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Entrevista

Jozailto Lima

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Diógenes Brayner, o decano do jornalismo político que (ainda) conduz informação com rigor e seriedade

A notícia mexe comigo e não meço distância para chegar aonde o fato está”
19 de janeiro - 8h00

Diógenes Brayner, o jornalista do Portal Faxaju e da Coluna Plenário, acaba de fazer 73 anos - foi na última sexta-feira, 17 de janeiro. Mas, jornalisticamente, ele pensa como um afoito jovem de 25 anos.

Claro: sem as fraldas da imaturidade, que por vezes revestem o traseiro dos iniciantes nesta bela e crespa atividade que é o jornalismo. E sem arroubos teóricos afetados.

Diante desta configuração, Diógenes Brayner ocupa hoje um lugar especial e luminoso no jornalismo político que se pratica no Estado de Sergipe.

Sem que se considere isso uma concessão gratuita, mas também não se caia na avareza do irreconhecimento do outro, em quase 40 de atuação em Sergipe e 58 no geral o pernambucano Brayner chama para si o posto de o decano do jornalismo político no Estado.

E o chama sem muita ostentação, embora sua dedicação e seu apego à notícia sejam mesmo dignos de reconhecimento, de patente do bem-fazer e do bom comprometimento com o que se propõe.

Porque Diógenes Brayner é um tipo que conduz a informação com paixão, rigor e muita seriedade. Atua com extremo apego ao que fez: é capaz de amuar dias e dias no pé de uma informação e trazê-la por inteira, desnuda e, se possível e preferencialmente, exclusiva.

O entusiasmo do velho Brayner diante dos fatos e das ocorrências do mundo político - já o foi no das notícias gerais um dia, porque editou alguns jornais - tem quase o mesmo matiz, a mesma coloração, da alegria e do empenho de um foca, apelido dado aos noviços do jornalismo que acabavam de chegar nas redações, cheios de entusiasmos, sonhos e utopias.

Claro, no caso de Diógenes Brayner, um entusiasmo banhado em ribeirões de expertises e habilidades enormes, que remetem a quase 60 anos de tablado - aos 15 anos, ele já batucava sobre o universo da notícia.
Isso lhe dá um saldo de 58 anos nessa atividade que se inicia na Paraíba, passa por seu Pernambuco, vai ao Mato Grosso do Sul, chega ao Piauí e ancora em Sergipe, onde ele deixou de ser seixo rolante para ser pedra que criou limo. E daqui ninguém o tira.

Mas que não se espere desse Diógenes Brayner teorias mirabolantes e empoladas para definir quem são ele e a notícia nessa seara. Ou especificamente sobre a atividade de escrever em si.

“Sou apenas e sempre um repórter e não considero que ser jornalista seja escrever artigos e comentários profundos. Geralmente quem se rotula de “homem de imprensa” por escrever e expor artigos e exibir intelectualidades não sabe escrever uma “nota de aniversário” e nem se interessa pelo dia-a-dia da informação” diz.

“Razão” disso nesse tipo de pessoa? “Está fora da elaboração técnica da notícia. Sequer sabe redigir, por exemplo, fatos do cotidiano de cada cidade, como um acidente que deixou dezenas de vítimas”, diz ele.

Mas especificamente sobre o jornalismo político, uma atividade que já teve picos de importância maiores em Sergipe e no Brasil, Brayner não nega afetos.

“Escrever política, para mim, é se prostrar diante de um imenso tabuleiro de xadrez, e mexer nas informações escondidas nas profundezas dos bastidores para cometer o xeque-mate ao publicá-las”, diz ele. E Brayner comete, sim, esse xeque-mate diariamente.

Ele é um animal notívago. Troca o dia pela noite: dorme sempre depois das duas horas da madrugada em busca de informes e é capaz de ligar dez vezes para uma fonte com o intuito de certificar-se de pequenos detalhes que comporão o todo de uma notícia. Pode ser de uma nota brevíssima.

Ao longo do tempo, construiu fama de turrão. Mas costuma diluir isso numa certa resiliência que emenda e reconcilia sem deixar de fora sobras de emendas malfeitas. “Sinto que parte dignificante dos leitores me trata bem, e sou muito grato por isso. Mas com certeza tem quem não vai com a minha cara”, diz.

Mas Brayner não morre por isso. “Sinto que alguns colegas não gostam de mim. Nada de ódio, mas opção. Alguns me acham vaidoso, metido, arrogante e tudo o mais que possa rotular uma pessoa - e às vezes até analfabeto. Mas nada disso me incomoda... Não tenho mágoas e nem rancores, porque nenhum repórter pode ter rixas com alguém da sociedade”, revela.

José Diógenes Menezes Brayner nasceu no dia 17 de janeiro de 1947 em Petrolândia, no Estado de Pernambuco. É filho de Arlindo Brayner de Lima e de Leolinda Menezes Brayner.

Fez faculdade de Comunicação no Recife, viveu uma diáspora larga antes de chegar a Sergipe - e isso inclui uma cidade no Mato Grosso do Sul, aonde aporta como bancário concursado do Banco do Brasil, emprego que depois ele largaria em nome da carreira profissional na comunicação.

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Aporta em Sergipe em 1982 a convite da grande figura empreendedora Nazário Pimentel, dono do Jornal de Sergipe, uma espécie de Assis Chateaubriand daqui
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José Diógenes Menezes Brayner nasceu no dia 17 de janeiro de 1947 em Petrolândia, no Estado de Pernambuco

DAS ORIGENS BERADEIRAS DO SÃO FRANCISCO
“Nasci às margens do Rio São Francisco, Petrolândia, alto sertão de Pernambuco. Não tive convivência com a cidade porque ela ficou submersa com a construção da Barragem de Itaparica. Saí de lá com quatro anos de idade e fui para João Pessoa”

JLPolítica - Afinal, o senhor é pernambucano ou piauiense?
Diógenes Brayner -
Nasci às margens do Rio São Francisco, na cidade de Petrolândia, alto sertão de Pernambuco. Não tive convivência com a cidade porque ela ficou submersa com a construção da Barragem de Itaparica. Saí de lá com quatro anos de idade e fui para João Pessoa, capital da Paraíba, onde vivi infância e adolescência. Em seguida fui para Recife, onde passei a maior parte da minha vida adulta. Na realidade, passei apenas cinco anos em Teresina, no Piauí, como editor do jornal O Dia.

JLPolítica - Antes de chegar em Sergipe, onde e como se deram as suas primeiras atuações nos meios de comunicação?
DB -
João Pessoa tem um jornal centenário, A União. Com um detalhe: é uma economia mista, que edita o Diário Oficial e publica o jornal com editorias como política, economia, cidade, polícia, cultura, esporte e tudo o mais que qualquer jornal privado exibe, inclusive a parte publicitária. O jornalista Antônio de Arruda Brayner era meu tio. Advogado e jornalista, ele era editorialista e seguia o estilo da época, em que valia o “achincalhe em bom português” e o embate com colegas que estavam do outro lado de sua posição política ou econômica, principalmente ao programa de Governo. Reproduzia bem o que pensava e redigia rápido em sua Remington.

JLPolítica - Ele lhe iniciou no mundo do jornalismo?
DB -
Diria que sim, pois levou-me para trabalhar em A União - e eu tinha 15 anos. Isso se deu em 2 de agosto de 1962 - e me pôs na revisão do Diário Oficial. Fiquei alucinado e senti que o jornal, com as suas emoções diárias, era o melhor rumo profissional. Dediquei-me muito e fui transferido para a redação.

JLPolítica - Começou em que função?
DB -
Comecei como noticiarista. Dava formato de notícia aos telegramas do noticiário nacional e internacional. O maior aprendizado da minha vida foi nesse setor. Depois passei a cobrir, como repórter, as editorias de Cidade e Cultura, e daí me realizei. Fiz reportagens, cobri eventos culturais, escrevi a primeira coluna sobre cultura, cujo título era “Pontos nos ís”, e em seguida uma outra sobre MPB. Aliás, fiz teatro e música junto com Cátia de França, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Vital Farias, Alceu Valença e alguns outros que se tornaram celebridades. Jamais me imaginava em uma Editoria Política, embora no período começasse a dar os primeiros passos na militância esquerdista. A partir daí estava decidida a minha vida profissional.

JLPolítica - Como era a imprensa sergipana na época da sua chegada aqui em 1982?
DB -
Fiquei em Sergipe, inicialmente, por um acaso e sou muito grato por isso ter acontecido. À época dirigia o jornal O Dia, em Teresina. De seis em seis meses vinha a Sergipe, em rápidas férias, buscar minha ex-mulher que era de Propriá, mas visitava sempre os pais e a família naquela cidade e em Aracaju. Numa dessas vindas havia passado antes em Campina Grande, Paraíba, onde fiz reportagem ampla sobre a seita “Borboletas Azuis”, que tinha à frente um cidadão de nome Jordão Mangueira. Esta seita anunciava o fim do mundo para o dia 5 de março (não me lembro bem o ano). Quase que me hospedei em um galpão montado pelos líderes da seita, no qual se armazenavam alimentos, que salvariam os seguidores de uma inundação pré-anunciada. Fui recebido por Jordão de forma assustadora. Olhou-me e disse: “Você está com o diabo nas pupilas dos olhos”. Escrevi duas páginas sobre a seita e, quando cheguei a Aracaju, um empresário amigo pediu para levá-la ao proprietário do Jornal de Sergipe. No dia seguinte, o dono do jornal quis falar comigo: era realmente Nazário Pimentel, uma figura educada, cativante e com ideias avançadas para dinamizar a sua empresa.

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Brayner é casado hoje com Renata Brayner, figura que tem papel central na vida dele e na do Portal Faxaju

NOS TELEGRAMAS DO NOTICIÁRIO NACIONAL E INTERNACIONAL
“Comecei como noticiarista. Dava formato de notícia aos telegramas do noticiário nacional e internacional. O maior aprendizado da minha vida foi nesse setor. Depois passei a cobrir, como repórter, as editorias de Cidade e Cultura, e daí me realizei”

JLPolítica – Ele gostou do que o senhor produzira?
DB -
Sim. Elogiou o meu texto. Disse-lhe que estava no jornal piauiense e que tinha experiência como editor-geral no Diário de Pernambuco, além de ter passado pela A União da Paraíba. Nazário é de Campina Grande, uma metrópole no agreste paraibano e conhecia bem A União. Também lhe disse que estava de passagem por Aracaju e retornaria a Teresina. Pediu-me que eu ajudasse a mudar o visual do Jornal de Sergipe e a modernizar a forma de redação e de como expor a notícia. Passei uma semana e quando fui me despedir fez-me o convite para editar o seu jornal. Agradeci. Disse-lhe que já estava bem fixado em Teresina e aleguei que meu foco seria Brasília. Mas ele deixou o convite em aberto. Viajaria no dia seguinte de retorno ao Piauí, mas quando relatei à minha ex-mulher a proposta de Nazário, ela se levantou e disse: “Aceite o convite, porque não volto mais para Teresina”. Ponderei, resisti, mas fui vencido. Ela tinha pavor à capital do Piauí.

JLPolítica – Então o senhor diz sim ao convite de Nazário Pimentel?
DB -
No dia seguinte pela manhã retornei a Pimentel e avisei-lhe que aceitaria. Ele agradeceu e mostrou-se satisfeito, mesmo que eu só assumisse o Jornal de Sergipe um mês depois, porque tive que fazer mudanças e resolver problemas pessoais e profissionais em Teresina, onde ainda hoje tenho amigos, sou bem lembrado por colegas e a visito sempre que posso. Mas Sergipe sempre teve bons jornalistas. Lógico que hoje o perfil da informação melhorou muito em relação ao factual.

JLPolítica - Como era especificamente nos dias da sua chegada?
DB -
Quando cheguei aqui, encontrei um jornalismo mais de análises, de artigos e comentários pessoais, com a busca tímida da informação do dia a dia. Valiam mais os editoriais bem colocados e o confronto político, inclusive entre membros da imprensa, que somente interessavam a quem escrevia e aos grupos que se beneficiavam com esses escritos, que defendiam pontos de vistas também pessoais. Aos poucos o quadro foi mudando com a introdução do sistema de pautas e a busca pela notícia política, policial, de cidade, de economia e do interior, que passaram a fortalecer a informação que o leitor necessitava.

JLPolítica - Como é que o senhor se situaria neste contexto?
DB -
Sou apenas e sempre um repórter e não considero que ser jornalista seja escrever artigos e comentários profundos. Geralmente quem se rotula de “homem de imprensa” por escrever e expor artigos e exibir intelectualidades não sabe escrever uma “nota de aniversário” e nem se interessa pelo dia-a-dia da informação. Razão: está fora da elaboração técnica da notícia. Sequer sabe redigir, por exemplo, fatos do cotidiano de cada cidade, como um acidente que deixou dezenas de vítimas. Isso mudou muito e a mídia sergipana não se diferencia de nenhuma outra do Brasil.

JLPolítica - A sua tendência para o fato político nasce em virtude do quê?
DB -
Eu já tinha uma tendência à cobertura política. Pratiquei isso em Teresina, mas comecei a me envolver diretamente quando fui para o Diário de Pernambuco. Lá comecei como redator e em seguida fui editor de texto e logo depois editor-geral. O assunto já começou a me fascinar quando tive os primeiros problemas com o Golpe de 1964 e senti necessidade de me aprofundar nas questões políticas de Pernambuco, do Nordeste e do País.

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Ao lado do colega André Barros, Brayner entrevista Wellington Paixão, figura que se elegeria prefeito de Aracaju na disputa de 1988 pela força política de Jackson Barreto

DO JORNALISMO QUE ECONTROU EM SERGIPE
“Quando cheguei aqui, encontrei um jornalismo mais de análises, de artigos e comentários pessoais, com a busca tímida da informação do dia a dia. Valiam mais os editoriais bem colocados e o confronto político, inclusive entre membros da imprensa”

JLPolítica – Mas aí o senhor cede à tentação das análises...
DB –
Sim, passei a fazer análises, profissionalmente primárias, do que acontecia na política e fiquei fascinado pelo que ocorria nos bastidores. Percebi que a verdade de todas as questões, relacionadas sobre o mundo político, circulava fortemente nos bastidores. Mergulhei fundo neles. Quando cheguei a Teresina mantive esse processo da busca pela informação privilegiada e fiz a primeira coluna política que tinha como título “Zona Franca”. Desculpem a falta de modéstia, mas foi um sucesso.

JLPolítica - E transplantou esse modelo para Aracaju...
DB -
Continuei isso em Aracaju, depois de praticamente um ano de aqui ter chegado. Precisava conhecer a política e os políticos da terra. Deu certo: escrevi a Coluna Painel sem assiná-la, porque a linha do jornal não permitia. Sinceramente, fui fundo e passei a dar informações de todos os municípios, inclusive das mais distantes câmaras municipais. E isso fez a diferença. Tanto que o ilustrado jornalista Hugo Costa disse-me um dia: “Você trouxe prefeitos e vereadores do interior para o noticiário político do jornal na capital”. Nas eleições de 1986, quando da decisão sobre quem seria o candidato ao Governo, o ex-prefeito de Aracaju José Carlos Teixeira, MDB, e o vice-governador Antônio Carlos Valadares, PFL, disputavam a indicação do então governador João Alves Filho, PFL, para ser o candidato à sucessão estadual do bloco. Em reunião com lideranças políticas, no Palácio de Veraneio, que durou até a 1 hora da madrugada do dia seguinte, João bateu o martelo em favor de Valadares. Dei plantão para publicação do resultado em primeira mão. Sem celular, difícil chegar a uma fonte bem avaliada. Como já havia rumores da indicação de Valadares, imaginei que se ligasse para ele a informação seria elogiosa e educada. Preferi conversar com o MDB e, por sorte, a quase 2 horas da madrugada, fui atendido pelo ex-governador Seixas Dória, já em sua residência.

JLPolítica – E Seixas subsidiou a informação?
DB -
Mesmo moderado, Seixas contou detalhes da reunião e a decisão do governador João Alves antecipando que o MDB não recuaria e Teixeira seria candidato de oposição ao Governo. Seixas foi detalhista e revelou as discussões, as razões delas e até algumas risadas que o governador deu durante a reunião. Com toda essa ‘bala na agulha’, escrevi a informação de forma comentada e anunciei a decisão final. A matéria trouxe tudo o que ocorreu no encontro, tanto que no dia seguinte o jornalista Hugo Costa fez um comentário e me classificou como “escafandrista da notícia”. Hugo sempre foi cáustico e doce. Escrever política, para mim, é se prostrar diante de um imenso tabuleiro de xadrez, e mexer nas informações escondidas nas profundezas dos bastidores para cometer o xeque-mate ao publicá-las.

JLPolítica - O senhor começa por qual instituição de ensino a sua formação acadêmica em Comunicação Social, e por que não a concluiu?
DB -
Fui aluno do Liceu Paraibano e cheguei ao Científico, porque me imaginava agrônomo. Mas não sabia distinguir uma manga de uma mangaba. Resolvi então fazer vestibular para Jornalismo na Católica de Pernambuco, uma das poucas Universidades do Nordeste que oferecia o curso. Como não havia o chamado básico, o estudante concluía após três anos de estudo. Havia sido aprovado em concurso do Banco do Brasil aos 17 anos e seis meses, mas só fui convocado para assumir mais de três anos depois. Iniciei na cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, e fui transferido para a cidade de Carpina, a 52 km de Recife, um ano depois. Foi aí que fiz o curso específico de Comunicação Social, que se iniciava na Universidade Federal de Pernambuco - UFP - e todas as tarde saía de Carpina, viajava a Recife para as aulas. Nesse período, iniciei o trabalho no Diário de Pernambuco e voltei a sentir na pele a vocação pela notícia. Deixei o BB quando fui transferido para a Agência Guararapes, em Recife, e nunca mais voltei. Um detalhe: em Bela Vista fundamos o jornal “Tribuna da Fronteira”, que ainda hoje circula por lá.

JLPolítica - Quais foram as figuras do jornalismo político brasileiro que mais lhe serviram de régua e compasso?
DB -
Quanto aos exemplos da sua pergunta, dá para citar pelo menos cinco nomes que me serviram de espelho: Carlos Castelo Branco, comentarista político do Jornal do Brasil. Alberto Dines, que teve a preocupação de reformular a elaboração da notícia desde quando esteve editor-geral do Jornal do Brasil. Zózimo Barroso do Amaral, que ofereceu um novo modelo de colunismo social. Samuel Wainer, que, ainda nos anos 50 e 60, promoveu uma reformulação no jornalismo com um projeto visual no seu jornal Última Hora, e Mino Carta, que renovou o formato de textos ao editar a revista Veja, passando a impressão que ela era escrita por uma única pessoa. Muitos outros jornalistas poderiam ser citados, inclusive alguns colegas de jornais pelos quais passei, mas esses cinco me serviram de referência. E, para mim, a notícia tem que ser como o fato realmente aconteceu. Nada de ilustrações e nem palavras complicadas que dificultem seu entendimento. O jornalismo é feito para todos: cultos e incultos. Não dá para conviver no dia a dia com palavras que se tenha de buscar no dicionário. É bom que o jornalista saiba que escrever difícil o intelectual entende, mas o eleitor comum não. Já escrevendo para o povo, o intelectual também será atendido. Isso também vale para quem faz análises e comentários em colunas. Direto ao assunto é o mais correto e infalível para atingir todas as classes. A notícia não é ensaio cultural, mas informação curta e grossa daquilo que aconteceu de imediato. Costumo dizer que o fato noticioso se dá pelo contrário do normal. Um avião que sai de Sergipe e chega tranquilo à China, não é notícia. Mas se ele cair durante a rota e dezenas de pessoas morrerem, aí sim é manchete em todos os veículos de informação do mundo. Não se trata da velha tese de que “se o homem morder o cachorro, é notícia”, mas de qualquer fato que tenha final improvável. A tese é de que a notícia que interessa é aquela que foge à normalidade dos movimentos, atos e responsabilidades.

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Brayner em algum evento que traz ao fundo Leó Filho, à esquerda Sacuntala Guimarães e Luiz Sérgio e à direita, Susana Azevedo e Christina Souza, jornalista morta na queda de um monomotor

A GÊNESIS DO NOTICIARISTA DE POLÍTICA
“Eu já tinha uma tendência à cobertura política. Pratiquei isso em Teresina, mas comecei a me envolver diretamente quando fui para o Diário de Pernambuco. Lá comecei como redator e em seguida fui editor de texto e logo depois editor-geral”

JLPolítica - O que é que deve mover todo jornalista que se ache razoavelmente bom na lida com os fatos?
DB -
A paixão pelo que faz e a humildade. Sem esses sentimentos, não se chega muito longe em uma profissão que não permite trabalhar só pelo salário que se ganha. Jornalismo é o envolvimento direto com o fato, independentemente de outros fatores que levem a exercer a profissão. O fato não é um artefato para promover vaidades, mas uma ocorrência que mexe com o social de uma forma muito ampla. Com isso, não se pode crescer profissionalmente sem que haja cumplicidade entre o repórter, a ocorrência e as consequências que elas provocam.

JLPolítica - Haveria um corolário de mandamentos elementares para se ser um bom profissional de comunicação na esfera política?
DB -
A isenção é um posicionamento para profissionais de imprensa que vem sendo discutida como superada. Tanto que está explícita a tendência política tanto de jornalistas quanto dos veículos de comunicação. Se antes as preferências eram camufladas, hoje são bem expostas. Isso vem sendo bem aceito pelos leitores, mas, ao mesmo tempo, criticado e rotulado de descomprometimento com a verdade dos fatos. Lógico que a declaração de apoio, principalmente dos veículos de comunicação, pode ser anunciada oficialmente, mas nos posicionamentos dos editoriais, que são voz e pensamento dos jornais, rádios, emissoras de TV e portais. Entretanto, sem que seja vedada a notícia de todos os segmentos que integram blocos e partidos políticos. Está cada vez mais difícil isso acontecer, mas ainda há defensores da informação sem exagerar na tendenciosidade política.

JLPolítica - O senhor não está chancelando a partidarização do profissional de comunicação?
DB -
Não. Um bom repórter político não deve se pendurar em partidos e nem expor preferências ou ideologias nos fatos que relatam no noticiário geral. Deve perceber que o veículo para o qual trabalha não tem leitores apenas da tendência política que ele segue e privilegia, mas de outras estruturas que estão em meio às disputas e posições. É difícil que isso se dê, mas mesmo com a dedução de que a isenção é uma mácula, o leitor, ouvinte ou telespectador adoraria se sentir bem informado, com igualdade e sensatez, de todos os movimentos da política municipal, estadual e nacional.

JLPolítica - O senhor fez 73 anos na sexta da semana passada e tem reconhecidamente um apego quase que juvenil à notícia política. O que lhe move ainda hoje nessa direção?
DB -
Repito: paixão e paciência. A notícia mexe comigo ainda hoje e não meço distância para chegar aonde o fato está acontecendo a qualquer momento do dia ou da noite. Fascina-me o risco para captação ampla de fatos que acontecem em determinados momentos. Para mim, o que ocorre não pode passar em branco e, quem me conhece, sabe que sou alucinado pela cobertura jornalística sem medir consequências. Isso em todos os setores que se inserem em qualquer veículo de comunicação. A frieza é predominante nesses momento e a tensão necessária para apurar tudo e chegar primeiro à população.

JLPolítica - O senhor não sente um certo esfriamento geral na busca pelos fatos?
DB -
Sim. Hoje sinto um comodismo com esse trabalho nas coberturas de fatos noticiosos. A internet manteve o repórter mais acomodado, e muito tranquilo com o celular em mãos. Os grupos sociais passam as informações via curiosos que relatam ocorrências, mas sem o olho de lince do profissional e às vezes sem o contexto que dá um toque de credibilidade ao fato. Exatamente pela falta de amplitude e detalhes da matéria, ela não é confiável. Quanto à paciência é fundamental, principalmente nas notícias de bastidores. É que esse tipo de informação acontece dentro do tempo dela e não através da ânsia para que se concretize a fim de atender a pressa da divulgação. Nesses casos, o jornalista deve se acomodar ao tempo da notícia e esquecer o seu tempo determinado.

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Cumprimentando Jacksom Barreto, quando este era governador de Sergipe

ESCAFANDRISTA DA NOTÍCIA POLÍTICA, SEGUNDO HUGO COSTA
“O jornalista Hugo Costa me classificou como “escafandrista da notícia”. Escrever política, para mim, é se prostrar diante de um imenso tabuleiro de xadrez, e mexer nas informações escondidas nas profundezas dos bastidores para cometer o xeque-mate ao publicá-las”

JLPolítica – Qual é a maior dificuldade na lida com a fonte política?
DB -
A vaidade ainda é a maior causa de um provável distanciamento da fonte. O repórter pode até imaginar que é muito bem informado. Balela! Na realidade, o detentor de boas informações é a fonte, que deve ser tratada com respeito e participação na divulgação do fato. Quem quiser se perder nos meios de comunicação não cative as fontes das quais se aproxima. Porque é fundamental tê-las. Há necessidade do jornalista ter a consciência de que ele é apenas um intermediário entre a fonte e o leitor.

JLPolítica - Um bom jornalista tem de estar sempre em harmonia com as fontes?
DB -
Eu pessoalmente tenho necessidade de me aproximar das boas fontes e ficar à disposição delas. A boa notícia de bastidor não chega ao repórter se não for transmitida por alguém que participou dela e a reproduziu. Há necessidade de habilidade para se aproximar de alguém que confia para relatar um fato. Sem a confiança - que deve ser mútua -, é zero a chance de se obter informação privilegiada. O jornalismo investigativo, por exemplo, vive de boas e confiáveis fontes. Rotulação da prática da investigação para chegar a um fato ainda não revelado, é apenas uma identificação profissional, embora a apuração da notícia seja feita com um tom cauteloso e a busca de elementos novos. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo - Abraji - mantém essa simbologia de matéria exposta através de um trabalho de extremo sigilo. Mas, não se pode fechar os olhos para o fato de que o jornalismo investigativo é feito através de fontes responsáveis e fidedignas. Nenhum repórter chega a um fato, principalmente nebuloso, sem a participação de fontes. Além disso, todos os caminhos e elementos, inclusive as melhores pistas, são passadas por informações oriundas de pessoas que se habilitam a passar dados reais para conclusão, produção e publicação. Mas é preciso ter muito cuidado com essas informações sigilosas e direcionadas. Às vezes elas são passadas por fontes que não se deram bem nas transações que denunciam, principalmente quando tratam sobre corrupção e outros ilícitos.

JLPolítica - Entre tantos governadores sergipanos pelos quais o senhor passou, no sentido de cobrir suas ações, teria um mais marcante?
DB -
Na realidade, nunca cobri ações de governantes. A minha praia sempre foi buscar o que acontecia nos bastidores, antecipar prováveis ações ainda guardadas a sete chaves e divulgar fatos pitorescos que ocorrem entre autoridades. Notícias do tipo que fortalecem muito qualquer coluna. Tanto que, algumas vezes, por absoluto equívoco, assessores foram afastados por desconfiança de que eles passavam informações para mim. Felizmente, nenhuma das fontes foi atingida e essas decisões continuavam chegando a mim através delas. Um dos políticos que governava o Estado ficava impressionado com as informações de bastidores que eram publicadas. Coisas até da intimidade, desde que não atingisse a ética, a moral e a dignidade. Esse governador, muitas das vezes, iniciava reunião de aliados e assessores com um pedido: “Espero que o assunto discutido aqui não esteja na Coluna de Brayner amanhã”. Pior: estaria sim. Da mesma forma que catava informações exclusivas dos bastidores da situação, também o fazia na oposição, com o mesmo destaque. Os leitores se dividiam em relação à minha posição política: uns me achavam governista e outros oposicionista. Isso sempre me deixou consciente de estar jornalisticamente correto.

JLPolítica - Quais são os perigos do off tão comumente assumido na cobertura política?
DB -
O perigo do off está exatamente na pouca confiança e relacionamento com a fonte. O off deixa de ser risco quando a informação parte de pessoas responsáveis nas quais o repórter pode confiar cegamente. Lógico que há um grande perigo nisso. O maior deles é se o fato não for verdadeiro e houver necessidade de desmentido. Aconselha-se ao repórter assumir a informação do off e até responder processo se necessário, para não perder a fonte

JLPolítica - O senhor já enfrentou algum embaraço pra sustentar uma informação em off?
DB –
Ah, sim. Apenas um exemplo: peguei dois anos e nove meses de cadeia, mais multa de 20 salários mínimos, porque me recusei a dar o nome de uma fonte nos anos de chumbo do AI-5. Aconteceu em Teresina, e tive direito a sursis. O chato era ter que comparecer a cada três meses na Justiça Federal e receber um comprovante de presença que começava assim: “Compareceu a esse juízo o detento José Diógenes Menezes Brayner...” Fazer o quê?

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Recebendo das mãos do então senador Eduardo Amorim o Prêmio Roberto Marinho de Mérito Jornalístico, ofertado pelo Senado

A PAIXÃO PELO QUE FAZ E A NECESSÁRIA HUMILDADE
“Sem esses sentimentos, não se chega muito longe em uma profissão que não permite trabalhar só pelo salário que se ganha. Jornalismo é o envolvimento direto com o fato, independentemente de outros fatores que levem a exercer a profissão”

JLPolítica - O senhor já se viu tentado a se filiar a algum partido político?
DB -
Já sim. Ainda hoje sou filiado ao Partido dos Trabalhadores, mas não tenho a menor participação. Principalmente quando me senti fora dos meus propósitos de ser livre e não me vincular a qualquer ideologia ou projeto. Sinto-me mais solto assim.

JLPolítica - O senhor nunca foi tentado a assumir funções públicas na área de comunicação?
DB -
Já sim, mas nunca aceitei. Não consigo seguir caminhos quando sinto que eles estão errados. Caí nessa tentação apenas uma vez. E lá vou citar Teresina novamente. Um amigo, Marconi Dias Lopes, ex-gerente geral do Banco do Nordeste, assumiu a Secretaria da Fazenda e convidou-me para ser seu assessor de imprensa. Eu exercia a direção de redação do jornal O Dia. Tentei convencê-lo de que não daria certo, exatamente pela minha rebeldia em relação à publicação de informações. Diante da insistência, aceitei e imediatamente houve um episódio. Um deputado do MDB fez um pronunciamento duríssimo contra Marconi e criticou ações da Pasta dele em seu curto período. Como editor do jornal, publiquei todo o pronunciamento em manchete, como faria em caso de não ser assessor do criticado.

JLPolítica - O que lhe ocorreu como consequência?
DB -
No dia seguinte pela manhã Marconi me chamou e deu-me um esporro. Respeitei e disse-lhe que não fora o assessor que publicou, mas sim o editor do jornal. Por coincidência, éramos o mesmo. Adiantei que, como seu auxiliar, poderia divulgar matéria desmentindo o que fora dito pelo deputado e distribuir para os veículos de comunicação. Ele concordou, mas lhe fiz uma observação: “Só não posso lhe garantir que o editor do jornal O Dia vai publicar”. E daí continuei: “Marconi, vamos continuar amigos, como sempre fomos. Veja que eu tinha razão quando não queira aceitar seu convite”. Dei-lhe um abraço, me despedi e nunca mais voltei. Mas a amizade continuou, até pela sinceridade exposta. Antecipo, entretanto, que hoje esse quadro de assessoria mudou muito. Excelentes jornalistas prestam serviços a setores oficiais e privados, com responsabilidade, muita competência e absoluta liberdade.

JLPolítica - Na prática profissional, o senhor se sente mais amado do que odiado, ou esses conceitos não lhe atordoam?
DB -
“Toda unanimidade é burra”, como disse Nelson Rodrigues. Sinto que parte dignificante dos leitores me trata bem, e sou muito grato por isso. Mas com certeza tem quem não vai com a minha cara. Acho legítimo e natural, até porque momentaneamente posso escrever alguma coisa que não agrada a determinado grupo ou pessoas. Faz parte. Sinto que alguns colegas não gostam de mim. Nada de ódio, mas opção. Alguns me acham vaidoso, metido, arrogante e tudo o mais que possa rotular uma pessoa - e às vezes até analfabeto. Mas nada disso me incomoda...

JLPolítica – Quando é que deu no senhor o estalo de que a comunicação online seria a tangente e a saída contemporâneas?
DB -
Em 2007, o então governador Marcelo Déda, PT, teve uma conversa longa comigo em seu gabinete. Falou sobre o Faxaju impresso. Uma espécie de boletim que era enviado por mim via fax a assinantes, com notícias do dia seguinte e algumas exclusivas. Surgiu através do “Fax-Paper”, editado pelo Estadão para todo o Brasil. Durante o período inicial foi um sucesso, mas naturalmente tornou-se obsoleto alguns anos depois. Déda falou sobre isso e foi claro: “Não nos serve mais”. Ao mesmo tempo sugeriu que eu percebesse o avanço da informação via internet. E perguntou-me: “Por que você não faz um site?” E explicou a modernidade da informação imediata, que atraía os leitores. À época trabalhávamos ao lado do jornalista Sales Neto, que teve a iniciativa de convidar uma equipe técnica para elaboração do portal. Devo muito isso a Déda e a ele.

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Diogenes Brayner num momento-entrevista ao ator João Jatobá

A PAIXÃO E PACIÊNCIA QUE LHE MOVEM AOS 73 ANOS
“A notícia mexe comigo ainda hoje e não meço distância para chegar aonde o fato está acontecendo a qualquer momento do dia ou da noite. Fascina-me o risco para captação ampla de fatos que acontecem em determinados momentos”

JLPolítica - Qual é a data exata de nascimento do Faxaju no formato que se conhece hoje?
DB -
No dia 19 de junho de 2007 o Faxaju Online foi ao ar com a manchete de um acidente grave ocorrido no bairro Coroa do Meio, onde uma Range Rover praticamente engoliu uma moto que conduzia um casal de namorados à praia. Nesse período Sales Neto já havia buscado outros rumos, sem que houvesse desgaste em nossa amizade. Antes, a minha Coluna Plenário era postada no site da Infonet, a convite da chefe de Redação Waleska Cipriano. Foi uma excelente experiência. Quando fui transferir a coluna para o Faxaju, tive uma conversa com o empresário Nivaldo Almeida, diretor Executivo da Infonet. Pedi-lhe para publicar a última coluna no seu portal, anunciando que estava me transferindo para o Faxaju Online. Nivaldo permitiu. Fiquei muito grato e ainda hoje sou seu admirador pela sua discrição, humildade e sua visão moderna em relação à informática e na formação de boa equipe para manter a Infonet funcionando sempre à frente do tempo. Pessoalmente, tenho grande admiração por Nivaldo e agradecimento por também abrir as portas para o meu caminho na internet.

JLPolítica - Quais os perigos de se unir em uma só pessoa o gestor de negócios e de notícias, como suponho que o senhor mesmo faz no seu Portal Faxaju Online?
DB -
Não é assim. O Faxaju Online é produzido por uma equipe que tem o jornalista Munir Darrage como diretor de Redação no comando editorial e Renata Brayner na direção Comercial e Administrativa, além do técnico André Costa, que cuida de todo esse setor de funcionamento do site. Ali, eu escrevo apenas a Coluna Plenário, algumas matérias políticas e dou a orientação geral sobre publicações e questões políticas. O Faxaju mantém um visual que se assemelha a uma primeira página de jornal impresso, exatamente para lembrar as nossas origens e fazer com que nos sintamos na época da máquina de linotipo. Pode ter um visual que poderia ser mais moderno e rápido, mas nos sentimos bem - todos nós - com a velha diagramação do tempo dos Cíceros e das Picas (paicas).

JLPolítica - Qual é a importância de Renata Brayner no dia a dia das suas atividades profissional e empresarial no Faxaju Online?
DB -
Renata é minha namorada eterna. Não vou tratá-la como esposa, para que não perca o melhor sentimento no relacionamento do casal. Conhecemo-nos em 2003 e nos casamos em 2006. Até hoje somos os mesmos e nos tratamos como se vivêssemos o primeiro encontro. Ela acompanhou toda a fundação do portal Faxaju e se tornou diretora Comercial. Cabe a ela todos os contatos com empresas, setores públicos e agências de publicidade. É quem controla débitos e créditos, e o faz com a eficiência e a experiência de quem já gerenciou uma loja de joias. Dela depende a vida financeira da empresa, e isso lhe confere importância diferente dos demais membros da equipe, inclusive eu.

JLPolítica - O senhor admite que tem fama de brigão? Mas teria, ao mesmo tempo, a de reconciliador?
DB -
Não teria uma fama de brigão, mas talvez a de intolerante em relação à alteração dos fatos. Não tenho mágoas e nem rancores, porque nenhum repórter pode ter rixas com alguém da sociedade. Vai que de repente o inimigo tem uma notícia interessante? Entretanto, sempre respondi à altura os ataques que já sofri. Com respeito e moderação. Jamais fui fundo nos entreveros, porque penso sempre no amanhã. Não sei escrever contra colegas, embora já tenha sido castigado por alguns deles. Nesse ponto, sou corporativista. Prefiro conversar e contornar os problemas a fragilizar a classe. Jamais me arvorei de ser jornalista. Nunca me identifiquei assim, porque o anonimato profissional em determinado ambiente facilita colher a informação. Além disso, ser jornalista e radialista - de qualquer setor da comunicação - não dá poderes e nem o rótulos de autoridade.

JLPolítica - Mas o senhor não desconhece que alguns dessa área excedem por vezes na compreensão dos seus papéis?
DB -
É uma estupidez imaginar que fazer notícia dá força e poder. Alguns profissionais de imprensa imaginam que acumulam a autoridade de delegado, juiz, promotor, governador e até presidente da República, quando de fato o seu limite máximo é o dono da empresa. Uma simples demissão tira-lhe a máscara e o resume a nada. Sempre pensei assim. Jamais cheguei a algum lugar anunciando minha profissão, a não ser quando perguntado. Quanto a ser conciliador, é tipo natural. Várias vezes já liguei para pessoas que exibiam raiva de mim - apenas pelo que eu escrevia - para buscar notícia que só elas sabiam, sem que houvesse frustração. Jamais perderia uma informação importante porque a fonte não me tolera. Seria burrice... Um detalhe: jamais deixei de publicar qualquer denúncia ou crítica contra mim. Se acho que é da boa imprensa publicar matérias críticas ou contra qualquer outro cidadão, por que não contra o órgão e o repórter?

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Num jantar com amigos, entre eles Albano Franco, Marcio Macedo e Francisco Ferreira

DO PESO POSITIVO DAS BOAS FONTES
“Eu tenho necessidade de me aproximar das boas fontes e ficar à disposição delas. A boa notícia de bastidor não chega ao repórter se não for transmitida por alguém que participou dela e a reproduziu. Há necessidade de habilidade para se aproximar de alguém que confia para relatar um fato”

JLPolítica - O senhor acha que em 2020 a política de Sergipe terá grandes alterações, sobretudo na eleição da capital?
DB -
Está tudo muito nos inicialmentes. A partir de março é que se terá uma visão mais ampla do que pode mudar ou não. A recente saída do PT do bloco que apoia a reeleição de Edvaldo Nogueira (sem partido) é o início de uma unidade quebrada. As repercussões já começam, mas a iniciativa do PT lançar candidatura própria sinaliza para alterações em um projeto político que nasceu em 2006 e vinha se mantendo até hoje. Um fato não se pode deixar de enxergar: o adversário da aliança que elegeu Belivaldo Chagas ao Governo pode estar entre aliados. Ainda não dá para avaliar como fica, mas certamente a decisão do PT de se distanciar torna difícil o governador estar em um palanque e parte dos aliados em outro. Há um detalhe: Márcio Macedo passa a ter dois únicos partidos de porte para se compor, que são o PSB e o PSOL. O primeiro diz que não abre mão de ter candidato a prefeito, que é o ex-deputado federal Valadares Filho. Ele já disse que pode até aliar-se ao PT, caso a legenda lulista aceite a vice. O PSOL precisa de maior musculatura no Estado. Fica difícil, mas ainda terão muitas conversas pela frente.

JLPolítica - Qual é o espaço para o agrupamento que se autodenomina de a Nova Política?
DB -
Os membros da chamada Nova Política, que tem à frente o senador Alessandro Vieira, Cidadania, terão candidato a prefeito. No radar, aparece a delegada Danielle Garcia, que se filiou ao Cidadania após consultar o ministro Sérgio Moro, que projeta disputar a Presidência da República em 2022. Por esse lado e diante do PT, será o enfrentamento de Bolsonaro e Moro contra Lula. O resultado será imprevisível, porque a direita e a esquerda ideológicas não têm limites. Em termos de discurso, a direita se tornou mais ousada e pode apelar para o que ocorreu no passado recente com a Lava Jato. Sinceramente, muita coisa pode acontecer, até mesmo um recuo petista para ficar com Edvaldo e readquirir espaços perdidos. É esperar para ver...

JLPolítica - O senhor sente um fosso entre a prática do jornalismo e os ensinamentos acadêmicos que as instituições da área promovem em Sergipe?
DB -
Sinto. A profundidade é muito grande. Isso em qualquer profissão da área de humanas. Ninguém aprende a ser advogado na universidade e depois do exame da OAB. Na prática, a teoria é outra, embora as faculdades orientem em termos éticos e culturais, além de conceder o diploma. Mas não ensinam o dia a dia da prática. Falo até por experiência pessoal. Aprendi o jornalismo nas redações e não nas salas de aula. Mas, não se pode desvalorizar uma em detrimento da outra. Participei de uma banca que avaliava monografia de um dos alunos que tinha como tema as notícias oficiais. Não lembro a nota que dei, mas passei três horas ouvindo verdadeiras “baboseiras” de mestres, que na prática não mudavam em nada o que a aluna estava expondo. Quis até intervir para por a realidade na utopia, mas resolvi silenciar. Aprendi muito no curso que pratiquei, porque me aprofundei em sociologia, psicologia da comunicação e no português, mas em termos práticos aproveitei muito pouco. Quando cheguei a Aracaju, duas alunas do primeiro ano de Jornalismo aceitaram convite para trabalhar na redação do Jornal de Sergipe. Foi muito bom para o jornal e para elas. Ainda hoje atuam na imprensa local e se destacam como profissionais.

JLPolítica - O senhor tem saudades de um tempo em que a vida parecia regida pelo jornal impresso?
DB -
Tenho sim. Fico muito triste com a decadência dos jornais em razão do avanço da internet. O jornal transmite maior segurança, mais respeito e credibilidade. É coisa que se guarda nos arquivos e se torna documento, além de resguardar a história do que aconteceu em cada momento da vida do leitor. Além disso, a forma de se por um jornal na rua é mais trabalhosa do que se por aviões no ar. Tudo muito rápido, muito corrido e excessivamente técnico para a edição sair o mais cedo possível e estar nas mãos dos eleitores já na madrugada do dia seguinte. Pegar no papel ainda é um fetiche. Tanto que muita gente o lê no banheiro. O funcionamento da redação é ensurdecedor e se torna mais nervoso no momento do fechamento. Dá tesão estar na redação e ter que correr para cobrir uma notícia extra. Tudo é adrenalina que só se normaliza quando a edição chega às ruas. É um passado realmente que parece difícil trazê-lo de volta. Mas é preciso encontrar o melhor formato para que o jornal impresso volte a atrair leitores. As notícias precisam ser expostas com algumas pitadas de opinião e esclarecimentos que a pressa da internet não permite. Também é preciso fazer uma troca importante: o ‘ontem’ pelo ‘hoje’. Talvez os jornais vespertinos, nesse momento de mudanças editoriais, fossem mais procurados. O leitor também está fascinado pelo imediatismo da informação. 

JLPolítica - Qual é a melhor receita para se fugir de uma barrigada?
DB -
A barrigada é o terror do jornalista, porque compromete o veículo de comunicação. Pior que o furo. Geralmente, ela é produzida por uma informação intencionalmente passada por fonte para prejudicar o repórter ou por um lamentável descuido. O jornal A União, da Paraíba, publicou uma barrigada que demitiu quase toda a redação. Em março de 1974, quando o general Ernesto Geisel foi indicado para assumir a Presidência da República, na ditadura militar, A União, que era um jornal do Governo, deu a seguinte manchete: “General Orlando Geisel é indicado para presidente”, em letras garrafais. Orlando era o irmão de Geisel, mesmo assim foi uma tremenda confusão, repercutida por toda a imprensa nacional. No período eu já não estava no jornal há algum tempo, mas lamentei o descuido que fora praticado pelo editor Marconi Cabral, um jornalista experiente e que havia trabalhado em O Globo. Foi muito difícil controlar a ira dos militares no Estado, que recebiam ordem de Brasília.

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Em evento que reunia, entre outras figuras, os então senadores Antonio Carlos Valadares e Eduardo Amorim

ATÉ ONDE SE VAI EM NOME DE UM OFF
“Peguei dois anos e nove meses de cadeia, mais multa de 20 salários mínimos, porque me recusei a dar o nome de uma fonte nos anos de chumbo do AI-5. Aconteceu em Teresina, e tive direito a sursis

JLPolítica – O senhor já se sentiu envolvido ou arrebatado por alguma?
DB -
Em 1979 consegui evitar uma barrigada no jornal O Dia de Teresina. O repórter de Polícia chegou esbaforido à redação anunciando que tinha uma grande manchete. Era um sábado pela manhã. Entrou no gabinete e informou: “Exportação de chifres em uma cidade do interior”. Ao dizer-me o nome da cidade, desconfiei de uma briga política entre dois deputados estaduais. Tomei a iniciativa de ligar para o provável autor da informação “bombástica”. Ele deu uma bela gargalhada e lamentou: “Você acaba de impedir que seu jornal dê um furo internacional”. Rimos os dois. O deputado havia espalhado na região que o seu adversário seria “corno”. Imagina a confusão da barrigada como essa? Realmente é preciso muito cuidado para não cometer equívocos que possam levar o jornal ao descrédito, em razão de uma notícia escandalosa e falsa, que caracterize a barrigada.

JLPolítica - Por que “um erramos” dói tanto na alma da maioria dos jornalistas?
DB -
Sinceramente, acho que reconhecer o erro é uma das virtudes de qualquer profissional de imprensa. Ninguém é infalível e pode cometer divulgação inexata da notícia. A correção e o pedido de desculpas passa a ser obrigação tanto de quem erra publicamente, quanto dos que erram até mesmo entre familiares, amigos, colegas e a sociedade como um todo. Errar é humano e admitir isso é digno. Quanto ao fake news é uma notícia falsa passada ao repórter - ou não - por maldade. O certo é checar tudo que pareça estranho ou impossível de ocorrer. Não me parece que haja outra medicação.

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Aqui, Brayner está em companhia do ator e publicitário Antonio Leite e do jornalista Sales Neto, que trabalhou com ele por algum tempo e está secretário de Estado da Comunicação