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Entrevista

Jozailto Lima

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Dr Sousa: “Bom médico é o que consegue “escutar” a alma do paciente”

“Não fique em casa com queixas cardiovasculares”
12 de julho - 8hoo

É isso mesmo que você leu. Se no tempo do fique em casa para se proteger contra os tentáculos do coronavírus e da sua consequente Covid-19 ficar trancado faz todo sentido, quando o problema vem do velho coração, isso não se aplica. Não vale ficar em casa.

O alerta é de um dos mais respeitáveis cardiologistas do Brasil e de Sergipe, o médico Antônio Carlos Sobral Sousa, 65 anos, professor da Universidade Federal de Sergipe, que acompanha com preocupação a performance da Covid-19 sobretudo entre diabéticos, hipertensos, cardiopatas e obesos.

“Nosso país está vivenciando o epicentro mundial da Covid-19, doença que tem causado pânico e ceifado vidas, mesmo de indivíduos jovens. Curiosamente, tem sido registrada sensível redução dos internamentos por urgências cardiovasculares, notadamente o infarto agudo do miocárdio, que constitui a principal causa de mortalidade do mundo moderno”, constata ele.

“Portanto, faço o alerta de que não fique em casa com queixas cardiovasculares. Na dúvida, entre em contato com o seu médico e lembre-se de que os hospitais podem prestar atendimentos, com segurança, nas emergências cardiológicas, evitando assim que mortes desnecessárias sejam adicionadas ao pedágio da Covid-19”, diz.

Dr Sousa, como é sumariamente conhecido, é uma ativa máquina de produção de conteúdos científicos na área médica. Meça aí: já publicou 153 artigos em periódicos especializados, em sua maioria no exterior. Já editou 15 livros, participou de 13 outros, com capítulos publicados, teve 52 textos avulsamente espargidos em jornais e revistas e emplacou 571 resumos de trabalhos apresentados em congressos nacionais e internacionais.

Nesta Entrevista, Dr Sousa vai fazer um panorama alvissareiro da formação de mão obra na esfera da Medicina no Estado de Sergipe, chancelará a Medicina que é oferecida aos sergipanos, traçará um gráfico preocupante da Covid-19 sobre as pessoas do chamado grupo de risco e revelará muito sobre a sua formação acadêmica e prática, que começa por Sergipe, passa pelos Estados Unidos e conclui em São Paulo, na USP de Ribeirão Preto, e sobretudo agradecerá a muitos dos que cruzaram seu caminho desde 1974, quando aos 19 anos entra na UFS como aluno.

Dr Sousa terminou o curso de Medicina da Universidade Federal de Sergipe em dezembro de 1979 e fez Residência em Clínica Médica no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo em 1980, em Cardiologia Clínica no Instituto Dante Pazanesse de Cardiologia de São Paulo de 1981 a 1982, e em Ecocardiografia, ali também, em 1983.

Durante a estada dele em São Paulo, foi professor voluntário de Cardiologia da Faculdade de Medicina do ABC e da Universidade de Taubaté e foi aprovado em concurso para médico cardiologista civil do Hospital Geral do Exército e para clínico geral do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social - antigo Inamps. Ele fez doutorado na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto entre 1984 e 1987.

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Antônio Carlos Sobral Sousa, o Dr Sousa, um cidadão do mundo, apresentando trabalho no Congresso do American College of Cardiology
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Antônio Carlos Sobral Sousa com o médico Adib Jatene, figura por quem ele sempre nutriu admiração e respeito

JLPolítica - O senhor se submeteu a uma espécie de diáspora na sua formação médica, começando por Sergipe, passando pelos Estados Unidos e indo a São Paulo? Por que foi assim?
Antônio Carlos Sobral Sousa -
Sem dúvidas. Isso porque é muito importante para a formação do médico a troca de experiências com centros mais avançados. Tive a oportunidade de ter sido selecionado para cursar o Internato de Medicina, 6º ano, na Brown University, em Providence, Rhode Island, Estados Unidos.

JLPolítica - E lhe foi positivo isso?
ACSS -
Sim. Foi uma oportunidade de crescimento profissional e pessoal. Retornando ao Brasil, fui a São Paulo por se constituir ali no maior centro médico brasileiro. Na capital paulista, fiz residência em Clínica Médica no Hospital do Servidor Público e em Cardiologia no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Em seguida, como cultivava o interesse também pelo ensino e a pesquisa, optei por fazer doutorado na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, por sua comprovada excelência em pós-graduação. 

JLPolítica - Na sua visão, qual é o nível da Medicina praticada em Sergipe hoje?
ACSS -
A Medicina praticada em Sergipe é de muito bom nível e não somente pelos profissionais que atuam na área, como também pelos serviços de saúde disponíveis. Vale ressaltar, todavia, que no âmbito do SUS ainda existem distorções que necessitam ser corrigidas, como também ocorrem no restante do país.

APROVAÇÃO DA MEDICINA E DA CARDIOLOGIA PRATICADAS EM SERGIPE
“A Medicina praticada em Sergipe é de muito bom nível e não somente pelos profissionais que atuam na área, como também pelos serviços de saúde disponíveis. A área da Cardiologia é uma das mais destacadas no Estado, a julgar pela participação ativa de nossos profissionais nos principais eventos da especialidade, tanto no Brasil quanto no exterior”

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O médico Dr Sousa recebe a “Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar”, conferida pela Alese em 2018

JLPolítica - O senhor acha que a telemedicina vai ter vida própria no pós-pandemia de coronavírus?
ACSS -
Acho que a telemedicina é um caminho sem volta. Teremos que nos adaptar ao “novo normal” do mundo virtual. Esta mesma toada vai acontecer com o ensino, com as reuniões e com os congressos e similares. Para esta situação, gostaria de parafrasear o grande biólogo inglês naturalista, famoso cientista, pai da Teoria da Evolução das Espécies, Charles Darwin: quem vai sobreviver não é a espécie mais forte, nem a mais inteligente e sim aquela que melhor se adaptar ao meio.

JLPolítica - Emparedadas pelo coronavírus e pela Covid-19, as pessoas estão menosprezando outras doenças nesta hora. O risco disso não seria muito grave?
ACSS -
Sim, seria exatamente. Nosso país está vivenciando o epicentro mundial da Covid-19, doença que tem causado pânico e ceifado vidas, mesmo de indivíduos jovens. Curiosamente, tem sido registrada sensível redução dos internamentos por urgências cardiovasculares, notadamente o infarto agudo do miocárdio, que constitui a principal causa de mortalidade do mundo moderno. Este fenômeno provavelmente decorre de uma multiplicidade de fatores, sendo o receio de contágio no hospital, notadamente, o principal responsável pelo desencorajamento ao acesso da população aos serviços de urgência. Nesse contexto, tem sido projetada uma “onda” de eventos cardiovasculares, cessada a que ora vivenciamos, com a pandemia. Portanto, faço o alerta de que não fique em casa com queixas cardiovasculares. Na dúvida, entre em contato com o seu médico e lembre-se de que os hospitais podem prestar atendimentos, com segurança, nas emergências cardiológicas, evitando assim que mortes desnecessárias, sejam adicionadas ao pedágio da Covid-19.

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Dr Sousa com o grande pesquisador Salim Yusuf, da Universidade Mc Master, no Canadá

JLPolítica - E, especificamente, como está o provimento de profissionais na área de Cardiologia?
ACSS -
A área da Cardiologia é uma das mais destacadas em nosso Estado, a julgar pela participação ativa de nossos profissionais nos principais eventos da especialidade, tanto no Brasil quanto no exterior. Pessoalmente, já atuei como palestrante oficial em mais de 500 congressos, simpósios e seminários nacionais e internacionais.

JLPolítica – Como estão as pesquisas da área de saúde a partir da UFS?
ACSS -
As pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde de UFS têm sido relevantes, projetando a nossa instituição no cenário nacional. Pessoalmente, fui orientador de 13 dissertações de mestrado, 10 teses de doutorado e de vários projetos de iniciação científica de graduação. Além disso, tenho sido investigador principal do Centro de Ensino e Pesquisa da Fundação São Lucas em, aproximadamente, 30 projetos multicêntricos nacionais e internacionais.

JLPolítica - Há muita publicação nesta área a partir de pesquisadores de Sergipe?
ACSS -
Sem dúvida. Na área de Cardiologia, juntamente com os professores José Augusto Barreto-Filho, Joselina Oliveira e Marcos Almeida, todos também pertencentes ao Hospital São Lucas, já publicamos próximo de duas centenas de artigos em revistas indexadas e, aproximadamente, mil resumos em anais de congressos no Brasil e no mundo.

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Com a sua Dorinha, as duas filhas, a netinha e o genro

JLPolítica - O senhor prescreve ou prescreveria a hidroxicloroquina diante de quais circunstâncias?
ACSS -
No momento atual, em que não existe comprovação de sua eficácia, não prescreveria em nenhuma etapa da doença. Sei que muitos colegas alegam o risco da omissão para prescrever medicamentos não comprovados.Gostaria de elencar três motivos que não justificam tal atitude. A primeira é que, mesmo uma boa ideia conceitual ou experimental de determinada droga, não é garantia de que ela vá resistir aos estudos robustos; acredita-se que isto só ocorre em menos de 5% dos casos. A segunda justificativa diz respeito à probabilidade individual de funcionamento. Ou seja, um remédio que funciona para fulano, não necessariamente funciona para beltrano. Uma droga excepcional em medicina tem apenas 5% chance de beneficiar um determinado indivíduo. Por fim, devemos lembrar os efeitos indesejáveis das drogas, muitos dos quais fatais.

JLPolítica - Como é que o senhor vê a contratação de mão de obra médica sem a devida inscrição nos conselhos de medicina?
ACSS -
Trata-se de uma situação irregular, que não deve ocorrer.

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Um homem e sua família-base: os irmãos José Eduardo, Ricardo, Paulo, Elisabete e Luis Alberto, e os pais José Carlos de Sousa e Clara Maria Sobral Sousa

JLPolítica - O senhor acha que os Hospitais do Coração, São Lucas, Primavera e Cirurgia estão tecnologicamente preparados para uma boa prática da medicina cardiológica?
ACSS -
Estão sim. Entendo até que não se justifica procurar outros centros fora de Sergipe para o tratamento da grande maioria das doenças cardiológicas.

JLPolítica - Qual é o cardiologista base em quem o senhor mais se espelha no Brasil e em Sergipe?
ACSS -
Vale aqui salientar que quatro professores foram fundamentais para a minha decisão de optar pela Cardiologia como especialidade. Quem mais me influenciou foi o professor José Augusto Barreto, talvez por suas lições ministradas dentro do melhor sabor da ciência contemporânea, permeadas de inteligência e simplicidade ou talvez por suas atividades clínico-cardiológicas, de um profissional arguto, seguro nos diagnósticos e moderado nas prescrições terapêuticas. Ou, ainda, por suas atitudes de caráter inabalável, pelo gesto amigo de solidariedade e pela beleza de sua educação refinada. Outro mestre e amigo, também de grande importância para a minha formação acadêmica, foi o professor José Teles de Mendonça, que introduziu a cirurgia cardíaca em Sergipe, além de ter sido pioneiro no transplante cardíaco no Nordeste. Professor Teles, recém-chegado de sua especialização em renomados serviços de Cirurgia Cardíaca no Rio de Janeiro, trazia consigo o espírito desbravador dos pioneiros, que me encantava e me fascinava.

JOSÉ TELES DE MENDONÇA ENTRE SEUS MESTRES
“Outro mestre e amigo, também de grande importância para a minha formação acadêmica, foi o professor José Teles de Mendonça, que introduziu a cirurgia cardíaca em Sergipe, além de ter sido pioneiro no transplante cardíaco no Nordeste. Teles, recém-chegado de sua especialização no Rio, trazia consigo o espírito desbravador dos pioneiros, que me encantava e me fascinava”

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Com colegas do Hospital São Lucas

JLPolítica - Quem são os outros dois?
ACSS -
Um deles é o professor Marcos Teles de Melo, com especialização na Syracuse Univesity, que ensinava com esmero o refinado ato da ausculta cardíaca. Ainda guardo comigo, caro mestre, a fundamental carta de apresentação que o senhor me concedeu, por ocasião de minha ida para os Estados Unidos. Registro, finalmente, o saudoso professor Roberto José da Paixão, introdutor da Hemodinâmica e da Cardiologia Intervencionista em nosso Estado. Foi-me deveras proveitoso o seu convívio, sobretudo quando assumi a monitoria da disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias, por ele coordenada. Durante os três anos de estada no Dante, foi deveras recompensador o convívio com figuras luminares da Cardiologia nacional, de valor reconhecido pela comunidade científica internacional, tais como o brilhante cirurgião Adib Domingues Jatene, o hemodinamicista José Eduardo Sousa, o especialista em cardiopatias congênitas, o sergipano de Boquim Valmir Fernandes Fontes - irmão de Horário Fontes, tio da colega Amélia Fontes e primo da confreira Ana Medina -, os saudosos clínicos Joseph Féher - então diretor do Hospital Albert Einstein - e Marcos Aurélio Dias da Silva - escritor, autor do best seller “Quem Ama não Adoece” - e a ecocardiografista Amanda Sousa, que também fora diretora da instituição.

JLPolítica - Quando o senhor chega a Ribeirão Preto?
ACSS -
Em 1984. Neste ano fui admitido como aluno do curso de pós-graduação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Tive a sorte e o privilégio de ter como orientador o professor doutor José Antônio Marin Neto, um dos mais aclamados profissionais da Cardiologia brasileira. Os trabalhos de autoria dele publicados, as conferências proferidas no Brasil e no exterior, o elevado conceito conquistado perante a comunidade científica internacional e, sobretudo, o seu alentado currículo espelham o elevado grau de talento e cultura do qual é detentor.

 

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Na lousa do saber: em 1987, defendendo o doutorado na USP de Ribeirão Preto, em São Paulo

JLPolítica - Na Cardiologia sergipana, qual é hoje o papel do médico José Teles de Mendonça e do Hospital do Coração por ele liderado?
ACSS -
Conforme já mencionado, o professor e doutor José Teles projetou a Cardiologia sergipana para o além-fronteiras. A sua capacidade de trabalho, o seu caráter e o seu espírito agregador fazem dele credor do orgulho e da admiração do povo sergipano. E de nós médicos.

JLPolítica - O senhor é um profissional de saúde de muitas ações: está na assistência, é professor de graduação e de pós-graduação e atua em pesquisa. No que o senhor mais se realiza?
ACSS -
Esta é uma pergunta muito difícil de responder. Todavia, confesso que tenho orgulho de ser chamado de professor.

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Aqui, Sousa faz mais um dos seus discursos na Academia Sergipana de Medicina: ele é membro de mais duas outras

JLPolítica - Preocupa-lhe o excesso de abertura de faculdades de Medicina no Brasil? Não há risco de a formação acadêmica desta área cair na banalização em que caiu o setor do Direito, com uma superpovoação de faculdades?
ACSS -
De fato, esta situação é preocupante. A formação de um estudante de Medicina não é tarefa fácil. As atuais faculdades precisam evoluir para um ambiente menos teórico, mais prático, atender aos anseios da comunidade com um conteúdo generalista e integrado na interdisciplinaridade e a utilização do processo virtual da telemedicina, mantendo uma relação personalizada com o paciente mesmo à distância. Como atender a estes pré-requisitos com a iminente proliferação de faculdades de Medicina?

JLPolítica - Filosoficamente e na prática, o que é um bom médico?
ACSS -
Um bom médico é aquele que consegue, com humildade, “escutar” a alma do paciente. Na esteira de tal intelecção, assim me pronunciei no dia da minha posse na cadeira 38 da Academia Sergipana de Medicina, ao ensejo do discurso de louvação ao patrono Walter Cardoso: “O médico é o servidor da vida, o missionário da bondade. Tem nas mãos o maior dos privilégios: praticar o humanismo integral pelo saber, compreensão, paciência e humildade”.

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Dr ACS Sousa: “Um bom médico é aquele que consegue, com humildade, “escutar” a alma do paciente. O médico é o servidor da vida”

JLPolítica - O senhor já recebeu prêmios ou títulos honoríficos significativos?
ACSS -
Sim. Ao longo de minha carreira recebi cerca de 80 prêmios e títulos honoríficos, merecendo destaque prêmio “Egas Armelin”, conferido pelo Departamento de Ecocardiografia – Depeco - em 1989, o Cidadão Honorário do Município de Itabaiana, 2003, o de membro da Academia Sergipana de Medicina, em 2005, a homenagem de “Médico Amigo”, pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, em 2013, o Fellow of American College of Cardiology, em 2009; o prêmio “Mérito SBC - Destaque Docente”, de 2014, o Troféu “Professor Lauro Maia”, conferido pela Sociedade Médica de Sergipe em 2015, o troféu “Professor José Augusto Barreto”, outorgado pela SBC - Regional de Sergipe – 2017, o de membro da Academia Sergipana de Letras, de 2018, “Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar”, conferido pela Alese em 2018;o de membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, 2019, a homenagem da SBC-Alagoas e a de membro da Academia Sergipana de Educação, de 2019. Agradam-me, todos.

JLPolítica - Mas onde o senhor acha tempo para compor as três academias setorizadas?
ACSS -
 Procurei sempre valorizar o tempo que é um bem insubstituível e irrecuperável. Por outro lado, são prazerosas as atividades das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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Dr Sousa compartilha pose com o governador de Sergipe, Belivaldo Chagas, e com o seu colega de profissão José Teles de Mendonça, um grande nome da cardiologia de Sergipe e do Brasil

JLPolítica - O senhor acha ofensivo ou vê como algo natural e compreensível que a classe média altíssima de Sergipe busque sempre centros como São Paulo diante do menor desconforto de saúde? 
ACSS -
Este fato nunca me incomodou. Quando questionado, sempre ressalto que nos grandes centros também são muito tênues os limites entre as boas e as más práticas médicas. Hoje constato, com alegria, que muitos daqueles que procuraram os grandes centros encontram aqui a segurança e o conforto para o diagnóstico e o tratamento de suas mazelas. 

JLPolítica - Por que a hipertensão é um fator de risco tão levado em conta frente à Covid-19? E por que o diabetes impacta tanto no contexto desta nova doença? Que outras comorbidades são relevantes diante da Covid-19?
ACSS -
Na esteira dessa pandemia, têm-se constatado que certas comorbidades tornam os seus portadores mais vulneráveis a desfechos desfavoráveis. Este grupo de risco é constituído pelos idosos, pelos obesos e àqueles portadores de doenças cardiovasculares, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer e insuficiência renal crônica. Até o momento, não se conhece totalmente os mecanismos do aumento de risco nessa população. Todavia, observações procedentes de Wuhan, China, onde tudo começou, dão conta de que a letalidade da Covid-19 - total de mortes, dividido pelo total de positivos - entre aqueles com doenças subjacentes foi de 10,5%, comparativamente a 2,3% dos não pertencentes ao chamado grupo de risco. Ao que parece, idosos e pessoas com várias condições médicas são as mais suscetíveis às complicações relacionadas à infecção

DA ESCALA PARA SE MEDIR UM BOM MÉDICO
“Um bom médico é aquele que consegue, com humildade, “escutar” a alma do paciente. Assim me pronunciei na minha posse da Academia Sergipana de Medicina, ao ensejo do discurso: “O médico é o servidor da vida, o missionário da bondade. Tem nas mãos o maior dos privilégios: praticar o humanismo integral pelo saber, compreensão, paciência e humildade”

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Com os médicos José Augusto Barreto Filho, de Sergipe, e Eugene Braunwald, professor titular de Harvard: boas relações em bom plano

JLPolítica - Mas por que essas pessoas são elevadas a esta condição de mais riscos?
ACSS -
Por causa de deficiência do sistema imunológico e por apresentarem maior propensão a desenvolver infecções bacterianas secundárias. Acredita-se, também, que tanto a infecção viral quanto as patologias do grupo de risco compartilham mecanismos fisiopatológicos, como a disfunção endotelial e a inflamação, responsáveis por favorecerem o aparecimento das complicações pulmonares, cardíacas, renais, neurológicas etc., observadas na Covid-19.

JLPolítica - O senhor, que é um profissional de saúde há mais quatro décadas, já se “especializou” em coronavírus e na Covid-19 nestes 120 dias, ou tudo lhe é ainda muito novo e confuso?
ACSS -
Como aproximadamente 40% das mortes por Covid-19 são de causa cardíaca e também por se tratar de uma doença nova, tenho estudado bastante o assunto. Todavia, se trata de uma patologia complexa, que se apresenta de forma multifacetada, com poucos tratamentos específicos comprovados e cuja experiência mundial acumulada ainda é pequena.  

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Ato solene de casamento com Maria Auxiliadora Nabuco Majela Sousa, licenciada em Letras

JLPolítica - O senhor, pessoalmente, já venceu os sobressaltos que esta nova doença gera em pacientes e nos profissionais da saúde?
ACSS -
Apesar de não estar na linha de frente do tratamento da Covid-19, aprendi a respeitar esta patologia. Estou convicto de que para a sua prevenção, a proteção é atualmente a melhor opção. Portanto, não me sinto sobressaltado. Estou atento.

JLPolítica - Apesar de não estar diretamente, mas é chocante a realidade que lhe chega no dia a dia de pacientes impactados?
ACSS -
A Covid-19 vem apresentando, em nosso meio, comportamento semelhante ao que aconteceu no restante do mundo, ou seja, aproximadamente 80% dos indivíduos contaminados vão apresentar sintomas semelhantes aos das viroses habituais, que regridem em poucos dias; em torno de 14% vão evoluir para um quadro inflamatório, cuja intensidade pode variar, requerendo, muitas vezes, internamento hospitalar. O restante compõe o grupo mais grave, necessitando de terapia intensiva e, frequentemente, de intubação e de suporte ventilatório mediante respiradores. Neste último grupo, concentram-se o maior número de óbitos. Impressionante é que o cenário daqueles que evoluem para o quadro inflamatório pode mudar rapidamente, sendo imperioso o tratamento intensivo.

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O dr Sousa com seus três tesouros: as filhas Nathália e Gisela e a esposa Dorinha Majela Sousa

JLPolítica - Há muitos colegas seus internados ou afetados pela Covid-19?
ACSS -
Como a doença se encontra disseminada na comunidade, vários colegas já a contraíram, não necessariamente no ambiente de trabalho e alguns recorreram ao internamento.

JLPolítica - É dado direito e permissão a um médico ter medo diante do desconhecido patologicamente?
ACSS -
Sim. Vale lembrar que o médico é um ser humano e, como tal, uma vez doente, passa pelas mesmas angústias e dúvidas dos não médicos. Inclusive, compactuo com a ideia de que o médico enfermo deve esquecer o seu CRM e seguir as recomendações do profissional, que procurou para o seu acompanhamento. Todavia, como deveria acontecer com toda relação médico paciente, deve prevalecer a decisão compartilhada.

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Com Dorinha, Fellipo Rovella, Gisela, a pequena neta Maria, Nathália e Luciano Araujo

JLPolítica - Quanto por cento desses jovens entre 24 e 26 anos recém-formados em Medicina o senhor acha que devem ser considerados prontos e aptos a caírem no centro da pandemia do coronavírus como médicos
ACSS -
Evidentemente um médico recém-formado e, ainda, se tiver formação deficiente, não terá os conhecimentos e as habilidades suficientes para assumir integralmente uma Unidade de Terapia Intensiva, onde estarão os pacientes mais graves com a Covid-19. Todavia, desde que supervisionados, eles podem atuar nas várias etapas do enfrentamento à esta doença. O cenário ideal ocorre em instituições que têm programa de residência médica, onde, mesmo os recém-ingressos – o s R1 -, têm sido utilizados, sob tutoria, para compor as escalas de urgência e de UTI, decorrente do adoecimento de profissionais.

JLPolítica – Como é que o senhor encara os atropelos aos procedimentos e protocolos médicos e de saúde por pessoas leigas e alheias à área?
ACSS -
Estamos vivenciando, também nesta ótica, algo sem precedentes. Estão sendo utilizados e prescritos uma série de medicamentos sem a real comprovação de suas eficácias. Frequentemente, é utilizado o argumento de que não fazendo mal à saúde, pode ser usado. Na ausência de benefício, usar a alegação da segurança viola a racionalidade do pensamento científico. Deve ser prescrita uma determinada droga porque ela é eficaz e não porque ela é segura.

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“Este fato nunca me incomodou. Quando questionado, sempre ressalto que nos grandes centros também são muito tênues os limites entre as boas e as más práticas médicas. Hoje constato, com alegria, que muitos daqueles que procuraram os grandes centros encontram aqui a segurança e o conforto para o diagnóstico e o tratamento de suas mazelas”
 

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Hospital São Lucas: área operacional do médico Antônio Carlos Sobral Sousa