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Entrevista

Jozailto Lima

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Eliane Aquino: “A população me enxerga como uma pessoa verdadeira”

Publicado em  22  de dezembro de  2018, 20:00h

“Que todas as Secretarias tenham um olhar sobre o social”

“Eu sempre trabalhei nos bastidores, fugindo dos holofotes. Na verdade, eu ainda fujo dos holofotes”. Estas duas frases bem que poderiam ser epígrafes distintivas da personalidade da vice-governadora eleita de Sergipe, a atual vice-prefeita de Aracaju, a brasiliense descendente de cearenses Eliane Aquino Custódio, PT.

De fato, Eliane Aquino é isso mesmo. Embora ser assim soe estranho e paradoxal ao fato de ela, na origem, ser uma repórter fotográfica profissional, cuja parte do ofício é - e ela exerceu por alguns anos - disparar flashs sobre as coisas, dar luz aos holofotes. Estar sob luzes, ou captando luz das coisas.

Mais ainda: soa estranho ao fato de essa Eliane, há exatos 21 anos, completados no dia 5 de abril, ter sua vida encastoada, apensada, à de Marcelo Déda que foi, sem tirar nem acrescentar, uma estrela da política de Sergipe e que disputou fama sob os holofotes nacionais.

Mas como cada pessoa é uma pessoa em si, embora a teoria dos arquétipos diga que todas são uma única, Eliane Aquino, 47 anos, mãe de João Marcelo Aquino Déda Chagas, de 15 anos, e de Mateus Aquino Déda Chagas, de nove, continua sendo ela mesma e buscado uma outra forma de luz na política. Ou sob a política.

Uma luz que não afete. Que não bote a foto a perder. Que não desbote e nem agrida as vistas da lógica, da ética. Eleita duas vezes vice - uma, a vice-prefeita de Aracaju e outra, a vice-governadora do Estado num espaço de dois anos -, talvez os holofotes que essa moça morena e bonita negue sejam meio que metaforizados.

Talvez, ou certamente, em síntese, os holofotes negados sejam os que fazem da política uma encenação, um espetáculo blasé, uma esfera de locupletação e se apagam para a vida real, para a ética no fazer político e para a resolutividade no campo social.

Seja qual o tipo de holofote de que fala essa tal Eliane Aquino, o certo é que quando a pauta é ela se está diante de uma pessoa diferente. Diferente numa série de aspectos. Primeiro, no que revela alguém que acredita na política, mas não a quer submissa aos vãos caprichos dos homens dessa área e sua horrível plutocracia. Segundo, no que aponta uma pessoa que não está disposta a ocupar espaços simplesmente por ocupar.

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"Ele estaria bastante decepcionado com o momento político atual", diz, sobre Déda
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É brasiliense e descendente de cearenses, mas adotou Sergipe por pátria

DA MOBILIDADE DAS PESSOAS PELA CAMPANHA
“Nós vimos a demora de um bom tempo para que a população entrasse realmente no clima de campanha. Mas, ao mesmo tempo, boa parte da população sabe que a única forma de ter esperança é através da gestão política”

JLPolítica - O que é que sociedade deve e pode esperar do futuro governo compartilhado entre a senhora e Belivaldo Chagas?
Eliane Aquino
- Mesmo diante de um cenário em que temos uma democracia tão fragilizada, a sociedade sergipana pode esperar um governo muito coerente, ético, que pensa no desenvolvimento do nosso estado, que vai trabalhar para melhorar os índices sociais e econômicos e agir com coerência para responder aos problemas da sociedade.

JLPolítica - A sua tese do “abraçou” é muito pertinente, e está materializada na vitória de sua chapa, que foi acachapante. Isso amplia a responsabilidade e a expectativa de que de Belivaldo Chagas e da senhora de que devem corresponder?
EA
- Sem sombra de dúvidas - é disso que estou falando. A questão das fake news foi negativamente marcante nesta campanha. Ao mesmo tempo em que as pessoas apostam nessa guerra, elas dizem que não querem mais a mentira, o jogo sujo na política. Eu sempre falo que o processo eleitoral é um dos momentos mais importantes que a gente tem. É um dos momentos mais significativos, porque se sair errado sai carregando um rastro ruim, erros, para a gestão a seguir.

JLPolítica - Qual é o seu grau de afinidade política e de gestão com Belivaldo Chagas?
EA -
A gente se entende muito. Eu sempre tive uma amizade e um respeito muito grandes por Belivaldo. Nunca convivi com ele completamente de perto. Sempre foi mais através da relação de Marcelo com ele. Mas por Belivaldo eu tenho vários afetos, que são afetos verdadeiros. Ele está entre as pessoas que eu aprendi admirar muito pela relação que ele tinha. Nunca escutei Marcelo falar nada depreciativo de Belivaldo. Muito pelo contrário: ele sempre falou muito bem. E, como consequência, eu carreguei esse carinho todo por Belivaldo. Lembro de que no momento da decisão da chapa desse ano, o Estado inteiro falava que eu tinha que ser a vice dele - e confesso que estava numa dúvida gigantesca. Um dia eu estava num voo de Brasília para cá, e fui limpar as minhas fotos. Aí achei uma foto linda, minha com Belivaldo, que eu acho que foi tirada na campanha de Jackson. Quando olhei aquela foto, falei: “que imagem forte de cumplicidade!” E eu não tinha como dizer não para ele em nosso projeto eleitoral. E nos últimos meses, trabalhando lado a lado, sua postura me assegura o homem que ele é e a parceria forte que estamos construindo.

JLPolítica - Quanto a figura de Belivaldo pesou para que a senhora definisse aceitar ser candidata a vice-governadora? 
EA –
Muito. Talvez se fosse outra pessoa eu não tivesse aceitado ser candidata a vice-governadora. Eu realmente ira falar: “não, me deixa ficar aqui onde eu estou”. Mas era como se tivesse também uma dívida de gratidão para com ele. Lembrei-me do momento da doença de Marcelo, em que ele foi leal e conduziu nosso Estado com muita segurança. 

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Tem o diploma de vice-governadora eleita do governador reeleito Belivaldo Chagas, que foi vice de Déda

PROCESSO ELEITORAL RUIM GERA GOVERNO RUIM
“Eu sempre falo que o processo eleitoral é um dos momentos mais democráticos e importantes que temosa. É um dos momentos mais significativos, porque se sair errado sai carregando um rastro ruim, erros, para a gestão a seguir” 

JLPolítica - A senhora tem sido ouvida por Belivaldo Chagas para a elaboração das reformas que ele tem apresentado?
EA –
Sim. Eu participei de algumas reuniões com ele e sua equipe sobre a reforma administrativa. Lógico que como é um governo que terá continuidade, já estavam trabalhando nessa reforma administrativa há algum tempo e eu comecei a tomar a pé agora.

JLPolítica - Colocar sob o guarda-chuva do Gabinete da Vice-Governadora as áreas de direitos humanos, mulher, questões raciais e LGBT preenche as suas expectativas de colaboradora do Governo?
EA -
Não é bem uma questão das expectativas que carrego enquanto política, gestora ou vice-governadora. Eu só acho que são temas que precisam entrar na pauta. São temas que não têm mais como os governos tomarem posse e subtratá-los.

JLPolítica - Por que?
EA -
Porque nós temos uma grande maioria da população negra, um índice altíssimo de violência contra a mulher, uma quantidade de analfabetismo muito alto, uma percentagem de jovens que se descobrem homossexuais e a quem ninguém abre a porta, que vive preconceito, muitas vezes, na escola, na família. E, principalmente, numa população de baixa renda - se esses meninos e meninas não tiverem um acolhimento, a única coisa que vai sobrar para eles é só a Rua da Frente. Então, a minha esperança é a de que essa não seja uma política da Vice-Governadoria e sim da gestão. Uma política do Governo. Que por todos esses temas - mulheres, negros, LGBTs, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência -, a gente consiga fazer uma Coordenação diferenciada, que essa política a gente consiga executar e que todas as Secretarias tenham um olhar sobre ela.

JLPolítica - A senhora não aspirava ser titular de uma Secretaria?
EA -
Não necessariamente. Eu acho o seguinte: Belivaldo tem que fazer uma composição política e técnica. Nós tivemos na campanha um agrupamento muito forte e agora os partidos vão cobrar seus espaços - e isso é válido. É real. A única coisa que eu quero é ter espaço e voz para a execução da política que acreditamos e queremos construir e que seja incorporada por todos os secretários. Eu não tenho a necessidade de mostrar força especificamente dentro de uma Secretaria, até mesmo porque não é ter uma Secretaria que diz alguma coisa. A pessoa pode ter uma Secretaria e não ter apoio político nem condições de tocar as ações. O que adiantaria? Nada.

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É vice-prefeita de Edvaldo Nogueira, que foi vice-prefeito de Déda

DAS CONSIDERAÇÕES POR BELIVALDO CHAGAS
“Eu sempre tive uma amizade e um respeito muito grandes por Belivaldo. Nunca convivi com ele completamente de perto. Sempre foi mais através da relação de Marcelo com ele. Mas por Belivaldo eu tenho vários afetos, que são verdadeiros”
 

JLPolítica – Então a senhora não sonhou com a Secretaria da Assistência Social para corresponder a essa visão da realidade social que defende?
EA –
Sonhar, não sonhei. Eu sempre imaginei poder indicar um gestor (ou gestora) muito bom, muito comprometido, com garra, com brilho nos olhos, com sangue quente para olhar pela nossa população mais carente. Talvez esse, sim, seja o meu sonho. Mas não só para a Assistência. Eu quero isso para todas áreas sociais.

JLPolítica - A senhora tem notícia de pleito de alguém já formulado para essas áreas do Governo?
EA –
Não. Aí é com o governador Belivaldo. A mim não tem nenhum partido que tenha me procurado para eu fazer essa ponte.

JLPolítica - Quais eram as probabilidades eleitorais que a senhora mais acalentava para este ano de 2018?
EA -
Eu nunca pensei que concorreria, mas neste pleito cheguei a ter vontade de participar deste processo na disputa de uma vaga no Legislativo, na esfera federal. Então, se eu tivesse construído esse projeto junto ao Partido dos Trabalhadores e houvesse condições para isso, eu teria disputado um mandato federal. Eu tenho um caminho correlato que foi interrompido, que é o de Marcelo. Então, se fosse o momento certo e houvesse condições para isso, eu escolheria um espaço na disputa no Legislativo, na esfera federal.

JLPolítica - Qual o conceito que a senhora tinha de Marcelo Déda como deputado federal?
EA -
Ah, ele era fantástico. Marcelo colocou Sergipe na pauta do Brasil. Ele elevou a autoestima da população, e era respeitadíssimo. O mandato dele era algo que dava muito orgulho. Eu usava muito a seguinte frase do poetinha para ele, politicamente falando, quando eu via ações dele, os discursos dele: “ah, se todos fossem iguais a você!” Porque ele era muito forte, coerente e muito ético.  

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Uma executiva vice-prefeita, que tantas vezes esteve, interinamente, prefeita

QUE TODAS AS SECRETARIAS TENHAM UM OLHAR SOBRE O SOCIAL
“Minha esperança é a de que essa não seja uma política da Vice-Governadoria e sim da gestão. Uma política do Governo. Que por todos esses temas - mulheres, negros, LGBTs, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência -, a gente consiga fazer uma Coordenação diferenciada”

JLPolítica - Até que ponto as candidaturas de Márcio Macedo e João Daniel à Câmara Federal lhe inibiram a essa mesma disputa?
EA -
Talvez porque eles colocaram os nomes deles bem antes do meu. Na realidade, eu sabia que eu não tinha recursos para enfrentar uma campanha eleitoral. Não tinha vontade e nem disponibilidade para fazer nada que não fosse dentro da lei. E mais: que não fosse consensual com o partido. Então, quando a vontade por uma eventual disputa me surgiu, os nomes deles já estavam postos. E estavam certos.

JLPolítica - Doeu-lhe a falta de votos para Márcio Macedo chegar lá?
EA -
Ah, doeu. Doeu porque eu tinha esperança. E eu quis entrar no apoiamento até mesmo porque eu sabia o tanto que ele estava ajudando Lula.  

JLPolítica - Duas vezes seguida eleita vice lhe reconhece o real mérito político ou lhe deprecia, em algo como se a senhora fosse importante, mas não para ser a titular?
EA -
Na realidade, lá atrás eu recebi propostas para ser titular. Eu recebi pressão dentro do meu próprio partido para ser. Mas desde o começo eu falei que não tinha como sair para prefeita de Aracaju logo no primeiro momento. Não é só força política que eu teria que colocar em jogo. Há várias outras nuances envolvidas, inclusive a minha vida pessoal. Eu não tinha experiência na gestão municipal. Quando Marcelo foi prefeito, hora nenhuma eu entrei para a gestão. E acredito muito que a gente tem que dar os passos conforme a sua segurança e com o pé no chão.   

JLPolítica - O fato de ter Déda como ídolo e reverenciá-lo muito não lhe atrapalhou a desenvolver ideias e vontades próprias?
EA -
Atrapalhar, não atrapalhou. Porque se eu fosse uma oportunista, eu poderia pegar a história dele, aproveitar do respeito que a população tem por mim e ter alçado ao mais alto mandato que eu pudesse. Mas, exatamente por tudo que eu vivi com ele, eu tenho o pé muito no chão.

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Mas chamou para si a responsabilidade da assistência social da PMA, enquanto secretária da pasta

SEM NECESSIDADE DE UMA SECRETARIA PARA CHAMAR DE SUA
“Não tenho a necessidade de mostrar força especificamente dentro de uma Secretaria, até mesmo porque não é ter uma Secretaria que diz alguma coisa. A pessoa pode ter uma Secretaria e não ter vontade política nem condições de tocar as ações. O que adiantaria? Nada”

JLPolítica - De onde é que vem essa sua vontade de preservar, e não se arvorar, a memória de Déda? De onde esse respeito muito grande deriva?
EA -
Eu nunca topei fazer diferente, porque a história dele é muito forte e bonita, e não me é autorizado a fazer uso político dela, embora ele tenha sido um político. Eu quero que o uso político da história de Marcelo seja feito na prática de cada um. Que as pessoas peguem essa força de Marcelo e tragam para si, não somente para fazer uso para ganhar uma eleição. Essa sempre foi a minha resistência em relação a isso.

JLPolítica - A senhora chegou a brigar com marqueteiros nessas ocasiões de campanha para impor limites ao uso da memória de Marcelo Déda?
EA -
Sim. Até que nessa última eleição todo mundo já sabia. Carlos Cauê já tem, por conta própria, muito cuidado com isso. Ele sabe que eu não topo usar a imagem de Marcelo eleitoralmente. Não topo usar meu nome como Eliane Déda. Eu nunca usei. É claro que muita gente, principalmente do interior, usa muito o sobrenome Déda colocado ao meu. Mas eu não uso.

JLPolítica - Passa-lhe pela cabeça tentar ser um dia prefeita de Aracaju ou governadora de Sergipe? 
EA -
Um dia, quem sabe. Não faço projeções. Por incrível que pareça, e eu até me policio muito com isso, eu vivo o hoje. Uma das coisas que mais me irritam é você acabar de ganhar uma eleição e já pensar no voto para a próxima. Porque você começa a olhar a sua gestão como cédula eleitoral. E a gente tem um desafio gigantesco pela frente. Então, se eu já começar a pensar no que fazer para ganhar a próxima eleição posso deixar de trabalhar com várias temáticas e feridas que estão abertas em nossa sociedade.

JLPolítica - Numa eventual eleição de prefeita ou de governadora, teria que ser Eliane Déda ou Eliane Aquino?
EA –
Vai ser Eliane Aquino. Com o respeito e o aprendizado do que convivi com Marcelo. Com erros e acertos, eu sou Eliane Aquino.

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Mas, com Edvaldo, admite uma relação alternando tapas e beijos

SONHO DO SENADO É FINALMENTE REVELADO
"Se fosse para construir um sonho seria no Legislativo, na esfera federal. Eu tenho um caminho correlato que foi interrompido, que é o de Marcelo. Então, se fosse o momento certo e houvesse condições para isso, eu escolheria um espaço na disputa para o Senado.”

JLPolítica - Além de dois filhos, qual a maior herança que Marcelo Déda lhe deixou e que merece ser cultivada? 
EA -
Ele me deixou tanta coisa... Em vários momentos, me pergunto qual seria a atitude de Marcelo. A gente trocava muito conceito de vida. Uma das coisas que eu mais lembro é do conselho que ele me dava: “Eliane, tenha medo do poder, porque ele lhe domina e você não percebe. E quando você perceber, pode ser tarde demais. O poder é pior do que o dinheiro”.  

JLPolítica - Ele era ético no público e no privado?
EA -
Completamente. Havia um só Marcelo. Era uma coisa até exagerada. Era assim com as filhas, com os meninos, com a gente dentro de casa. Foi assim até o final.

JLPolítica - Em algum momento, Marcelo Déda se arrependeu de ter deixado a carreira de legislador pela de executivo?
EA -
Eu acho que sim. Creio que em vários momentos. É claro que ele tinha uma felicidade gigantesca com o ato de “executar” que o Executivo propicia. Mas Marcelo nunca perdeu o brilho do Legislativo. Em muitos momentos, eu sentia que ele se isolava para se proteger de várias coisas ruins que o Executivo tinha. E nisso ele foi ficando muito solitário. Muito só nas decisões.

JLPolítica - Até que ponto as ações duras do Executivo inferiram sobre a saúde dele?
EA -
Acho que em muito. E talvez seja esse o meu receio com relação a mim e a política. Porque, ao mesmo tempo em que sei que ela é uma arte da transformação, também pode ser uma arte para lhe adoecer e solapar.

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"Lembrei-me do momento da doença de Marcelo, em que ele foi leal e conduziu nosso Estado com muita segurança", reconhece, sobre Belivaldo

O MARCELO DÉDA MODELO DE DEPUTADO FEDERAL
“Ah, ele era fantástico. Marcelo colocou Sergipe na pauta do Brasil. Elevou a autoestima da população, e era respeitadíssimo. O mandato dele era algo que dava muito orgulho. Eu usava muito a frase do poetinha: “ah, se todos fossem iguais a você!” Porque ele era muito forte, coerente e muito ético”
 

JLPolítica - Marcelo Déda era tido como pouco suave, para não dizer bruto, com seus auxiliares mais próximos. A senhora identificava traços assim nele?
EA -
Marcelo era duro quando tinha que ser duro. Muitas vezes, a dureza dele era até para proteger-se. Mas ao mesmo tempo, era o tipo de pessoa que era duro sem perder a doçura. Ele adorava pessoas inteligentes. Ele motivava a equipe, fazia com que a equipe sonhasse junto com ele. E dava garra. Mas ele era aquilo: “não me venha com propostas indecorosas que eu não aceito”. E era uma coisa muito forte de ver quando ele dizia assim: “Eliane, as pessoas sabem em quem podem chegar para oferecer ou fazer alguma coisa errada”. E eu acredito nisso piamente. Estou dentro da política há quase cinco anos e nunca recebi uma proposta indecorosa.

JLPolítica - Mas Déda era assediado com esse tipo de proposta?
EA -
Não. Porque ele não permitia.

JLPolítica - A senhora acha que se Marcelo Déda estivesse vivo estaria morto de vergonha com determinadas práticas de quadros do PT no campo da corrupção?
EA -
Ele até poderia sentir vergonha de algumas pessoas do PT, mas com certeza teria ainda mais vergonha de outros segmentos e estaria bastante decepcionado com o momento político atual. Nós temos hoje uma política que está se degradando, na qual cada vez mais entra quem tem dinheiro. Temos um Congresso Nacional que, em boa parte, não pensa na população que mais precisa. Então, estamos vivendo um momento muito difícil. Estamos correndo riscos de termos uma democracia a cada dia mais fragilizada.

JLPolítica - Embora defenda a política, a senhora reconhece que a quadra política atual não é das melhores...
EA –
Sim. É isso.

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"Jackson carrega um ser humano dentro dele que é muito bonito", exalta

DO USO PROPOSITIVO DA IMAGEM DE DÉDA
“A história dele é muito bonita e forte, e não me é autorizado fazer uso político dela, embora ele seja um político. Quero que o uso político da história de Marcelo seja feito na prática de cada um. Que peguem essa força de Marcelo e tragam para si, e não somente para ganhar uma eleição”

JLPolítica - Politicamente, que importância lhe teve Jackson Barreto no pós-morte de Marcelo Déda.
EA -
Jackson Barreto é um político guerreiro, que tem um capítulo importante na história de Sergipe. Em alguns momentos, depois da morte de Marcelo, ele sempre nos teve muita atenção. Chamou-me para ser secretária na época - eu que não quis. Com o próprio Memorial Marcelo Déda, que ficou parado por um bom tempo por falta de recursos, ele sempre foi muito preocupado. É claro que nessa esfera eu quero muito mais: quero a história de Marcelo cada vez mais contada, sem sombra de dúvida. Mas tenho um carinho imenso por Jackson.

JLPolítica - Contempla-lhe o grau de cultuação do sergipano à memória de Marcelo Déda, ou a senhora acha que ele mereceria mais?
EA -
Eu sempre acho que ele merece mais. Eu espero que a história dele seja muito contada, porque o que seria de nós, da humanidade, sem ter quem contasse a história dos grandes estadistas? E o legado de Marcelo não é só meu, nem dos filhos dele. O legado de Marcelo Déda é do Estado. É de uma população que sabe com o que ele rompeu, que sabe que a vida dele era um livro aberto e que teve um dos momentos mais fortes na política. Nas posses dele prometeu que deixaria para os filhos a maior herança, que seria o nome dele limpo. Isso é de uma grandiosidade... Um político com a força que ele teve prometer isso, e sair da história cumprindo isso. É esse legado tão forte que eu quero que seja copiado. Não a força que Marcelo Déda tem na cabeça dos sergipanos para ser usada eleitoralmente.    

JLPolítica - A senhora acha que o Instituto Marcelo Déda está bem visível ou falta uma maior penetração na esfera política?
EA -
Nunca houve recurso para realmente tirar esse sonho da mente e operacionalizar o Instituto Marcelo Déda, que hoje funciona mais na esfera digital. Nós conseguimos montar o site, por exemplo. Na verdade, ele é basicamente virtual. Nós conseguimos digitalizar toda a documentação dele - as fotos, os discursos, então o acervo do site é riquíssimo. E através desse acervo, vários alunos estão fazendo trabalhos de pesquisa, de pós-graduação e mestrado com a temática de Marcelo Déda. Nosso desejo é que as futuras gerações cada vez mais conheçam quem foi o homem e o gestor Marcelo Déda.

JLPolítica - A senhora não se acha demasiada tímida na firmação de uma imagem política própria e pessoal?
EA -
Sim. Mas eu já fui muito mais tímida. Sergipe me melhorou nisso. Já fui muito mais tímida, mas essa imagem é muito complicada de mensurar enquanto poder. Não é assim que me vejo. Eu sei que muitas pessoas acham que eu não uso o poder político, mas que poder é esse?

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Lamenta a derrota de Márcio Macedo para a Câmara Federal

PASSA-LHE PELA CABEÇA SER PREFEITA OU GOVERNADORA?
“Um dia, quem sabe. Não faço projeções. Eu até me policio muito com isso, eu vivo o hoje. Uma das coisas que mais me irritam é você acabar de ganhar uma eleição e já pensar no voto para a próxima. Por isso, quero pensar agora no trabalho e na gestão"

JLPolítica - Como a senhora acha que o sergipano lhe vê?
EA -
Creio que com muito respeito. Eu sinto que as pessoas acreditam na minha verdade, e isso para mim não tem preço. Isso de ver que a população me enxerga como uma pessoa verdadeira e que carrego esse respeito todo é um milhão de vezes mais importante que o tal poder político.

JLPolítica - Isso vale mais que uma eleição?
EA -
Vale mais, sem sombra de dúvidas.

JLPolítica - Isso fica visível de que forma nas campanhas?
EA -
As campanhas são o ápice, porque é quando escuto muito: “estou votando por sua causa. Estou votando porque acredito em você. Você me representa”. Esse é o retorno da população na campanha.

JLPolítica - O que a senhora teria a dizer a alguns sergipanos que cochicham que a senhora não tem lá grande contributo à política e à vida de Sergipe?
EA –
Eu teria a dizer que nunca fiz qualquer trabalho em troca de votos ou de prestígio. Nunca fiz política para isso. Eu sempre trabalhei nos bastidores, fugindo dos holofotes - e você, como jornalista, sabe disso. Na verdade, eu ainda fujo dos holofotes. Mas a minha maior satisfação é ver ações que melhorem a vida das pessoas. É ver gente que me encontra e que me agradece por coisas que eu nem lembro mais que foram feitas. Em síntese, eu quero que a política aconteça como ela tem que acontecer. Eu quero a política como ela deve ser. Eu sonho uma política onde a população consiga realmente enxergar quem é quem. Sem mistificação.

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"Nós temos estilos diferentes. Eu ainda sou aquela petista que sonha com um mundo melhor", adverte, na comparação com Rogério Carvalho

DOS CONSELHOS DE CUIDADO COM O PODER DADOS POR DÉDA
“A gente trocava muito conceito de vida. Uma das coisas que eu mais lembro é do conselho que ele me dava: “Eliane, tenha medo do poder, porque ele lhe domina e você não percebe. E quando você perceber, pode ser tarde. O poder é pior do que o dinheiro”  

JLPolítica - Mas o Ministério Público Federal acusa a sua chapa com Belivaldo exatamente de exercer esse poder e pede a cassação. Houve isso na campanha de vocês?
EA -
Eu falo que, para mim, em momento algum da campanha recebi nenhum convite para participar de alguma ação de governo, ou em algum momento para favorecer a nossa campanha. Hora nenhuma. Poderia muito bem, nas ações de Belivaldo, que são ações de Governo, ele ter me chamado: “Eliane, vamos aproveitar para fazer campanha em tal lugar”. Mas isso nunca ocorreu.

JLPolítica - A senhora tem algum termômetro para aferir o quanto o seu nome contribuiu para as vitórias de Belivaldo Chagas e de Edvaldo Nogueira?
EA -
O termômetro são as pessoas, e eu escuto muito falar dessa força. Na realidade, eu entrei para contribuir, para ajudá-los nessa gestão. Mas não tem como quantificar.

JLPolítica - A senhora acha que se saiu bem na condição de vice-prefeita de Aracaju?
EA -
Foi uma experiência muito rica. Eu falo que foi um grande aprendizado essa experiência. Fazer a diferença realmente quando a gente desenvolve uma boa política é muito gratificante. É claro que dois anos é muito pouco. E passaram rápido. Porque um ano praticamente foi para entender, arrumar, e os frutos da gestão estão começando a aparecer agora. Então, de qualquer forma, torço muito para que dê tudo certo. 

JLPolítica - Como é que foi a sua interação política e administrativa com Edvaldo Nogueira prefeito?
EA -
Foi entre tapas e beijos. A gente se entendeu em muitos momentos, mas brigou também em muitos outros momentos. Mas eu sempre procurei falar para ele o que eu penso. 

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É mãe de João Marcelo Aquino Déda Chagas, de 15 anos, e de Mateus Aquino Déda Chagas, de nove

DÉDA SE ARREPENDEU DE TER DEIXADO A CARREIRA LEGISLATIVA?
“Eu acho que sim. É claro que ele tinha uma felicidade gigantesca com o ato de “executar” que o Executivo propicia. Mas nunca perdeu o brilho do Legislativo. Em muitos momentos, eu sentia que ele se isolava para se proteger de várias coisas ruins que o Executivo tinha”

JLPolítica - De onde vem a divergência? 
EA -
Talvez do jeito de um e de outro, porque eu sei que tenho um jeito muito fechado de ser. E quando eu me sinto incomodada, a minha tendência é me fechar mais. A gente passou por alguns momentos difíceis, mas nada que uma boa conversa não resolvesse. Em todos os momentos, eu parava, ia atrás dele, olhava nos olhos e conversava. E é uma relação de respeito. 

JLPolítica - Edvaldo é um centralista?
EA -
Acho que um pouco. 

JLPolítica - É possível medir as diferenças de estilos entre Belivaldo e Edvaldo?
EA –
Cada um tem suas qualidades e defeitos. Ninguém é igual. São estilos diferentes, mas ao mesmo tempo os dois têm experiência.

JLPolítica - Se João Marcelo ou Mateus resolvessem, adultos, cair na política, a senhora ficaria alegre ou triste?
EA -
Em primeiro lugar, quero que eles sejam felizes. Em segundo, desejo que a nova geração construa uma história diferente na política. Hoje, como está, eu não desejaria que isso ocorresse.

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Filhos de Marcelo Déda Chagas, frutos de uma relação que nasceu em 5 de abril de 1997

SE ESTIVESSE VIVO DÉDA ESTARIA MORTO DE VERGONHA DO PT?
“Ele até poderia ter vergonha de algumas pessoas do PT, mas com certeza a vergonha dele também estaria em outros segmentos. Nós temos hoje uma política que está se degradando, na qual cada vez mais entra quem tem dinheiro”

JLPolítica - Mas a senhora não criminalizaria a política a ponto de impedir que um filho entrasse nela?
EA -
De jeito nenhum. Eu só quero que entre para fazer o certo. Se qualquer um dos dois tiver esse interesse, tudo bem. E Mateus tem esse lado político muito forte - Marcelo já falava que Mateus ia ser o primeiro deputado Down da história – e é claro que se tiver ética, coerência, vontade, ótimo. Porque a política é fundamental. Onde você vê países mais desenvolvidos é porque a política é forte, é séria, justa e correta. Então, se qualquer um dos dois quiser seguir, sem sofrer por estar nela, terá o meu apoio.

JLPolítica - A senhora visualiza o PT de Sergipe apartado de Edvaldo Nogueira na sucessão de Aracaju em 2020?
EA -
Não. Eu sempre falo que nesse cenário que está se desenhando, a esquerda toda precisa se refazer. Nós precisamos nos fortalecer e reencontrar um novo caminho, que é voltar para as bases. Ao mesmo tempo que sei que o poder ao longo desses anos talvez tenha nos distanciado, e é hora de se reconstruir, de saber porque estamos aqui e qual é a nossa bandeira e o que queremos enquanto partidos.

JLPolítica - A senhora sonha com o PT retomando o Governo de Sergipe?
EA -
Eu sonho. Porque para mim foi um dos momentos mais felizes que tivemos no Estado, com o PT e Marcelo Déda à frente. Então, se a gente tiver a sabedoria de cuidar do nosso Estado novamente, com a força, a ética e a coerência, eu sonho sim

JLPolítica - A senhora viu como normal ou anormal que quadros do PT trouxessem, logo ao final do segundo turno deste ano, o debate da sucessão municipal de Aracaju em 2018?
EA -
Eu digo que nesse aspecto que nunca vivenciei diferença. Acompanhei as últimas cinco eleições no estado de Sergipe e assim que elas chegam ao fim já há pessoas pensando no próximo pleito.

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"Marcelo já falava que Mateus ia ser o primeiro deputado Down da história", relembra o prognóstico de Déda sobre o herdeiro

DA IMPORTÂNCIA E DO AMPARO DADO POR JACKSON BARRETO
“Jackson me teve muito respeito. Jackson carrega um ser humano dentro dele que é muito bonito. Em alguns momentos, depois da morte de Marcelo, fez coisas positivas. Sempre esteve presente, sempre tinha cuidado. Não conseguia me encontrar sem perguntar pelos nossos meninos”

JLPolítica - A senhora é a mesma petista que é Rogério Carvalho?
EA -
Nós temos estilos diferentes. Eu ainda sou aquela petista que sonha com um mundo melhor, que brilha os olhos. Que sonha literalmente. Rogério é mais pragmático.

JLPolítica - É ruim ser pragmático? Marcelo Déda não era pragmático?
EA -
Marcelo era os dois. Ele era o cara que defendia as causas sociais, a história; ele tinha muito orgulho da política. Mas Marcelo não vendia a alma por uma eleição. E muitas vezes as pessoas acham que ser pragmático é fazer absolutamente tudo para se ganhar uma eleição. E nem sempre é.

JLPolítica - Nesse sonho de ganhar a eleição do PT no futuro, Rogério Carvalho é um nome forte para 2022?
EA -
Rogério é um nome forte, sem sombra de dúvidas. Ele foi eleito agora e é sim um nome forte, como temos outros dentro do PT, a exemplo de Iran, de João Daniel, de Márcio. A diferença do PT é exatamente essa: não ser um partido que tem um dono que decide absolutamente tudo. Então nós queremos - eu particularmente - trazer cada vez mais gente boa, pensante, honesta, coerente para o PT. E eu não tenho vergonha nenhuma de ser petista.

JLPolítica - O que mais lhe angustia numa campanha política?
EA -
As mentiras, que são coisas muito ruins. A falta de conhecimento, muitas vezes, da população, porque ainda há boa parte das pessoas que não tem acesso à informações verídicas e vota por influência do outro, prejudicando muito o processo eleitoral. A gente reclama muito da desonestidade, da corrupção, mas somos nós que elegemos, que colocamos, por várias razões, inclusive os desonestos. E os desonestos normalmente entram pela força econômica, mesmo que por meio do voto popular. Isso me incomoda muito. A comunidade despreparada não sabe ler isso. Até mesmo pela falta de educação, pela necessidade real. Quantas vezes eu entrei numa casa, principalmente na campanha em Aracaju, onde as famílias me puxavam e me mostravam o que tinham para comer? Algumas vezes, não tinha praticamente nada. Como é que eu vou julgar aquela pessoa a quem chega um político lá, oferece dinheiro e ela, passando fome, aceita? Então, quando eu falo que é um círculo vicioso, que se eu não pensar na política social para elevar a educação, a autoestima, gerar trabalho, renda e comida, eu vou deixar sempre uma população dependente desse poder econômico.

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"Eu quero e posso dar voos próprios, mas estando no PT", adverte

DE COMO ACHA QUE OS SERGIPANOS A VEEM
“Creio que com muito respeito. Eu sinto que as pessoas acreditam na minha verdade, e isso para mim não tem preço. A população me enxerga como uma pessoa verdadeira e esse respeito todo é um milhão de vezes mais importante que o tal poder político”

JLPolítica - A senhora espera um dia ir a uma campanha na qual a vida pessoal possa ficar de fora?
EA -
Sem sombra de dúvidas. É o meu sonho, o meu desejo. Que as campanhas eleitorais não sejam feitas com mentira, agressão, fake news...

JLPolítica - A sua vida pessoal foi muito aviltada nessas duas?
EA -
Eu entro no automático. Na campanha com Edvaldo, talvez pela inexperiência em estar dentro do processo, eu tenha sofrido um pouco mais. Mas eu sei quem eu sou. Então, é claro que é ruim ter que ficar respondendo, provando ou desmentindo, mas já não me dói tanto. Nessa campanha agora já lidei com isso de forma mais tranquila.

JLPolítica - Já lhe passou pela cabeça um dia deixar o PT para fazer tentar voos próprios na política de Sergipe? 
EA -
Eu quero e posso dar voos próprios, mas estando no PT. Hoje não tem nenhum outro partido que brilhe meus olhos e que eu ache diferente. Muito pelo contrário.

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"A população me enxerga como uma pessoa verdadeira e esse respeito todo é um milhão de vezes mais importante que o tal poder político”, orgulha-se