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Entrevista

Jozailto Lima

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Dr Émerson: “No Governo, não faremos o toma lá, dá cá!”

Publicado em 15  de setembro de  2018, 20:00h

“O que se viu foi o avanço da pobreza e da miséria”

“Jamais poderemos fazer da atividade política um vale-tudo, no qual acontecem a utilização do poder econômico e o loteamento da administração pública, que será exercida negando o controle social, sem a devida transparência”. Este aforisma bem que poderia ser a síntese do pensando do médico Émerson Ferreira que, pelo Rede, disputa o mandato de governador de Sergipe nestes eleições.

Mas o pensamento de Dr Émerson, como ele se denomina, e do seu Rede Sustentabilidade vai bem mais além disso. E neste além, não cabe qualquer concessão ao pragmatismo que empene a ética na política e que faça da partilha dos espaços públicos uma filosofia, um fim em si.

Para o Dr Émerson, o que ele aponta como possibilidade de negação não é algo etéreo, um devir, passado ao longe. “Temos visto nessa campanha eleitoral candidatos que tiveram oportunidades na administração pública e que produziram o caos prometendo o paraíso para os sergipanos. E o que é pior: em uma coligação com políticos que produziram o inferno, tanto que muitos deles estão indiciados ou processados por corrupção”, diz Émerson.

É disso que ele e o Rede fogem. Mesmo sabendo que a mudança de que falam e que pregam passa por um processo educativo mais profundo. “A formação política de um povo é um processo e que, portanto, precisa de tempo para se consolidar”, avisa.

“E esse tempo não é nosso. Esse processo não se constrói apenas pela pregação, mas pela coerência entre a narrativa e a prática ao longo do tempo. E, como disse antes, esse tempo não é nosso. Nossos, são os princípios e as convicções”, diz.

ATIVIDADE POLÍTICA X EXERCÍCIO DA CIDADANIA
“Jamais deixei de exercer a minha profissão, que é ser médico, mesmo nas campanhas eleitorais. A atividade política fica por conta do exercício da cidadania, pelo fato de não me sentir representado na maioria dos nossos políticos”

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Acredita que, desta vez, Marina Silva chega à presidência
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Émerson Ferreira é medico de formação

TEMPO PARA FORMAÇÃO POLÍTICA DE UM POVO
“A formação política de um povo é um processo e, portanto, precisa de tempo para se consolidar. E esse tempo não é nosso. Esse processo não se constrói apenas pela pregação, mas pela coerência entre a narrativa e a prática ao longo do tempo”

JLPolítica - Diante de tantos descaminhos, tanta corrupção na vida pública nacional, nomes que defendem o novo, como o do senhor, não deveriam ter chances maiores nos processos eleitorais?
Emerson Ferreira –
Sim, concordo. Mas com o entendimento de que a formação política de um povo é um processo e que, portanto, precisa de tempo para se consolidar. E esse tempo não é nosso.

JLPolítica - Qual é a distância entre a pregação de uma renovação que o Rede faz e o que a sociedade captura, entende e aceita?
EF –
Esse processo não se constrói apenas pela pregação, mas pela coerência entre a narrativa e a prática ao longo do tempo. E, como disse antes, esse tempo não é nosso. Nossos, são os princípios e as convicções.

JLPolítica – Mas deve começar por onde e como?
EF -
Por exemplo, jamais poderemos fazer da atividade política um vale-tudo, no qual acontecem a utilização do poder econômico e o loteamento da administração pública, que será exercida negando o controle social, sem a devida transparência, ou seja, em um ambiente altamente propício à prática da corrupção. Temos visto nessa campanha eleitoral candidatos que tiveram oportunidades na administração pública e que produziram o caos prometendo o paraíso para os sergipanos. E o que é pior: em uma coligação com políticos que produziram o inferno, tanto que muitos deles estão indiciados ou processados por corrupção.

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Para o Senado, o seu partido apresenta o delegado Alessandro Vieira

REGRAS ÉTICAS PARA A ATIVIDADE POLÍTICA
“Jamais poderemos fazer da atividade política um vale-tudo, no qual acontecem a utilização do poder econômico e o loteamento da administração pública, que será exercida negando o controle social, sem a devida transparência”

JLPolítica - Como é que os senhores do Rede leem a situação administrativa de Sergipe de 1982 até os dias atuais?
EF -
Desde os anos 1980, Sergipe tem sido reconhecido entre os Estados nordestinos como um dos mais destacados socioeconomicamente. Em especial, em razão de seu Produto Interno Bruto – PIB – per capita, o maior do Nordeste, e por seus, outrora destacados, índices de desenvolvimento social e econômico – como renda, emprego, analfabetismo e expectativa de vida –, ainda que muito aquém dos níveis do Centro-Sul.

JLPolítica - O que contribuiu para que Sergipe se constituísse nesse quadro diferenciado?
EF -
Algumas razões para ter sido um notório enclave de virtudes dentro da mais pobre região do país são a presença abundante de recursos naturais, grandes commodities mundiais, tais como petróleo, gás, potássio e calcário e a instalação da maior usina hidrelétrica do Nordeste, Xingó, o que resultou não somente em aumento do PIB, mas também em uma forte classe média com razoável poder de compra concentrada na capital; os incentivos fiscais, a partir do início dos anos 1990, no contexto da guerra fiscal, foram cruciais para a formação de uma razoável indústria de bens de consumo não duráveis, em especial os mais tradicionais, como alimentos e bebidas, têxteis e vestuários, couro e calçados. A partir dos anos 2000, avanços nos indicadores sociais foram sentidos em função do aumento dos gastos do Governo Federal com transferências de renda, aumento salarial real e com o bom momento que atravessava a economia mundial no período, quando a China crescia a taxas com dois dígitos e consumia toneladas de commodities, das quais o Brasil é pródigo.

JLPolítica - Mas isso mudou?
EF -
Ocorre que, mesmo com o otimismo e os dados favoráveis que caracterizaram os primeiros 15 anos do século XXI, Sergipe não conseguiu dar um salto rumo a um patamar de desenvolvimento mais consistente e compatível com o nível dos estados do Sudeste, Centro-Oeste e Sul, nem mesmo preparar-se para alcançá-lo no médio prazo.

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O vereador Américo de Deus, de Aracaju, completa sua chapa, como vice

ANTIGOS SENHORES DAS NOVAS PROMESSAS
“Temos visto nessa campanha eleitoral candidatos que tiveram oportunidades na administração pública e que produziram o caos prometendo o paraíso para os sergipanos”

JLPolítica – O que prepondera hoje?
EF –
Diferentemente, com o início da recessão econômica no segundo semestre de 2014, o que se viu foi a exposição da fragilidade da economia sergipana, com elevados índices de desemprego, deprimidas taxas de crescimento do PIB, estagnação do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH –, retorno do avanço da pobreza e da miséria , escalada da violência urbana, crise fiscal, índices de desenvolvimento educacional estagnados ou retrocedidos, baixo índice de produtividade média do trabalhador, aumento de tributos que incidem diretamente sobre renda e produção, entre outros. 

JLPolítica - O senhor poderia apontar nestes 36 anos quais foram os ganhos do Estado advindos dessas gestões?
EF -
Tudo que temos de bom ou ruim produzido pela administração pública nas últimas três décadas deve ser atribuído aos agrupamentos políticos liderados por cinco ou seis pessoas que governaram Sergipe nesse período. E, inegavelmente, existem algumas boas obras relacionadas ao desenvolvimento observado no início desse século, das quais destacamos o investimento em infraestrutura rodoviária e nos perímetros irrigados. Infelizmente, no geral, o saldo é negativo, principalmente no último governo, talvez o pior da nossa história.

JLPolítica - Numa tradução literal, o que é mesmo o novo que o Rede promete e defende?
EF –
O novo é a governança exercida com transparência, sob controle social, com políticas públicas de Estado, planejadas de modo integrado, fortalecendo a democracia participativa e promovendo o desenvolvimento sustentável. Para que tudo isso seja possível, a lógica política das eleições não pode ser embasada no abuso do poder econômico nem no loteamento dos espaços públicos em acordos pragmáticos.

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E, na Câmara de Aracaju, ele também tem o apoio da correligionária Kitty Lima

SALTO TÍMIDO RUMO AO DESENVOLVIMENTO
“Desde os anos 80, Sergipe tem sido reconhecido entre os Estados nordestinos como um dos mais destacados socioeconomicamente. Ocorre que, mesmo os dados favoráveis que caracterizaram os primeiros 15 anos do século XXI, não conseguiu dar um salto rumo a um desenvolvimento mais consistente”

JLPolítica - Um dos pilares do Rede é a sustentabilidade ambiental. No atual sistema capitalista, qual o espaço real que teria esta sustentabilidade?
EF -
Por necessidade ou por reconhecimento, muitos setores do empresariado já defendem o desenvolvimento sustentável.

JLPolítica - É possível mudar, para melhor, o Estado, como prega o senhor, sem antes pensar educacionalmente no indivíduo, que é a razão de ser deste Estado?
EF -
A educação integral cumprirá esse papel a médio e a longo prazos, com conhecimento de qualidade, formação para a cidadania e para o mundo do trabalho.

JLPolítica - Uma vez governador eleito, qual seria a maior mexida no status quo sergipano? O senhor buliria exatamente no que em 1° de janeiro de 2019?
EF -
Reduzirei a quantidade de Secretarias de Governo para 11, extinguirei os cargos de secretário-adjunto, autorizarei reavaliação da política de terceirizados e de cargos comissionados, auditoria de contratos, encaminharei para aprovação a lei de ferro: nada se construirá enquanto o que existe não estiver funcionando e otimizado. Na governança, trabalharemos na plenitude da transparência, criando e disponibilizando um banco de dados, estimulando o controle social e promovendo a inovação tecnológica. Adotaremos políticas públicas de Estado, com gestão integrada, planejadas a médio e a longo prazos.

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E, na Câmara de Aracaju, ele esteve por dois mandatos consecutivos

EXPOSIÇÃO DA FRAGILIDADE DA ECONOMIA SERGIPANA
“Com o início da recessão no segundo semestre de 2014, o que se viu foi a exposição da fragilidade da economia sergipana, com elevados índices de desemprego, deprimidas taxas de crescimento do PIB”

JLPolítica - O senhor identifica entre os seus demais oito concorrentes ao Governo de Sergipe algum com alguma ideia luminosa?
EF -
A questão central não são as ideias, mas as práticas. No geral, as ideias dos candidatos que estiveram no poder foram sempre muito boas, mas não se consolidaram na prática, e constatamos isso analisando o histórico da política sergipana. É a prática através dos tempos que cristaliza as ideias.

JLPolítica - Quais as chances de o Rede se sair bem na eleição proporcional de Sergipe, elegendo alguém para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal?
EF -
Essas chances são muito boas. No mínimo, manteremos o quantitativo da nossa bancada estadual e estaremos na disputa por uma vaga para deputado federal.

JLPolítica - E para o Senado, quais as probabilidades reais de Alessandro Vieira?
EF –
Grandes. Pelo que as candidaturas da Rede representam, pelas qualidades e histórico profissional do delegado Alessandro Vieira e pelo sentimento de renovação na política.

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Na Alese, o Rede tem Georgeo Passos e Moritos Matos, que tentam a reeleição

A HERANÇA RUIM DOS GRUPOS POLÍTICOS
“Tudo que temos de bom ou ruim produzido pela administração pública nas últimas três décadas deve ser atribuído aos agrupamentos políticos liderados por cinco ou seis pessoas que governaram Sergipe nesse período”

JLPolítica - O desempenho de Marina Silva na disputa da Presidência da República terá que ecos na sua candidatura em Sergipe?
EF -
Independentemente do pragmatismo das pesquisas ou do resultado eleitoral, a campanha nacional da Rede ecoará em todo o país pela representatividade da nossa principal liderança, a Marina Silva, e pelo conteúdo programático do nosso partido. Em Sergipe não será diferente.

JLPolítica - O Rede não compôs no plano nacional e estadual. Ele é um partido xiita?
EF -
Não. Simplesmente um partido programático, com princípios, valores e democracia interna. Por exemplo, aqui em Sergipe não existe possibilidade de aliança com partido que tenha político envolvido nos processos decorrentes das operações Subvenções, Indenizar-se ou Navalha. Mas só uma observação: nacionalmente, a Rede compôs aliança com o PV.

JLPolítica - Uma vez eleito, o senhor também não comporia com ninguém aqui?
EF -
Dialogaremos com todos os deputados, uma vez que todos nós temos compromissos com a produção do bem comum. No Governo, não faremos o toma lá, dá cá! Também estimularemos a participação da sociedade.

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Entusiasmo não falta a ele e a todos que integram o seu partido

O NOVO RECHAÇA OS ACORDOS PRAGMÁTICOS
“O novo é a governança exercida com transparência, sob controle social. E para que seja possível, a lógica política das eleições não pode ser embasada no abuso do poder econômico nem no loteamento dos espaços públicos em acordos pragmáticos”

JLPolítica - A sua campanha é franciscana ou não tem grandes dificuldades financeiras?
EF -
Literalmente franciscana: humilde, honesta, fraterna, solidária, que tem bons princípios e valores e, como grande capital, a verdade, a coerência e as pessoas.

JLPolítica - O senhor sente saudade do seu passado petista?
EF -
Sinto-me honrado por tudo que fiz em minha vida, mas sem saudosismo.

JLPolítica - Compensa dedicar-se tanto à política, tendo uma carreira médica a administrar?
EF -
Jamais deixei de exercer a minha profissão, que é ser médico, mesmo nas campanhas eleitorais. A atividade política fica por conta do exercício da cidadania, pelo fato de não me sentir representado na maioria dos nossos políticos e pela necessidade de que a política seja exercida com independência, competência e honestidade.

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Mas abomina o vale-tudo pela vitória

O NORTE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PLANEJADAS
“Trabalharemos na plenitude da transparência, criando e disponibilizando um banco de dados, estimulando o controle social e promovendo a inovação tecnológica. Adotaremos políticas públicas planejadas a médio e a longo prazos”

JLPolítica - O senhor se sentiu contemplando ao ter saído da disputa pela Prefeitura de Aracaju em 2016 com uma votação ombro a ombro com um João Alves de 40 anos de experiência?
EF –
Não avalio esse resultado pela satisfação ou contemplação pessoal, mas como sinal da evolução da consciência cidadã. 

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Aposta na evolução do que chama "consciência cidadã"