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Entrevista

Jozailto Lima

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Déborah Pimentel: “Teremos que nos conter mais até que a vacina nos salve”'

“Grande parte da população apresenta indícios de sofrimento psíquico”
17 de maio - 8h00

Déborah Pimentel é uma das profissionais de saúde mais respeitadas do Estado de Sergipe e, talvez, possível e seguramente, do Brasil.

Ela é de uma área segregada, às vezes aviltada, que é a que cuida dos dramas psíquicos da pessoa humana - tão comuns quanto o riso, o choro, os problemas cardíacos, mas depreciados e deixados de lado pela sociedade e pelas políticas públicas da saúde.

Déborah Pimentel é médica psicanalista. Frente à sua profissão e aos problemas inerentes a ela, esta psicanalista é de uma integridade intelectual assustadora. Não é omissa e jamais resvala para o populismo. Para as soluções graciosas.

É sensata no que vê e lê. E neste momento de pandemia do novo coronavírus, que proporciona asas à doença Covid-19 e muito sustos aos brasileiros, Déborah Pimentel está vendo e lendo graves complexidades.

Complexidades que mexem e desgastam o pino central da psique da humana gente. “Não tenho nenhuma dúvida de que estamos em uma crise singular e que grande parte da população começa a apresentar indícios de sofrimento psíquico”, diz ela.

“O isolamento acelera as fantasias e os pensamentos negativos ruminantes sobre o futuro próximo. Sobreviverei? Meus entes e amigos queridos sobreviverão? O meu emprego ainda vai estar lá me esperando? Quando isso terá fim? Por conseguinte, a incerteza e a dúvida geram sentimentos de medo, insegurança e desamparo fomentando sofrimento psíquico”, completa Déborah.

Mas, do alto da sua integridade, Déborah Pimentel não empresta sua visão, sua acuidade e seu compromisso social de psicanalista a um pessimismo hediondo, à predicação do fim de tudo. De uma terra arrasada. Nada disso.

“O ser humano é gregário por natureza, precisa de companhia, de sorrisos, de afagos e de toques. O isolamento nos priva disso tudo. Para manter-se bem emocionalmente requer determinação e uma certa pitada de disciplina. Há de se estabelecer rotinas. Não estamos de férias. Nada de preguiça e ociosidade”, orienta a psicanalista.

Como médica psicanalista de práxis muito ativa em consultório, pesquisas acadêmicas e no exercício da cátedra universitária, Déborah Pimentel exibe um conceito muito duro, porém real, do personagem mais notável dessa pandemia no Brasil, que é o presidente Jair Bolsonaro, que tem empurrado a sociedade pro despenhadeiro da condenação do isolamento social.

“Ele ignora o direito à vida. Tem uma postura de desrespeito, deboche do “so what?”. Na base do “e daí?”. Alguns psicanalistas já fizeram uma série de artigos analisando-o como portador de transtorno de personalidade. Acho que ele tem algumas limitações cognitivas também e deve sofrer muito com o seu narcisismo exacerbado. Prognóstico: incurável”, afirma Déborah.

Déborah Mônica Machado Pimentel nasceu no dia 25 de junho de 1958 na segunda maior cidade da Paraíba, Campina Grande, hoje um polo universitário e industrial do Nordeste. Ela chega a Aracaju aos 12 anos, depois que os pais já haviam se mudado para cá com a irmã Kátia Sandra Pimentel Gadelha, três anos mais nova, lhe deixando na Paraíba sob os cuidados da avó paterna Toinha e da tia Tarsila Pimentel.

Déborah Pimentel é filha do empresário, publicitário e jornalista Nazário Ramos Pimentel e da enfermeira Elena Machado Pimentel. Foi casada com o médico neurologista Gilberto Rebello de Mattos, já falecido, de quem era divorciada e com quem se fez mãe de uma única filha - Roberta Pimentel, 36 anos, ortodontista e professora de Ortodontia da Unit e da Associação Brasileira de Odontologia - ABO.

►Todas as fotos com a médica psicanalista Déborah Pimentel são de períodos anteriores à pandemia do novo coronavírus, daí a inexistência de máscaras e inobservância ao distanciamento social.

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Déborah Pimentel e a cepa de onde ela deriva e muito respeita: Elena e Nazário Pimentel
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Ternura antiga: Déborah Pimentel no colo de Nazário Pimentel, que lhe foi pai aos 19 anos

NA ESFERA DO SOFRIMENTO PSÍQUICO
“Não tenho nenhuma dúvida de que estamos em uma crise singular e que grande parte da população começa a apresentar indícios de sofrimento psíquico. O isolamento acelera as fantasias e os pensamentos negativos ruminantes sobre o futuro próximo. Sobreviverei?”

Aparte - A senhora sustentaria a visão de que a pandemia de coronavírus seria capaz de elevar o grau de ansiedade humana a outro patamar quase pandêmico nesta hora?
Déborah Pimentel -
Não tenho nenhuma dúvida de que estamos em uma crise singular e que grande parte da população começa a apresentar indícios de sofrimento psíquico. O isolamento acelera as fantasias e os pensamentos negativos ruminantes sobre o futuro próximo. Sobreviverei? Meus entes e amigos queridos sobreviverão? O meu emprego ainda vai estar lá me esperando? Quando isso terá fim? Por conseguinte, a incerteza e a dúvida geram sentimentos de medo, insegurança e desamparo fomentando sofrimento psíquico.

Aparte - Isso se agrava mais quando, em virtude da situação aparente e exteriorizada da Covid, essa ansiedade não é computada como uma questão de saúde pública?
DP -
Para os gestores lidar com a vulnerabilidade e a fragilidade física dos cidadãos já é um problema grande demais a ser enfrentado. O sofrimento psíquico é quase invisível e, portanto, pode ser ignorado dentro das políticas públicas de saúde. Aliás, saúde mental é sempre relegado a terceiro plano. 

Aparte - Quais as formas mais comuns de arrebentação desta ansiedade?
DP -
No que tange à pandemia, os medos são reais e a angústia passa a ser avassaladora, gerando ou agravando transtornos prévios, como ansiedades, depressões, quer outros transtornos psiquiátricos. Não é difícil imaginar que pessoas que já padecem de TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo -, diante da real necessidade de higienizar mais as mãos, e ou o ambiente, acelerarem seus rituais de limpeza que tanto sofrimento provocam.

Aparte - A senhora acredita que este momento Covid-19 é um bom incubador de somatizações?
DP -
Quando o sujeito não tem válvulas de escape para canalizar as suas emoções, o corpo fala. Tenho muitos clientes que estão apavorados e com muito medo de se contaminar com o coronavírus. A angústia passa a ser incontrolável. As mãos e pés ficam frios, há suor, taquicardia, aperto no peito, pressão na cabeça, às vezes vômitos ou diarreias, dor no estômago e sensação de morte iminente. Estes são exemplos típicos de somatizações que se revelam em crises de grande ansiedade (Síndrome do Pânico), carecendo de atendimento médico e fazendo com que as pessoas busquem serviços de emergência imaginando que estão enfartando. 

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Déborah Pimentel entre seus confrades na Academia Sergipana de Medicina. “Não tenho nenhuma dúvida de que estamos em uma crise singular", diz

UM MOMENTO INCUBADOR DE SOMATIZAÇÕES
“Quando o sujeito não tem válvulas de escape para canalizar suas emoções, o corpo fala. Tenho muitos clientes que estão apavorados e com muito medo de se contaminar com o coronavírus. A angústia passa a ser incontrolável. As mãos e pés ficam frios, há suor, taquicardia, aperto no peito, pressão na cabeça, às vezes vômitos ou diarreias”

Aparte - A ansiedade escolhe classe social?
DP -
Claro que não. Estamos todos na mesma tempestade. Entretanto, cada um no seu barco. Alguns em barcos de luxo e robustos, outros em jangadas desprovidas de velas. A pandemia traz prejuízos para todos. Enquanto uns estão preocupados com a sobrevivência e subsistência mínimas, outros estão atentos com a sua empresa, se serão capazes de resistir tanto tempo de portas fechadas, com baixa ou nenhuma produtividade - veja a atual pressão dos diversos segmentos dos empresários sergipanos sobre o governador Belivaldo Chagas para a retomada dos seus negócios -, há ainda aqueles que estão preocupados com seus altos investimentos na Bolsa de Valores, que mesmo diante da tempestade não terão prejuízos de fato relevantes em comparação aos menores. Todos perdem, todos sofrem de angústias e incertezas que tiram a paz e o sono com importantes avarias, mas cada um nos seus respectivos barcos.

Aparte - Há um remédio comportamental que sirva de antídoto a isso tudo?
DP -
Não há um remédio mágico, mas há posturas de enfrentamento que podem evitar ou reduzir danos. O isolamento social é doloroso para muitos de nós. O ser humano é gregário por natureza, precisa de companhia, de sorrisos, de afagos e de toques. O isolamento nos priva disso tudo. Para manter-se bem emocionalmente requer determinação e uma certa pitada de disciplina. Há de se estabelecer rotinas. Não estamos de férias. Nada de preguiça e ociosidade. E se se trata de um sujeito já aposentado e que não está fazendo home office, que o seu ócio seja criativo.

Aparte - Estabelecer-se ritos e rotinas.
DP -
Sim. Tem que ter hora para tudo. Deve-se fazer um planner. Hora de acordar, hora da atividade física (as academias oferecem gratuitamente aulas online), hora certa para as refeições - nada de pular refeições e ou assaltar a geladeira diuturnamente. Não esquecer de tomar bastante água. Hora para um rápido banho de sol - mesmo que por uma fresta na janela -, hora dos estudos - preparar-se para o Enem, para um concurso -, arrumar os armários, colocar em dia a leitura, os filmes, o artesanato. Hora de aprender uma língua nova, um instrumento musical novo - faça desafios para você mesmo. Hora de escrever um livro, quer em prosa, quer em verso. Enfim, rotina! Chegada a hora de dormir, comece a desacelerar com música tranquila. Ore e durma na hora certa.

Aparte - É conveniente fazer da noite o dia?
DP -
Não. Nada de trocar o dia pela noite. Outra coisa que tenho percebido é o exercício da solidariedade. Nunca vi tantas campanhas quanto neste período de isolamento social, e todas bem-sucedidas. Ajudar os mais vulneráveis, sentir-se útil, gera uma sensação de gratificação que oferece ao sujeito que doa e que ajuda uma sensação de conforto egóico que é estruturante e ajuda a manter o equilíbrio emocional. 

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Há quase 40 anos: Déborah Pimentel na aula da saudade da graduação de medicina na UFS em 1982. “Quando o sujeito não tem válvulas de escape para canalizar suas emoções, o corpo fala", explica

DA IMPORTÂNCIA DE MARCAR A VIDA COM RITOS
“Tem que ter hora para tudo. Deve-se fazer um planner. Hora de acordar, hora da atividade física (as academias oferecem gratuitamente aulas online), hora certa para as refeições - nada de pular refeições e ou assaltar a geladeira diuturnamente. Não esquecer de tomar bastante água”

Aparte - Ser pregoeiro do caos, anunciador de uma nova e avassaladora peste nesta hora serve ao quê e a quem?
DP -
Infelizmente a crise de saúde pública instalada no país com a pandemia transformou o cotidiano em um pandemônio e o coronavírus transformou-se em um protagonista do caos com o seu potencial letal. Basta ver o uso político que tem sido feito com a polarização de duas vertentes, a direita e a esquerda, saúde pública x economia.

Aparte - Esta dicotomia faz bem?
DP -
Não. Sugiro aos meus pacientes que escolham uma única fonte segura de informações e ignorem as demais. Notícias em excesso, intoxica o espírito e gera mais insegurança ainda sobre o que virá no amanhã. Infelizmente as nossas autoridades federais não comungam das mesmas ideias de segurança e proteção à vida que os governadores e os prefeitos.

Aparte - Essa desencontro favorece a algo ou alguém?
DP -
Não. Este desencontro é prejudicial aos cidadãos que ficam confusos com a fragmentação dos discursos políticos psicóticos. Não há lideranças firmes. Enquanto tínhamos o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, tínhamos uma posição firme de alguém que parecia nos orientar e conduzir, ainda que destoante do líder maior. Agora nos perdemos totalmente, e isso gera mais insegurança, mais sofrimento psíquico.

Aparte - Há dois medos latentes no ar: o da doença em si e o do aprofundamento da crise econômica entre os indivíduos. Há como separar uma coisa da outra?
DP -
Sim e não.  Não é uma briga entre o bem e o mal. É uma disputa entre a sobrevivência física, a vida, bem maior do cidadão hoje, garantia fundamental, cláusula pétrea no artigo 5º da nossa carta magna, e a perspectiva de vida material amanhã. Mas de que vale o direito à liberdade ou à propriedade sem a vida? É aí que reside o direito à saúde e à dignidade do sujeito. Claro que, para garantir saúde na pandemia precisamos garantir meios mínimos de subsistência e dignidade. O Governo Federal, do seu jeito tosco e mal planejado, através de Paulo Guedes, ministro da Economia, tem oferecido alguns subsídios e auxílios para minimizar as perdas dos cidadãos e das empresas. Nem sempre os recursos chegam na hora certa para quem de direito, mas há sim, um movimento positivo neste sentido, porém ainda insuficiente. O problema é que o discurso federal é ambivalente e os empresários assustados, tensos, angustiados com sofrimento psíquico insidioso têm pressionado e envenenado os nossos líderes, em especial o presidente, que tem uma postura sarcástica diante desta guerra com um inimigo traiçoeiro, implacável e invisível que produz muitos mortos.

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Déborah Pimentel com os músicos Giló e Joãozinho Ventura, flertando com a alegria junina do passado: um gesto que a pandemia pode interditar este ano. “O discurso contra o isolamento neste momento é cruel", condena

DOS EMBATES ENTRE SAÚDE E ECONOMIA
“Não é uma briga entre o bem e o mal. É uma disputa entre a sobrevivência física, a vida, bem maior do cidadão hoje, garantia fundamental, cláusula pétrea no artigo 5º da nossa carta magna, e a perspectiva de vida material amanhã. Mas de que vale o direito à liberdade ou à propriedade sem a vida? É aí que reside o direito à saúde e à dignidade do sujeito”

Aparte - É pecaminoso o discurso contra o isolamento social?
DP -
O discurso contra o isolamento neste momento é cruel. Diria que é, diante da dinâmica econômica, compreensível, mas não entendo como legítimo, pois atenta contra a segurança e a vida dos outros e não as próprias, dos empresários, haja vista que os defensores da livre circulação de pessoas e mercadorias estão isolados no conforto dos seus lares em um doce isolamento. Conclama-se os frágeis, vulneráveis e pobres filhos da terra para irem à luta e morrerem pela pátria em nome dos donos da economia. Isso é loucura!

Aparte - A senhora acredita que psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e outros profissionais de terapias ocupacionais serão mais demandados nesta hora específica e doravante?
DP -
Temos sido demandados, sim. Creio que estas categorias que trabalham com saúde mental têm trabalhado bastante. Talvez mais do que o habitual, pois as crises de ansiedade que levam as pessoas até as emergências médicas, as depressões e os riscos de suicídio estão mais frequentes. O que tem sido muito bonito de se ver é a rede de solidariedade formada por estes profissionais no Brasil inteiro, que estão prestando serviços gratuitos, como voluntários. Inclusive com a minha instituição, porque o Círculo Psicanalítico de Sergipe faz parte desta rede.

Aparte - A senhora, pessoalmente, nutre algum tipo de medo neste momento?
DP -
Claro! Sinto muito medo! Sou do grupo de risco. E o fato de ser profissional da saúde não me isenta de ansiedades e medos. Aliás, os profissionais de saúde estão sob indícios de importante sofrimento psíquico. Estou liderando um estudo com mais dois pesquisadores, o professor e doutor Ikaro Daniel de Carvalho Barreto e o doutor Daniel Lima Figueiredo sobre a “Saúde mental dos médicos brasileiros durante o combate à pandemia do Covid-19”. Estamos na fase de análise dos dados e temos alguns resultados parciais que apontam que os médicos que estão fazendo atendimento presencial estão com elevado nível de estresse, com somatizações relevantes.

Aparte - O que a senhora, enquanto psicanalista aplicada e de boa vivência no tecido social e da saúde mental de Sergipe, prescreveria, assim meio que de súbito, para as pessoas?
DP -
Embora já tenha abordado isso numa questão anterior, mas reforço a importância de se construir uma rotina saudável, evitar as fake news, não replicar notícias que não agregam valores sobre o tema e sobre as políticas divergentes; terapia online e se necessário não hesitar em buscar ajuda psiquiátrica também. Nunca se automedicar, mesmo que você seja um médico. Confie nos colegas. Esta é a hora de acabar com a psicofobia e com os preconceitos com o sofrimento mental, sempre associado jocosamente a loucura. Admitir limites e pedir ajuda pode ser essencial ao equilíbrio mental.

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Déborah Pimentel num momento pose em Antigua com os pais, a irmã Katia e a sobrinha Laiza. “Não é uma briga entre o bem e o mal", adverte

IMPRUDENTE DISCURSO CONTRA ISOLAMENTO SOCIAL
“O discurso contra o isolamento neste momento é cruel. Diria que é, diante da dinâmica econômica, compreensível, mas não entendo como legítimo, pois atenta contra a segurança e a vida dos outros e não as próprias, dos empresários, haja vista que os defensores da livre circulação de pessoas e mercadorias estão isolados no conforto dos seus lares”

Aparte - Dói-lhe não estar clinicando presencialmente há dois meses?
DP -
Tenho feito telemedicina. Confesso que com sucesso. Entenda-se como sucesso a percepção de que o processo tem fluido com naturalidade na relação médico-paciente. Nunca tinha pensado antes na possibilidade de fazer atendimentos online. Tinha um certo preconceito, admito, e me surpreendi com o quanto pode ser funcional e como temos a chance de ajudar outras pessoas. Tenho dado aulas sistematicamente e acompanhado várias pesquisas em andamento. O semestre não parou. A Unit nos preparou para o ensino à distância e a UFS deu início também às capacitações com este fim. A sensação é a de que estou trabalhando mais do que antes. Enfim, o meu mundo continua girando. Ainda que sobre um novo eixo.

Aparte - Desde que exerce a atividade de médica psicanalista a senhora já havia ficado tanto apartada da realidade de consultório?
DP -
Nunca tanto tempo. As minhas férias sempre foram divididas em duas etapas, de no máximo 15 dias.

Aparte - A senhora é filha de dois octogenários, Elena e Nazário Pimentel. Como eles estão atravessando os rigores impostos por esta hora?
DP -
Meus pais estão muito bem. Criaram uma rotina própria: exercitam-se, leem muito, hábito bem próprio da nossa família, são pessoas otimistas que acreditam no futuro - segredo do bem viver -, dão muita risada e ainda fazem o que mais gostam, assistem a filmes e mimam Grace Kelly, um novo pet. Eles são muito companheiros e cúmplices entre si e a agradável companhia um do outro torna tudo muito mais fácil. Nos falamos com frequência e eventualmente fazemos chamadas de vídeo para aplacar a saudade aguçando a visão.

Aparte - O medo de morrer pode ser gradado pela idade?
DP -
Quando se é jovem não se pensa na morte. Os jovens são imortais no seu imaginário e por isso ousam e transgridem tanto. Basta perceber o número de vítimas de acidente no trânsito, grande maioria fruto da imprudência juvenil. Ao ficarmos mais velhos, começamos a nos dar conta dos perigos que nos colocam vulneráveis. Começamos a perceber que não somos poderosos e invencíveis como imaginávamos. Daí em diante, por medo da morte, nos tornamos mais cautelosos. Entretanto, na terceira, ou melhor idade, creio que o medo talvez não seja mais de morrer, mas de sofrer. Acredito que a dor é o maior medo e a maior agonia do ser humano, e que a morte pode ser um alívio diante dessa dor.

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Déborah Pimentel em seu momento garota propaganda da Campanha Setembro Amarelo. “Tem que ter hora para tudo", recomenda

DA REPROVAÇÃO AO MODO DE AGIR DE BOLSONARO
“Ele ignora o direito à vida. Tem uma postura de desrespeito, deboche do “so what?”. Na base do “e daí?”. Alguns psicanalistas já fizeram uma série de artigos analisando-o como portador de transtorno de personalidade. Acho que ele tem algumas limitações cognitivas também e deve sofrer muito com seu narcisismo exacerbado. Prognóstico: incurável”

Aparte - Até que ponto o medo e a somatização podem levar alguém ao nocaute neste instante?
DP -
Ninguém está imune. Nem você e nem eu. Nem o rico e nem o pobre. Nem o desempregado e nem o presidente, que sempre corre o risco, pela alteridade natural do poder, de ficar desempregado um dia. Perder o poder, perder autonomia, é quase uma morte capaz de gerar muita dor e sofrimento psíquico. Ficar em casa na quarentena é perda de poder. É pura impotência.

Aparte - Agrada-lhe o modo como o presidente da República encara a pandemia e a doença Covid-19?
DP -
Claro que não. Respondi parte disso antes - ele ignora o direito à vida. Tem uma postura de desrespeito, deboche do “so what?”. Na base do “e daí?”. Alguns psicanalistas já fizeram uma série de artigos analisando-o como portador de transtorno de personalidade. Acho que ele tem algumas limitações cognitivas também e deve sofrer muito com o seu narcisismo exacerbado. Prognóstico: incurável. E atenção: sinto-me à vontade para fazer esta análise, pois sou corresponsável por ele estar no Planalto. Mas não sou cega, nem surda e graças a Deus tenha as capacidades de percepção e de julgamento preservadas, e refiz muito rapidamente a minha opinião, conforme os dados novos vão chegando e a gente vai construindo uma nova narrativa. Mas, pode ser paradoxal, torço e rezo por ele, por nós, pelo Brasil, para que menos loucuras ou frases malditas não estraguem mais ainda a nossa pobre e tosca trajetória.

Aparte - A senhora acredita que a humanidade sairá desta crise um pouco melhorada ou não é tão otimista assim?
DP -
Sou otimista. “Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”, como diria a canção do Lulu Santos. As pessoas descobriram que podem ser felizes com menos do que pensavam. Estamos nos reinventando e nos tornando minimalistas. Mais solidários também. Tornamo-nos pessoas melhores. A família passou a ser mais valorizada. Tenho depoimentos dos meus clientes de que as famílias estão mais unidas, conversam mais, brincam mais, oram juntos, fazem as refeições juntos - os pais mais atenciosos e carinhosos com os filhos, casais mais unidos e mais cúmplices. Depoimentos de que a vida sexual melhorou, mais sedutores e atenciosos. A família teve um ganho extraordinário. Muitas empresas também não voltarão a funcionar nos velhos moldes.

Aparte - Eles estão sinalizando novos horizontes?
DP -
Alguns empresários descobriram que os custos reduzem muito com os funcionários fazendo home office e não precisam mais de grandes espaços, que podem ser reduzidos. Com isso, gastam menos energia, transporte, alimentação, manutenção, e o melhor: os funcionários estão mais produtivos trabalhando remotamente. Para os mais jovens, a geração aperta botão, a internet é o recurso natural em tempos de quarentena para continuar fazendo o que sempre fizeram. Já para os mais velhos, a internet, antes usada de forma limitada, agora nos desafia e nos obriga a aprender coisas novas para continuarmos, inclusive produzindo e nos manter no mercado de trabalho. Vida nova. A volta pós-quarentena também nos obrigará a novas etiquetas sociais. Teremos que conter mais os gestos expansivos sem apertos de mão, sem abraços, sem beijos até que a vacina nos salve.

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Déborah Pimentel e Nazário Pimentel: ela acredita que história dele merece um livro biográfico. "Deve sofrer muito com seu narcisismo exacerbado", sobre Bolsonaro

DA MUDANÇA NOS RUMOS DA VIDA E DO TRABALHO
“Tenho feito telemedicina. Confesso que com sucesso. Entenda-se como sucesso a percepção de que o processo tem fluido com naturalidade na relação médico-paciente. Nunca tinha pensado antes na possibilidade de fazer atendimentos online. Tinha um certo preconceito, admito, e me surpreendi com o quanto pode ser funcional e como temos a chance de ajudar outras pessoas”

Aparte - O pós-pandemia poderá gerar uma espécie de reflexão positiva dos sistemas de saúde público e particular do Brasil?
DP -
Tivemos uma vida para preparar os serviços de saúde e a verdade é que negligenciamos o SUS, e diante de uma crise como esta os serviços deixam a desejar. Infelizmente, o SUS não está dando conta desta doença imprevisível, pois o vírus é desconhecido e muito agressivo, e não temos protocolos terapêuticos de consenso. Muitos que se recuperam pós-internação provavelmente necessitam ainda de terapias complementares, e o nosso sistema não estava preparado para atender tanta gente ao mesmo tempo. Estamos sem Equipamentos de Proteção Especial para a proteção dos membros das equipes de saúde.

Aparte - Mas ao fim de tudo resta uma boa imagem do sistema que é SUS?
DP -
Sim. Porque é importante frisar que o SUS ainda é um belo modelo de saúde pública, no qual todos tem acesso - ainda que na teoria - à saúde. Situação bem diferente dos Estados Unidos, onde o sistema de saúde é para poucos. Enfim, precisamos de bons gestores, de um lado, para administrar os parcos recursos - evitando fraudes na compra de ventiladores como a mídia tem noticiado -, e da colaboração dos líderes para que estimulem a população, de forma responsável, para o isolamento social até que tenhamos um serviço público mais bem equipado e preparado para receber as pessoas que invariável e infelizmente serão vítimas do Covid-19. Evitemos o colapso. 

Aparte - O trabalhador da saúde seria uma espécie de paciente neste momento?
DP -
Sim. Trabalhar em subcondições, sem EPI, sem equipamentos e outros recursos materiais em serviços com poucos leitos, em regime de plantão, assustados pela possibilidade de se contaminar e contaminar a própria família, já são por si, variáveis capazes de adoecer e gerar sofrimento psíquico nestes profissionais.

Aparte - Pelos seus cálculos e desejos, quando tudo isso passará?
DP -
Até a vacina ser produzida, testada e distribuída levará um bom tempo. No mínimo um ano. Fico com medo de colocar as caras por aí. Só não sei por quanto tempo posso me esquivar e me esconder. 

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Três gerações Machado Pimentel: Roberta, Déborah e a matriarca Elena. "Nunca tinha pensado antes na possibilidade de fazer atendimentos online", conta

DO MEDO DA MORTE POR CICLOS DE IDADES
“Quando se é jovem não se pensa na morte. Os jovens são imortais no seu imaginário e por isso ousam e transgridem tanto. Basta perceber o número de vítimas de acidente no trânsito, grande maioria fruto da imprudência juvenil. Ao ficarmos mais velhos, começamos a nos dar conta dos perigos que nos colocam vulneráveis”

Aparte - A senhora acredita que uma vacina contra a doença Covid-19 pode chegar num primeiro momento segregando classes sociais?
DP -
Não creio. Neste aspecto o Brasil tem sido bastante democrático e conseguimos, via vacinação, erradicar várias doenças do país. Em termos de vacinação, somos modelo para muitos países.

Aparte - No dia 28 de julho, seu pai Nazário Pimentel, que foi um grande empreendedor da mídia impressa de Sergipe, fundador do Jornal da Cidade e do Jornal de Sergipe, fará 82 anos. A família não acha que a história dele é credora de um bom livro biográfico?
DP -
Tenho muito orgulho da história do meu pai. Muito orgulho de ser filha de um homem de vanguarda, futurista e empreendedor. Sim, existem muitas histórias, fatos e “causos” que podem ser registrados. É um projeto meu, sim. Factível, sim. Meu pai, entretanto, é low-profile - discreto demais - e estou convencendo-o da importância disso. A história dele se confunde com a história da imprensa sergipana, e isso carece ser escrito.

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Déborah Pimentel e os alunos da UFS: a cátedra com a cara da alegria. “Quando se é jovem não se pensa na morte", pontua