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Entrevista

Jozailto Lima

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João Ventura: “Sou do mundo, mas é maravilhoso poder dizer que Sergipe me deu régua e compasso”

“Acho que se pode ser verdadeiro e simples. Não dá é pra ser besta ou arrogante”
25 de janeiro - 20h00

Tocando para a popstar Madonna, para o público brasileiro no Faustão, para Toquinho em turnê na Europa ou especificamente para si mesmo na relação direta com os sergipanos no Teatro Tobias Barreto, João Alberto de Melo Silveira, 34 anos, ou simplesmente João Ventura ou ainda Joãozinho Ventura para os mais íntimos, é um cara que sabe onde põe os dedos, a voz e, sobretudo, a música apreendida das amarras libertárias do contraponto.

Este sergipano bacharel em Piano pela Universidade Federal da Bahia e doutorando em Música pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, autor de dois CDs, sabe, apesar da porosa humildade com que se define e se expõe, aonde quer chegar e tem profunda noção do significado da música e da praxe do contraponto em sua vida e em seu futuro.

“A expressão original vem do latim contrapunctus e significa ponto contra ponto. É a sobreposição de duas linhas melódicas, que podem ser complementares ou contrastantes em si. É mais ou menos o que faço no Projeto Contraponto”, diz ele. Numa tradução ainda mais terra a terra, é uma mistura do popular com o erudito sem que nenhum dos dois saia avariado dessa parceria.

E nessa seara, João Ventura põe numa mesma peça, encastoadas por uma idêntica lógica melódica, Insensatez, do Tom Jobim, e Sonata ao Luar, de Ludwig van Beethoven. Assim como entrelaça Beatles e Charles Gounod, o cara da Ave Maria, e não perde a razão e nem cai da ribanceira.

Em breve, João Ventura virá com seu terceiro trabalho pessoal em CD e, desde já, anuncia, gerando expectativa: “Fiz um contraponto agora entre o Let it Be, de Paul McCartney, e a Ave Maria, de Gounod”.

E é em nome do contraponto que João Ventura trocou Sergipe por Portugal e senta praça acadêmica e artística na Europa. É de lá que ele ecoa ideias, projetos e sonhos. Apesar de a escolha do país ter um quê de “aleatória”, o que ele queria fazer, não foi assim. Foi bem diferente.

“Coloquei no Google a busca por um “doutorado na Europa” e o primeiro que apareceu foi em Portugal. Depois pesquisei outros, mas o de Portugal era o mais palpável para mim, porque ele era mais focado na prática que na teoria e eu já tinha um projeto artístico gravado em áudio e em vídeo, que é o contraponto. Ou seja, eu possuía um trabalho prático adiantado, mas ainda não havia um material teórico digno de um doutorado acadêmico convencional. Então, para o que eu tinha, caiu como uma luva”, diz.

“No momento da admissão, eles estavam mais interessados na prática do que na teoria por trás daquelas notas. (Mas) eu fui com tudo certinho e admito que o que me moveu mais foi a carreira artística. Eu sempre, como quase todo artista, tive um desejo muito grande de querer tocar e cantar para povos do mundo inteiro. Engraçado que não tenho essa coisa do músico aventureiro. Eu fui para a Europa tentar a carreira, mas o doutorado estava rolando em paralelo. Nunca fui aquele cara de botar a mochila nas costas e onde tivesse um piano eu iria tocar”, diz o músico.

Mas o acaso sempre o acompanha. E foi assim que João Ventura conheceu a cantora Madonna. Ele foi convidado por um amigo para tocar contrapontos num bar especialmente para ela. Terminou recebendo um telefonema dela, sendo convidado a ir à residência da popstar, depois apresentaram-se juntos no Metropolitan Museu, em Nova York. Ele é convidado e participa de uma faixa do último a álbum dela.

“Eu demoro três meses para fazer um contraponto, mas fiz os três em três dias”, diz, revelando a urgência de um pedido que lhe fizera Madonna à queima-roupa. “Fui na casa dela e a partir daí a gente começou a desenvolver uma amizade. Ela me dá muita força. Fui ensaiar na casa dela umas três vezes (em Lisboa) e partimos para Nova York. Ensaiamos sete dias quase que ininterruptamente em Nova York. A Madonna é bem rigorosa e é bom ver aquilo tudo de perto pra entender que profissionalismo e sucesso andam colados”, constata João.

O pai João Alberto Cardoso Silveira, médico e músico, relembra que João Ventura encarou precocemente um piano: tinha quatro anos. A Entrevista do JLPolítica pergunta a Joãozinho quem procurou quem, entre ele e o piano.

“Eu acho que o procurei. Bem, ele estava lá em casa. Meu pai o tocava. Eu sempre fui muito fã do meu pai e ficava olhando ele tocá-lo. Quando meu pai saía do piano, eu ia tentar tirar uma música”, relembra o jovem artista.

“Conta uma lenda familiar que eu, aos quatro anos, já tocava La Bamba. Eu não lembro. Mas aos quatro anos eu já sabia reconhecer as notas. Se tivesse alguém tocando eu falava: “lá, si. Lá com dó”. Então até refaço meu ponto de vista inicial: acho que foi uma procura natural e talvez mútua. E até hoje a gente se procura”, completa.

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Com o mestre Toquinho, em turnê pela Europa: grandes conselhos e aprendizados
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João Alberto de Melo Silveira, o João Ventura, nasceu em Aracaju no 31 de agosto de 1985

QUE NOME SE DÁ AO QUE O SENHOR EXECUTA?
“Eu chamo de contraponto. É uma denominação que vem lá de trás, talvez do Renascimento, ou um pouquinho antes, e é uma sobreposição melódica baseada no contraste ou na complementaridade”

JLPolítica - O que o senhor faz, misturando popular e clássico, tem que denominação?
João Ventura -
Eu chamo de contraponto. É uma denominação que vem lá de trás, talvez do Renascimento, ou um pouquinho antes, e é uma sobreposição melódica baseada no contraste ou na complementaridade. É mais ou menos o que faço no Projeto Contraponto.

JLPolítica - Os clássicos mais fechados estranham?
JV -
Sim. Já tive diversos problemas com isso.

JLPolítica - É fácil se fazer uma carreira popular tendo um piano por companheiro?
JV -
Eu acho que em música nada é fácil. Eu creio que é um trabalho realmente de formiguinha. Mas é, também, impressionante que o tempo vai passando e a gente vai perdendo aquele encantamento do “eu vou ser famoso”, “eu vou fazer sucesso”. Hoje eu apenas digo que quero viver de música e, ainda assim, isso é desafiador.

JLPolítica - O senhor e o piano formam uma parelha desde os seus quatro anos de idade. O senhor o procurou ou ele foi ao seu encontro?
JV -
Eu acho que o procurei. Bem, ele estava lá em casa. Meu pai o tocava. Eu sempre fui muito fã do meu pai e ficava olhando ele tocá-lo. Quando meu pai saía do piano, eu ia tentar tirar uma música. Conta uma lenda familiar que eu, aos quatro anos, já tocava La Bamba. Eu não lembro. Mas aos quatro anos eu já sabia reconhecer as notas. Se tivesse alguém tocando eu falava: “lá, si. Lá com dó”. Então até refaço meu ponto de vista inicial: acho que foi uma procura natural e talvez mútua. E até hoje a gente se procura.

JLPolítica - Na sua passagem pela Faculdade de Música da UFBA, o senhor ainda sentiu ecos e ressonância do aluno Tom Zé?
JV -
Sim. Se falava muito nele.

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Na farra com o pai João Alberto, o avô João Melo, a cantora Lima Sousa, sua primeira professora de piano, e mãe Lenora

UM CABRA NASCIDO PARA O PIANO
“Conta uma lenda familiar que eu, aos quatro anos, já tocava La Bamba. Eu não lembro. Mas aos quatro anos eu já sabia reconhecer as notas. Se tivesse alguém tocando eu falava: “lá, si. Lá com dó””

JLPolítica - O que Tom Zé representa na música brasileira?
JV -
Creio que muito. A música de Tom Zé é muito livre. Não tenho conhecimento sobre declarações dele acerca das fronteiras entre o popular e o erudito, mas suas composições falam por si. Esses formatos “erudito” ou “popular” não estão em voga em suas canções. Acho que ele faz música da maneira que acredita ser a mais verdadeira, que é o que procuro fazer.

JLPolítica - O senhor acha o Tom Zé incompreendido no seu país?
JV -
Acho. Como todo revolucionário. O tipo de composição dele não segue uma métrica, como alguém que fala “vou colocar aqui um dó maior, um lá menor, um ré e um sol, porque isso que é musicalmente aceito”. Ele quebra com todos os paradigmas e, sim, toda quebra é perigosa.

JLPolítica - Qual a importância dele na Tropicália?
JV -
Eu, sinceramente, considero Tom Zé o maior pilar deste movimento, juntamente com Caetano e Gil. Mas acredito que, naquele momento, ele se aprofundou de maneira peculiar e os outros falaram algo como “vamos aparar aqui umas arestas”.

JLPolítica - Por que a escolha da Faculdade de Ciências Sociais de Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, para um doutorado musical?
JV -
Então, a escolha foi aleatória. Coloquei no Google a busca por um “doutorado na Europa” e o primeiro que apareceu foi em Portugal. Depois pesquisei outros, mas o de Portugal era o mais palpável para mim, porque ele era mais focado na prática que na teoria e eu já tinha um projeto artístico gravado em áudio e em vídeo, que é o contraponto. Ou seja, eu possuía um trabalho prático adiantado, mas ainda não havia um material teórico digno de um doutorado acadêmico convencional. Então, para o que eu tinha, caiu como uma luva. No momento da admissão, eles estavam mais interessados na prática do que na teoria por trás daquelas notas.

JLPolítica - O senhor não saiu pendurado numa mera aventura?
JV -
Não, eu fui com tudo certinho e admito que o que me moveu mais foi a carreira artística. Eu sempre, como quase todo artista, tive um desejo muito grande de querer tocar e cantar para povos do mundo inteiro. Eu queria isso. Engraçado que eu não tenho essa coisa do músico aventureiro. Eu fui para a Europa tentar a carreira, mas o doutorado estava rolando em paralelo. Nunca fui aquele cara de botar a mochila nas costas e onde tivesse um piano eu iria tocar.

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João Ventura e os irmãos - da esquerda para a direita: Thiago, Iandra, ele ao colo, Ianto e Fábio

O TOM ZÉ FOI INCOMPREENDIDO NO SEU PAÍS?
“Acho. Como todo revolucionário. O tipo de composição dele não segue uma métrica, como alguém que fala “vou colocar aqui um dó maior, um lá menor, um ré e um sol, porque isso que é musicalmente aceito”. Ele quebra com todos os paradigmas e, sim, toda quebra é perigosa”

JLPolítica - O senhor já deixa o Brasil com o esboço do contraponto concebido?
JV -
Sim, com certeza. Ele evoluiu muito, mas já era uma ideia altamente clara na minha cabeça.

JLPolítica - O que a sua tese de doutorado sobre a mescla entre o popular e o erudito vai querer ou poder provar academicamente?
JV -
Isso é algo muito engraçado pois foi comentado já na defesa do anteprojeto. No doutorado você faz primeiro este projeto e depois o defende, antes de partir pra tese. Nesta defesa, o coordenador do curso falou que o projeto tinha sido aprovado e que sabia que aquilo funcionava artisticamente, mas que eu precisaria explicar na tese porque funcionaria e porque ele era importante academicamente.

JLPolítica - Qual a dicotomia que o coordenador via entre uma coisa e outra?
JV -
Veja: começa com o fato de que o contributo principal de um doutorado é o acadêmico. A parte artística em si é altamente secundária, segregada. Então, estou tentando produzir significado para a academia. Tenho consciência do contributo do contraponto também nesta área, mas sem dúvidas é uma nova perspectiva para um artista visceral como sou.

JLPolítica - Na linguagem de um leigo, o que é mesmo o contraponto?
JV -
A expressão original vem do latim contrapunctus e significa ponto contra ponto. É a sobreposição de duas linhas melódicas, que podem ser complementares ou contrastantes em si.

JLPolítica - Depois das pesquisas do Mário de Andrade, se produziu muito sobre esse universo entre o popular e o erudito no Brasil?
JV -
Acho que ele foi o grande pensador musical do Século XX. Um dos pilares do modernismo no Brasil que valorizava muito a cultura local em consonância com os principais movimentos europeus.

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João Ventura e o seu espelho maior na música, o avô João Melo de tantos méritos no mundo da música

EM BUSCA DO DOUTORADO E DA CARREIRA
“Fui com tudo certinho e admito que o que me moveu mais foi a carreira artística. Eu sempre tive desejo muito grande de tocar e cantar para povos do mundo inteiro. Eu fui para a Europa tentar a carreira, mas o doutorado estava rolando em paralelo”

JLPolítica - O limite entre o popular e o erudito seria muito tênue?
JV -
Isso é algo bem interessante, e estou tentando provar também com a essa minha tese que o erudito e o popular são uma ilusão. Muita gente, inclusive Mário de Andrade, que eu cito lá, diz que o conceito de popular e erudito tem muito mais a ver com uma construção meramente social do que a musical. Eu não falo em extinguir conceitos estabelecidos, mas sim em abrandar dicotomias.

JLPolítica - Há preconceitos nesse esfera?  
JV -
Muito, infelizmente.

JLPolítica - Qual é o real significado do seu avô João Melo no traçado da sua escolha profissional pela música?
JV -
Eu acho que ele, meu pai e minha mãe também - mas ele inicialmente - deram o aval para a família de que viver de música era um barato. Meu avô João Melo foi um sujeito que viveu de música, na qual imergiu desde os 20 anos de idade, quando cantava nas boates do Hotel da Bahia, onde era crooner. Então a importância dele é fundamental na minha escolha e na minha crença de que a música é um caminho válido.

JLPolítica - João Melo, então, melhorou sua régua e seu compasso?
JV -
Completamente, e com a vantagem de que ele era um crítico assíduo das minhas coisas, ou seja, me colocava pra frente e com os pés no chão.

JLPolítica - Sua mãe Lenora de Almeida Melo Silveira mexe com música também?
JV -
Minha mãe é uma grande conhecedora da música popular brasileira. É uma grande cantora, mas não atua profissionalmente. Mexe, no entanto, com minha música e com meus sentimentos sobre a arte.

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Joãozinho com os pais e o irmão Thiago

MAS, AFINAL, O QUE É MESMO O CONTRAPONTO?
“A expressão original vem do latim contrapunctus e significa ponto contra ponto. É a sobreposição de duas linhas melódicas, que podem ser complementares ou contrastantes em si”

JLPolítica - Quais são as suas reais aspirações no mundo da música? Onde o senhor quer e pretende chegar?
JV -
Eu acredito muito que um músico, um artista, para ter sucesso - e não estou falando de mainstream - precisa ser verdadeiro. Então, eu realmente tenho tentado convidar as pessoas para a minha loucura, sabe. Eu tenho vontade que daqui a 100 anos uma pessoa ouça uma música minha e diga: “quem está tocando é João Ventura”. Isso, independentemente de eu ser o melhor pianista do mundo ou não. Mas que eu faça uma arte com tanta verdade que isso se torne inconfundível. E que eu deixe o meu contributo para a música num sentido mundial, baseado também nisso do contraponto, no rompimento de fronteiras. Eu acho que eu sou o contraponto hoje. Quem me conhece fala que sou o menino que mistura, que toca uma música e canta outra. Acho muito interessante isso, e esse conceito me alcança e me contempla. Acho bem legal, porque as pessoas não são obrigadas a saber ali o que eu misturei, mas sim que o que eu faço é único.

JLPolítica - Você passa muita simplicidade na sua visão de vida musical. É possível ser verdadeiro e simples?
JV –
Sim. Sem dúvida. Eu acho que se pode ser verdadeiro e simples. Não dá é pra ser besta ou arrogante. Na minha casa e na minha família não tem espaço para a arrogância nem para a boçalidade.

JLPolítica - Pode se fazer uma carreira nesse universo pop sem ser de um modo arrogante?
JV -
Sim e isso é interessante. Eu tenho uma grande amiga lá em Portugal, que é uma cantora africana. Quando a conheci, achava ela extremamente arrogante, e eu não chego perto de artista por ele ser famoso e sim por eu gostar do que faz. Aí eu começava a perguntar umas coisas a ela e só me respondia “sim” e “não”. Eu pensava: “que mulher boçal da peste”. Mas hoje a gente tem uma excelente relação e ela disse que me tratou como tratava todo mundo num primeiro contato, e justificou que fez e faz isso porque as pessoas se aproximavam para tirar proveito. Então, às vezes, isso pode ser confundido com ser boçal – e nem sempre o é. Por exemplo: eu não sou famoso e já recebo algumas coisas incômodas, imagine um cara como Caetano Veloso! Vamos supor que eu fosse famosão: a gente está aqui fazendo essa Entrevista na Livraria Escariz, aí chegassem 10 pessoas aqui pedindo para tirar foto comigo. Claro que eu iria pedir um tempinho para terminar a Entrevista, mas na cabeça das pessoas podia passar um “esse menino foi para Europa e voltou boçal” e não seria isso.  Então, é preciso ter cuidado.

JLPolítica - Por que o senhor não deu até agora a devida atenção aos seus dois CDs gravados?
JV -
Vixe! Eu tenho um problema que preciso resolver: tudo que faço, depois de um ano já não funciona. É sério isso. Mas eu vou fazer um resgate desses CDs, porque eles, sem sombra de dúvida, fazem parte realmente da minha caminhada. O primeiro foi o de samba, que é um CD verde ainda, que tem tanta coisa que olho e penso em como as coisas mudaram em 15 anos. Mas preciso entender que faz parte da minha trajetória, sendo assim de suma importância.

JLPolítica - E o outro?
JV -
O outro foi uma tentativa: eu quis fazer um CD de axé melódico. Isso do nada. Eu nunca tinha cantado axé na vida. E fui duramente criticado por todo mundo na UFBA - aluno, professor, todo mundo - que eu acabei me retraindo com esse segundo trabalho. Mas tenho fé em relançá-lo, e colocar que ele faz parte da minha caminhada.

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João bem Joãozinho, sob a seda do afago da avó paterna Nivalda Cardoso Silveira

DOS LIMITES TÊNUES ENTRE O ERUDITO E O POPULAR
“Estou tentando provar também com a essa minha tese que o erudito e o popular são uma ilusão. Muita gente diz que o conceito de popular e erudito tem muito mais a ver com uma construção meramente social do que a musical. Não falo em extinguir conceitos estabelecidos, mas sim em abrandar dicotomias”

JLPolítica - Será que hoje, com o senhor sendo um nome forte do contraponto, eles não aceitariam melhor, sobretudo o do axé?
JV -
Eu acho que sim. Eu tenho conquistado algum respeito.

JLPolítica - Pensas em gravar algo novo por breve?
JV -
Sim, penso. Na verdade, o que haverá de novo será o contraponto nas plataformas digitais. Consegui agora as autorizações do projeto, o que estava muito difícil. As gravadoras estavam dificultando por acharem que eu descaracterizava as músicas.

JLPolítica - Seria preconceito ou preservacionismo em demasia?
JV -
Quando recebi algumas negativas, fiquei puto, e questionei-me a razão para isso. Porque tenho certeza de que se Tom Jobim ouvisse o Contraponto entre a Insensatez + Sonata ao Luar, ele ia dizer um “claro que libero”, porque ele era um estudante da música erudita. Se você pegar Chovendo na Roseira, tem lá influências de obras de Debussy. A própria Insensatez tem trechos de obras de Chopin. Mas não vou culpar ninguém por esse veto, porque às vezes pode ser uma pessoa que entende de comércio mas não é músico propriamente. E os contrapontos, num primeiro momento, podem chocar.

JLPolítica - O senhor virá com alguma coisa dos Beatles nesse novo trabalho?
JV -
Virei, sim. Fiz um contraponto agora entre o Let It Be, de Paul McCartney e a Ave Maria, de Gounod.

JLPolítica - Culturalmente falando, Brasil e Portugal estão frente a frente, de olho no olho um do outro, ou de costas?
JV -
Estão frente a frente, até porque não há outro jeito. Tem muitos brasileiros lá - acho que triplicou de cinco anos para cá. Engraçado que eu nunca senti nenhum tipo de preconceito, como as pessoas me falavam antes. Eu acho que o português, ou o europeu de maneira geral, gosta que você tenha uma postura educada, que peça licença, um por favor, dê um obrigado, e eu nunca tive nenhum problema com isso. Mas musicalmente acho que não temos semelhança.

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Na flor da adolescência com o avô João Melo, que lhe deu régua e compasso

DA IMPORTÂNCIA DO AVÔ JOÃO MELO
“A importância dele é fundamental na minha escolha e na minha crença de que a música é um caminho válido. Eu acho que ele, meu pai e minha mãe também - mas ele inicialmente - deram o aval para a família de que viver de música era um barato”

JLPolítica - O Chico Buarque chega bem por lá ou o disco do António Zambujo com as canções dele é uma ocorrência isolada?
JV -
Chega. Em Portugal, as pessoas sabem cantar quase todas as músicas do Chico Buarque. Os artistas e o público mais velho, não a menina de 15 anos que ouve Justin Bieber, por exemplo. O Chico fez um show desde que eu estou lá, e os ingressos esgotaram com três dias de venda. Ele tem muita fama lá. Não só ele, mas Caetano, Gil, Toquinho, com quem eu tive a oportunidade de lotar duas salas lá. Os portugueses amam a boa música brasileira.

JLPolítica - Ser falante da língua portuguesa potencializa ou esfria um projeto musical que se pretenda de ordem mais planetária?
JV -
Acho que esfria um pouco, e esse é um dos motivos de eu estar me concentrando muito nos contrapontos em língua estrangeira. Tenho feito muitos. Mas tem algo maior do que isso, porque a arte não precisa de palavras, e aí vem aquela coisa da verdade: se você sobe num palco e é verdadeiro, creio que ninguém está ligando se você está falando amor ou love.

JLPolítica - O senhor está disposto a transcender nesse aspecto da língua?
JV -
Sim, porque é importante. Eu fui fazer um show na França, toquei Insensatez, de Jobim, Dia Branco, de Geraldo Azevedo, com Arabesque, de Debussy, e acharam lindo. Mas amaram quando cantei Ne Me Quitte Pas, com a Fantasia Improviso, de Chopin, por questões óbvias. A música comunica, independentemente disso. Mas sou um cara que gosto de me aventurar.

JLPolítica - O que é, para o senhor, musicalmente falando, o país Brasil?
JV -
Para mim, a maior potência do mundo, musicalmente falando. Nessa seara, a gente é um bocado de preto, índio, ruivo, italiano, português, japonês. Nós temos de um tudo aqui. Nós temos o sumo da arte do mundo, tanto é que o mundo inteiro nos reverencia.

JLPolítica - O senhor vê no Brasil algo como uma caixa de ressonância do mundo?
JV -
Eu acho que ainda temos uma coisa provinciana, mas de proporções intercontinentais. Como se a gente tivesse um mundo à parte musicalmente no Brasil, entende?

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Joãozinho entre o avô João Melo e avó Lygia Almeida Melo: afetos familiares bem-definidos

DA POSSIBILIDADE DE SER VERDADEIRO E SIMPLES
“Eu acho que se pode ser verdadeiro e simples. Não dá é pra ser besta ou arrogante. Na minha casa e na minha família não tem espaço para a arrogância nem para a boçalidade”

JLPolítica - Após seu encontro com Madonna o senhor foi para suas mídias sociais e cravejou, agradecido, um “depois eu conto pra vocês como foi esse encontro”. Sim, como de fato nasceu aquele encontro?
JV -
Aquele encontro nasceu loucamente. Eu frequento um bar lá em Lisboa, o Tejo Bar, bem pequeno, e o dono, John Luz, um grande amigo, me ligou um dia e falou pra eu ir lá tocar para uma senhora. Mas ele não me disse quem era. Só recomendou que eu fosse arrumado, cheiroso, com os contrapontos devidamente estudados. Quando eu cheguei lá, era Madonna, aquela entidade e seu chapéu. Sentei perto dela, mas não reconheci. Eu estava sem os óculos. Aí o John falou-me: “É a Madonna”. Eu sentei ao piano e toquei o contraponto da Insensatez com Sonata ao Luar, e aí percebi que ela começou a filmar e a sorrir.

JLPolítica - O sente se entende bem com a língua inglesa?
JV -
Sim. Eu não sou um nativo, mas falo tranquilamente. E aí quando eu terminei, não me despedi dela, porque ninguém estava se aproximando. No outro dia, John falou que ela havia pedido o número do meu telefone. Passou um tempo, e sinceramente não esperei que ela me ligasse. Mas oito dias depois, eu saí pra comprar umas coisas e meu telefone tocou. O número era privado, pensei mil coisas, mas quando atendi, uma mulher fala: “Hello, is Madonna, how are you?”.

JLPolítica - Foi um baque...
JV -
Eu sou gago em português, imagine em inglês, e ainda mais falando com Madonna! Pedi pra ela falar devagar, porque eu estava sem conseguir respirar, e ela então me disse que gostou muito desse rompimento de fronteiras entre o popular e o erudito. Devemos levar em conta que ela rompeu muitas fronteiras também. A Madonna é demais! Eu acho que a importância social dela é tão grande quanto a artística e musical.

JLPolítica – E aí ela lhe formulou um convite...
JV -
Sim. Convidou-me para tocar com ela em Nova York, no dia 7 de maio de 2018. Era uma terça, e no sábado eu teria que ir na casa dela, em Lisboa, com contrapontos de Let it Be, dos Beatles, Haleluia e Frozen, do canadense Leonard Cohen.

JLPolítica - Assim a queima-roupa?
JV -
Veja que coisa: eu demoro três meses para fazer um contraponto, mas fiz os três em três dias. Fui na casa dela e a partir daí a gente começou a desenvolver uma amizade. Ela me dá muita força. Fui ensaiar na casa dela umas três vezes e partimos para Nova York. Ela estava morando em Portugal. Ensaiamos sete dias quase que ininterruptamente em Nova York. A Madonna é bem rigorosa e é bom ver aquilo tudo de perto pra entender que profissionalismo e sucesso andam colados.

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A dupla de irmãos Joãozinho e Thiago

DO ABANDONO DOS DOIS CDS AUTORAIS 
“Eu tenho um problema que preciso resolver: tudo que faço, depois de um ano já não funciona. É sério isso. Mas vou fazer um resgate desses CDs, porque eles, sem sombra de dúvida, fazem parte realmente da minha caminhada”

JLPolítica - Em ordem de grandeza, o senhor considera aquele o evento mais impactante da sua carreira?
JV -
De grandeza midiática, eu diria que sim. Mas o evento mais importante para mim musicalmente foi o show daqui, no Teatro Tobias Barreto, no dia 20 de dezembro do ano passado.

JLPolítica - Como se lhe pareceu a figura pessoal de Madonna?
JV -
Ela não é uma pessoa que vai chegar e lhe abrir um sorriso logo de cara, mas é uma pessoa de um coração inimaginável. As pessoas devem conhecer os projetos sociais dela, e não o são para que ela pareça boazinha. E creio que, no plano pessoal, a Madonna gosta de sentir as pessoas. Ela te olha nos olhos e não tira o olhar nem que a fala dure uma hora. Eu diria que ela é muito mística.

JLPolítica - Musical e socialmente, vocês voltaram a se falar ou a se encontrar novamente?
JV -
Sim. Eu inclusive gravei uma faixa para o atual disco dela, o Madame X, e a gente se fala muito. Ela está em turnê agora, mas ela sempre mandava mensagem dizendo que estava com saudade de me ouvir tocar.

JLPolítica - Qual o elo entre aquele seu encontro com Madonna no Metropolitan Museu, em Nova York, um em maio, e a sua apresentação no Faustão a seguir, em setembro?
JV -
Não teve nenhum elo e Faustão nem falou nisso. Aquela apresentação teve uma particularidade: ia faria parte de uma homenagem a Reginaldo Rossi, no Ding Dong, na qual faço aquela fusão do Voo do Besouro com Garçom. Quem iria seria Toquinho, mas de última hora ele não pôde ir e caiu no meu colo.

JLPolítica - Como é que foi a receptividade à sua apresentação naquele dia 20 de dezembro do ano passado em Aracaju?
JV -
Foi sem dúvida o momento musical mais importante da minha vida. Tive que respirar fundo ao ver aquele Teatro Tobias Barreto lotado. Acho que o sergipano embarcou na minha “loucura responsável”, e isto é maravilhoso. Eu sou do mundo, mas é maravilhoso poder dizer que Sergipe me deu régua e compasso para a vida.

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Em apresentação de gala em Porgutal, onde mora

DO BEM-ESTAR DE VIVER EM PORTUGAL
“Engraçado que nunca senti nenhum tipo de preconceito, como as pessoas me falavam. Acho que o português, ou o europeu de maneira geral, gosta que você tenha uma postura educada, que peça licença, dê um obrigado, e nunca tive nenhum problema com isso. Mas musicalmente acho que não temos semelhança”

JLPolítica - O que ficou de aprendizado e de significação da sua turnê com Toquinho?
JV -
Eu vou voltar na questão da verdade, da qual falamos: Toquinho me ensinou muito em pouco tempo. Mas muito mesmo. E uma coisa que me chamou a atenção, e é bom ouvir esse tipo de afirmação de pessoas como ele, que já está aonde eu quero estar vivendo de música e sabendo o que é importante para se chegar lá. Ele me perguntou se eu estava nervoso ao me ver andando de um lado para o outro, na coxia do Teatro Tivoli, em Lisboa, e eu falei que sim. Ele então me disse: “As pessoas que estão aí não querem ver nada diferente do João Ventura. Então, entre nervoso e, se for preciso, fale que está nervoso”. Entendi que isso foi um conselho para que eu fosse verdadeiro, e não bancasse um personagem. Essa é, sem dúvida, uma boa receita.

JLPolítica - O senhor consegue visualizar uma música que possa representar uma certa matriz sergipana como se identifica uma de matriz pernambucana, baiana ou mineira?
JV -
Acho que isso está em processo de maturação e evolução como todo processo cultural. Acho que estamos entre duas potências culturais, Bahia e Pernambuco, mas estamos achando o nosso espaço aos poucos.

JLPolítica - O senhor apontaria alguém?
JV -
Vejo isso no The Baggios. Para mim, eles são hoje os maiores.

JLPolítica - Na sua visão, o que é que a bossa nova deve ao samba?
JV -
Eu acho que eles se confundem muito em vários momentos, apesar de diversas pessoas dizerem que não. Mas eu entendo que tem muitas semelhanças e complementaridade entre uma coisa e outra. A bossa nova surge com algumas influências do jazz, um movimento altamente elitista, mas deixa um grande contributo para o samba do povão, no sentido de harmonias mais trabalhadas e novas possibilidades estruturais.

JLPolítica - As novas plataformas musicais facilitam ou dificultam a revelação do que há de novo na música do mundo?
JV -
Elas facilitam totalmente. O artista que se preza hoje tem que entender dessas plataformas, tem que fazer e acontecer por aí, porque esse é o caminho. Desconsiderá-las é ficar de fora, com certeza absoluta.   

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João Ventura num momento contemplação: sonho de cantar pro mundo, deixar marcas nos contrapontos, não perder a humildade, mas também não ser besta

CHICO BUARQUE E A ACOLHIDA EM PORTUGAL
“Em Portugal, as pessoas sabem cantar quase todas as músicas do Chico. Os artistas e o público mais velho, não a menina de 15 anos que ouve Justin Bieber, por exemplo. O Chico fez um show desde que eu estou lá, e os ingressos esgotaram com três dias de venda”

JLPolítica - Qual o futuro da música com a extinção do CD e a explosão das plataformas digitais?
JV -
Eu fico com medo de não se ter mais o encarte do disco, de ir numa plataforma e apenas selecionar a música e ouvir. Assusta também o fato de as pessoas darem mais importância à números de visualização que a qualquer outra coisa.  Eu estou até lendo o livro do Mark Ronson que fala sobre as noções de sucesso no mundo atual. Parece que as pessoas estão muito concentradas em quantas visualizações têm no youtube e quantas vezes a música foi tocada no Spotifya. Nesta plataforma, por exemplo, o primeiro dado que pode ser visto é a quantidade de audições que a canção tem. Acho que isso é um perigo, porque arte tem mais a ver com outras coisas. Claro que é importante tornar-se conhecido, mas definitivamente isto é mais uma consequência natural que uma condição para ser considerado um artista relevante.

JLPolítica - O que o senhor acha da volta ao culto do vinil? É algo blasé ou aquele formato terá retorno de fato?
JV -
Acho que não voltará. Sei que os movimentos são pendulares, mas acho que a gente caminha cada vez mais para a facilidade das coisas, para se ter tudo à mão. Então, perder tempo em escolher um disco, tirar ele, limpar, ao invés de simplesmente ouvir através de um clique no Spotify não me parece a escolha do homem moderno.

JLPolítica - O senhor vislumbra um continente com supremacia, ou primazia, musical sobre outro?
JV -
Se eu fosse escolher um, diria que seria a América. Tem vários estilos musicais nela. Tem de um tudo. 

JLPolítica - O senhor tem tempo e interesse de acompanhar o que se passa com a música contemporânea do Brasil? E o que se passa com ela?
JV -
Confesso que estou um pouco por fora disso. Não por não considerar nada bom, mas pelo foco no meu trabalho. Eu estudo e trabalho com isso, mas também tenho meus momentos de não querer ouvir música. Realmente estou ainda num caminho de descoberta do que é a minha música.

JLPolítica - Os modos políticos do Brasil lhe assustam atualmente?
JV -
Muito, mas não quero me aprofundar nisso. Eu respeito muito algumas pessoas que amo bastante e que simpatizam com isso que está aí. Mas é altamente assustador, para a gente que é artista, ter um governo como o que há no Brasil neste momento.

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