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Entrevista

Jozailto Lima

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Denise Albano: “Temos problemas na UFS que precisam ser enfrentados sem demagogia nem populismo”

“Faltam na UFS transparência e clareza nos critérios de aplicação dos recursos”
27 de outubro de 2019 - 8h


Se o momento de prevalência do pluralismo, da tolerância aos contrários e dos pensamentos diversos tiver alguma aplicabilidade - tudo indica que não - sobre a eleição para a escolha do futuro reitor da Universidade Federal de Sergipe, entre maio e abril do ano que vem, a professora de nome grandão Denise Leal Fontes Albano Leopoldo pode ter sucesso em sua pretensão de suceder a Angelo Antoniolli.

Denise Albano, 49 anos, casada, mãe de dois filhos, pelo menos não é avara nem somítica em ações e atitudes, e já sacudiu sua rede de arrasto no mar dessa disputa que promete ser talvez a mais aguerrida na história da UFS.

Assumidamente de direita, do tipo que pulsa forte pelo riscado do Governo de Jair Bolsonaro e seus ministros meio malafrojados, essa professora é signatária do Grupo Docentes Pela Liberdade, de abrangência nacional, e enquanto outros tantos pré-candidatos ao lugar de Angelo Antoniolli estão nas fraldas, ela já está saindo da primeira infância e pré-elaborando um plano de ação para apresentar na campanha do ano que vem.

“O quadro ainda está inicial, mas em relação aos demais, o que vejo como diferencial é o fato de que integro um grupo que já vem pensando novos rumos, pautado exatamente em certos princípios e valores que nos são muito caros”, anuncia Denise Albano

“Esse grupo compreende a mim, ao professor Rodorval Ramalho, ao professor Fernando Barroso, depois se integram a ele o professor Gerlis Brito, da Contabilidade, a professora Brancilene Santos de Araújo, que foi inclusive presidente da Adufs, e o professor Alan Almeida Santos, de Itabaiana, e Douglas Ferreira e Aderval Aragão. Com esse grupo, temos nos debruçado sobre a realidade da UFS”, diz ela.

Nessa elaboração, Denise Albano mostra o que pensa pro futuro e oferece as garras críticas sobre o que vem sendo feito pela atual gestão que está há 24 anos no cangote da UFS. Mas, afinal, que “certos princípios e valores” serão esses de que fala a professora pré-candidata?

“Eu me coloco como uma candidata propositiva, ciosa de que temos graves problemas na UFS. Problemas que precisam ser enfrentados sem demagogia, sem populismo, com um grupo qualificado que valorize mérito, competência. Que promova uma renovação na gestão, com servidores técnicos que têm demonstrado interesse na melhoria, na solução de problemas e que, assim, possam ocupar espaços decisórios”, diz a moça.

Nessa explanação acima, vem embutida um esforço de negação à condição de uma candidata bolsonarista. “É claro que não sou adesista de primeira hora de certas falas e certos discursos vindos do Governo. Acho lamentável a entrevista do ministro Ônyx Lorenzoni comparando a UFS à Unit. Agora, é necessário que a gente também tenha abertura para a crítica interna, porque um discurso cego, corporativista, só pode fazer com que a gente avance em passos largos rumo a um descrédito da instituição universidade federal”, diz ela.

Mas o que pretende na prática “uma candidata propositiva, ciosa de que tem graves problemas a UFS?”. “Defendemos alguns valores e princípios que para a gente são muito caros, como uma universidade plural, onde ideias possam ser expostas em um ambiente de tolerância e de respeito ao pensamento diverso. Defendemos também uma melhoria na qualidade da pesquisa, porque a gente percebe um crescimento de investimentos nessa área, mas em termos de qualidade, não”, expõe Denise.

E que não se veja entretenimento e proselitismos nos planos da moça. Denise Albano diz que está no páreo para chegar ao pódio e não apenas para competir. Ou seja, quer chegar à lista tríplice, de onde é selecionado o futuro reitor.  

Denise Leal Fontes Albano Leopoldo nasceu no dia 12 de setembro de 1970, em Picos, Piauí. Bacharelou-se em Direito em 1995 pela Universidade Federal do Ceará e em 1996 - há 23 anos, portanto - chega em Sergipe.

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É casada com o primo Paulo de Tarso Leopoldo - eles formam um casal católicos papa-hóstia -, com quem tem dois filhos - Pedro Augusto Albano Leopoldo, 19, e Ana Sofia Albano Leopoldo
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Denise Leal Fontes Albano Leopoldo nasceu no dia 12 de setembro de 1970, em Picos, Piauí

CHANCES DE SEU GRUPO LEVAR A REITORIA
“Eu acho que as chances são reais. Creio que o quadro que se desenha não seria necessariamente de polarização, mas de confronto de visões de universidade sobre um choque de gestão”

JLPolítica - Professora, quais as chances de grupos mais à direita levarem a Reitora da Universidade Federal de Sergipe no ano que vem?
Denise Albano -
Eu acho que as chances são reais. Creio que o quadro que se desenha não seria necessariamente de polarização, mas de confronto de visões de universidade sobre um choque de gestão que se impõe numa instituição que tanto cresceu. Na verdade, é um efeito de inchaço. A UFS inflou, mas deixou a desejar no campo da melhoria da gestão.

JLPolítica - Quem entrar em campanha contra o grupo que a administra há décadas terá que discurso de desconstrução desse modelo?
DA –
Eu diria que, na verdade, a campanha que tem mais chances de prosperar é aquela que se apresentar ao mesmo tempo propositiva, apontando saídas para certas encruzilhadas e impasses que estão escancarados, repensando a nota de alunos, o índice de conclusão de curso de alunos por curso reduzido, falta de gestão, e que também preserve certas conquistas. Não pode ter uma posição que é lamentável ainda na política e que pode, de certa forma, repercutir no meio acadêmico, que é a de anular conquistas e avanços.

 JLPolítica – A senhora acha que pode chegar à lista tríplice?
DA -
Acreditamos e vamos trabalhar para isso. Mas é indispensável pensar também com abertura para a comunidade acadêmica, como professores, servidores técnicos e alunos para exatamente conhecer a realidade da UFS hoje e o que nosso grupo propõe.  

JLPolítica - O que é que predica o grupo “Docentes pela Liberdade” e qual o arco de ação dele nas instituições de ensino superior?
DA -
Esse movimento é bem recente, surge por volta de maio desse ano capitaneado pelo professor Marcelo Hermes, da UNB. Começamos com um pequeno número de professores, que foi se amplificando e hoje temos docentes de universidades federais e institutos técnicos espalhados por todo o Brasil. Defendemos alguns valores e princípios que para a gente são muito caros, como uma universidade plural, onde ideias possam ser expostas em um ambiente de tolerância e de respeito ao pensamento diverso. Defendemos também uma melhoria na qualidade da pesquisa, porque a gente percebe um crescimento de investimentos nessa área, mas em termos de qualidade, não. E o Docentes pela Liberdade também defende, necessariamente, uma gestão mais eficiente e transparente nas universidades e, lamentavelmente, a própria UFS não ocupa uma posição muito lisonjeira em termos disso a partir do ranking do próprio Tribunal de Contas da União. 

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Denise em companhia do seu Olavo de Carvalho particular, o professor Rodorval Ramalho

O QUE PREDICA O “DOCENTES PELA LIBERDADE”
“Defendemos valores e princípios que para a gente são muito caros, como uma universidade plural, onde ideias possam ser expostas em tolerância e de respeito ao pensamento diverso. E também uma melhoria na qualidade da pesquisa”

JLPolítica - A senhora consideraria que a maioria dos pré-candidatos é do baixo clero da UFS, não se destaca no espaço universitário, não lidera ou impacta a vida da universidade, e o que isso pode ter um preço na eventual futura gestão?
DA -
O termo baixo clero é muito utilizado exatamente para caracterizar com certa caricatura alguns deputados na Câmara Federal, e senadores também, de pouca produtividade, de pouca representatividade e articulação. Na UFS, o que eu vejo são movimentos de pessoas como eu e como o colega que gosto muito e com quem tenho uma boa relação, o professor David Soares Pinto Júnior, por exemplo, que não ocupam cargos de proeminência na administração central, mas não posso dizer que necessariamente a gente veste a carapuça do baixo clero. Porque somos, antes de tudo, professores que trabalham e que buscam ocupar espaços qualificados. Eu já fui do Conselho Superior e David também. Já fui do Conselho de Ensino e Pesquisa, temos uma participação ativa em nossos Centros e de certa forma procuramos arejar esses ambientes com ideias que não sejam mais do mesmo.

JLPolítica - A senhora se admite uma pré-candidata entre diversos pré-candidatos com a mesma aspiração. Qual a sua diferenciação em relação aos demais?
DA -
O quadro ainda está inicial, mas em relação aos demais, o que vejo como diferencial é o fato de que integro um grupo que já vem pensando novos rumos, pautado exatamente em certos princípios e valores que nos são muito caros. Esse grupo compreende a mim, ao professor Rodorval Ramalho, ao professor Fernando Barroso, depois se integram a ele o professor Gerlis Brito, da Contabilidade, a professora Brancilene Santos de Araújo, que foi inclusive presidente da Adufs, e o professor Alan Almeida Santos, de Itabaiana, e Douglas Ferreira e Aderval Aragão. Com esse grupo, temos nos debruçado sobre a realidade da UFS.

JLPolítica - O seu grupo de trabalho da pré-campanha está com equipes divididas para fazer um diagnóstico da UFS e já detecta que há muitos números que são ocultados e outros até distorcidos. Quais os mais graves deles?
DA -
O que considero mais grave é exatamente essa questão da retenção de alunos. Durante muito tempo, praticamente o que se estabelecia na normativa da UFS era que os colegiados de curso deveriam ser informados da defasagem, período cursado pelo aluno e ano de ingresso. Mas essas informações não chegavam. É isso foi inflacionando certos cursos com índice de retenção de alunos em certos períodos sem que a universidade cobrasse um plano para que esses alunos atingissem a meta de um limite para a conclusão deles. Além disso, outro dado preocupante é o alto índice de reprovação em algumas disciplinas, como cálculo, que é obrigatória em alguns cursos. O problema é que muitos alunos ingressam sem base em cálculo. O Enem não cobra uma matemática de nível compatível ao conhecimento exigido em cálculo e o que temos é uma retenção elevadíssima, sem projeto consistente de nivelamento, de alunos em disciplinas como Cálculo, Bioquímica e por aí adiante.

JLPolítica - A iniciativa da Reitoria de efetivar uma norma que exige um limite de tempo para os alunos concluírem seus cursos é a ressurreição do antigo jubilamento?
DA -
Ocorre que isso sempre existiu. O que faltava era a aplicação e a efetivação da normativa.

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Na defesa da tese de doutorado na UFPE, ao lado do professor Joaquim Falcão da FGV-Rio como um dos examinadores

GRAVIDADE DA RETENÇÃO DE ALUNOS NA UFS
“O que considero mais grave é exatamente essa questão da retenção. Durante muito tempo, praticamente o que se estabelecia na normativa da UFS era que os colegiados deveriam ser informados da defasagem, período cursado pelo aluno e ano de ingresso. Mas essas informações não chegavam”

JLPolítica - A senhora acha que grupos acomodados, sob a batuta dessas gestões há 26 anos, ajudaram a declinar a qualidade do ensino na UFS. Com que práticas em que dimensão?
DA -
O problema aí vai desde uma gestão acadêmica que, apesar de ter funcionários dedicados, muitas vezes não tem condição de acompanhar a demanda crescente da instituição. Então, parte dessas atividades está sendo realizada por terceirizados. Outras, por funcionários que não dão conta, e o que temos são decisões erráticas, tomadas a toque de caixa nas quais problemas reais não são enfrentados. Resultado: a gente tem, em alguns cursos, a exigência de que os alunos realizem uma carga horária de atividades complementares que, como o nome diz, são fora do currículo padrão que agreguem habilidade, competências múltiplas para o graduando. O que ocorre é que numa gestão eficiente, o aluno cursando essas atividades no âmbito da UFS não precisaria entrar com requerimentos, buscar certificados, porque ela forneceria o certificado tão logo ele atingisse, sem passar por colegiado, sem demandar reunião. Ele requereria que a Universidade fizesse contar no histórico esse ponto das atividades. Só mobilizaria colegiado, todo o processo de avaliação, atividades feitas fora da Universidade. Então, há mecanismos que você pode agilizar procedimentos, mas que a gente percebe que ainda não houve o choque de gestão.

JLPolítica - A senhora acha que já morreu e foi sepultada aquele velha noção de autonomia das universidades públicas brasileiras?
DA -
Na verdade, a UFS tem o terceiro maior orçamento do Estado, e que grau de inferência o Governo Federal tem no destino desses recursos? Veja que a UFS provavelmente foi uma das universidades que teve um dos mais destacados índices de crescimento, de proliferação de cursos, de interiorização. E salvo o controle pelos órgãos de fiscalização, como TCU e CGU, a chamada ingerência do Ministério da Educação nas instituições superiores é praticamente inexistente. O que falta na UFS é transparência e clareza nos critérios de aplicação desses recursos.

JLPolítica - A senhora não acha que há uma ameaça real às universidades públicas no contingenciamento de que fala o Governo Bolsonaro?
DA -
Todos os governos anteriores fizeram isso. Porque aí é aquela questão de que o orçamento deve refletir a realidade fiscal do Estado. Vamos lá: há uma previsão orçamentária, mas a arrecadação não foi compatível com o que estava projetado. Os governos anteriores de Lula e de Dilma contingenciaram. E dessa forma, conforme o quadro fiscal vá melhorando, a liberação de recursos vai sendo feita, o que ocorreu recentemente.

JLPolítica – Para além do contingenciamento, os conceitos emitidos pelo Governo Bolsonaro e sua equipe sobre o ensino público superior não lhe causam preocupação?
DA -
É claro que não sou adesista de primeira hora de certas falas e certos discursos vindos do Governo. Acho lamentável e repercutiu muito mal a entrevista do ministro Ônyx Lorenzoni comparando a UFS à Unit. Agora, é necessário que a gente também tenha abertura para a crítica interna, porque um discurso cego, corporativista, só pode fazer com que a gente avance em passos largos rumo a um descrédito da instituição universidade federal, e isso pode levar também a uma percepção de que a gente vive encastelado, olhando para o nosso umbigo. Então, quando o ministro diz que temos professores universitários que dão 9 horas de aula e recebem R$ 12 mil, R$ 13 mil, é necessário contextualizar. Se é um professor que se dedica única e exclusivamente a dar aula, 8 horas, 9 horas é pouco, se não desenvolve pesquisa, extensão. Se não orienta. Mas jogar essa questão para a opinião pública, sem contextualizar que a gente integra órgãos colegiados, orienta alunos, desenvolve iniciação científica, dá aula no programa de pós-graduação, é no mínimo inconsequente.

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Denise, sob o afago e afagando os filhos Pedro Augusto Albano Leopoldo, 19, e Ana Sofia Albano Leopoldo, de 12

DESACREDITA NA MORTE DA AUTONOMIA DA UNIVERSIDADE
“Na verdade, a UFS tem o terceiro maior orçamento do Estado, e que grau de inferência o Governo Federal tem no destino desses recursos? Veja que a UFS provavelmente foi uma das universidades que teve um dos mais destacados índices de crescimento, de proliferação de cursos, de interiorização”

JLPolítica - O que a sociedade e a educação ganham com a prática de reitores ungidos pelo lulopetismo, pelo tucanato de FHC ou agora sacramentados pelo bolsonarismo?
DA -
Creio que seja lamentável quando a universidade não busca se imunizar dessa disputa político-partidária-ideológica miúda. A universidade tinha que buscar refletir certas tendências que a sociedade sinaliza, mas preservar certa função de espaço de produção de conhecimento qualificado e de estudos e pesquisas que possam contribuir para a sociedade brasileira.

JLPolítica - A senhora se coloca como uma candidata bolsonarista?
DA -
Não. Eu me coloco como uma candidata propositiva, ciosa de que temos graves problemas na UFS. Problemas que precisam ser enfrentados sem demagogia, sem populismo, com um grupo qualificado que valorize mérito, competência. Que promova uma renovação na gestão, com servidores técnicos que têm demonstrado interesse na melhoria, na solução de problemas e que, assim, possam ocupar espaços decisórios.  

JLPolítica - A senhora subscreve o projeto de nação desenhado pelo filósofo Olavo de Carvalho e às vezes seguido por Bolsonaro?
DA -
Qual seria essa visão? Porque, na verdade, o que vejo é que há uma certa ascendência em torno de ideias, pensamentos, mas sem dúvida não dá para incorporar e referendar tudo e transpor para um ambiente tão específico e peculiar como é a universidade. Ademais, o Olavo coloca algumas questões que merecem, no mínimo, uma reflexão de nossa parte. Veja que são as universidades que formam os profissionais mais qualificados e o que temos de realidade é um mercado cada vez mais exigente, que não encontra quadro suficiente tão qualificado oriundo dos cursos superiores.

JLPolítica - A senhora está dizendo que as universidades públicas não formam bem hoje em dia.
DA -
A gente vem deixando a desejar. Numa entrevista, creio que neste Portal, o professor Angelo Antoniolli coloca que a universidade pública tem que continuar também como espaço para que pensadores, estudiosos, que não necessariamente tenham uma visão de mercado, encontrem essa espécie de reserva intelectual, onde possam estar desenvolvendo suas ideias e pesquisando filosofia e ciências sociais - com o que eu concordo. Dessa forma, a universidade pública tem que reconhecer que o papel dela não é o de apenas formar profissionais para o mercado, mas termos também prover cursos que preparam esses profissionais, porque eles precisam sair também com conhecimento técnico e não apenas problematizar questões ou brincar de revolucionar o mundo, a engenharia social.  

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Os pais - Erasmo Leopoldo Albano e Rosimar Leal Fontes Albano, em Canindé, Ceará (a mãe mora em Picos no Piauí) com o irmão Roberto, oficial de Justiça da Justiça Federal, residente em Fortaleza

ERRO DA BATIDA DE CONTINÊNCIA NA ESCOLHA DO REITOR
“Creio que seja lamentável quando a universidade não busca se imunizar dessa disputa político-partidária-ideológica miúda. A universidade tinha que refletir certas tendências que a sociedade sinaliza, mas preservar certa função de espaço de produção de conhecimento”

JLPolítica - Como é que se processa na prática a falta de transparência na seleção e distribuição de bolsas de pesquisa pela UFS?
DA -
Esse é um processo que eu creio que se você perguntar a qualquer gestor dessa área ele vai encontrar dificuldades nesse esclarecimento. Veja, muitas vezes, ocorre de eu inscrever projetos de iniciação científica na época em que tinha apenas mestrado, e só podia inscrever alunos com bolsa. O que a gente percebe é que professor só tem direito a um aluno voluntário, sendo que uma pesquisa de largo alcance, que custo a universidade teria em aumentar o número de alunos voluntários, sem nenhum ônus para desenvolver pesquisa? Isso foi na gestão passada, mais recentemente, já nessa gestão, tivemos casos de um aluno começar um projeto de pesquisa com um professor, abandona o curso, a atividade, o professor fica sem ter condição de apresentar um relatório final com os resultados da pesquisa, é sancionado, e esse aluno que abandonou consegue se inscrever em outro projeto, com outro professor. O aluno não é sancionado por ter abandonado e o professor fica sem poder se inscrever enquanto não apresentar o relatório final. Então, há distorções que precisam ser corrigidas.

JLPolítica - Quais os maiores defeitos de Angelo Antoniolli como reitor da UFS?
DA -
Eu creio que os maiores defeitos dele são um certo voluntarismo inconsequente. Sem dúvida alguma, ele é habilidoso. Não resta dúvida do seu espírito empreendedor, e até certo ponto visionário. Mas, como diz o senso comum, “de boas intenções o inferno está cheio”. É dessa forma pensar no crescimento exponencialmente da UFS, sem medir o impacto em gerir uma máquina tão inchada de forma eficiente, prestando bons serviços, que eu diria que esse voluntarismo, até certo ponto inconsequente, levou a um quadro caótico em que se refletem vários setores, principalmente o Restaurante Universitário. Eu acho que falta um processo de mais reflexão de análise de diagnóstico que possa orientar ações e iniciativas mais sustentáveis, digamos assim.

JLPolítica - A senhora acha razoável que cerca de 10% dos professores da UFS surfem em funções gratificadas ou em cargos comissionados?
DA -
Eu acho que não é nada razoável. É um percentual elevado. A UFS é uma instituição de ensino, a gente faz um concurso para ser professor e o que se percebe é uma crescente percepção de desprestígio em atuar na docência, na graduação. Então, com todo respeito aos meus colegas pesquisadores, a gente tem que pensar que a base da universalidade é a formação de graduandos. E dessa forma, para pesquisa ela deve ser vista como importante, mas sem descurar dos cursos de graduação. Os cursos de pós-graduação são importantes. Mas, repito, a prioridade é a graduação.

JLPolítica - O que é que os corpos docente e discente da UFS sabem dos contratos com empresas terceirizadas e prestadores de serviços? Há transparência nisso?
DA -
No site você encontra os termos de convênio, de contrato, de cooperação técnica, dados referentes a valores acordados. Mas no que implica a gastos, pessoas envolvidos, critérios de escolhas, o próprio processo licitatório, de seleção, há confusão. Temos agora essa crise no Restaurante Universitário. Ficamos um longo tempo sem o restaurante funcionar, uma empresa que foi a vencedora no certame, terminou declinando. E falta uma clareza sobre eventuais sanções/penalidades para uma empresa que larga assim o que foi acordado, alegando uma suposta falência. Sim, mas certas contrapartidas será que foram cobradas?

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Em ação em Brasília, no dia 18 de setembro, na criação da Associação Docentes pela Liberdade: ponto de apoio às ideias liberais

DO INFERNO CHEIO DAS BOAS INTENÇÕES DE ANGELO
“Eu creio que os maiores defeitos dele são um certo voluntarismo inconsequente. Sem dúvida alguma, ele é habilidoso. Não resta dúvida do seu espírito empreendedor, e até certo ponto visionário. Mas, como diz o senso comum, “de boas intenções o inferno está cheio”

JLPolítica - Não lhe parece que falta uma visão mais crítica de quem faz a UFS sobre a significação da produção científica dela e da sua aplicabilidade sobre a vida real de Sergipe e dos sergipanos?
DA -
Eu acho que tanto na pesquisa quanto até mesmo na criação de alguns cursos, faltou essa visão, e isso é uma exigência do MEC, de diretrizes oriundas da Câmera de Educação Superior, que programas de pós-graduação que estão diretamente atrelados a pesquisa, cursos de graduação, sejam criados e estruturados levando em conta a realidade local. Mercado, necessidade de intervenção em áreas para resolução de problemas locais regionais. E o que a gente percebe é que vocações claras que nossa realidade sergipana oferece generosamente terminam não sendo contempladas. Sergipe certamente não tem um turismo em estágio mais avançado porque nossas universidades passaram um bom tempo de costas para esse potencial fantástico que Sergipe tem. É preciso rever isso. Temos uma produção científica que cresceu exponencialmente, mas estudos revelam que o impacto dessa produção científica deixa muito a desejar.

JLPolítica - Que definição a senhora tem para o ente público Jair Bolsonaro?
DA -
Eu o vejo como um político que tem uma trajetória, sem dúvida alguma, polêmica, mas uma certa coragem de enfrentar práticas ruins de longa data estabelecidas no meio político, e que formou uma equipe que é digna e que eu creio que na história do Brasil raramente a gente se depara com uma igual: um ministro da Justiça que levou à redução de 22% o número de homicídios no Brasil é resultado, entre outros fatores, de uma mudança de perspectiva no enfrentamento à criminalidade. Ter um Tarcísio Gomes de Freitas, na Infraestrutura, um Paulo Guedes na Economia, a gente entende que Bolsonaro é, no mínimo, um político corajoso.

JLPolítica - Como uma doutora, professora de Direito de uma universidade pública, qual é a leitura que a senhora faz do ódio que se espraia sobre o Brasil vertido do debate de direita x esquerda?
DA -
Eu acho que há grupos interessados em explorar essa polarização. Diante disso, a gente fica refém de uma visão de mundo binária e é convenientemente para aquele que quer se vender como de centro, mas que na verdade o que esse defende é uma continuidade. Então explorar sectarismos e acusar outros de radicalismos é muito conveniente para quem quer preservar certos interesses enraizados e deixar que certos continuadores de sua obra permaneçam, porque há uma espécie de garantia de que problemas não serão escancarados e certos interesses também ali presentes serão preservados.

JLPolítica -A senhora acha razoável, do alto do seu posto social e educacional, sustentar frases como essas em seu Twitter - “Lula matou Celso Daniel deixou de ser uma mera especulação para avançar a uma certeza: Lula mandante do crime”, quando não há nenhuma sentença judiciária sacramentando isso?
DA -
Veja que faltou aí um qualitativo, é uma certeza provável.

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Denise Albano e sua baby Ana Sofia Albano Leopoldo, de 12 anos

DOS 10% DOS PROFESSORES EM DESVIO DE FUNÇÃO
“Eu acho que não é nada razoável. É um percentual elevado. A UFS é uma instituição de ensino, a gente faz um concurso para ser professor e o que se percebe é uma crescente percepção de desprestígio em atuar na docência, na graduação”

JLPolítica - Não faltou. Está literalmente assim em seu Twitter, sem relativismo.
DA -
Quem me conhece, sabe, talvez tenha sido um lapso e eu faço aqui um mea culpa. Geralmente em direito eu uso o termo sempre acompanhado de uma “certeza provável”, porque nem mesmo diante de uma abundância de provas se pode falar em uma certeza absoluta. Mas eu dou crédito ao que você conferiu e que houve esse equívoco, mas eu sempre uso esse termo - “avança para certeza provável”. Minha peça de doutorado no início é sobre o mensalão. Eu passei três anos me debruçando sobre todos os dados relativos a ação penal 470, li as quase 8.500 páginas do acordão do Supremo Tribunal Federal.

JLPolítica - Mas de onde vem esta conjectura sobre Lula e Celso Daniel?
DA -
Uma pessoa que foi condenada por ser operador de um sistema de distribuição de propinas no governo que o Lula capitaneava diz que houve um crime de mando e que o Celso Daniel foi queima de arquivo, porque se insurgia contra a distribuição de dinheiro para enriquecimento de quadros do PT. Ele aceitava desvios na Prefeitura de Santo André, mas só para campanhas e não enriquecimentos ilícitos de quadros do PT. Então enquanto conhecedora do caso, enquanto professora de Direito Penal e me dando direito também de um ativismo cidadão, e não uma militância, por reconhecer que Lula, apesar de certos avanços sociais no campo político, no campo moral representou algo que o Brasil deve deixar para trás, eu creio que desmistificar a figura dele é importante. Porque ainda hoje, até mesmo dentro das universidades, há quem creia que Lula é quase sacrossanto.

JLPolítica - E qual é a implicação desta visão?
DA -
É que ninguém é santo, ainda mais uma pessoa com um passado de apoio a ditaduras, de financiamentos estranhos, de esquemas de poder marcados pela corrupção e por pretensões totalitárias. Eu assumo sim a posição de ser refratária, contrária a tudo que o projeto de poder capitaneado por Lula representou.

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Denise Albano com o esposo Paulo de Tarso Leopoldo