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Entrevista

Jozailto Lima

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Ivonete Cruz: “A escola não é lugar de violência. É lugar do saber”

“As condições de trabalho e de salário aviltam o magistério”
10 de agosto - 20h00


Se dita soltamente, sem um elo causal, a frase “a escola não é lugar de violência, é lugar do saber”, poderia soar como um clichê - por ser assim que de fato deveria sê-la. Mas está longe de ser um mero clichê.

Quem a pronuncia tem 31 anos de vivência no batente da cátedra das escolas públicas de Sergipe e a expertise de uma representatividade de classe de alta voltagem.

É a professora Ivonete Alves Cruz Almeida, ou só Ivonete Cruz, 52 anos, presidente do Sintese - Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe -, a maior das instituições sindicais do Estado.

Para Ivonete Cruz, a violência contra o professor e o gestor das escolas públicas sergipanas tem peso “muito grande” na grade de preocupação do Sintese. “A gente debate profundamente a questão da violência”, diz ela.

“E por que a gente debate, discute, cobra e não só debate e discute, mas exige do governo política pública? Porque a escola não é lugar de violência. A escola é lugar do saber. De tranquilidade”, diz a professora-presidente.

“As pessoas estão dentro das escolas desarmadas. Mas aí as escolas se tornaram alvo, porque é um espaço onde todo mundo sabe que lá não vai encontrar resistência. Mas, repito, a escola não pode ser esse lugar”, diz ela.

Certamente “não pode, e nem merece, ser esse lugar”, professora. Logo, não é sem causa que o gráfico de tensões na luta do Sintese atinja picos tão altos de preocupações face ao trato que os Governos do Estado e dos municípios de Sergipe dão à educação pública.

Para começo de conversa, adverte Ivonete Cruz, apenas 43 dos 75 municípios pagam o piso salarial da categoria. “Nós poderíamos já ter avançado mais. O ideal seria que a gente chegasse a 100%, porque o piso é direito”, diz a professora.

Da parte do Governo do Estado, não houve sequer o reajuste do piso para este ano de 2019. “Nós estamos em agosto e até o momento o governo não disse quando vai reajustar o piso, que é de 4,17% - o reajuste mais baixo desde que foi implementado”, diz Ivonete.

“Não tem nenhuma política de carreira. O 13° salário, que é uma questão da vida de todo trabalhador, não tem perspectiva de quando será pago. As condições de trabalho são péssimas, as escolas entrando em um processo de destruição. A prioridade na educação ainda estamos por ver”, afirma Ivonete, numa referência ao compromisso do governador Belivaldo Chagas ano passado, de que elegeria a área como o motor da sua gestão.

Pelo contrário. Os Governos do Estado e dos Municípios, na visão do Sintese, conseguem estabelecer uma paridade pelo pior nas condições de segurança e salarial para os trabalhadores do magistério.

“Para mim, as duas coisas nos aviltam profundamente. Tanto a condição de trabalho quanto a de salário. Porque a profissão de professor -, e eu falo não só de Sergipe, mas historicamente -, não é respeitada e tratada bem no Brasil e no mundo inteiro como uma profissão que mereça ser valorizada”, diz Ivonete.

Mas o pior, para quem faz o Sintese, é que faltaria, ainda, uma política específica de Estado para a educação. “Deixa a desejar em projetos discutidos conjuntamente. Projeto político pedagógico. Um projeto de Estado - não é um projeto de Governo - que seja discutido coletivamente nos espaços onde tenha a participação de professores, das gestões escolares, da Secretaria. Que se discuta qual é o projeto de educação que se defende”, diz Ivonete Cruz.

Apesar dessas dores e dissabores, ou certamente por causa delas, o Sintese não esmorece, não baixa o pescoço e nem desbota. Tem uma base de 25 mil filiados e, de longe, assumiu o posto de sindicato mais bem estruturado entre os demais sindicatos do Estado de Sergipe.

O Sintese não desintegrou nem mesmo com a ruptura da corrente Articulação de Esquerda do PT, que sempre lhe vincou o mando, e a construção, dos seus destroços, da Militância Socialista - saíram Ana Lúcia Menezes, uma espécie de rainha-mãe da entidade, e seu pimpolho Iran Barbosa, e ficaram por lá a presidente, mais Joel Almeida e o Professor Dudu, entre outras lideranças.

Firme e serena, e sobretudo reconhecedora da importância dos que deserdaram, Ivonete Cruz diz que não teme nem mesmo um bate chapa lá em 2022, quando termina o seu segundo mandato e terá de eleger sucessor/a.

“Eu considero que a disputa de chapa é importante, porque o professor tem a escolha. O professor tem a possibilidade de escolher entre projetos, propostas e isso é democrático. Então vejo com total tranquilidade se houver da parte do grupo que hoje compõe a Militância Socialista interesse de disputar a direção do Sintese, e para isso apresentar proposta, dialogar com a base”, diz ela.

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Em ato público na Praça Fausta Cardoso, em Aracaju
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E uma sergipana que nasceu em Santo Anastácio, no Estado de São Paulo, em 22 de fevereiro de 1967

JLPolítica - Professora, o que mais avilta o trabalhador do magistério público estadual e municipal de Sergipe entre as condições físicas de trabalho e de salário?
Ivonete Cruz -
Para mim, as duas coisas nos aviltam profundamente. Tanto a condição de trabalho quanto a de salário. Porque a profissão de professor -, e eu falo não só de Sergipe, mas historicamente -, não é respeitada e tratada bem no Brasil e no mundo inteiro como uma profissão que mereça ser valorizada.

JLPolítica - Há algo culturalmente errado aí...
IC –
Sim. Prevalece o velho estigma de que a gente dá aula e ao dar parece que você está doando a qualquer preço e em qualquer condições, o que faz com que a nossa profissão não seja respeitada na maioria das vezes. Então, as nossas condições de trabalho se perenizam como muito precárias.

JLPolítica – Em que dimensão?
IC -
Imagina você chegar numa sala de aula em que ela não foi varrida. Onde a mesa está cheia de poeira, em que os quadros estão todos destruídos, não tem um ar condicionado e o calor é infernal, e onde o teto está caindo e as paredes estão destruídas... Isso é desrespeitoso com um professor, que tem uma profissão que merece respeito e condição de trabalho, e também é falta de respeito com o estudante, que não tem uma condição digna de estudo.

JLPolítica - A questão do salário não é mais cruel?
IC -
Em relação ao salário, a nossa profissão requer e necessita ter uma remuneração digna, igual a todas as outras profissões, porque nós passamos pela mesma formação profissional, pelo mesmo espaço de formação superior, pelo mesmo trato de pós-graduação, de mestrado e doutorado. Então, em síntese, as duas coisas são muito ruins, porque tanto as condições de trabalho quanto a de salário não são respeitadas e valorizadas na esfera do magistério.

JLPolítica - Como o Governo do Estado tem reagido às denúncias das condições das escolas públicas de Sergipe feitas pelo Sintese?
IC -
Veja: historicamente, e especificamente no governo Belivaldo Chagas, nada tem se alterado. Nós vivemos uma continuidade do governo anterior. Não é um momento novo. Não tem sido dado à educação o verdadeiro trato que precisa ser dado, porque as escolas de Sergipe passam por muitos problemas, como falta de professor.

DO QUE MAIS AVILTA O MAGISTÉRIO
“Tanto a condição de trabalho quanto a de salário. Porque a profissão de professor -, e falo não só de Sergipe, mas historicamente -, não é respeitada e tratada bem no Brasil e no mundo inteiro como uma profissão que mereça ser valorizada”

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Ao lado de Fiúza, autor do filme Abraço

JLPolítica – Isso atrofia o cumprimento do calendário escolar?
IC -
Imagine que tem escolas que estão agora, já no segundo semestre de 2019, e ainda falta professor de disciplinas importantes, sem condições de trabalho. A alimentação escolar é outro problema grave que a gente vem denunciando. A questão do transporte escolar todo mundo acompanhou, e foi um problema grave no ano passado por causa do não pagamento das empresas que transportam os estudantes. Então, tudo isso afeta a educação, mas para o Governo parece que está tudo bem, não está acontecendo nada, ele vai tocando a vida.

JLPolítica - O secretário de Estado da Educação, Josué Modesto dos Passos Subrinho, disse numa Entrevista dessa ao JLPolítica que tem excesso de professor em Sergipe. A senhora discorda?
IC -
Ele mostrou esses dados para a gente, de que tem Diretorias Regionais de Educação em que falta professor e que tem DR’s que têm excesso. Nós temos entendimento de que tem excesso, mas que esses professores não estão na atividade fim. Estão na atividade meio. Portanto, falta professor na sala de aula, mas não falta professor na rede. Porque tem uma grande quantidade de professor em atividades meio, que são as atividades de secretarias, de DR’s. Se houvesse um redirecionamento e a atividade fim fosse o principal, o chão da escola, não faltaria professor. Existiria um equilíbrio.

JLPolítica – O Sintese se sente, de algum modo, culpado pelos baixos índices da média da educação pública estadual e municipal de Sergipe?
IC -
De forma alguma. Por hipótese nenhuma. Ao nosso ver, os resultados das provas nacionais são o resultado da política, consequência da política pública. Ou seja, da ausência de valorização e de condição de trabalho.

JLPolítica - O Sintese tem como base de atuação sindical quantos trabalhadores da educação?
IC -
Uma média de 25 mil professores. Mais de 70% dos professores - próximo a 80% deles -, na rede estadual, municipal e aposentados. 

JLPolítica - Qual é o perfil ideológico do sindicalizado do Sintese? Tem também direitistas e bolsonaristas?
IC -
Temos, sim. Porque o perfil é muito amplo, e as pessoas não estão no sindicato obrigatoriamente para estar na ideologia de esquerda. O sindicato é livre. As pessoas podem e devem estar nele, mas livremente manter as suas convicções ideológicas e posições políticas.  Sinto muito que o Governo Bolsonaro tem mostrado que o projeto dele é o da destruição dos direitos e sobretudo na educação, com cortes terríveis. A gente tem tido cortes altíssimos na educação, e é muito complexo você ser um trabalhador e defender um projeto que destrói o trabalhador. Mas a gente respeita e dialoga. Não tem briga.

DE UMA NECESSIDADE NUNCA ATENDIDA
“A nossa profissão requer e necessita uma remuneração digna, igual a todas as outras, porque passamos pela mesma formação profissional, pelo mesmo espaço de formação superior, pelo mesmo trato de pós-graduação, de mestrado e doutorado

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Com a cunhada e os sobrinhos

JLPolítica – A violência contra o professor e o gestor das escolas públicas sergipanas tem que peso na preocupação do Sintese?
IC -
É muito grande. A gente debate profundamente a questão da violência. E por que a gente debate, discute, cobra e não só debate e discute, mas exige do governo política pública? Porque a escola não é lugar de violência. A escola é lugar do saber. De tranquilidade. As pessoas estão dentro das escolas desarmadas. Mas aí as escolas se tornaram alvo, porque é um espaço onde todo mundo sabe que lá não vai encontrar resistência. Mas, repito, a escola não pode ser esse lugar.

 JLPolítica - Sociologicamente, a senhora apontaria a definição do porquê e de onde vem essa violência?
IC -
Creio que vem da desigualdade social e da ausência de políticas públicas. 

JLPolítica - A senhora considera que a política de educação pública praticada entre os governos estaduais e municipais de Sergipe do país deixa a desejar em que aspecto?
IC -
Deixa a desejar em projetos discutidos conjuntamente. Projeto político pedagógico. Um projeto de Estado - não é um projeto de Governo - que seja discutido coletivamente nos espaços onde tem a participação de professores, das gestões escolares, da Secretaria. Que se discuta qual é o projeto de educação que se defende.

JLPolítica - Como a senhora classifica o que se tem hoje?
IC -
Temos um quadrado, no qual vai se encaixando, mas que vai se criando as coisas por modismo. Ou se enfrenta todo o conjunto com uma política séria para resolver problema de evasão, da repetência, do abandono, da perda de matrícula, ou não adianta ficar inventando coisas. Projetos como uma tal recuperação de intensificação da aprendizagem não valem, porque não se intensifica a aprendizagem sem ter um projeto certo, do início, da base, que é a garantia da ocorrência dessa aprendizagem desde a educação infantil até o médio. Sem rever o conjunto, não se altera o todo. 

JLPolítica - Há muito empirismo na área por parte do Governo?
IC -
Não. O Governo simplesmente acha que está tudo bem, e aí não discute profundamente. 

DA MÁ DISTRIBUIÇÃO DOS PROFESSORES
“Falta professor na sala de aula, mas não falta professor na rede. Porque tem uma grande quantidade de professor em atividades meio, que são as atividades de secretarias, de DR’s”

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2017: manifestação do Dia Internacional da Mulher em Brasília

JLPolítica - Quanto por cento dos municípios sergipanos pagam o piso do magistério?
IC -
Hoje, só 43 dos 75 municípios. Nós poderíamos já ter avançado mais. O ideal seria que a gente chegasse a 100%, porque o piso é direito.

JLPolítica - A escola de excelência, em tempo integral, de que fala a Seed continua tendo a desaprovação do Sintese, por que?
IC -
Desde o início em 2017 nós reprovamos o método, não o modelo. E continuamos reprovando. Porque o que a gente tem aí se basta fazer uma pesquisa in loco - e nós já desafiamos a secretaria, para junto com o Sintese, ir nas escolas que estão funcionando em tempo integral - e comprovar que elas não têm estrutura adequada. Não têm alimentação adequada, não têm projeto pedagógico para funcionar em tempo integral. Falta até professor.

JLPolítica – Isso é fato?
IC -
Nós temos denúncias de escolas onde o aluno fica o dia inteiro nelas, mas tem disciplina que ainda falta professor. Então, que tipo de escola de tempo integral é essa, que funciona precariamente? Ao nosso ver, é preciso prover a educação minimamente de qualidade para todas as escolas e, mesmo para as de tempo integral, as chamadas de excelência, que de excelente não têm nada. 

JLPolítica - Já chegou à prática do Estado a promessa feita pelo governador-candidato Belivaldo Chagas de que a educação seria prioridade número um deste governo dele?
IC -
Ficou só no discurso. A fala do governador Belivaldo Chagas de que a educação seria prioridade ainda está apenas no discurso. Nós estamos em agosto e até o momento o governo não disse quando vai reajustar o piso, que é de 4,17% - o reajuste mais baixo desde que foi implementado. Não tem nenhuma política de carreira. O 13° salário, que é uma questão da vida de todo trabalhador, não tem perspectiva de quando será pago. As condições de trabalho são péssimas, as escolas entrando em um processo de destruição. A prioridade na educação ainda estamos por ver.

JLPolítica - Patrimonialisticamente, comenta-se que o Sintese é um sindicato muito rico. Qual é a real tradução disso?
IC -
Veja: qual é a análise que eu faço? Não é de riqueza monetária, mas é de filiação. Nós estamos em um sindicato que acredito ser o maior em termos de filiação do Estado de Sergipe, já que nós temos uma média de 25 mil filiados.

LIBERDADE IDEOLÓGICA PARA OS FILIADOS
“O perfil é muito amplo, e as pessoas não estão no sindicato obrigatoriamente para estar na ideologia de esquerda. O sindicato é livre. As pessoas podem e devem estar nele, mas manter as suas convicções ideológicas e posições políticas”

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Gravação do filme Abraço

JLPolítica - Esse tamanho sindical é garantia de quê?
IC -
Esse tamanho de filiação nos proporciona uma receita dentro desse número de filiados. No entanto, nos demanda uma ação de atuação no Estado inteiro, porque esses recursos são necessários para tocar a luta nos 74 municípios e na rede estadual – Aracaju não nos é base. Imagine o que é você construir greves, paralisações, pátios, manifestações, manutenção de sedes! Nós temos hoje já a própria sedes daqui e mais três sedes no interior. Nós temos sedes alugadas, ou seja, eu não considero algo exorbitante o que se arrecada. É um patrimônio financeiro dentro do tamanho de filiados e necessário para tocar uma luta do tamanho que o sindicato toca.

JLPolítica - A senhora se recusa a dizer a receita do sindicato mensal e o anual?
IC -
É porque esse é um dado que varia muito. Por exemplo, nós temos municípios que não fazem o repasse da consignação como deveria ser feita normalmente. Então, temos às vezes municípios que passam o ano inteiro sem fazer e a gente lá, tentando negociar. Na ausência de êxito da negociação, a gente precisa recorrer à ação jurídica. A nossa receita está dentro do tamanho das demandas que o Sintese tem de tocar a luta, sem dúvida.

JLPolítica - A senhora teme um bater de chapas na sua sucessão entre os grupos Articulação de Esquerda e Militância Socialista?
IC -
De jeito nenhum. Eu considero, inclusive, que nós tivemos ao longo do tempo, desde que o grupo encabeçado pela ex-deputada professora Ana Lúcia, que compunha a Articulação da Esquerda e que iniciou esse processo de agora, nesse processo desse grupo na direção do Sintese, um processo de chapa única. A única eleição que teve duas chapas foi a minha, para a primeira gestão. Nós tivemos uma disputa. Mas eu considero que a disputa de chapa é importante, porque o professor tem a escolha. O professor tem a possibilidade de escolher entre projetos, propostas e isso é democrático. Então vejo com total tranquilidade se houver da parte do grupo que hoje compõe a Militância Socialista interesse de disputar a direção do Sintese, e para isso apresentar proposta, dialogar com a base. E que toda a discussão se faça muito democraticamente, dialogada. 

JLPolítica - Mas em que essa separação do grupo de Ana Lúcia e Iran Barbosa e do da senhora, de Joel Almeida e Professor Dudu ajuda ou atrapalha a vida do sindicato?
IC -
Eu não vejo nem como algo que ajuda nem como que atrapalha, porque a organização sindical, a história do movimento sindical, está sempre construída dentro de correntes políticas, e nós temos aqui uma questão de qual é o foco da nossa ação. E o foco da nossa ação é a defesa da educação pública. O direito do magistério.

JLPolítica - Mas a fragmentação disso não turva a luta?
IC -
O fato de um grupo de companheiros e de companheiras que historicamente construíram o Sintese, que historicamente militaram na Articulação de Esquerda, e que por várias questões fizeram a opção de não compor mais com o grupo e de se constituir em outra corrente nacional, que é a Militância Socialista, ao meu ver não atrapalha. E não porque não saímos da essência da nossa pauta, que é a de defender a educação pública de qualidade. De defender o direito do magistério e essa é uma defesa que nós fazemos, que o grupo da Militância Socialista também faz, e assim vamos construir a defesa dos trabalhadores, independentemente do cenário. 

POLÍTCA EDUCACIONAL DO IMPROVISO
“Temos um quadrado, no qual vai se encaixando, mas que vai se criando as coisas por modismo. Ou se enfrenta todo o conjunto com uma política séria para resolver a evasão, a repetência, o abandono, a perda de matrícula, ou não adianta ficar inventando coisas”

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Em assembleia do Sintese

JLPolítica - A senhora acha impossível um reanexamento da Militância Socialista pela Articulação de Esquerda, ou o contrário?
IC -
Isso é um processo. A gente vive um processo político histórico e eu tenho muita tranquilidade nesse processo. Acho que os grupos se fortalecem e o objetivo é justamente esse. Somos grupos de esquerda, não negarei jamais em hipótese nenhuma, em espaço nenhum, o importante papel político desenvolvido pela professora Ana Lúcia, que, enquanto deputada, Sergipe teve durante 16 anos, uma parlamentar atuante, defensora das causas sociais. Hoje, temos um deputado que vem também da base do magistério, que militou dentro do sindicato, que militou na Articulação de Esquerda, que agora milita em uma outra corrente. Os caminhos e o destino serão construídos. Se vai haver uma reaproximação, vai depender muito da conjuntura. Mas para mim o essencial é que permanecemos na Articulação de Esquerda e que a gente tenha como foco a defesa da classe trabalhadora, a defesa da educação pública, a defesa do magistério. 

JLPolítica - Para que as pessoas que não acompanham ao pé da letra a questão do Sintese, cite duas razões para que tenha havido essa ruptura. 
IC -
Bom, eu não as consigo perceber. Porque divergências nós temos, e é natural no movimento sindical, no campo dos encaminhamentos, de se fazer amplos debates, de como encaminhar a luta. É natural. Em termos de concepção política, eu não vejo nenhuma divergência profunda na concepção da defesa das causas – então, assim, apesar de ter tido documento público, em termos internos, de motivos, como dificuldade de convivência interna, de encaminhamentos e discussões políticas, eles decidiram se retirar. Só posso dizer que é legítimo. A gente lamenta, mas respeita. 

JLPolítica - De que maneira a reforma da Previdência avilta os direitos dos professores?
IC -
A reforma da Previdência afeta profundamente o magistério. Nós tivemos essa discussão da emenda que diminuiu o tempo de aposentadoria para professoras e professores que, ao nosso ver, não altera profundamente, porque é para os que vierem a entrar na rede. Para os que já estão, tem regras de transição, e todas as regras e transição demoram muito tempo de aposentadoria. Então, qual é o problema? É que nós somos uma profissão que tem aposentaria especial de mulher aos 50 anos e de homens aos 55 anos. Isso não é porque nós somos privilegiadas, em hipótese nenhuma. O problema é que nós temos dupla jornada. Temos uma profissão que requer condições de trabalho, equilíbrio emocional e psicológico. Nós lidamos com gente. Estamos em um espaço que em você tem que ter o equilíbrio para lidar com as pessoas. Imagine um professor com 60 anos em uma sala depois de ter dado aula 40 anos: ele já não tem nenhuma condição física, psicológica e emocional de lidar. Daí nossa grande defesa contrária a reforma da Previdência. 

JLPolítica - O Grupo Militância Socialista vê em “Abraço”, o filme, um problema de base: teria sido caro, cerca de R$ 1 milhão, e seria uma apologia individual ao ex-presidente Joel Almeida. A senhora o que pensa disso?
IC - 
Primeiro, o custo do projeto “Abraço” não está em torno de R$ 1 milhão. A sua construção custou em torno de R$ 700 mil ao sindicato. Mas o filme não faz essa apologia. Quem diz isso, inclusive o grupo Militância Socialista, erra profundamente.

JLPolítica - O filme resgata o quê?
IC -
O filme resgata o momento histórico do Sintese, dentro de vários outros que nós vivemos, que envolve a militância de todos os professores num momento em que Joel era presidente. Mas não é a história dele. É a da luta. Nós concorremos agora no dia 30 de julho no Festival de Cinema de Pernambuco e “Abraço" foi premiado como melhor filme pelo júri popular. O povo que estava lá se identificou. Se fosse apologia a uma pessoa, o povo não se identificaria.

REPROVAÇÃO DO MÉTODO ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL
“Desde o início em 2017 nós reprovamos o método, não o modelo. E continuamos reprovando. Basta fazer pesquisa in loco e comprovar que elas não têm estrutura adequada. Não têm alimentação adequada, não têm projeto pedagógico para funcionar em tempo integral. Falta até professor”

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Ao lado do professor Dudu, presidente da Cut de Sergipe

JLPolítica - Em síntese, o que é “Abraço”? 
IC -
“Abraço” significa solidariedade. O filme retrata de uma luta muito profunda que nós travamos no ano de 2008 por direito, que envolveu professores de várias redes: da estadual, da rede municipal e os aposentados, que tiveram amplas manifestações, com ampla participação. É um filme que retrata a personagem que também foi premiada como melhor atriz com Juliana Maria - ela fez o papel da Ana Rosa, uma professora militante. A história toda basicamente gira em torno da luta, da organização e desse papel da mulher como professora, como militante, sindicalista. Como mãe.

JLPolítica - O protagonista do filme seria, então, o magistério?
IC -
Exatamente: é o magistério. É a nossa luta. Somos nos organizados em um Sindicato forte, combativo e de luta. Não é a de Joel Almeida.

JLPolítica - O que a senhora diria aos que veem o Sintese como um sindicato intransigente?
IC -
Eu diria a essas pessoas que somos historicamente combativos. Independentemente de quem seja o governador, até porque temos ligações com o PT, mas cobramos do Governo do PT também. Não é intransigência no sentido de estar sempre batendo. Mas sim de estar sempre cobrando, trabalhando para que os direitos da categoria sejam defendidos, assim como os da educação pública de qualidade. 

BELIVALDO E NADA DE EDUCAÇÃO COMO PRIORIDADE
“A fala do governador Belivaldo Chagas de que a educação seria prioridade ainda está apenas no discurso. Não tem nenhuma política de carreira. O 13° salário, questão da vida de todo trabalhador, não tem perspectiva de quando será pago”

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Ao lado do marido, Pedro Wilson