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Entrevista

Jozailto Lima

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Edivaldo Leandro: “Todo o lucro da Petrobras está indo para o setor privado”

“A Petrobras não pensa no Brasil. Pensa nos acionistas”
6 de outubro de 2019 - 7h


Na última quinta-feira, dia 3 de outubro, a Petrobras completou 66 anos de existência e de atuação no Estado de Sergipe. Desde a pré-escola, todos os sergipanos aprenderam que esse Estado tem uma história antes da Petrobras e outra depois da Petrobras.

Tradução disso: depois da Petrobras, Sergipe atingiu uma espécie de voo cruzeiro no campo do desenvolvimento econômico, atraiu e gerou uma nova realidade industrial, e viu os tentáculos da riqueza vicejarem.

Isso foi materializado a partir da ação empregatícia da própria companhia, que chegou a ter 15 mil postos de trabalho diretos, a gerar milhões e mais milhões de reais por ano para Governos - Prefeitura se o Estado - e a se constituir, através da sua big sede da Rua Acre, numa espécie de universidade do petróleo com pesquisas de repercussão nacional e internacional.

Mas todo esse passado está se encaminhando para virar pó e fumaça. Para ser literalmente implodido e Sergipe voltar ao antes da Petrobras. Toda a importância da companhia, simbolizada pela sede da Rua Acre, está sendo desmontada e transferida para o Estado do Espírito Santo, no Sudeste.

A Petrobras de Sergipe - e a nacional, como um todo - é vítima de uma chamada política de desinvestimento que começa lá em 2012 no Governo de Dilma Rousseff e dá passadas largas no de Jair Bolsonaro.

No caso de Sergipe, isso acontece mesmo com os festejados anúncios de que na bacia sergipana foi descoberta uma monumental reserva de óleo e gás que faria desse Estado um pequeno golfo pérsico, uma pequena Arábia.

Portanto, e diante de tudo isso, o 3 de outubro foi mais de luta e luto do que de louvação e agradecimento, segundo Edivaldo Soares Leandro, presidente do Sindipetro AL/SE - Sindicato Unificado dos Trabalhadores Petroleiros, Petroquímicos, Químicos e Plásticos nos Estados de Alagoas e Sergipe.

“Poderíamos ter muito a comemorar, uma vez que nós temos uma riqueza muito grande, capaz de atender a todas - eu disse a todas - as necessidades do nosso povo e no entanto essa riqueza, ou o pouco do que está sendo processado dela, não está sendo utilizada em prol da sociedade sergipana e sim do interesse da maioria dos acionistas privados”, diz Edivaldo Leandro.

E aqui Edivaldo Leandro, ainda que com o seu olhar suspeito de sindicalista, crava o problema grave dessa equação entre a Petrobras, o Brasil e os brasileiros.

“A Petrobras não pensa no Brasil. Pensa nos acionistas. Muitos deles, banqueiros, donos de multinacionais de petróleo. De modo que todo o lucro da Petrobras está indo para o setor privado, então a população infelizmente não tem o que comemorar, apesar de ser dona de toda essa riqueza”, diz Edivaldo nesta Entrevista Domingueira.

Para Edivaldo Leandro, não há nenhuma simetria lógica entre as descobertas e potencialidades das reservas de óleo e gás em Sergipe e a desativação da sede da Petrobras no Estado, espalhando seus poucos mais de cinco mil funcionários restantes em diásporas pelo Brasil afora.

“Os prejuízos serão irreparáveis, uma vez que a Petrobras descobriu uma reserva gigantesca de óleo e gás aqui no nosso litoral e a presença dessa sede administrativa, que não é só administrativa, e toda essa infraestrutura serviriam de infraestrutura logística e administrativa para que a gente administre toda essa massa de petróleo e gás que Sergipe precisa processar para continuar se desenvolvendo. Como fechar uma sede assim?”, diz ele.

Na visão de Edivaldo Leandro, “a sede da Rua Acre parece uma pequena cidade, pois além de blocos administrativos, tem vários tipos de laboratórios, inclusive de Geologia, vários tipos de oficinas”. Ele entende que as novas descobertas deveriam abortar os movimentos em favor do desinvestimento.

“Para nós, além de ser uma grande oportunidade de o Governo Federal investir mais na Petrobras, investir mais em concurso e em preparação de mão de obra futura para trocar todo esse projeto, significa para o Estado de Sergipe a possibilidade de ele se tornar o maior PIB brasileiro”, diz.

“Sergipe teria o maior PIB per capta, desde que toda essa produção fosse processada aqui, porque todo esse gás e todo o óleo que temos aqui exigem que Sergipe tenha uma refinaria e uma nova planta de processamento de gás. Mais: exigiria, por exemplo, duplicar a capacidade de produção de ureia aqui pela Fafen, uma vez que a principal matéria-prima da Fafen é o gás”, reforça.

Na visão de que a Petrobras, enquanto uma das maiores petrolíferas do mundo, trabalha somente para agradar aos seus acionistas privados, Edivaldo Leandro aponta um crime de ordem econômica contra os brasileiros, que é praticado com os preços abusivos dos seus produtos.

“A política de preço de derivados deveria ser baseada somente no valor de custo da Petrobras. Ou seja, de tudo que ela investe e de tudo que ela paga em mão de obra e royalties e impostos. Só isso deveria ir para a conta. Se o governo fizesse isso, como manda a Constituição, nós poderíamos ter o preço de um botijão de gás no máximo R$ 20, sendo que custa hoje em média R$ 80. O litro de gasolina poderia ser, no máximo, R$ 2. Um litro de diesel, R$ 1,80”, diz ele.

E por que não é assim? “Porque o governo insiste em basear o preço dos derivados na variação do dólar e na variação do preço internacional do petróleo, como querem os acionistas”, denuncia Edivaldo Leandro.

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É técnico em Química e em Segurança do Trabalho. Pela Universidade Federal de Sergipe, iniciou-se em dois cursos – Química e História -, mas não os concluiu
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Com o estudante Pedro Sousa, no Grito dos Excluídos

SEM MUITO A COMEMORAR PELOS 66 ANOS DA PETROBRAS
“Poderíamos ter muito a comemorar, uma vez que nós temos uma riqueza muito grande, capaz de atender a todas as necessidades do nosso povo e no entanto essa riqueza, ou o pouco que está sendo processado, não está sendo utilizada em prol da sociedade sergipana e sim do interesse da maioria dos acionistas privados”

 

JLPolítica - O Brasil, a sociedade e os petroleiros tiveram o que comemorar no último dia 3 de outubro pelos 66 anos da Petrobras?
Edivaldo Leandro -
Infelizmente, não. Poderíamos ter muito a comemorar, uma vez que nós temos uma riqueza muito grande, capaz de atender a todas - eu disse a todas - as necessidades do nosso povo e no entanto essa riqueza, ou o pouco que está sendo processado dela, não está sendo utilizada em prol da sociedade sergipana e sim do interesse da maioria dos acionistas privados. A Petrobras não pensa no Brasil. Pensa nos acionistas.

JLPolítica - Quem são esses acionistas?
EL -
Muitos deles, banqueiros, donos de multinacionais de petróleo. De modo que todo o lucro da Petrobras está indo para o setor privado, então a população infelizmente não tem o que comemorar, apesar de ser dona de toda essa riqueza.

JLPolítica - Os Sindipetro fez manifestações na quinta-feira, 3. Como foi a ação de Sergipe?
EL -
Em Sergipe, nós tivemos a felicidade de receber a grande parte de sindicalistas no Estado, representantes da igreja, vários parlamentares municipais, estaduais e federais, mostrando que a classe política e a sociedade civil organizada já abraçaram a causa da Petrobras - incluindo aí os movimentos sociais e o movimento estudantil. 

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Em ato em defesa da Fafen

A ESPERANÇA PODE VIR DAS RUAS
“Quando essa discussão da importância da Petrobras vai para as comunidades, e está indo - estamos levando palestras, discussões para escolas, associações de moradores, igrejas -, mostrando qual a importância do petróleo brasileiro ser processado pela Petrobras, nasce uma nova esperança”

 

JLPolítica - De que forma as comunidades, a coletividade, para além de petroleiros e políticos, podem ajudar a evitar que se decretem o fim das ações da Petrobras em Sergipe?
EL -
Com essa pressão, que pode funcionar, e já tá funcionando. Quando essa discussão da importância da Petrobras no nosso país vai para as comunidades, e está indo - nós estamos levando palestras, discussões para escolas, associações de moradores, igrejas -, mostrando para essas comunidades qual a importância do petróleo brasileiro ser processado pela Petrobras, nasce uma nova esperança. Ou seja, a importância da Petrobras como estatal, mesmo porque ela é obrigada a respeitar a lei que obriga a Petrobras a atender às demandas da população.

JLPolítica - Quanto por cento da Petrobras não é mais estatal?
EL -
Não tenho esse cálculo preciso, mesmo porque é muito difícil calcular com precisão. Mas eu diria que em torno de 30% já está na mão do setor privado. Isso em torno de unidades, de estrutura montada. Agora, em termos de reservas, cerca de metade já está nas mãos de multinacionais, graças principalmente à quebra de monopólio e aos leilões que estão sendo realizados desde o Governo de Fernando Henrique Cardoso, passando pelos de Lula e de Dilma e agora com os de Temer e Bolsonaro, que continua realizando leilões de grandes reservas de petróleo, inclusive do pré-sal. Entregando-as às multinacionais. Ou seja, estão transformando o Brasil de grande produtor para grande exportador de petróleo cru.

JLPolítica - Como é que o Sindipetro recebe a decisão do Governo da União de desmontar a base diretiva da Petrobras de Sergipe e levá-la para o Espírito Santo?
EL -
A gente recebe com tristeza, mas não com surpresa, porque o governo já vinha anunciando isso desde a sua campanha. Só para se ter uma ideia, o atual presidente da Petrobras, o general Castelo Branco, antes de tomar posse como presidente dela já dizia em rede nacional que “meu sonho é ver a Petrobras privatizada”. Ou seja, deslocar todo o pessoal e as sedes administrativas da Petrobras em todo o Nordeste para Sul e Sudeste significa concentrar uma pequena atividade na região Sul, que depois seria entregue, desmobilizando e desmontando toda a categoria e toda a estrutura nacional da Petrobras. Essa categoria e estrutura nacional foi o que fizeram a Petrobras chegar até onde ela chegou.

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Um brinde no dia dos pais, com Narciso, Petroleiro aposentado, responsável pela primeira aula de trabalho na Petrobras

DANOS DO FECHAMENTO DA SEDE EM SERGIPE
“Os prejuízos serão irreparáveis, uma vez que a Petrobras descobriu uma reserva gigantesca de óleo e gás no nosso litoral e a presença dessa sede administrativa serviriam de infraestrutura logística e administrativa para que a gente administre toda essa massa que Sergipe precisa processar”

 

JLPolítica - Qual é o prejuízo que isso gera para as atividades da Petrobras Sergipe-Alagoas?
EL -
Os prejuízos serão irreparáveis, uma vez que a Petrobras descobriu uma reserva gigantesca de óleo e gás aqui no nosso litoral e a presença dessa sede administrativa, que não é só administrativa - parece uma pequena cidade, pois além de blocos administrativos, tem vários tipos de laboratórios, inclusive de Geologia, vários tipos de oficinas - e toda essa infraestrutura serviriam de infraestrutura logística e administrativa para que a gente administre toda essa massa de petróleo e gás que Sergipe precisa processar para continuar se desenvolvendo. Como fechar uma sede assim?

JLPolítica - O que é que o gerente-geral Paulo Marinho justifica a vocês trabalhadores para essas tomadas de decisões?
EL -
A única justificativa que ele apresenta é que as decisões não dependem dele. Segundo ele próprio, se dependesse dele, estaria investindo na produção, investindo em infraestrutura e essa sede ficaria aqui. Infelizmente, essa decisão não depende dele. É uma decisão vem de lá de cima, do Rio de Janeiro e de Brasília.

JLPolítica - Quantos empregos diretos a Petrobras gera hoje em Sergipe e quanto já gerou em seu momento de máxima produção?
EL -
Hoje são cinco mil trabalhadores entre petroleiros diretos e terceirizados, mas nós já tivemos aqui mais de 15 mil empregos dessas duas categorias.

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Com Magá e Miudinho, dirigente do Sindipetro demitido da Fafen

UM DESINVESTIMENTO QUE VEM DE LONGE
“Já foram 400 mil empregos. Hoje, são pouco mais de 100 mil. (Deve-se) ao plano de desinvestimento lançado desde 2012 pela então presidente Graça Foster, na administração de Dilma Rousseff. De lá para cá, em todo país nós já tivemos mais de 300 mil desempregados dentro do sistema Petrobras

 

JLPolítica - A que o senhor atribui essa queda?
EL -
Ao plano de desinvestimento que foi lançado desde 2012 pela então presidente da Petrobras, Graça Foster, na administração de Dilma Rousseff. De lá para cá, em todo país nós já tivemos mais de 300 mil desempregados dentro do sistema Petrobras.

JLPolítica - Qual foi o pico máximo de empregos na fase área dela?
EL -
Já foram 400 mil empregos. Hoje, são pouco mais de 100 mil.

JLPolítica - O senhor não acha estranho que um país em desenvolvimento consiga ter essa Secretaria de Desinvestimento, como tem no Governo BolsonaroEL - Não é só estranho, como é totalmente incongruente um Ministério para isso, assim como nós temos um plano de desinvestimento na companhia. Isso em um momento de quanto mais a Petrobras aumenta as suas reservas, ou seja, mais descobertas e mais desenvolve tecnologia, seria preciso o governo investir ainda mais, porque a gente não pode pensar só na geração de agora.

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Com Dona Bel, sua mãe. "Mulher Guerreira que teve o sonho realizado de ver um filho passar no vestibular e no concurso da Petrobras", orgulha-se

“TEM QUE PENSAR NA GERAÇÃO FUTURA”
“Se queremos o Brasil como um país soberano e totalmente autônomo em relação à energia, não pode falar em desinvestir. A Petrobras hoje já era para ter entrado na área de energia solar, energia eólica, porque tem recursos para investir em tecnologia e mão de obra qualificada para isso”

 

 JLPolítica - Tem que pensar em que?
EL -
Tem que pensar na geração futura. Então, se nós queremos o Brasil como um país soberano e totalmente autônomo em relação à energia, não pode falar em desinvestir. Pelo contrário: a Petrobras hoje já era para ter entrado na área de energia solar, energia eólica, porque ela tem recursos para investir em tecnologia e tem mão de obra qualificada para isso.

JLPolítica - Qual foi o pico máximo de produção de petróleo por dia e de quanto é hoje?
EL -
Nós já tivemos em torno de 50 mil barris/dia. Hoje nós temos em torno de 30 mil barris/dia. Isso reflete diretamente no emprego, nos royalties e nos impostos que circulam no Estado de Sergipe e entre os municípios.

JLPolítica - O senhor diria que isso infere diretamente no desenvolvimento de Sergipe?
EL -
Com certeza. Não é à toa que a diminuição das atividades da Petrobras e o desinvestimento na Petrobras aqui, assim como as demissões, coincidem totalmente com o aumento do desemprego no Estado de Sergipe.

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Com sua companheira, Lízia de Estância. Nasceu no mesmo dia que ele, no primeiro dia de março de 1963

DAS POTENCIALIDADES DA RESERVA DE ÓLEO E GÁS
“Significa para Sergipe a possibilidade de ele se tornar o maior PIB brasileiro, desde que toda essa produção fosse processada aqui, porque todo esse gás e óleo que temos exigem que Sergipe tenha uma refinaria e uma nova planta de processamento de gás. Exigiria duplicar a capacidade de produção de ureia pela Fafen”

 

JLPolítica - Qual é a visão que o Sindipetro tem dessa descoberta gigantesca de óleo e gás que se fala ter havido em Sergipe?
EL -
Para nós, além de ser uma grande oportunidade de o Governo Federal investir mais na Petrobras, investir mais em concurso e em preparação de mão de obra futura para trocar todo esse projeto, significa para o Estado de Sergipe a possibilidade de ele se tornar o maior PIB brasileiro. Sergipe teria o maior PIB per capta, desde que toda essa produção fosse processada aqui, porque todo esse gás e todo o óleo que temos aqui exigem que Sergipe tenha uma refinaria e uma nova planta de processamento de gás. Mais: exigiria, por exemplo, duplicar a capacidade de produção de ureia aqui pela Fafen, uma vez que a principal matéria-prima da Fafen é o gás.

JLPolítica - Essa descoberta não seria garantia de que a base operacional da Petrobras deveria ser mantida e não retirada de Sergipe?
EL -
Com certeza. O processamento de todo esse gás e todo esse óleo não apenas justifica a permanência, como a duplicação, porque a gente vai precisar de mais mão de obra e de mais infraestrutura para tocar esse projeto.

JLPolítica - O Sindipetro sabe aferir a queda de royalties para o Estado de 2010 para cá, e a vê com que gravidade?
EL -
Recentemente, uma notícia que foi veiculada na maioria dos órgãos de imprensa - não é dado nosso, é da própria Petrobras -, aponta que todos os municípios – e aqui vou falar nos maiores, como Aracaju, Japaratuba e Carmópolis, ou seja, Vale do Japaratuba e Vale do Cotinguiba -, tiveram uma perda de mais de 20% dos royalties de petróleo. O que mais sofreu foi Japaratuba, que é o município que mais recebia royaltie. 

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Praticando futevôlei no quintal da casa de seus pais, no Abaís, com a turma dos seus filhos

PARCERIA COM A CLASSE POLÍTICA
“Felizmente, a classe política de Sergipe já observou, já está atenta e hoje já faz parte da bancada federal no Congresso Nacional a defesa da Petrobras. Não só a permanência da nossa sede em Sergipe, como também todas as sedes da região Nordeste”

 

JLPolítica - O que houve com a reserva de Piranema, que foi anunciada como a redenção de Sergipe no começo deste milênio?
EL -
O desinvestimento afetou diretamente Piranema. O projeto está congelado, parado e inclusive administrado por empresa terceirizada. Não houve investimento e hoje é uma empresa privada norueguesa que administra.

JLPolítica - A classe política sergipana em si não viu tardiamente o colapso da Petrobras?
EL -
Eu não acho que seja tarde. Mais cedo, talvez a gente tivesse evitado que isso acontecesse. Nós teríamos evitado, por exemplo, que as nossas sondas tivessem parado, que várias oficinas tivessem sido fechada, que várias pessoas tivessem se mudado daqui. Com certeza, poderíamos ter evitado que a nossa Fafen tivesse paralisado as suas atividades.

JLPolítica – Ainda resta uma esperança?
EL -
Mas, felizmente, a classe política de Sergipe já observou, já está atenta e hoje já faz parte da bancada federal no Congresso Nacional a defesa da Petrobras. Não só a permanência da nossa sede aqui em Sergipe, como também todas as sedes da região Nordeste que estão sendo fechadas para deslocar o pessoal para região Sul e Sudeste.

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Com a forrozeira de Estância, da família Nascimento, que abrigou Jorge Amado em Estância

DO PAPEL CONSTITUCIONAL DA PETROBRAS
“O papel constitucional da Petrobras é o de atender a toda a população brasileira no que diz respeito à derivados de petróleo e à produção de ureia que consequentemente é a matriz para o fertilizante nitrogenado, que vai colocar o Brasil no topo da produção de alimentos baratos no mundo”
 

 

JLPolítica - Em que governo específico se inicia esse desmonte?
EL -
Começa no governo de Fernando Henrique. Esse é o marco: 1995, depois da quebra do monopólio estatal do petróleo, começou a tentativa de desmontar e privatizar a Petrobras. O governo de Fernando Henrique não conseguiu realizar isso e depois vieram os governos de Lula e Dilma, que investiram de um lado, mas venderam reservas. Inclusive essa é a grande crítica que a gente faz aos governos do PT, que continuaram vendendo reserva de petróleo que são da Petrobras, são conquistas da Petrobras e deveriam todas estar nas mãos da Petrobras. Mas muita coisa foi investida no governo do PT, a exemplo do setor de fertilizantes. Nós mantivemos as Fafens de Sergipe e Bahia, tivemos grandes reformas, a construção da Fafen do Mato Grosso do Sul, uma grande unidade que depois foi vendida no Governo Temer, que a entregou a um grupo russo.

JLPolítica - Qual é o papel constitucional da Petrobras?
EL -
O papel constitucional da Petrobras é o de atender a toda a população brasileira no que diz respeito à derivados de petróleo, todos eles, e à produção de ureia que consequentemente é a matriz para o fertilizante nitrogenado, que vai colocar o Brasil no topo da produção de alimentos baratos no mundo.

JLPolítica - Por que os produtos derivados dela - gasolina, diesel, gás de cozinha - são tão caros?
EL -
Isso é uma forma artificial que o Governo Federal encontra de atender aos interesses dos grandes acionistas privados da Petrobras, pessoas que não sabem, ao meu ver, nem a cor do petróleo e, no entanto, ganham muito dinheiro por causa dessa política de preços.

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Em frente aos correios, apoiando a greve dos Ecetistas

DA PERVERSA POLÍTICA DE PREÇO DA PETROBRAS
“A política de preço de derivados deveria ser baseada somente no valor de custo da Petrobras. Se o governo fizesse isso, como manda a Constituição, poderíamos ter o preço de um botijão de gás no máximo R$ 20, sendo que custa hoje em média R$ 80. O litro de gasolina poderia ser, no máximo, R$ 2”

 

JLPolítica - O que deveria nortear a política de preços da companhia?
EL -
Ao nosso ver, a política de preço de derivados deveria ser baseada somente no valor de custo da Petrobras. Ou seja, de tudo que ela investe e de tudo que ela paga em mão de obra e royalties e impostos. Só isso deveria ir para a conta. Se acontecesse assim, se o governo fizesse isso, como manda a Constituição, nós poderíamos ter o preço de um botijão de gás no máximo R$ 20, sendo que custa hoje em média R$ 80. O litro de gasolina poderia ser, no máximo, R$ 2. Um litro de diesel, R$ 1,80. Não temos isso porque o governo insiste em basear o preço dos derivados na variação do dólar e na variação do preço internacional do petróleo, como querem os acionistas.

JLPolítica - Mas a Petrobras teria autonomia para sair da escala de commodities, na qual está enquadrado o petróleo, e fazer uma política de preços própria?
EL -
Não só poderia, como deveria ter essa autonomia. Isso colocaria a Petrobras a serviço de toda a população brasileira, geraria mais desenvolvimento e emprego, assim como mais tecnologia, mais divisas para o país, uma vez que quando um país exporta matéria-prima crua, bruta, que é o caso do petróleo, está exportando emprego, porque quando refina lá, o emprego fica lá fora. Nós defendemos uma Petrobras do poço ao posto. Ou seja, se a Petrobras pesquisasse, produzisse e ela mesma distribuísse, nós teríamos preços totalmente acessíveis. A Petrobras ganharia muito mais, os estados e municípios ganhariam muito mais e o Governo Federal também ganhar ia muito mais. Isso só não acontece porque a política de petróleo do nosso país é uma política entreguista, não é uma política nacionalista, voltada para o nacionalismo, para garantir a soberania do nosso país.

JLPolítica - Quantas áreas de concessões de exploração de petróleo ao setor privado existem até hoje em Sergipe?
EL -
Em águas rasas, no litoral, e algumas áreas terrestres, como Siriri, Brejo Grande, Japaratuba e Riachuelo. Considero pouco, ainda, uma vez que eles estão de olho no pré-sal e no campo de Carmópolis. Só para se ter uma ideia, o campo de Carmópolis já está com 57 anos de existência e ainda não foi tirado nem metade do petróleo que existe ali.

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Com Fernando Brito, petroleiro

PETROBRAS NÃO PRECISA DE PARCERIAS PRIVADAS
“A Petrobras é uma empresa que tem tecnologia, tem mão de obra qualificada, tem reserva, dinheiro em caixa e crédito. Nenhuma empresa bateu tantos recordes de produção e de lucratividade. Essa lucratividade só não está a serviço da população porque o Governo Federal não quer”

 

JLPolítica - Essa distribuição a setores privados não fará bem à Petrobras Sergipe e Alagoas? Não a manteria ativa no mercado?
EL -
Não precisa disso. A Petrobras é uma empresa que tem tecnologia, tem mão de obra qualificada, tem reserva, dinheiro em caixa e crédito. Não é à toa que a Petrobras é a empresa de petróleo que mais cresceu nas últimas três décadas. Nenhuma outra empresa desenvolveu tanta tecnologia no mundo. Nenhuma empresa bateu tantos recordes de produção e de lucratividade. Essa lucratividade só não está a serviço da população porque o Governo Federal não quer.

JLPolítica - Qual é o custo da produção do gás na planilha da Petrobras?
EL -
É praticamente zero, porque a Petrobras é uma empresa que busca petróleo, investe em pesquisa, perfura, produz e refina petróleo. O gás vem automaticamente, de carona. Ou seja, o Brasil é um país que poderia ter transformado todo o gás que nós temos, que a Petrobras produz, em um botijão barato, combustíveis baratos e alimentos baratos para toda a população. Isso não acontece por causa da política que atende aos acionistas e segundo porque a nossa política alimentar também é uma política agrícola de agroexportação.

JLPolítica - A Petrobras teria como atender às demandas do Brasil sem importaçãoEL - Sim. A Petrobras precisa é, se o governo quisesse, duplicar ou triplicar o nosso parque de refino. É o que começaram a fazer, mas congelaram. A nossa produção de petróleo é suficiente. Nós só não temos autonomia ainda em derivados de petróleo porque o governo não quis investir no parque de refino.

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Em ato de homenagem ao aniversário de 66 anos da Petrobras

UM GOLPE CONTRA O FUTURO DA FAFEN
“Da mesma forma que o Governo Federal artificializa o preço dos derivados de petróleo, artificializou aqui em Sergipe o preço do gás. O Governo do Estado artificializou o preço da água. A Fafen, que é responsável pela construção da Adutora do São Francisco, recebe água bruta. Ela própria trata, mas paga à Deso como se fosse por uma água tratada
 

 

 JLPolítica - Por essa lógica, a Fafen jamais deveria então ter sido fechado em sua produção de fertilizantes, já que o gás em matéria-prima na produção de ureia?
EL -
Com certeza, não. Da mesma forma que o Governo Federal artificializa o preço dos derivados de petróleo, artificializou aqui em Sergipe o preço do gás. O Governo do Estado, por sua vez, artificializou o preço da água. Só para você ter uma ideia, a Fafen, que é responsável pela construção da Adutora do São Francisco, recebe água bruta. Ela própria trata nas suas instalações, mas paga à Deso como se fosse por uma água tratada. Isso é um crime contra a Petrobras. A gente deveria receber essa água bruta de graça. A Petrobras construiu o Porto de Sergipe. Ou seja, depois que a Petrobras desenvolve Sergipe, mata a sede de Aracaju e cidades satélites, aí resolve entregar toda a estrutura e todas as reservas a quem não fez nada pelo Estado de Sergipe nem pelo Brasil, que são as multinacionais, que querem vir para cá só depredar o nosso petróleo.

JLPolítica - Existe algum interesse inconfessado no fim das atividades da Fafen?
EL -
Com certeza existe. Na nossa avaliação, sim. E o Sindicato já está divulgando essas informações. O Estado de Sergipe negligenciou o funcionamento da Fafen. Ao invés de subsidiar a Fafen, ajudou a sufoca-la e agora vive tramando com grupos estrangeiros para subsidiar gás, subsidiar água tratada, subsidiar impostos e entregá-la. Essas facilidades poderiam ter sido feitas à Fafen estatizada, bastaria que à Petrobras fosse permitido entregar o seu gás para a Fafen produzir emprego, alimentos e divisas.

JLPolítica – Qual é a base classista do Sindipetro?
EL -
Temos cerca de 2.500 associados, entre aposentados, ativos e pensionistas entre petroleiros e terceirizados. Mas já tivemos mais do que o dobro disso. A nossa base deveria ser o dobro. 

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É pai de Juliana, 31 anos e Rodrigo, 25; e de Luna, 20 e Lucca, 16 - estes, com a estanciana Lízia