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Entrevista

Jozailto Lima

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Henrique Menezes: “Minha dedicação durante a vida toda foi pensando em Sergipe”

Publicado em 28  de Julho de  2018, 20:00h

“Sou feliz. Estou com 80 anos, mas corro atrás como corria aos 50”

Há 90 anos, as marcas e produtos ligados a ele literalmente rodam por Sergipe - são carros de umas nove diferentes montadoras, pneus, álcool, açúcar. Essas marcas e produtos que ele viabilizou ao longo de 90 anos geram hoje 3,3 mil empregos diretos e contribuem com o maior índice de ICMS de um grupo genuinamente sergipano. Ele é Henrique Brandão Menezes.

Não é o fundador, mas foi o impulsionador número um do Grupo Samam e hoje, juntamente aos quatro filhos e uma série de colaboradores de primeira linha, é o seu mantenedor principal. Vivíssimo, apesar de as 13 empresas que compõem seu mix estarem sob o guarda-chuva de gestões dos quatro filhos. Mas como assim há 90 anos, se Henrique Brandão Menezes ainda vai fazer 80 nesta terça-feira, 31 de julho?

Bem, por trás desses 90 anos do Grupo Samam está o pai dele, Seu Manoel Aguiar Menezes, homem de braço forte, fundador da Casa das Louças em 1928, e que viu nesse filho um perspicaz empreendedor capaz de levar avante uma tradição que começara com o pai dele, Manoel Aguiar Botto de Menezes, lá em Japaratuba, num armazém de secos e molhados e na distribuição de água mineral do começo do século passado.

O que não faltou em Henrique Brandão Menezes em 65 anos de vida dedicada ao trabalho - grande parte disso ao lado do pai, que faleceu no dia 10 de junho de 2000 - foi olho amplo para mirar os horizontes e expandir tudo ao ponto de ser o que é hoje: uma referência clássica na economia sergipana e nordestina.

Muito do que são hoje ele próprio e o Grupo Samam, Henrique Brandão Menezes debita, com deferência, na conta afetiva do pai. Foi ele quem lhe deu régua e compasso, e o estimulou que avançasse. “Papai não foi só meu pai. Ele foi meu grande companheiro. Ele foi meu amigo. Tínhamos uma intimidade muito grande no trabalho e na vida”, define Seu Henrique.

“Eu estava no Rio de Janeiro estudando no melhor colégio do lugar, que ele pagava para mim. No quarto ano, ele perguntou o que eu ia fazer da vida. Eu disse que queria fazer Engenharia. Ele disse que estava sozinho na labuta, que não estava bem, que ia vender tudo e ia embora, morar com a gente no Rio. Foi passando o tempo, ele sempre escrevendo para mim, até que um dia eu falei com meu tio, Godofredo Diniz, que ia embora. Que ia voltar para Aracaju, para que meu pai não terminasse o negócio dele. E assim o fiz. Não me arrependo. Não tivesse procedido assim, talvez não tivesse hoje o Grupo Samam e os seus mais de 3,3 mil empregos, que muito me alegram”, diz ele.

Henrique Brandão Menezes garante que esta cumplicidade pai-filho que ele e seu velho Manelito Aguiar desenvolveram, ele tentou - e teria conseguido - replicar sobre os quatro filhos que tivera com Carmen Vieira Menezes, a Dona Carmita. “Eles sabem de tudo isso, de como foi a minha formação e dou total confiança a eles. Hoje são eles que dirigem tudo no Grupo Samam”, diz Seu Henrique.

Apesar de serem eles, como diz esse executivo, “que dirigem tudo no Grupo Samam”, nenhuma análise honesta do empreendedorismo e da economia sergipana deixa pode deixar de reconhecer os mérito e capacidade pessoais de Henrique Brandão Menezes para os negócios, para o relacionamento do tipo abarca-gente. Ele é um galanteador de mão cheio, no sentido de cativar pessoas e fazê-las parceiras de seus empreendimentos.  

Henrique Brandão Menezes criou os filhos com um apego profundo ao trabalho. “Continuo passando para eles a minha história, para eles verem que é tudo pelo trabalho. Eu não tenho outro assunto. Só falo em trabalho. Nas reuniões em minha casa não se fala em vida dos outros, e sim em trabalho. Eu eduquei eles assim. Creio que fiz certo”, diz.

Provocado por uma pergunta, Henrique Brandão Menezes chega a desenhar como desejaria ver as empresas do Grupo Samam 80 anos à frente - especificamente em 2100. “A vida é bola pra frente sempre. Eu gostaria que o plano de hoje continuasse em evolução. Diversos ovos, diversos cestos: empurra daqui e dali e não deixa a peteca cair. E nunca num negócio só. Não se meta num negócio só, único, que não dá certo”, diz ele, naquele seu jeito alargado. 

Aliás, o cidadão e o empreendedor Henrique Menezes é senhor de um entusiasmo incurável, onde não resta espaço, mínimo que seja, para qualquer tipo de pessimismo. “Eu sempre fui otimista. Isso desde moço. O otimismo sempre andou comigo. Eu achava tudo possível, maravilhoso, alcançável”, diz. Para ele, “é mais do que fundamental” se pensar assim. A idade não lhe mudou nisso? “Em nada. Sou sempre o mesmo e um pouco mais de mim”, responde. Ele perde um pouco a serenidade - e numa causa justíssima, quando se refere à corrução do Brasil. “A metade do dinheiro do Brasil é jogada pelo esgoto, com roubo, safadeza, picaretagem”, protesta. 

EMPREENDENDO POR AMOR A SERGIPE
“Minha consciência e a minha dedicação durante a vida toda foram pensando em Sergipe. Abri empresas em SP, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, fiz negócios e ganhei dinheiro em todos esses lugares. Mas voltei para o meu Sergipe”

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É filho de Manoel Aguiar Menezes
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Vai fazer 80 anos nesta terça-feira, 31 de julho

IMAGEM DE UM GERADOR DE EMPREGOS
“Acredito que minha imagem para o povo de Sergipe é a de uma pessoa e uma empresa que trabalham e geram empregos para outras pessoas. Uma imagem de dedicação absoluta à empresa, ao Estado e às pessoas com as quais nos relacionamos há 90 anos”

JLPolítica - Que tipo de exemplo empresarial o senhor acha que passa para Sergipe e os sergipanos?
Henrique Menezes -
Muito interessante a sua pergunta. Minha consciência e a minha dedicação durante a vida toda foram pensando no Estado. Pensando em Sergipe. Abri empresas em São Paulo, em Alagoas, em Pernambuco, na Paraíba, fiz negócios e ganhei dinheiro em todos esses lugares. Mas voltei. Voltei para a minha terra, para o meu Sergipe. Por que? Porque é por aqui que eu quero tanto bem. Essa é uma demonstração cabal do que eu penso sobre Sergipe. Por isso eu acredito que a minha imagem para o povo de Sergipe é a de uma pessoa e de uma empresa que trabalham e que geram empregos para outras pessoas. É uma imagem de dedicação absoluta à empresa, ao Estado e às pessoas com as quais nos relacionamos há 90 anos enquanto grupo empresarial iniciado por meu pai, continuado por mim e pelos meus filhos. Penso que se você se dedica a uma empresa, se dedica, também, ao Estado na qual ela está inserida. Portanto, é uma imagem boa. 

JLPolítica – Como é que foi a sua relação com o poder e os poderosos, com os governos de Sergipe, nestes 65 anos de trabalho e empreendedorismo?
HM -
Sempre foi uma relação muito respeitosa. Sempre me comuniquei bem com todos eles, a começar pelo ex-governador, o dr José Rollemberg Leite, que foi um homem notável, a quem fui pedir ajuda e ele me deu na hora. Foi a única ajuda pública que pedi mesmo na minha vida. No final dos anos 70, pedi a ele uma apresentação para o governador de Minas, Aureliano Chaves, e para obteremos a concessão da Fiat Automóveis para Sergipe. 

JLPolítica - Essa história é interessante. Como é que foi de fato ela?
HM -
Eu queria trazer a Fiat Automóveis para o Estado Sergipe. A fábrica dela estava sendo construída no município mineiro de Betim. O governador era o Aureliano e o presidente do Brasil, o Ernesto Geisel. Foi José Rollemberg Leite quem fez o acerto com Aureliano Chaves e o presidente da Fiat.

JLPolítica – O senhor conhecia alguém no Governo de Minas Gerais?
HM -
Eu não tinha relacionamento nenhum nesse meio. O pessoal da Bahia estava em cima, pedindo uma representação baiana da Fiat para Sergipe. Conversei com papai em casa e ele me aconselhou a falar com Zé Leite. Aí eu pedi uma audiência com ele, que me atendeu logo, em 24 horas.

JLPolítica – Como era a figura de Zé Rollemberg Leite?
HM –
Ah, era um grande homem, mas não deixava ninguém à vontade. Era muito austero, tinha o sistema dele. Era muito retraído e não ajudava em nada na hora da conversa. Eu falei do que se tratava. Ele não estava sabendo de nada disso. Expliquei que a fábrica dos italianos estava vindo e que, em Minas, 50% da empresa eram da Fiat e os outros 50%, do Governo do Estado mineiro, que tinha dado prédio, terreno, dinheiro, tudo que podia. E falei que estava na hora de ele pedir por Sergipe.

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Com o governador Belivaldo Chagas: convivência harmoniosa com a classe política

RELAÇÃO COM O PODER PÚBLICO
“Sempre foi muito respeitosa. Sempre me comuniquei bem com todos, a começar pelo ex-governador José Rollemberg Leite, que foi um homem notável. No final dos anos 70, pedi a ele uma apresentação para o governador de Minas, Aureliano Chaves, para obteremos a concessão da Fiat Automóveis para Sergipe” 

JLPolítica - Qual a reação dele?
HM –
De pronto, me disse: “Não podemos perder isso”. E falou que era amigo do governador de Minas Gerais e que faria uma carta nos recomendando - me arrependo tanto de não ter tirado uma cópia desta carta. Mas me lembro como se fosse hoje. Ele pegou um cartão e escreveu: “Meu caro colega Aureliano Chaves, estou recebendo de um amigo meu, filho de outro grande amigo, a solicitação para a concessão da Fiat em Sergipe. E ele me disse que você é o homem que pode resolver o problema. Sei lhe dizer que a firma deles é de primeiríssima, é séria, de gente trabalhadora. O que há de melhor em Sergipe eu estou mandando para você”.

JLPolítica – E como foi esse desdobramento?
HM –
De posse desta carta de Zé Rollemberg, no dia seguinte peguei um avião para Minas Gerais. Uma felicidade: nunca tinha ido a Belo Horizonte. Chegando lá, fui para a Casa Civil, onde o governador Aureliano Chaves atendia. Mas ele não estava. Quem estava era o cunhado. Me apresentei e expliquei que tinha uma carta de dr Zé Leite para o dr Aureliano. Ele pediu para ler e quando viu a intimidade, ligou para o cunhado. Ligou, explicou a minha presença ali, disse em nome de quem eu estava e leu a missiva do govenador de Sergipe para Aureliano, que de pronto autorizou a concessão. O resultado é o que os sergipanos conhecem hoje como Samam Fiat. 

JLPolítica – Por essa e outras histórias, o senhor passa a impressão de um homem aferrado ao otimismo. O senhor teria ido tão longe empresarialmente se tivesse se dividido entre otimismo e pessimismo?
HM –
Não, nunca, jamais. Eu sempre fui otimista. Isso desde moço. O otimismo sempre andou comigo. Eu achava tudo possível, maravilhoso, alcançável. 

JLPolítica - É fundamental pensar assim?
HM –
Sim. É mais do que fundamental. 

JLPolítica - A idade não lhe mudou nisso?
HM -
Em nada. Sou sempre o mesmo e um pouco mais de mim.

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Diz que sempre conviveu respeitosamente com o poder público

FIAT DE SERGIPE PODERIA TER IDO PARA OS BAIANOS
“O pessoal da Bahia estava pedindo uma representação baiana da Fiat para Sergipe. Papai me aconselhou a falar com Zé Leite. Pedi uma audiência, me atendeu em 24 horas. E Aureliano de pronto autorizou a concessão. O resultado é o que os sergipanos conhecem hoje como Samam Fiat” 

JLPolítica - A idade não lhe mudou nisso?
HM -
Em nada. Sou sempre o mesmo e um pouco mais de mim.

JLPolítica – Qual a importância de Manoel Aguiar Menezes, seu pai, na sua vida pessoal?
HM -
Papai não foi só meu pai. Ele foi meu grande companheiro. Ele foi meu amigo. Tínhamos uma intimidade muito grande no trabalho e na vida. Eu estava no Rio de Janeiro estudando no melhor colégio do lugar, que ele pagava para mim. No quarto ano, eu sempre um bom aluno, ele perguntou o que eu ia fazer da vida. Eu disse que queria fazer a faculdade de Engenharia. Ele disse que estava sozinho na labuta, que não estava bem, que ia vender tudo e ia embora, morar com a gente no Rio. Nessa época, José, meu irmão, nem havia nascido. Pedi calma a papai. E foi passando o tempo, ele sempre escrevendo para mim, até que um dia eu falei com meu tio, Godofredo Diniz, que ia embora. Que ia voltar para Aracaju, para que meu pai não terminasse o negócio dele. E assim o fiz. Não me arrependo. Não tivesse procedido assim, talvez não tivesse hoje o Grupo Samam e os seus mais de 3,3 mil empregos, que muito me alegram.

JLPolítica - Ele sempre lhe deu liberdade para trabalhar junto com ele?
HM -
Sempre me deu liberdade total e plena. 

JLPolítica – E isso é importante na formação de um líder futuro?
HM –
É muito. Eu me metia numa série de coisas que todo mundo achava ruim. Mas veja que ótimo: papai achava bom. E me incentivava. 

JLPolítica - O senhor copiou isso e repassa para os seus filhos? 
HM –
Sim, passo sempre. Eles sabem de tudo isso, de como foi a minha formação e dou total confiança a eles. Hoje são eles que dirigem tudo no Grupo Samam. 

JLPolítica - O senhor se dá por feliz e contemplado em 100% com a opções e os desempenhos, pessoal e profissional, dos seus quatro filhos?
HM –
Dou-me, tranquilamente. Me sinto satisfeito com os quatro filhos. Henrique vai muito bem, Manelito nem se fala. Célia está muito ótima, com a empresa dela arrumada, e Kátia também. 

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Galanteador de mão cheio, no sentido de cativar pessoas e fazê-las parceiras de seus empreendimentos.

NUNCA SE DIVIDIU ENTRE OTIMISMO E PESSIMISMO
“Jamais. Eu sempre fui otimista. Isso desde moço. O otimismo sempre andou comigo. Eu achava tudo possível, maravilhoso, alcançável. Sou sempre o mesmo e um pouco mais de mim”

JLPolítica - O senhor acha que passou bem a lição empresarial para eles?
HM -
Não só passei ao longo das nossas existências como passo todo dia. E continuo passando para eles a minha história, para eles verem que é tudo pelo trabalho. Eu não tenho outro assunto. Só falo em trabalho. Nas reuniões em minha casa não se fala em vida dos outros, e sim em trabalho. Eu eduquei eles assim. Creio que fiz certo.

JLPolítica – Se o senhor pudesse ver o futuro do Grupo Samam lá no ano 2100, o que gostaria verdadeiramente de visualizar?
HM –
Eu gostaria que o plano de hoje continuasse em evolução. Diversos ovos, diversos cestos: empurra daqui e dali e não deixa a peteca cair. A vida é bola pra frente sempre. E nunca num negócio só. Não se meta num negócio só, único, que não dá certo. 

JLPolítica - O senhor acha que essa sua “visualização” vai ocorrer?
HM -
Vai ocorrer. Quem não fizer isso, vai se liquidar. Se não abrir o cesto, não se chega lá. Tem que ter ovos novos. 

JLPolítica - Nunca lhe despertou cobiça, ou o interesse, em ser um líder de classe, um presidente da Federação das Indústrias de Sergipe, da Fecomércio, ou de algo nacionalmente na sua área?
HM -
Não, nunca. Não sei se estava certo, mas eu achava que era tempo perdido. Que eu não teria tempo para o meu negócio, porque era eu sozinho - os filhos pequenos. Meu pai já estava velho. Eu tinha que me virar, trabalhar dia e noite, não podia ser presidente da Acese, do Rotary. Aí, eu pedia para me botarem como vice. Não era omisso. Continuo pensando assim. 

JLPolítica – Qual foi o significado da amizade na sua vida? O senhor colheu muitos frutos em nome dela?
HM -
Não. Amigos, eu tive poucos. Mas inimigos também não os tive. Só se forem gratuitos, secretos, que eu nem me lembre. Mas de ter feito mal, não o fiz a ninguém. 

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Com o filho Manelito Neto, Seu Henrique Menezes, em visita ao então governador Marcelo Déda: é eternamente grato pela estrada nova que o Déda fez até a Taquari

DA IMPORTÂNCIA DE MANOEL AGUIAR MENEZES, O PAI
“Papai não foi só meu pai. Ele foi meu grande companheiro e meu amigo. Tínhamos uma intimidade muito grande no trabalho e na vida. Sempre me deu liberdade total e plena. Me metia numa série de coisas que todo mundo achava ruim. Papai achava bom. E me incentivava”

JLPolítica - Para que serve um inimigo? 
HM -
Não presta para nada. Deve servir para atrapalhar. Nunca tive esse problema. 

JLPolítica - Qual é traço número um imprescindível para se ser um empreendedor?
HM –
Ah, a indispensável disposição para o trabalho. Para ser um empreendedor, tem que amar o trabalho. Viver o trabalho. Sentir o trabalho. Por que, admito, o trabalho é uma beleza. Digo isso aos meus filhos todos os dias: eu estou vivo por causa do trabalho. Se não, não teria vencido três cânceres. Quem venceu o câncer não fui eu. Foi o trabalho. A minha cabeça estava nos negócios e não estava na doença. A doença entreguei ao médico e lhe disse: “O senhor trate daí, que vou tratar de cá”.  

JLPolítica - O trabalho cura doença, Seu Henrique?
HM –
Cura, sim. E me curou. Foi ele, o trabalho, que me curou. O trabalho potencializa em mim a vontade de viver.

JLPolítica – Olhando para os 90 anos do Grupo Samam, o senhor sente falta de ter feito algo mais até aqui?
HM –
Olha, creio que não. Não me arrependo de nada que deixei de fazer ou que faria novamente. 

JLPolítica - Não há uma atividade na qual o senhor gostaria de ter atuado mais?
HM -
Não. Porque tudo que eu vi e tive vontade, eu fiz. Até em usina de açúcar eu entrei. 

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Por que, admito, o trabalho é uma beleza", comemora

CONTEMPLADO COM O DESEMPENHO DOS FILHOS?
“Dou-me, tranquilamente. Me sinto satisfeito com os quatro filhos. Henrique vai muito bem, Manelito nem se fala. Célia está muito ótima, com a empresa dela arrumada, e Kátia também”

JLPolítica - Não há uma atividade na qual o senhor gostaria de ter atuado mais?
HM -
Não. Porque tudo que eu vi e tive vontade, eu fiz. Até em usina de açúcar eu entrei. 

JLPolítica – Por falar nisso, que tipo de prazer lhe proporciona o agronegócio, sua atividade caçula?
HM -
Ah, o agronegócio para mim é um grande prazer. Primeiro, eu evoco sempre a força de Deus, que faz você plantar um caroço de milho e ter um baita pé, um bichão de dois metros com várias espigas. Isso não é uma coisa linda? É um poder sobrenatural que vem do campo e que vem de Deus. Por isso eu digo que o campo é a base de tudo. 

JLPolítica - O senhor se arrepende de ter ficado tanto tempo com uma fazenda de pecuária? 
HM -
Não. A conversão da pecuária foi no tempo certo. Primeiro a pecuária, depois a agricultura. 

JLPolítica - O senhor acha que o negócio do álcool poderia ser melhor tratado?
HM -
Sim, e o Governo já está corrigindo os erros do álcool. 

JLPolítica - O que o senhor acha dessa ideia de os produtores poderem vendê-lo direto aos postos?
HM -
Eu acho uma atitude correta. Eu quando fiz a indústria, era para vender a todo mundo. Mas foi proibido. Felizmente, o Senado já aprovou com expressa maioria a autorização para esta relação direta entre usineiros e postos. Todos ganharão.

JLPolítica - O senhor teme pelo futuro do automóvel no mundo, tipo desaparecer nesses moldes que conhecemos hoje?
HM –
Não temo. Sempre vai ter o lugar do automóvel. O automóvel é o precioso meio de locomoção. O que a gente pode ter sem automóvel? Nós vamos voar, então? Só se for isso. E acho que nesses 100 anos, isso ainda não vai acontecer. 

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Diz que o trabalho é a maior das profilaxias no campo da saúde humana.

O QUE PENSA PARA O GRUPO SAMAM DE 2100?
“Gostaria que o plano de hoje continuasse em evolução. Diversos ovos, diversos cestos: empurra daqui e dali e não deixa a peteca cair. A vida é bola pra frente. E nunca num negócio só. Não se meta num negócio só, único, que não dá certo” 

JLPolítica - É desconfortável ou lhe alegra a responsabilidade sobre 3,4 mil pessoas e suas famílias que trabalham nas suas empresas?
HM –
Ah, isso me alegra muito. Entro nas salas, vou na cozinha, abraço uma, abraço outra. Me mostram as conquistas deles. 

JLPolítica - Qual é a importância de um funcionário? 
HM -
Toda. A gente tem que viver com eles. Eu sou próximo deles. Tenho um relacionamento respeitoso e total. 

JLPolítica - O senhor tem funcionários antigos, de décadas, em suas empresas?
HM –
Tenho. Há colaboradores de 40 a 50 anos de casa. São amigos, companheiros, pessoas em quem confio muito. E creio que é recíproco. 

JLPolítica – Para além da produção de álcool e de açúcar, o senhor imagina descendente seus enveredando mais pela atividade industrial no futuro?
HM -
Acho que sim. Creio que a indústria é uma área que vai desenvolver mais, e vejo isso na açucareira, por exemplo, tem muito valor. Veja que daquele vapor que sobra da atividade industrial açucareira faremos uma fábrica de tecido. O vapor é energia sobrante. Isso já está se desenhado. Creio que uma parte dos meus vai seguir avançando pelo comércio. Mas uma outra pela indústria, aproveitando esse vapor das fábricas de açúcar que temos. Vapor é força para movimentar máquinas. É energia de sobra.

JLPolítica – Ao chegar aos 80 anos, a tecnologia lhe assusta ou mais alegra?
HM –
Mais me alegra. Não me assusta. Me alegra porque, através dela, as coisas estão ficando mais práticas. Mais fáceis. Isso me ajudou pra chuchu. 

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“A vida é bola pra frente sempre", recomenda

O PODER DA AMIZADE NA VIDA
“Amigos, eu tive poucos. Mas inimigos também não os tive. Só se forem gratuitos, secretos, que eu nem me lembre. Mas de ter feito mal, não o fiz a ninguém. (Inimigo) não presta para nada. Deve servir para atrapalhar. Nunca tive esse problema” 

JLPolítica - O senhor não tem medo da tecnologia? 
HM -
Não, não tenho. 

JLPolítica – O senhor chega a sonhar com Seu Manelito Menezes, seu pai?
HM -
Não. Nunca sonhei com ele. 

JLPolítica – O que teria sido da sua vida, não fosse a presença de dona Carmen Vieira Menezes, a Dona Carmita, sua esposa?
HM –
Ah, nem imagino isso. Ela é uma boa companheira. Eu escolhi muito. Eu pude escolher, tive esse direito. Escolhi uma moça com tempo, com gosto, vendo as virtudes das moças de primeiríssima do meu meio e da minha época. Mas eu precisava escolher uma que desse no meu temperamento, e deu Carmita. 

  JLPolítica – Se o senhor pudesse botar o Brasil num torno, numa forja, e remodelá-lo, gostaria que nascesse dessa transformação que tipo de país?
HM –
Ah, eu o melhoraria muito, sim. Principalmente no campo da seriedade, que está faltando muito nesta hora. E a cada dia piora mais, com essa estranha mania de se levar vantagem. Há no país um jogo onde todo mundo quer levar vantagem. Isso que atrapalha danosamente o desenvolvimento dos negócios. 

JLPolítica - E isso serve a quem?
HM -
Somente ao malandro. Ao esperto. E o que não falta é gente assim. 

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Chega a desenhar como desejaria ver as empresas do Grupo Samam 80 anos à frente

PRINCIPAL TRAÇO DE UM EMPREENDEDOR
“Ah, a indispensável disposição para o trabalho. Para ser um empreendedor, tem que amar o trabalho. Viver o trabalho. Sentir o trabalho. Por que, admito, o trabalho é uma beleza”

JLPolítica -  O mundo seria mais justo e as pessoas mais felizes se não houvesse tanta corrupção nas nações e nos negócios?
HM –
Ah, sim exatamente - é isso que acabei de dizer. A corrupção entrou na cabeça das pessoas. E vezes por atitudes simples, como num presente que você dá pleiteando já levar vantagem. É uma bola que você dá ao rapaz da repartição. Isso está errado. 

JLPolítica - O senhor acha que se o Brasil tivesse um ambiente de negócios melhor seria um país mais rico?
HM -
Ah, com certeza, e muito mais rico. A metade do dinheiro da Brasil é jogada pelo esgoto, com roubo, safadeza, picaretagem. 

JLPolítica - Se lhe fosse dado o direito de repetir, o senhor faria tudo do mesmo jeito ou mudaria algo no roteiro?
HM –
Eu faria tudo do mesmo jeito. Sou um homem feliz, e a cada dia continuo correndo atrás. Estou com 80 anos, mas corro atrás como corria aos 50. 

JLPolítica - O que é a morte para o senhor, e a teme?
HM -
A morte é uma passagem e não tenho nenhum medo dela. Ela pode chegar a hora que bem quiser, que eu quero acertar as contas lá em cima com o chefe. 

JLPolítica - O senhor acha que está em dia com Ele?
HM -
Estou mais ou menos (risos). 

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Ele e Dona Carmita já vão em dez netos e sete bisnetos

O TRABALHO COMO FONTE DE VIDA
“Digo aos meus filhos todos os dias: estou vivo por causa do trabalho. Se não, não teria vencido três cânceres. Quem venceu o câncer não fui eu. Foi o trabalho. A minha cabeça estava nos negócios e não na doença. A doença entreguei ao médico e lhe disse: “O senhor trate aí, que vou tratar de cá”  

JLPolítica - O que é Deus para o senhor?
HM -
É tudo. É meu companheiro e guru para tudo. 

JLPolítica - Do ponto de vista da seriedade, do acordo entre pessoas, qual a diferença da época em que o senhor era um jovem caixeiro viajante para agora?
HM -
Quando eu era vendedor, levava o progresso para o interior, que não tinha televisão, por exemplo. Eu levava as novidades. E hoje a venda é feita pela televisão, pela internet. Mas está tudo bem. 

JLPolítica - Para o senhor, o que caracteriza um bom vendedor? 
HM –
A simpatia pessoal, que vem do berço. É preciso ter o dom para as vendas. Um bom vendedor precisa ter carisma. Você nasce com ele. 

JLPolítica - E o que é o cliente para o senhor?
HM –
Ele é tudo. Minha vida é baseada nos clientes. Sem eles não há negócio e nada existia. 

JLPolítica - O Grupo Samam tem clientes cativos e antigos?
HM –
Ah, tem. Tem de 10 anos, 20 anos, 30 anos. Cliente que comprava a xícara, o prato, o penico, depois o caminhão, o carro. 

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Com os os quatro filhos e a esposa

O PODER DE DONA CARMITA NA VIDA DELE
“Ela é uma boa companheira. Eu escolhi muito. Eu pude escolher, tive esse direito. Escolhi uma moça com tempo, com gosto, vendo as virtudes das moças de primeiríssima do meu meio e da minha época. Mas eu precisava escolher uma que desse no meu temperamento, e deu Carmita”

JLPolítica - Que tipo de gratidão o senhor tem por eles? 
HM –
Toda. Imensa gratidão e carinho. Cliente bom merece tudo, porque ajuda a empresa. Por que é a razão de ser dela. 

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A grande família que resultou do bem sucedido casamento com Carmen Vieira Menezes, a Dona Carmita