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Entrevista

Jozailto Lima

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Frank Vieira: “A logística é um problemaço do Brasil”

Publicado em 4 de  fevereiro de  2018, 14:00h

Maratá lidera venda de sucos nacionais

Com quase 100% da sua base industrial plantada em Sergipe, o Grupo Maratá consegue, daqui do menor Estado brasileiro, estar entre as maiores empresas do ramo de alimentação do país, e com ótimas performances.

Silenciosamente, o Grupo Maratá vai se tornando um pequeno gigante, levado a sério, ao pé da letra, com olho clínico, enorme discrição e com muito trabalho pelo seu capitão, o industrial lagartense José Augusto Viera, que nesta terça-feira faz 66 anos.

Diretamente, o Grupo Maratá gera hoje 5.300 empregos, contempla o mercado nacional com mais de 150 produtos, está nos 27 Estados da Federação, faturou R$ 2,6 bilhões em 2017, crescendo 10% em relação a 2016, tem capital de giro próprio, é de capital fechado, não aceita dividir sua governança com mais ninguém e surfa sobre bons projetos de onde nascerão em breve novas fábricas de Sergipe ao Maranhão.

Tudo isso, mesmo estando na primeira geração, com cerca de 40 anos de existência, e em fase migração para a segunda, com a abertura de espaços para que os seis filhos de José Augusto Vieira e Josete Reis Vieira decidam juntamente com eles.

“Hoje, nós somos a terceira maior indústria de suco em vendas do Brasil, sendo que as duas primeiras são multinacionais”, garante o diretor-Executivo do Grupo Maratá, Frank Vieira, 42 anos, um dos filhos e um executivo discreto, longe do triunfalismo e meio avesso a entrevistas, numa perfeita convergência com o DNA paterno.

Se é “a terceira maior indústria de suco em vendas do Brasil, sendo que as duas primeiras são multinacionais”, logo é a primeira em nível nacional. E este não é o único feito grandioso do Grupo Maratá. Representando 44% do faturamento de todo o Grupo, o Café Maratá, plantado em Itaporanga D’Ajuda, arrebata outro recorde fantástico.

  “O Maratá é a indústria de café que é a maior empresa do segmento no Brasil, com 100% de capital nacional, e está entre as 11 primeiras empresas de café do mundo, sendo que, destas, só duas são empresas familiares”, informa Frank Vieira.

No faturamento do Grupo, a participação de Sergipe é de apenas 8%. Mas, e por que insistir em ser genuinamente sergipana? Frank Vieira tem uma resposta convincente: “A Maratá é uma empresa de família sergipana. Tem afeto nisso”, diz ele.

De três grandes projetos que estão em andamento na planilha do Grupo - uma nova fábrica de sucos prontos para beber, um matadouro frigorífico e uma central de silagens, armazéns para guarda e exportação de grãos - dois são em Sergipe. A silagem será no Maranhão.

Para Frank Vieira, tudo isso é realizado em virtude das boas condições de clima, de produtos e commodities, do mercado e da gente brasileira, mesmo a despeito das falhas de infraestrutura, de logística, de legislação e de gestão do Brasil. “O Brasil é um grande produtor e uma nação de gente dinâmica. O brasileiro é dinâmico e ativo por natureza”, reconhece ele.

“Mas não tenho dúvida: a logística é um problemaço. Aliás, esse é o gargalo para crescermos, pra dar vazão a todas essas riquezas que citei. O Brasil falha em infraestrutura justamente na administração pública, porque a gestão não ajuda a potencializar a riqueza que o país tem. O que tem de porto, é burocrático. A estrada, também. A tributação, idem. Tudo isso vai encarecendo e gerando dificuldades”, diz.

Nesse universo de um país bom, rico, próspero, mas confuso em sua gestão, e de um grupo que mesmo assim avança e vence, Frank Vieira identifica no pai José Augusto Vieira um sinal luminoso. Uma razão para tudo. Um, como ele mesmo diz, “fenômeno” para o empreendedorismo. “Na minha concepção, meu pai é uma pessoa para ser estudada mais profundamente. Ele é quase um fenômeno”, diz.

“A história dele não foi fácil: perdeu o pai muito novo, ainda menino, e teve a infelicidade de estar ao lado dele no acidente - isso aos 13 anos. E, para vencer na vida, teve que enfrentar a existência das famílias já tradicionais daquela época. É um homem simples que sequer usufrui do que tem. O prazer dele é trabalhar. Eu sou suspeito, mas a verdade é essa: é uma grande figura humana”, diz o filho.

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Ricardo Vieira, braço do agronegócio da família, com Frank Vieira num empreendimento no Maranhão
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Com a esposa, Fernanda Vieira

UM PAÍS DE FÁBRICAS MODERNAS
“O Brasil é um dos países de melhor mercado do mundo, principalmente em produtos de consumo. Temos fábricas modernas, que não deixam a desejar às de lugar nenhum”

JLPolítica - Qual é o conceito do senhor e do grupo da sua família para o mercado brasileiro de produtos alimentícios frente à competição globalizada?
Frank Vieira -
Estamos bem, tanto em nível interno quanto internacionalmente. O Brasil hoje é um dos países de melhor mercado do mundo, principalmente em produtos de consumo. Temos fábricas modernas, que não deixam a desejar às de lugar nenhum - embora não seja o melhor parque fabril. Quando você parte para um mercado de consumo, o Brasil vai muito bem, e por vários motivos: primeiro, por ser um produtor de commodities e, diferentemente de alguns países que produzem commodities e só as vendem, nós as industrializamos. 

JLPolítica - O senhor acha que o Brasil devia investir mais nessa área, na potencialização de suas commodities?
FV -
Sim. Houve um aumento e a tendência é de que isso continue. Existe uma sede muito grande por parte das empresas, como as do próprio Grupo Maratá. E o Brasil não aumenta sua produção em velocidade maior por causa da nossa complexidade tributária.

JLPolítica - Há uma demanda universal por mais alimentos?
FV -
Sim, e ela é gigantesca. Bate recordes a cada ano. Há um crescimento das commodities - e não estou falando de preço, porque preço é uma variante de diversos fatores, como estoque, consumo, demanda, safra, chuva, etc, mas do consumo, e ele é crescente em todo lugar. 

JLPolítica - Mas qual é a lógica da indústria de transformação brasileira? Quais são as linhas mestras dela, para suceder-se bem num mercado que recebe produtos dos cinco continentes?
FV -
São vários fatores. Para mim, o primeiro deles é que o Brasil é um grande produtor e uma nação de gente dinâmica. O brasileiro é dinâmico e ativo por natureza, porque mesmo com todos os problemas, ele é capaz de resistir e sobreviver. Então foi criada uma sistemática na qual o empresário também teve que ser dinâmico, porque aqui é tudo difícil, e ainda assim consegue se sair bem - da produção à competitividade. Em muitos itens, não somos apenas produtores. Mas os melhores. Eis um dado que contempla muito à nossa família, por estarmos envolvidos diretamente nisso e por ser o nosso maior negócio: nosso país é responsável por 50% do café do mundo. Como mais exemplos, temos minérios, milho e outros grãos, açúcar, carne. A gente produz tudo isso mais barato, porque as condições naturais e humanas do país permitem. O Brasil tem um mercado consumidor grande também. Tirando os EUA e a Europa, que têm um poder aquisitivo mais alto, vem o Brasil, que não está entre os mais baixos. Somos hoje um país que tem potencial e muita gente investe por causa disso. Por causa desse potencial futuro. Diferentemente da Europa, com uma população velha.

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Frank Vieira: um executivo de olhar atento para o mercado de alimentos no Brasil e no mundo

UMA NAÇÃO DE GENTE DINÂMICA
“O Brasil é um grande produtor e uma nação de gente dinâmica. O brasileiro é dinâmico e ativo por natureza, porque mesmo com todos os problemas, ele é capaz de resistir e sobreviver”

JLPolítica - Qual é o significado para Sergipe ter, daqui, do menor Estado do Brasil, um dos maiores grupos industriais do país?
FV -
Na verdade, dos grupos de alimentos do Norte e Nordeste, somos o segundo, e o M Dias Branco, de Fortaleza, Ceará, é o maior. Somos de capital fechado e eles, de capital aberto. Eles são um grupo muito bem organizado, trabalham bem, mas é uma empresa que já está na terceira geração, diferentemente da nossa, que está na primeira.

JLPolítica - O que difere o Grupo M Dias Branco do Maratá?
FV -
Eles são uma empresa de alimentos, como nós. Só que o M Dias Branco, como já pontuei, está na terceira geração, e a nossa está na primeira, porque José Augusto Vieira, meu pai, foi quem fundou e é o mantenedor atual, muito presente, mas compartilhando com a segunda, que somos nós os seus filhos. O M Dias Branco, sem querer comparar - já que não competimos com eles em quase nada, só num item que lançamos recentemente, que foi o macarrão instantâneo -, é uma empresa quase centenária. Nós temos 40 anos de trabalho, sendo que só depois meu pai foi que lançou-se a marca Maratá. Então são comparativos que eu não faço. A não ser como dois bons exemplos empresariais, claro. Por se tratar de duas empresas nordestinas que viraram as maiores de seus segmentos em todo o Brasil. Isso, sim, é referência de cada uma em seu segmento. Eles estão mais na parte de massas, biscoitos e moinhos. E nós na parte de café, sucos, chás e outros derivados de tempero. 

JLPolítica - Não é pretensão dos senhores entrar nessa área da massa?
FV -
A gente estuda isso. É um mercado muito bom hoje, até porque existe uma concentração grande de mercado, então resta um bom potencial, com boas margens para se trabalhar. 

JLPolítica - Os senhores pensam em transformar o Grupo Maratá, ou alguma empresa dele, em de capital aberto?
FV –
Hoje, não. Mas admito que existe muita consulta por parte dos bancos com esta intenção, porque a gente tem tamanho suficiente - claro, há empresas bem menores que têm capital aberto. Isso é uma política da cada empresa. Assim como existem empresas maiores de capital fechado. São poucas, mas existem. O Grupo Votorantim, por exemplo. 

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Com o ex-governador Marcelo Deda

CRESCIMENTO DE 2017 SOBRE 2016
“Crescemos algo em torno de 10%. O volume maior de crescimento foi de 2015 a 2016. Em 2017, o crescimento não foi maior porque as commodities caíram de preço. Mas consideramos os 10% bom”

JLPolítica - Mas qual a virtude - ou o defeito - de se ser de capital aberto? 
FV -
No capital aberto existem dois fatores importantes. Um deles, é ter uma política de crescimento veloz - então você vai no mercado e faz a captação de dinheiro. Essa captação vai ajudar a alavancar o negócio. Isso faz com que você venda no mercado financeiro uma ideia, um projeto, de cinco ou dez anos no mínimo, e com isso atraia investidores. Mas te cobram muito por isso. Outro definidor é ser uma empresa boa, mas que esteja com dificuldades financeiras para se manter naquele tamanho, ou crescer. Aí ele vai e faz todo esse processo de captação de investidores, que também vão cobrar bastante resultado. 

JLPolítica - O senhor diria, então, que seja mais confortável para o grupo da sua família manter-se de capital fechado?
FV -
É, mas mesmo no capital fechado existe também uma cultura de querer abrir por um tempo. É verdade que em direção ao Maratá tem muita consulta por grandes bancos, mas a gente não tem interesse no momento. Porque é preciso instalar uma governança corporativa e a gente praticamente teria que se afastar da gestão. Não temos interesse nisso e nem é nosso perfil. 

JLPolítica - Mas como é que os senhores se desvencilham do enorme assédio de grupos econômicos e de investidores que lhes procuram para estabelecer parcerias?
FV -
O assédio de fato é muito grande. Mensalmente recebemos presidentes de bancos e de empresas multinacionais. A nossa empresa não tem interesse, mas conversamos, porque existe até relação de amizade com essas multinacionais. Somos uma empresa jovem ainda, bem administrada, com as finanças em dia, indo da primeira para a segunda geração - os filhos - e não haveria motivos. Existem parcerias, já houve uma joinveture, mas não queremos sair do negócio.

JLPolítica - Qual foi o crescimento, em volume de negócio, de 2016 para 2017, do Grupo?
FV -
Crescemos algo em torno de 10%. O volume maior de crescimento foi de 2015 a 2016. Em 2017, o crescimento não foi maior porque as commodities caíram de preço. Mas consideramos os 10% bom. Os setores que estão em crise são aqueles que dependiam de financiamentos públicos. O da construção civil, por exemplo, que estava toda atrelado ao Minha Casa, Minha Vida, ao subsídio do Governo, aos longos prazos; os veículos também tinham financiamento abundante. E as empreiteiras que estavam fazendo muitas obras públicas. Nessa esfera se deu a maior crise. Mas a indústria de consumo, de primeira necessidade, onde se insere bem o Grupo Maratá, sofreu bem menos. São empresas que, além de não serem dependentes do sistema público, compõem as primeiras necessidades do cidadão. E isso é intocável.

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José Augusto e Frank Vieira recebem seu Noel Barbosa e filhos numa visita a uma das indústrias

ATENÇÃO AOS NOVOS PRODUTOS DA MARCA
“Existe, por exemplo, uma demanda muito grande a ser explorada pelos produtos mais novos da marca. E a empresa vem, anualmente, lançando produtos”

JLPolítica - Com faturamento anual superior a R$ 2,6 bilhões e aquisição de R$ 120 milhões de equipamentos - que vem muito de fora -, também anualmente, não seria oportuno que Grupo pensasse num braço internacional?
FV -
Na verdade, em algum aspecto nós já o temos, porque exportamos o suco concentrado e óleos de laranja. O que pensamos é que o Brasil é muito grande. Não existe empresa que, se peneirar, não ache espaço para mais atuação internamente. Portanto, Maratá não precisa ter um braço internacional ainda, porque não explorou todo o seu potencial brasileiro. E não o fez por dois motivos: apesar de estar entre as maiores empresas de alimentos do Brasil - inclusive, na parte de café está entre as 11 maiores empresas do mundo -, ainda existe potencial, porque a Maratá diversificou sua linha de produtos. Então, mesmo em regiões onde ela atua fortemente e há muitos anos, muitos produtos lançados recentemente ainda podem ser trabalhados melhormente nesses mercados. Existe, por exemplo, uma demanda muito grande a ser explorada pelos produtos mais novos da marca. E a empresa vem, anualmente, lançando produtos. A gente está crescendo com o que tem de consolidado e nos mercados novos. A gente chama isso de crescimento orgânico. Em síntese, há demandas brasileiras a ser supridas.

JLPolítica - O volume de negócios internos em Sergipe representa quanto por cento para o Grupo?
FV -
Hoje, algo em torno de 8%.

JLPolítica - Por que os senhores insistem tanto em abrir negócios a partir de Sergipe?
FV -
A Maratá é uma empresa sergipana e de família sergipana. Tem afeto nisso. E veja um dado: se a gente olhar para o principal negócio nosso, que ainda é o café, Sergipe não produz e não faria nenhum sentido estar aqui a indústria de café que é a maior empresa do segmento no Brasil, com 100% de capital nacional, e está entre as 11 primeiras empresas de café do mundo, sendo que, destas, só duas são empresas familiares. Desde 1994, lá na gestão de Fernando Henrique Cardoso, que ouvimos falar que algumas reformas vão sair do papel, mas nada acontece. Outro dado: ao mesmo tempo, você olha para as empresas mundiais e vê que tantas estão sediadas em suas cidades de origem – a Budweiser e a Heinz, por exemplo. A Jack Daniels, também. A Pimenta Tabasco. Então, por que sairíamos nós de nossa origem? Só por uma questão tributária, que é importantíssima? Mas temos esperança nessas prometidas reformas. Portanto, a permanência em Sergipe, na verdade, é uma política da empresa. Apesar de já termos, hoje, negócios fora do Estado. Abrimos uma indústria de Café Maratá em Vitória da Conquista, na Bahia, ano passado.

JLPolítica - De quantos produtos o mix do Grupo Maratá é composto hoje?
FV –
São cerca de 150 produtos. E crescendo sempre. Destes, o líder é o café.

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O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, visitou o grupo Maratá

MARATÁ É SERGIPANA E TEM AFETO NISSO
“Maratá é uma empresa sergipana e de família sergipana. Tem afeto nisso. Portanto, a permanência em Sergipe é uma política da empresa. Apesar de já termos, hoje, negócios fora do Estado”

JLPolítica - Percentualmente, qual é a significação do Café Maratá no faturamento da empresa?
FV -
É de 44%. Já foi mais, mas porque além de ele crescer, há outros produtos novos que impactam. Mas ele continua líder.

JLPolítica - Pelo que se sabe, o Grupo Maratá tem três bons projetos industriais em andamento. Por parte: em que pé se encontra Frigorífico Maratá, a ser feito em Sergipe, entre Itabaiana e Itaporanga? Qual o investimento e quando será inaugurado?
FV -
O frigorífico já tem um projeto há três anos, mas está em stand-by por um único motivo: depende da Rodovia Itabaiana-Itaporanga. Nosso projeto fica nessa rodovia e depende dela. Sem ela, não vamos dar início ao projeto, porque temos um confinamento bovino à beira e a rodovia fará parte da logística.

JLPolítica - Qual é o tamanho, o formato, o investimento e onde será instalada a nova fábrica de sucos prontos Maratá?  
FV –
Em 2017, já realizamos uma ampliação na atual fábrica de sucos prontos, que recebeu investimentos de cerca de R$ 50 milhões. Foram investimentos necessários ao crescimento dela, e investimentos que a gente chama de imprescindíveis. Mas há o projeto de uma nova fábrica, sim, de uma nova indústria e com novos produtos na linha de sucos - com diversificação das embalagens. Hoje somos a terceira maior indústria de suco em vendas do Brasil, sendo que as duas primeiras são multinacionais. Logo, somos a primeira brasileira.

JLPolítica – Então, além da ampliação, vem uma nova fábrica. Para quando?
FV -
Está prevista para esse ano de 2018. Mas posso dizer que estamos em negociação para a compra de uma fábrica. Esse é o ponto. Se comprarmos, não construiremos.

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No Maranhão, com Ricardo Vieira e um grupo de amigos

FRIGORÍFICO DEPENDE DA RODOVIA
“O frigorífico já tem um projeto há três anos, mas está em stand-by por um único motivo: depende da Rodovia Itabaiana-Itaporanga. Nosso projeto fica nessa rodovia e depende dela”

JLPolítica - Mas fora de Sergipe?
FV -
A gente olhou fábricas fora de Sergipe, porque em Sergipe não tem fábrica de sucos prontos para beber. Mas a ideia é a de construir a fábrica aqui.

JLPolítica - Quais são o formato e o investimento do Projeto Silos Agroindustriais do Maranhão, que o Grupo Maratá executa e já até fez um experimento com o plantio de milho?
FV -
Isso já está pronto e recebeu investimento gigantesco - algo acima de R$ 50 milhões, o que, para o segmento, é bastante significativo. Lá éramos uma empresa só de pecuária e agora estamos passando a investir também nos silos e na agricultura de alta precisão. Iniciamos com milho, mas estamos preparando a fazenda para produzir soja e algodão também. Não só plantio. A gente fez um investimento em armazéns de beneficiamento e classificação para 110 mil toneladas de armazenagem. Para você ter ideia, o Porto de Sergipe não tem isso. É tudo automatizado, moderno, com termometria, aeração, capacidade de 360 toneladas por hora de carregamento e descarregamento, com secador, pré-limpeza e uma etapa de fabricação, que é para fazer germe para ração animal para usar nas próprias fazendas e também para comercialização. A gente está plantando 5 mil hectares de milho e preparando para 12 mil no próximo ano. Essa fazenda tem 30 mil hectares.

JLPolítica - Quantos CNPJs tem o Grupo hoje e quantos empregos diretos os senhores geram?
FV -
Hoje são 5.300 empregos diretos e distribuídos em nove CNPJs.

JLPolítica - Há uma imaginação popular, pela presença dela, de que a Pimenta Gota é um dos principais produtos do Grupo. Procede?
FV -
Em faturamento, está longe de ser. Perde, além de para o café, para diversos outros produtos. Mas a pimenta Maratá é, na verdade, um case de sucesso. Uma referência. Não existia uma pimenta como a Gota, e isso chama muito a atenção.  Além disso, a gente sabe por várias fontes que criamos com ela um nicho de mercado. Existia o consumo de pimenta caseira, aquela produzida nas residências, e não industrializada. E veio a Gota com qualidade e excelente custo-benefício. Isso a ponto de suprir a demanda artesanal. Por isso é um case de sucesso.

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O pai José Augusto Vieira: respeito e admiração fortes

PROJETO SILOS AGROINDUSTRIAIS DO MARANHÃO
“A gente fez um investimento em armazéns de beneficiamento e classificação para 110 mil toneladas de armazenagem. Para você ter ideia, o Porto de Sergipe não tem isso”

JLPolítica - Entre os 27 Estados, há algum em que os senhores não estejam presentes?
FV -
Não. Atuamos nacionalmente. Diria apenas que há Estados em que somos mais fortes e outros em que somos mais fracos - mas estamos lá, de forma às vezes parcial e com alguns itens.

JLPolítica – Qual é o conceito do Grupo Maratá perante os órgãos de classe e trabalhistas?
FV -
É muito bom. A gente respeita, procura trabalhar com tudo em dia. Quando fala em burocracia, não estou falando de forma a reclamar pontualmente de um ou outro, mas sim de uma forma geral. Do sistema, que maltrata a todos. A burocracia está presente em todos os entes. É geral. Insisto: é uma política nacional que precisa ser alterada.

JLPolítica - Além da natural capacidade empreendedora, qual é a força motriz que define e caracteriza o industrial José Augusto Vieira enquanto empresário?
FV -
Muitas coisas e muitas virtudes caracterizam meu pai. Na minha concepção, meu pai é uma pessoa para ser estudada mais profundamente. Ele é quase um fenômeno. A história dele não foi fácil: perdeu o pai muito novo, ainda menino, e teve a infelicidade de estar ao lado dele no acidente - isso aos 13 anos. E, para vencer na vida, teve que enfrentar a existência das famílias já tradicionais daquela época. Jovem, foi para o Pará e o Maranhão prospectar coisas. Isso com menos de 20 anos, e sendo do menor Estado da Federação. Essa busca é uma coisa natural dele. É um homem simples que sequer usufrui do que tem. O prazer dele é trabalhar. Ele se sente bem trabalhando e não perambulando. Ele faz o que gosta. É ativo e até os 58 anos não havia entrado num avião para conhecer o mundo e, consequentemente, as realidades, e mesmo assim as conhece. Eu sou suspeito, mas a verdade é essa: é uma grande figura humana.

JLPolítica - Quando ele bate o olho num negócio, pressente logo se vale ou demora a dar um veredito?
FV -
Pressente de imediato. Tem feeling. Não vou dizer que não erra, porque todo mundo erra. Mas os erros dele são muitíssimos distantes dos acertos.

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Café Maratá: uma das maiores indústrias do ramo no mundo e responsável por 44% do faturamento do grupo

PRESENTES ENTRE OS 27 ESTADOS
“Atuamos nacionalmente. Diria apenas que há Estados em que somos mais fortes e outros em que somos mais fracos - mas estamos lá, de forma às vezes parcial e com alguns itens”

JLPolítica - Ele consegue passar isso para os filhos ou guarda para si?
FV -
Ele tenta passar, sim. Desde criança e para todos os seus seis filhos.

JLPolítica - O senhor, por exemplo, começou a trabalhar com que idade?
FV -
Ah, comecei muito cedo. Ainda menor de idade. Eu e a maioria dos filhos. Não na mesma idade que o meu pai, claro, e nem todos na mesma hora, porque não foi uma imposição. No entanto, todos os seis começamos ainda menores. Ele não forçava. Mas provocava, a ponto de querer que a gente fosse igual a ele. Havia um ensinamento natural da parte dele. E aqui vou lhe contar um caso curioso e simbólico: meu pai chegou a fazer com que nós lêssemos a Revista Veja e criou uma saudável competição entre meu irmão Ricardo e eu, nos questionando sobre o que tínhamos lido. Ele estimulou a gente a ler e a ser informado, apesar do pouco estudo dele mesmo.

JLPolítica - Para além da condição de pai, o que é que José Augusto Vieira representa para o senhor enquanto matriz empresarial e industrial?
FV -
Meu pai é meu mentor. Ele é um bom pai, uma pessoa que tem bons exemplos, porque meus pais são a cara-metade um do outro. São equilibrados e não tem como a gente achar que está faltando alguma coisa. Meu pai é correto, bom marido e bom patrão. Realmente, é um mentor.

JLPolítica - Isso ajuda a sanidade e a integridade do Grupo?
FV -
Sim, ajuda. Ele ajuda não somente à família, mas aos funcionários. Temos um trabalho social muito bonito com a Fundação José Augusto Vieira desde 1993, que minha mãe realiza, isso sem buscar lucro. Pelo contrário, é feito de forma discreta. Criamos, no passado, escola para os filhos dos funcionários. Ele tem um apego muito grande a esse lado, e os funcionários percebem.

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Gado Nelore de puro origem: uma das atividades em que o Grupo Maratá faz nome e renome

PRESENTES ENTRE OS 27 ESTADOS
“Atuamos nacionalmente. Diria apenas que há Estados em que somos mais fortes e outros em que somos mais fracos - mas estamos lá, de forma às vezes parcial e com alguns itens”

JLPolítica - Enquanto líder empresarial e pai de seis filhos, ele dá vez e atribuição a todos em pé de igualdade ou é um centralista de difícil relacionamento?
FV -
Tem os dois lados. Às vezes, dá muitíssima atribuição. Mas a gente só poderia saber se é muito ou pouco comparando a outros contextos familiares e não posso comparar porque não vivi outra família.

JLPolítica - A distribuição de poder e de decisão entre os seis Vieira descendentes de Zé Augusto e de Josete Reis Vieira está feita de maneira equilibrada e sem conflito?
FV –
Está. Não tem conflitos nem divergências. Meu pai criou um modelo assim: a partir do momento que a empresa foi crescendo, ele, inteligentemente, começou a dividir as tarefas. E isso vem se mantendo. A família se dá muito bem e todos trabalham no grupo. Tem uma irmã que estuda fora, sempre está se aperfeiçoando. Mas os outros cinco estão aqui, trabalhando.

JLPolítica – Qual é o papel de dona Josete Reis Vieira nesse contexto social?
FV –
É gigantesco. Não vou dizer 100%, porque há envolvimento de todos. Mas ela é a grande mentora. E meu pai a apoia 100% e gosta dessa integração com os funcionários. Fazemos tudo com recursos do grupo, nunca recebemos nenhuma doação - nem estadual nem federal nem de empresas outras. Tudo é mantido por nossas empresas e não existem benefícios fiscais para mantermos a instituição. Nossas empresas que depositam na conta os recursos para o projeto.

JLPolítica - Para o senhor, o que é o Brasil enquanto ambiente de negócio?
FV -
Meu pai usa uma colocação há muito tempo, a repete sempre e muito me agrada: ele diz que somos um país tão rico e que, com todos os problemas, ainda somos a quinta economia do mundo (ou fomos, até outro dia), com mais de 200 milhões de habitantes e uma enorme diversidade de terra, água, sol, riquezas minerais, clima tropical etc. Somos, portanto, um excelente mercado. Mas, infelizmente, mal administrado. 

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Café do Brasil: Frank louva o fato de o país ser responsável por 50% do café do mundo

ZÉ AGUSTO, GRANDE FIGURA HUMANA
“Muitas virtudes caracterizam meu pai. Na minha concepção, meu pai é uma pessoa para ser estudada mais profundamente. Ele é quase um fenômeno”

JLPolítica - Teríamos condições de chegar à terceira ou quarta economia mundial?
FV -
Não vou dizer tanto, porque existe uma cultura universal a ser vencida, mas a gente tem que estar entre as principais economias do mundo. O Brasil chegou a ser à quinta, hoje caiu um pouco, mas ainda é, por riqueza - tem minério, tem água, carne, grãos -, grande em tudo. O Brasil é muito bom. Precisa é ter a sua casa arrumada. 

JLPolítica - A logística brasileira, sobretudo a de portos e estradas, favorece o empresariado nacional brasileiro? 
FV -
Não, e em vários aspectos. Aliás, esse é o gargalo para crescermos, pra dar vazão a todas essas riquezas que citei. O Brasil falha em infraestrutura justamente na administração pública, porque a gestão não ajuda a potencializar a riqueza que o país tem. Não ajuda em nada. O que tem de porto, é burocrático. A estrada, também. A tributação, idem. Tudo isso vai encarecendo e gerando dificuldades. Então, não tenho dúvida: a logística é um problemaço. 

JLPolítica - Qual a vantagem de ter uma legislação tributária única num país continental como o Brasil? 
FV -
Várias. O que temos hoje é uma guerra fiscal entre os Estados que gera uma competição desleal. As indústrias ficam, em alguns momentos, sem competitividade, enquanto outras ganham. Mas Sergipe é o menor Estado da federação e estamos sediados aqui, num Estado bom, bacana, que a gente adora, mas aí vem uma multinacional e se instala na Bahia, que tem 15 milhões de habitantes - contra os 2,2 milhões de Sergipe. Essa empresa da Bahia tem incentivo fiscal e a de Sergipe também. Mas quando sai de Sergipe para a Bahia, a Bahia cobra uma substituição tributária, aí vem a da Bahia para cá e cobra outra, e nem sempre é o mesmo valor. Às vezes uma cobra mais e outra menos. Mas imagine uma indústria em estados ricos, com isenção fiscal, já está em vantagem sobre o estado pequeno. Porque quando você sai de um estado pequeno para um grande, você é tributado novamente. Isso é uma questão muito grave e séria. 

JLPolítica - Que tipo de reformas básicas o país necessitaria fazer para que o Custo Brasil e o ambiente de negócio ficassem melhores para todos? 
FV -
A gente tem que fazer uma desburocratização geral do Brasil. Temos um custo muito alto por conta da burocracia. Veja este exemplo: recentemente, compramos um sistema alemão, um programa para rodar a folha de pagamento, que é uma versão mais moderna, e a empresa responsável disse que atuava em 200 países e nos garantiu: só existem três países que têm uma tributação estadual, municipal e federal, que são o Brasil, o México e a Rússia, sendo que México e Rússia são menos burocráticos e não têm o aspecto ruim da questão trabalhista, que também emperra o Brasil. Hoje, nós temos sistemas para rodar a folha que são complexos por causa da burocracia em si e também por causa dos impostos. Um produto brasileiro tem diversos tipos de impostos. E quando sai do imposto e entra na burocracia, há um problema igualmente sério: um órgão que sobrepõe o outro. Uma licença sobrepõe a outra. Se uma licença sai e a outra não sai, você não resolve o seu problema, e o negócio não anda.

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Armazéns de silagem do Maranhão: um novo nicho de negócios do grupo

DESDE QUANDO TRABALHA
“Ah, comecei muito cedo. Ainda menor de idade. Eu e a maioria dos filhos. Não na mesma idade que meu pai, e nem todos na mesma hora, porque não foi uma imposição. Todos começamos ainda menores”

JLPolítica - No Brasil, seria mais fácil fechar uma empresa do que abrir?
FV -
Olhe, posso dizer que as duas coisas são complicadas no Brasil. Sei que fechar é complicado, mas a gente costuma abrir e não fechar. A manutenção também o é, porque, numa indústria, por exemplo, você tem que ter diversos tipos de licenças - estaduais e federais -, sendo que muitas delas têm a mesma finalidade. Tem uma Anvisa estadual e uma federal; um órgão ambiental estadual e um federal, e por aí vai. Muitas vezes, tem também o município, que cobra uma licença. Quando falo em uma desburocratização geral do país, é disso que estou tratando.

JLPolítica - Há uma tendência de se criminalizar o empresariado no Brasil, achando que só ele ganharia com reformas fiscais ou tributárias. Mas quem mais ganha com impostos mais suaves?
FV -
 De jeito nenhum isso contemplaria apenas o empresariado. É preciso perceber que nosso problema, em minha concepção, está na administração pública, porque o trabalhador não tem acesso a uma boa educação, saúde e segurança, e isso não é culpa do empresário. Pelo contrário: ele paga a maior carga tributária no Brasil e não há retorno nem para o empresário nem para a sociedade. O empresário não conta com boa estrutura, tem carga tributária complexa, tem burocracia complexa, logística ruim, e acaba sofrendo os dois - empresário e sociedade, a classe trabalhadora. Lá nos Estados Unidos, o americano vangloria o empresário que se deu bem na vida. Ele dá valor àquele que dá vida ao sonho americano. Ele vira uma referência. Aqui, há uma demagogia com o empresário. Não se leva em que sem ele não há emprego, não há imposto, não há fomento à economia, não há o agronegócio, não há indústria, o comércio Não há nada. Agora, é claro que estou falando de empresas corretas, sérias, porque existem as que não são, e essas não são referência em local nenhum. Nem aqui e nem lá fora. São maus exemplos.

JLPolítica - Por que é que a sua família não gosta e nem se envolve diretamente com política e Governos?
FV -
Porque não somos políticos. Se uma indústria que tem a importância da Maratá aqui em Sergipe e para o Nordeste tiver envolvimento político deixa de trabalhar. A importância da gente já é a geração de emprego, de renda. Ao entrar na política, mistura as coisas. E nosso foco é o trabalho na marca. Além do bom relacionamento, no sentido institucional, e com qualquer governante.

JLPolítica - De onde é que nasce a sua relação de amizade e cordialidade com o João Alves Queiroz Filho, o Júnior Hypermarcas?
FV –
 Ele é meu amigo há mais de 20 anos, desde quando ainda era dono da Arisco, e nos conhecemos através de um compadre de São Paulo.

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Fábrica De Farinha Láctea Maratá, em Lagarto

BRASIL, O PAÍS DA BUROCRATIZAÇÃO GERAL
“A gente tem que fazer uma desburocratização geral do Brasil. Temos um custo muito alto por conta disso. Uma licença sobrepõe a outra. Se uma licença sai e a outra não sai, seu negócio não anda”

JLPolítica - O que o senhor tem aprendido com ele e retribuído em ensinamentos?
FV -
É um cara que tem a mesma história do meu pai. Ele veio de baixo. É novo. Não bebe, não fuma, é dedicado ao trabalho e é arrojado. Saiu do ramo de alimentos e a gente mantém a amizade longa.

JLPolítica - Dorme-se bem tendo mais de cinco mil pessoas sob sua responsabilidade para pagar salários, recolher FGTS, Previdência? É preciso ter uma organização boa para isso?
FV –
Não se dorme bem não - nem eu, nem meu pai e nem meus irmãos. Não que haja problemas insolúveis, mas pelo peso da responsabilidade. A tensão é constante e a vida acaba sendo agitada.

JLPolítica – Mas vale a pena?
FV –
Ah, vale. Quando você faz o que gosta, vale sempre a pena. 

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Sucos: aqui Maratá avança e se impõe em pé de igualdade com as multinacionais