAZEM
“As redes sociais, por falta de um controle de quem produz conteúdo e informações, são ambientes propícios para as falsas notícias. Não há comprometimento com a verdade ou com a apuração dos fatos, como é a premissa do bom jornalismo. E, infelizmente, pesquisas apontam que boa parte dos brasileiros tem nas redes sociais sua principal fonte de informação”

JLPolítica - O senhor acha que quanto mais poderes tiverem as mídias sociais mais riscos e empoderamento também ganharão as fake news?
CM -
Infelizmente, sim. As redes sociais, por falta de um controle de quem produz conteúdo e informações, são ambientes propícios para as falsas notícias. Não há comprometimento com a verdade ou com a apuração dos fatos, como é a premissa do bom jornalismo. E, infelizmente, pesquisas apontam que boa parte dos brasileiros tem nas redes sociais sua principal fonte de informação.

JLPolítica - Onde e em que circunstâncias o excesso, o paroxismo, o exagero pode depor contra um candidato na mídia social?
CM - Em muitas. Postagens repetitivas, temas fora do contexto e da realidade do candidato ou da sua região e os debates ideológicos infrutíferos são algumas dessas circunstâncias. O maior erro de um candidato é distanciar suas redes sociais da realidade do eleitor. É preciso que haja conexão entre o conteúdo e a demanda, necessidade das pessoas. Quando isso não acontece e, ainda por cima, ele exagera no conteúdo desnecessário e não atrativo, é trilhar por um caminho trágico.

JLPolítica - A falta de fiscalização sobre esses meios e a mão de obra decorrente deles é uma preocupação em que grau?
CM -
É em grau elevadíssimo. Realmente precisamos de um maior controle na atuação profissional nesta área. Hoje qualquer pessoa pode se apresentar como um especialista em mídias digitais, como um guru do marketing digital ou até mesmo um mentor, e isso é um risco. Como falei anteriormente, é preciso checar o histórico de um profissional, suas experiências, métricas, méritos, conhecimento e currículo.

JLPolítica - Hoje o senhor tem duas agências de propaganda, a Empauta e a Innuve. Ambas têm que estrutura para atender e acudir quem necessita de mão de obra especializada este ano?
CM - A ideia de criar a Innuve, em sociedade com o publicitário Thiago Jacaúna, veio da necessidade de ter uma agência 100% digital, focada em conteúdo político e eleitoral. Começamos a montar uma equipe do zero, com profissionais dispostos a gerenciar perfis políticos e a falar para o público deles. Além de mim e do Thiago, temos outros 13 colaboradores, entre publicitários, jornalistas, designers e sociais medias, que atuam desde a produção de conteúdo, passando pelo relacionamento, patrocínio e monitoramento das redes. Já a Empauta mantém um perfil mais governamental, com foco nas gestões públicas. Lá temos outros 17 profissionais atendendo as mais diversas prefeituras e órgãos públicos. 

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Com os jornalistas Rosalvo Nogueira e Paulo Souza

PROPAGANDA ELEITORAL OBRIGATÓRIA CORRE PERIGO
“Continuará diminuindo seu poder de influência na decisão do voto. Cada vez menos, pessoas estão parando para assistir ao horário eleitoral. E boa parte desse conteúdo também vai para canais digitais dos candidatos, em pequenos vídeos. Além da mudança de hábito do eleitor, as regras eleitorais passaram a favorecer novas formas de atrair a atenção das pessoas por parte dos políticos”

JLPolítica - No menor dos menores municípios de Sergipe, é possível se ir à campanha de prefeito sem se estar amparado em marketing, sem uma ação de propaganda profissional?
CM -
Acredito que sim, mas desde que com um mínimo de comunicação. E o que seria isso? Estar nas duas principais redes, Facebook e Instagram, postar conteúdos simples ressaltando suas características pessoais que o reforcem como gestor ou futuro vereador preparado, falar das suas propostas e dos problemas da sua cidade. Em toda cidade há pessoas com alguma experiência ou curiosidade em programas de designer gráfico e que podem produzir e criar os chamados cards para a web, que facilitam a compreensão do conteúdo. E em relação aos vídeos, eles podem ser produzidos pelo celular, com programas simples de edição através de aplicativos disponíveis no próprio aparelho. Com um pouco de criatividade é possível sim participar de um processo eleitoral. Mas isso vale realmente para pequenas cidades e até mesmo com dificuldades de acesso à internet.  

JLPolítica - Quais serão os municípios prioritários em que o senhor e sua equipe atuarão no processo eleitoral deste ano?
CM -
Não separamos clientes e municípios por importância, mas buscamos trabalhar todos de forma profissional, dentro de cada realidade. Uma coisa é certa: teremos grandes desafios. Atendemos prefeitos que irão à reeleição, candidatos de oposição que querem derrubar o prefeito nas urnas, nomes jovens que disputam pela primeira vez um pleito, como também candidato com quatro mandatos de prefeito no currículo. Para cada tipo de cliente, uma forma de comunicação única, baseada nas características dele e na realidade do cenário local.

JLPolítica - No seu ponto de vista, qual será o papel reservado à propaganda eleitoral obrigatória clássica - se ela for mantida -, que vaza sempre pelas TVs abertas?
CM -
Ela continuará diminuindo seu poder de influência na decisão do voto. Cada vez menos, as pessoas estão parando para assistir ao horário eleitoral. E boa parte desse conteúdo também vai para os canais digitais dos candidatos, editados em pequenos vídeos. Além da mudança de hábito do eleitor brasileiro, as regras eleitorais passaram a favorecer novas formas de atrair a atenção das pessoas por parte dos políticos. Em 2016, com o veto do Supremo Tribunal Federal à doação empresarial para campanhas eleitorais, partidos reconheceram que iriam priorizar o uso de redes sociais para incentivar doações de militantes na disputa municipal, além de serem um meio mais barato para fazer campanha. Dois anos depois, a Justiça Eleitoral autorizou, pela primeira vez, o patrocínio de conteúdo na internet. Candidatos poderiam utilizar de ferramentas de impulsionamento, tanto de suas páginas no Facebook e Instagram como no Google - site e busca por palavra-chave. Com isso, as mídias digitais tornaram-se muito mais atrativas para candidatos e um meio mais democrático para os eleitores.

JLPolítica - Qual o espaço reservado ao debate real dos programas de governos dos candidatos numa eleição essencialmente dominada por mídias sociais?
CM -
Acredito que os programas de governos terão espaço nas próprias mídias digitais. O plano de governo é uma peça essencial em toda a campanha e deve ser amplamente trabalhado, com peças detalhando cada proposta. Vale ressaltar que é importante que o plano seja real, sem promessas mirabolantes, apenas com o intuito de alcançar o voto dos eleitores.

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Ministrando curso de Marketing Digital Eleitoral em Aracaju

DOS BENEFÍCIOS DA NOVA LEI DAS FAKES NEWS
“De um modo geral, sou favorável a um controle. Nós, jornalistas, estamos sujeitos a todos os tipos de punições quando divulgamos alguma informação ou denúncia falsa, e por que o cidadão comum, escondido através de um computador ou telefone, não deve sofrer sanções por difamar alguém? Mas vamos acompanhar para ver qual lei deve ser aprovada pelo Congresso”. 

JLPolítica - O espaço para o conteúdo grotesco terá que dimensão nas mídias sociais este ano?
CM -
Infelizmente ainda será grande. E com boa influência na decisão de voto. É a chamada “guerrilha virtual”, formada por uma equipe paralela que busca criar conteúdos  distorcidos, baseados em fakes news contra os adversários e a potencializá-los, principalmente, através do WhatsApp.

JLPolítica - Mas a natural desconfiança que os conteúdos que as redes geram e repassam não pode ser uma faca de dois gumes para os candidatos?
CM -
Acredito que não. Quando o candidato tem uma rede social conectada com a realidade do cidadão, com bons conteúdos e interação, ele passa credibilidade e faz com que esse ambiente gere autoridade digital para sua campanha ou o seu mandato. O importante não é o ambiente em si, mas saber utilizá-lo para a sua comunicação com o eleitor.

JLPolítica - O senhor espera que a campanha de 2020 já se dê sob a égide da nova lei das fake news, aprovada recentemente pelo Congresso Nacional?
CM -
Acredito que sim, e pode ser uma novidade. Há uma pressão grande da classe política para conter os ataques que são promovidos contra boa parte deles nas redes sociais. O projeto está na Câmara e as discussões estão avançando. Vamos aguardar para ver qual será o posicionamento do presidente, se veta artigos ou todo o projeto, uma vez que seus apoiadores são contrários.

JLPolítica - Qual é a concepção que o senhor tem dessa lei que nasce do projeto do senador Alessandro Vieira?
CM -
Confesso que não li o projeto aprovado, até porque na Câmara ele deve sofrer severas modificações. Mas, de um modo geral, sou favorável a um controle. Nós, jornalistas, estamos sujeitos a todos os tipos de punições quando divulgamos alguma informação ou denúncia falsa, e por que o cidadão comum, escondido através de um computador ou telefone, não deve sofrer sanções por difamar alguém? Mas vamos acompanhar para ver qual lei deve ser aprovada pelo Congresso. 

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Durante gravação de comercial sobre merenda escolar, experimentando o produto. Populismo?

DOS PERIGOS DOS ROBÔS E DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
“Nenhuma inteligência artificial conseguirá produzir conteúdos eficazes como a inteligência humana. E, aliás, esse é o principal sucesso das fakes news: são feitas por pessoas e não por robôs. Mas no atual momento, é realmente muito difícil identificar o que é conteúdo orgânico e o que é o automatizado, disparado para milhões de perfis Brasil afora”

JLPolítica - Em quais circunstâncias o senhor já se flagrou produzindo ou compartilhando fake news?
CM -
Esta é uma das coisas contra as quais mais me policio na minha profissão. Inclusive já dei palestras sobre isso e sempre alerto em grupos que participo sobre alguma fake news que está sendo repassada. O mais interessante é que já vi pessoas respondendo meu alerta dizendo que não tinha nada demais em postar aquele conteúdo. Ou seja, mesmo sabendo que era uma mentira, mas por concordar com ela, não viam nada demais em republicá-la, repassá-la. Sobre compartilhamento de alguma fake News, lembro que recebi um vídeo onde dizia que era o ataque militar dos Estados Unidos que ocasionou a morte do general iraniano Qasem Soleimani. Depois, fiquei sabendo que se tratava, na verdade, de um jogo eletrônico. Menos mal que passei apenas para um grupo de amigos e logo após corrigi a informação.

JLPolítica - Como a inteligência humana, de quem produz e de quem recebe, poderá identificar e se desviar do conteúdo produzido pela inteligência artificial e disparado por robôs?
CM - Nenhuma inteligência artificial conseguirá produzir conteúdos eficazes como a inteligência humana. E, aliás, esse é o principal sucesso das fakes news: elas são feitas por pessoas e não por robôs. Mas no atual momento, é realmente muito difícil identificar o que é conteúdo orgânico e o que é automatizado, disparado para milhões de perfis Brasil afora. Mesmo com as tentativas de combate pelos órgãos de controle e fiscalização, essa prática ainda continuará sendo uma realidade no país.

JLPolítica - O senhor considera uma atitude correta e prudente realizar-se uma eleição num país continental no pico de uma pandemia como esta do coronavírus?
CM -
Essa é uma discussão muito polêmica, mas temos acompanhado em outros países que o processo eleitoral segue seu curso normal, mesmo com a pandemia. Acredito que para o fortalecimento da democracia é importante que as eleições aconteçam, adaptadas a essa nova realidade e seguindo normas de saúde. 

JLPolítica - O senhor não teme um baixíssimo índice de comparecimento às urnas?
CM - Sim, com certeza temo. Acredito que a média nacional será em torno de 40%. Mas é um risco que será preciso correr para garantir a alternância de poder ou a continuidade de gestões que forem aprovadas nas urnas.

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Realizando palestra na Câmara de Vereadores de Aracaju

DINÂMICA DAS REDES SOCIAIS EMBARALHA PESQUISAS
“As redes sociais servem como um termômetro atualizado a cada segundo do que pensa a opinião pública, bem mais eficaz do que uma simples prancheta. Ao meu ver, há uma dificuldade crescente dos institutos em fazer pesquisas de intenção de voto com alto grau de precisão. Esse certamente é um dos fatores que explicam o fato de tantas pesquisas divergirem do resultado das urnas, mesmo quando feitas às vésperas das eleições”

JLPolítica - Diante do ocorreu em 2018, numa espécie de esfacelamento e banimento dos grupos liderados por Antonio Carlos Valadares e Eduardo Amorim/André Moura enquanto arquétipos de uma oposição, a eleição de 2020 pode gerar ou algum bloco novo?
CM -
Com certeza. E toda boa surpresa eleitoral é positiva para a democracia, pois representa uma nova opção para o eleitorado. Mas para que isso aconteça, é preciso que a semente da renovação seja bem plantada, a começar pelos seus idealizadores. Vimos casos de uma mudança profunda de governos em Minas Gerais, Paraná e no Rio de Janeiro, por exemplo, e esse “vento de mudança” pode chegar aqui em Sergipe. Como não sou político, não posso apontar quem seria o líder desse processo, mas as portas estão sempre abertas no atrativo mundo da política. Quem souber utilizar melhor as armas terá uma grande vantagem.

JLPolítica - O senhor acha que as novas formas de fazer política e o chamado novo normal que vai se impondo podem mudar o papel das pesquisas de opinião pública nas eleições deste ano?
CM -
Com certeza. As mídias sociais tornaram o diálogo com o eleitor mais próximo, fazendo dele um interlocutor ativo. Com elas, o cidadão passou a emitir sua opinião para além de seu círculo, tornando-se, inclusive, uma pessoa influente. As redes sociais servem como um termômetro atualizado a cada segundo do que pensa a opinião pública, bem mais eficaz do que uma simples prancheta. Ao meu ver, há uma dificuldade crescente dos institutos em fazer pesquisas de intenção de voto com alto grau de precisão. Esse certamente é um dos fatores que explicam o fato de tantas pesquisas divergirem do resultado das urnas, mesmo quando feitas às vésperas das eleições.

JLPolítica - O senhor subscreve ideias bolsonaristas e, logo, de direita. Até que ponto a ideologia pessoal de um marqueteiro pode influir, num atrapalho ou numa ajuda, no itinerário de um candidato?
CM -
De forma nenhuma as subscrevo. Talvez seja uma falsa impressão. Em minhas redes sociais apenas trato de questões profissionais. Não emito opiniões a respeito de determinados grupos políticos ou de ideologias. Aliás, por ser um jornalista não filiado a qualquer partido, às vezes sou taxado de bolsonarista ou de esquerdista, e esse é o mal que permeia as redes sociais, que lhe rotulam ideologicamente por sua opinião. Tenho uma visão de centro, nem à esquerda e nem à direita. Entendo que o que for de exemplo positivo em qualquer um dos lados ideológicos deve ser aproveitado e colocado em prática. O Bolsa Escola, por exemplo, criado por FHC como cópia de um programa do governo Cristóvão Buarque no Distrito Federal, transformou-se no Bolsa Família, adotado pelos governos do PT e, mais recentemente, pelo presidente Jair Bolsonaro que, inclusive, na campanha prometeu a 13ª parcela salarial. Para mim essa é a boa política e que precisa ser replicada.

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Em Foz do Iguaçu - Paraná -, cobrindo encontro nacional de corretores de imóveis