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Entrevista

Jozailto Lima

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Jorge Carvalho: “Zé Carlos merece dos que defendem a democracia todas as homenagens”

MDB: três letra que formam um paredão contra a fúria da ditadura militar
17 de agosto - 20h00


O MDB - Movimento Democrático Brasileiro - foi, durante 21 anos, no Estado de Sergipe - e, de resto, no Brasil -, o maior guarda-chuva contra a intolerância e a truculência da ditadura militar que crivou o país entre 1964 e 1985, quando finalmente ela tomba na eleição indireta de um presidente civil pelo Congresso Nacional na pessoa de Tancredo Neves, que não chegou a governar.

A parte sergipana, de 1966, quando sai o decreto do Ato Institucional número 2 instituindo o bipartidarismo - Arena e MDB –, até 1985, é do que trata “Memórias da Resistência”, livro escrito pelo professor Jorge Carvalho do Nascimento, a ser lançado no dia 29 deste mês, a partir das 17 horas, no Museu da Gente Sergipana.

Jorge Carvalho levou de 2008 a 2018 - 10 anos exatos - debruçado sobre uma algaravia de 2.010 exemplares de jornais desse período, lendo da primeira à última página, e entrevistou 16 pessoas para adentrar no âmago desse período e aferir o contributo que algumas figuras e gerações inteiras de sergipanos, sob o manto dessas três letras - MDB - deram para que a democracia fosse, apesar de tudo, mantida como uma chama e, finalmente, restabelecida.

Em “Memórias da Resistência” vão sobressair a força, a ousadia e o destemor dos Teixeira - Oviedo e seus filhos Zé Carlos, Luiz e Tarcísio - na manutenção desse guarda-chuva democrático ativado, mas também o papel de lideranças como Jackson Barreto, Guido Azevedo, Welington Mangueira, João Augusto Gama, Benedito Figueiredo, João de Seixas Dória, Jaime Araújo, Nelson Araújo, Rosalvo Alexandre, entre tantos outros.

““Memórias da Resistência” trata de uma geração, que foi a que fundou o partido que fez oposição e resistiu à ditadura em Sergipe. Estou falando da geração de pessoas como Oviedo Teixeira, do jovem José Carlos Teixeira, de seus irmãos mais jovens ainda Luiz e Tarcísio Teixeira. Estou falando da geração do médico Otávio Penalva, de Propriá, da geração do jovem advogado Guido Azevedo. Da geração do velho homem da UDN, que veio de Propriá, Antônio Tavares, que foi o secretário-geral do MDB, durante anos a fio”, diz Carvalho.

“De homens como os jovens estudantes de Direito, que não foram fundadores do partido, mas que logo se engajariam, como Welington Mangueira, João Augusto Gama, Benedito Figueiredo, Jackson Barreto de Lima. De homens que não estavam na fundação do MDB porque naquele momento estavam com a vida política tolhida, como João de Seixas Dória. Estou falando de homens como o advogado Jaime Araújo”, reforça.

“Sergipe não sofreu nem mais nem menos. Sofreu como todos os demais Estados. Mas naquele momento de ditadura, a ação do MDB foi extremamente importante para que Sergipe mantivesse a esperança na democracia. Foi extremamente importante para que os democratas de Sergipe tivessem um guarda-chuva em uma área institucional. Há uma coisa que a história de Sergipe não pode deixar de reconhecer: sem José Carlos Teixeira, teria sido muito difícil que a oposição tivesse um partido sólido, consistente e forte em Sergipe. Zé Carlos é um homem que merece dos que defendem a democracia todas as homenagens”, constata Jorge Carvalho.

Memórias da Resistência” é um livro generoso com o período e com as figuras que perpassam por ele. Muitos dos fatos políticos de 1966 a 1985 no Estado vão estar ali, enfileirados, analisados pelo autor e amarrados por uma série de personagens que os protagonizaram. Jorge Carvalho lamenta não ter entrevistado um personagem exemplar desse período: Seixas Dória. “Eu queria que o 17º fosse João de Seixas Dória. Mas ele adoeceu e morreu sem conseguir me dar a entrevista”, diz.

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Ivanda (a mãe), Jorge (escoteiro) e Iara (a irmã mais velha - bandeirante) - 1969
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Nasceu em Salvador no dia 28 agosto de 1956

JLPolítica - Quais os principais personagens que perpassam “Memórias da Resistência”?
Jorge Carvalho -
“Memórias da Resistência” trata de uma geração, que foi a que fundou o partido que fez oposição e resistiu à ditadura em Sergipe. Estou falando da geração de pessoas como Oviedo Teixeira, do jovem José Carlos Teixeira, de seus irmãos mais jovens ainda Luiz e Tarcísio Teixeira. Estou falando da geração do médico Otávio Penalva, de Propriá, da geração do jovem advogado Guido Azevedo. Da geração do velho homem da UDN, que veio de Propriá, Antônio Tavares, que foi o secretário-geral do MDB, durante anos a fio. De homens como os jovens estudantes de Direito, que não foram fundadores do partido, mas que logo se engajariam, como Welington Mangueira, João Augusto Gama, Benedito Figueiredo, Jackson Barreto de Lima. De homens que não estavam na fundação do MDB porque naquele momento estavam com a vida política tolhida, como João de Seixas Dória. Estou falando de homens como o advogado Jaime Araújo.

JLPolítica – “Memórias da Resistência” cobre que período da vida política sergipana?
JC -
É um livro que discute um momento do ato institucional n° 2 de 1966, instante em que foram extintos os partidos políticos que existiam e a ditadura estabeleceu que doravante existiriam dois partidos. Um de apoio ao governo da ditadura, que foi a Aliança Renovadora Nacional – a Arena. E um de oposição ao governo da ditadura, que foi o Movimento Democrático Brasileiro - o MDB. Então o livro começa a narrativa em 1966 e vai até 1985, quando se encerra o governo do general João Baptista Figueiredo, o último dos generais presidentes.

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Lara (a neta), Jorge e Ester (a esposa) - Trilha - Canindé do São Francisco - Sergipe - Brasil - 15.10.2016

JLPolítica - O senhor carrega as tintas somente sobre o MDB em detrimento da Arena, que fora seu contraponto naquele período ditatorial?
JC -
É impossível falar da organização do MDB se você não falar da Arena, porque um não existe sem o outro. No momento da sua organização, a Arena foi um grande partido. Teve um presidente da Arena, que foi o senador por Minas Gerais, Francelino Pereira, que cunhou uma frase famosa: ele dizia que a Arena era o maior partido do Ocidente. E era, efetivamente, um grande partido. Agora não sei até onde era efetivamente um partido com alma, posto que era um partido por decreto, e ali dentro se reuniu todo mundo que queria apoiar o governo ditatorial, e quem queria apoiar o governo eram todos. Então foi um partido concebido para somar adversários. Por exemplo, para um militante do PSD, seria de todo intolerável assentar à mesa com um udenista, mas a Arena botou uma mesma mesa com udenistas e pesedistas. Botou à mesma mesa velhos herdeiros do getulismo que aderiram à ditadura. Era quem estava no PTB. Então veja bem: “Memórias da Resistência” não trata somente do MDB. Trata também do adverso a ele - e isso é a Arena.

JLPolítica - O que teria levado a família Teixeira, puxada por Oviedo e Zé Carlos Teixeira, a se encastelar no MDB com tamanha força e coragem?
JC -
Olha, essa é efetivamente uma boa pergunta. A família Teixeira, como todas as outras famílias importantes da vida econômica de Sergipe, poderia ter aderido à Arena. Vou dar um exemplo: Leite Neto morreu em 1964, aos 57 anos, e se imaginava que Zé Carlos Teixeira, deveria ser um herdeiro político natural da liderança dele, porque a outra liderança que tinha dentro do bloco de Leite Neto era Celso de Carvalho. Mas Celso era o vice governador de Sergipe, e era um liderança que estava restrito ao âmbito da região sul do Estado, a partir da sua base em Simão Dias.

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Jackson, Benedito, João Daniel e Jorge - Inauguração da Reforma do Colégio Estadual Benedito Barreto do Nascimento Umbaúba - 13.08.2016

JLPolítica - Essa afeição emedebista começa com Zé Carlos?
JC –
Sim. Zé Carlos Teixeira foi o jovem deputado federal mais votado em 1962 na primeira vez em que foi candidato, porque seu pai Oviedo já exercia uma liderança econômica que influenciava e impactava todo o Estado e principalmente era fortíssimo na região do Agreste por vir de Itabaiana e com influência grande em Ribeirópolis, Frei Paulo, em Carira. Oviedo era proprietário rural nesses municípios todos, tinha lojas e exercia comércio nesses municípios e em todo Estado. Zé Carlos poderia ter sido esse herdeiro natural da liderança de Leite Neto. Todavia recusou. Há, portanto, duas teses sobre essa exceção da família Teixeira. Alguns nutrem a hipótese de que Zé Carlos fez isso porque avaliou que a vida da ditadura seria curta e ele seria, ao fim dela, o chefe de um grande partido. Outros admitem que Zé Carlos imaginava que na Arena tinha gente e lideranças demais disputando o poder - Leandro Maciel, Augusto Franco, Zé Rollemberg Leite, Júlio Leite, Lourival Baptista. A segunda hipótese é Zé Carlos se encantou com o ambiente da liderança criada por Juscelino Kubitschek - ele foi um dos homens que foi superintendente da NovaCap, no DF. Passa por ele a Superintendência da NovaCap, que é uma espécie de Prefeitura de Brasília num processo em que o político Israel Pinheiro, de Minas, foi um nome e Zé Carlos passou por ali em poucos dias. É envolvido com o comando da NovaCap, e é um deputado que vai exercer uma grande liderança na Câmara em nome de Juscelino. Ou seja, foi um figura de proa, logo no primeiro mandato, e isso faz com que ele se entusiasme. Depois, enquanto estavam todos contra, ele apoia um João Goulart na berlinda. E Zé Carlos, segundo depoimento de Oviedo, telefonava da Câmara para dar notícias ao pai, que dizia pra ele tomar cuidado. Resumo: alguns afirmam que isso contaminou ideologicamente o Zé Carlos, que se entusiasmou, entendeu que o caminho era o da oposição à ditadura e arrastou a família.

JLPolítica - Por que Oviedo Teixeira, com duas candidaturas, não atingiu o céu do Senado?
JC -
Oviedo Teixeira foi candidato em circunstâncias muito difíceis. Quando foi criado o bipartidarismo, todos os deputados na Assembleia Legislativa com mandato - e eram 32 e não 24 como hoje -, aderiam à Arena. Dos deputados federais, ficaram no MDB Zé Carlos, Valter Batista e Ariosto Amado, mas quando vem a eleição de 1966 o MDB elege Jaime Araújo. Logo depois, Jaime Araújo é cassado. O parlamento sergipano permaneceu fechado entre os dias nove de fevereiro de 1969 e dois de maio de 1970, exatos 400 dias. Lourival governou por decreto, sem dar satisfação ao Poder Legislativo. Tudo isso dá o quadro político: Logo depois, Jaime Araújo é cassado. O parlamento sergipano permaneceu fechado entre os dias nove de fevereiro de 1969 e dois de maio de 1970, exatos 400 dias. Lourival governou por decreto, sem dar satisfação ao Poder Legislativo. Oviedo vai à candidatura em 66 porque o MDB, quando se constituiu era um partido pequeno e não achou um homem sequer que quisesse ser candidato a senador, e era necessário ter a chapa completa para lançar as candidatura. Zé Carlos Teixeira então seduz o pai para que seja candidato. Ele coloca o nome, mas o partido não acha quem quisesse ser suplente, tamanho o medo do período. João Augusto Gama conta uma história ótima, que consta no livro: Costa Pinto, que era um médico conceituado, da UDN, aderiu ao MDB e estava voltando de uma viagem de férias ao Rio de Janeiro, que à época se fazia de ônibus. No último dia para registrar a chapa, foi o alto comando do MDB sergipano esperar Costa Pinto na Estação Rodoviária para convencê-lo a aceitar ser um suplente da chapa de Oviedo. Ele aceita e é candidato a suplente, mas em cima da hora. Lógico: perdem a eleição, porque as condições eram adversas.

APOLOGIA AOS QUE REISTIRAM À DITARURA MILITAR
“Memórias da Resistência” trata de uma geração, que foi a que fundou o partido que fez oposição e resistiu à ditadura em Sergipe. Estou falando da geração de pessoas como Oviedo Teixeira, José Carlos Teixeira, Luiz e Tarcísio Teixeira, Otávio Penalva Guido Azevedo, Antônio Tavares, Welington Mangueira, João Augusto Gama, Benedito Figueiredo, Jackson Barreto de Lima, João de Seixas Dória, Jaime Araújo”

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Reunião do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação - Consed - Aracaju - Junho de 2016

JLPolítica - Restou confirmado historicamente o acordo entre Oviedo Teixeira e Augusto Franco em 1970 para o Senado e a traição com a eleição de Augusto e de Lourival Baptista?
JC -
Creio que sim. Em 1970, Lourival Baptista tinha sido governador de Sergipe, um realizador que sai do governo com a imagem em alta. Ele soube investir bem em marketing. Foi ele que construiu o Batistão, o Maria Feliciana, orgulho dos sergipanos, o prédio mais alto do Nordeste. Fez estradas importantes, como a rodovia que leva o nome dele e que liga a BR-101 a Lagarto. Havia sido eleito indiretamente, como todos. Biônico. Mas um governador tocador de obra, e foi para a campanha de senador numa chapa com Augusto Franco. Inclusive na convenção da Arena, Augusto Franco foi mais votado do que ele.

JLPolítica – É verdade que Lourival Baptista quase não passa pela berlinda da convenção?
JC –
Sim. Lourival conseguiu viabilizar a candidatura, mas quase perde na convenção por um voto para José Rollemberg Leite, que disputou com ele. Porque era a velha disputa da UDN e PSD, e a UDN fechou toda com Augusto Franco e o PSD votou em Augusto Franco. E Lourival foi o governador que reduziu o poder de influência do PSD e que aspirava também tirar do páreo a liderança de Leandro Maciel, o chefe do seu partido – a UDN. O PSD se reúne com as outras facções da UDN que estavam magoadas com Lourival por não terem sido bem atendidas no Governo e vota em Zé Rollemberg. Passa a convenção e o MDB apresenta Oviedo como candidato ao Senado. Logo depois, Orlando Dantas, em nome de Augusto Franco, procura Oviedo para que ele tivesse conversa com Augusto sobre eleição. Sim, nessa conversa se faz um pacto: seria o de Augusto ser o primeiro voto do bloco de Augusto e o bloco de Augusto daria o segundo voto a Oviedo. Isso isolaria Lourival.

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Inauguração do Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa - Nossa Senhora da Glória - 2017

JLPolítica - Isso é consensual nos partidos dos dois?
JC -
Há setores de esquerda do MDB que não concordam. Por exemplo, os que vinham dos partidos comunistas fecham posição de não votar em Augusto. Outros setores também não gostam disso. Abertas às urnas, Augusto Franco é votado no Agreste, onde era forte a liderança de Oviedo, e em todos os lugares onde Oviedo era o mais votado, o segundo era Augusto. No Vale do Cotinguiba, que era a base eleitoral de Augusto, Oviedo teve uma votação pífia. Resumo da ópera: Augusto trai Oviedo. Recentemente, entrevistando o ex-governador Albano Franco para o livro sobre Jackson Barreto, eu pergunto a Albano sobre isso. Albano me diz: “do mesmo modo que alguns setores do MDB não ficaram satisfeitos, alguns setores da Arena também não gostaram e recusaram”.

JLPolítica - Qual a razão de não ter sido José Carlos Teixeira o candidato a governador em 1982 e até que ponto a derrota de Gilvan Rocha o retirou da sucessão em 1986, quando o PMDB fez governadores em todos os demais Estados do Brasil, exceto em Sergipe, com ele candidato?
JC -
Zé Carlos Teixeira havia cometido um erro em 1978: tinha uma eleição de deputado federal tranquila, muito confortável, mas ficou encantado com a vitória de Gilvan Rocha em 74 ao Senado. E em 78, desiste de ser candidato a federal e se lança a senador, e perde a eleição. Até porque o governo da ditadura tomou uma série de providências na legislação para impedir que naquele 78 repita o feito de 74 com as famosas 16 vitórias que abalaram o país. O que a legislação estabelece: eram duas vagas para o Senado, e os partidos poderiam ter sublegendas - Arena 1, Arena 2, Arena 3. E a legislação diz também que onde houver mais de um candidato a cargo majoritário, somam-se os votos de todos. Em Sergipe, são candidatos Passos Porto, Heráclito Rollemberg e o médico Amaral Lopes. Somam os votos dos três, e aí Passos Porto ganha a vaga e Zé Carlos Teixeira perde.

OS TEIXEIRA TERIAM SIDO ESTIMULADOS POR ZÉ CARLOS
“A família Teixeira, como todas as outras famílias importantes da vida econômica de Sergipe, poderia ter aderido à Arena. Alguns afirmam que isso (o mandato de deputado federal obtido em 62) contaminou ideologicamente Zé Carlos, que se entusiasmou, entendeu que o caminho era o da oposição à ditadura e arrastou a família”

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Denise e Lícia (filhas), Lara (neta) e Ester

JLPolítica - José Carlos Teixeira se recompõe em 1982?
JC -
Em 1982, Zé Carlos não podia ficar sem mandato novamente, porque ele tinha que manter a liderança partidária, e então sai candidato a deputado federal. Ele quer lançar João de Seixas Dória como candidato a governador ali em 1982 contra João Alves Filho, candidato dos Franco, porque os Francos, para viabilizar a candidatura de Albano ao Senado, lançam a de Augusto a deputado federal e traz João Alves, que tinha feito sucesso como prefeito de Aracaju, para ser candidato a governador. E aí Jackson Barreto lança o nome de Gilvan Rocha ao Governo - e estava terminando o mandato dele de Senador. Zé Carlos, que queria Seixas, fica magoado com Jackson e lança Seixas deputado federal para comer o roçado dos colégios eleitorais onde Jackson era votado para federal e ia para uma reeleição. Tanto que Jackson, nessa eleição, é o último da lista. Ele se elege federal, mas no final da apuração. Zé Carlos tem uma votação significativa, mas Seixas Dória fica como primeiro suplente e Gilvan sem mandato.

JLPolítica – Não foram confusas as articulações do PMDB em 1985 para a Prefeitura de Aracaju e em 1986 para o Governo do Estado?
JC -
Em 1985, o MDB faz um acordo com João Alves Filho, que rompe com os Franco, que tinham feito ele governador, e nessa aliança dá a Prefeitura a Zé Carlos e nomeia Heráclito Rollemberg conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Zé Carlos faz uma gestão que encanta e ajuda a eleger Jackson prefeito com votação estrondosa sobre o candidato dos Franco, Gilton Garcia. Surge ali naquele 1985 Marcelo Déda, um jovem recém-formado em Direito pela UFS que tem mais voto do que Gilton. Jackson vem a fazer uma gestão que encanta a sociedade. Vem 1986, ele já se sentindo como um dos grandes líderes do MDB de Sergipe - e efetivamente o é -, cobra que quer participar da chapa majoritária.

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Com as irmãs Conceição e Iara - Indiaroba - Sergipe - Brasil - 23.03.2018 #brasil #sergipe #indiaroba

JLPolítica - Mas aí dá-se uma ruptura fatal com José Carlos Teixeira?
JC -
Sim. O acordo que é proposto pela aliança democrática é Valadares governador, Zé Carlos Teixeira senador e Jackson indica a vaga de vice-governador. É feita uma reunião no Palácio Olímpio Campos e todos os líderes assinam um documento dizendo que estão de acordo com essa chapa, inclusive Zé Carlos Teixeira e Seixas Dória. Acertam para no dia seguinte darem uma entrevista coletiva anunciando-a. Zé Carlos sai da reunião, senta-se ao telefone, é seduzido por Antônio Carlos Franco e Albano Franco e no outro dia de manhã amanhece na TV, quando todos esperavam que ele anunciasse que tinha fechado acordo, anuncia que é candidato a governador. E aí o MDB entra em pânico: João e Valadares vão atrás de Jackson. Os amigos de Zé Carlos percebem o risco da operação que ele fizera - inclusive seus irmãos Tarcísio e Luiz -, vão atrás de Zé Carlos e Jackson e tentam fazer um remendo, uma convenção do MDB que confirmaria a candidatura de Zé Carlos e aprovaria o nome desde que Jackson indicasse o candidato a vice-governador. O nome de Jackson era Benedito Figueiredo.

DO RISCO QUE LOURIVAL CORREU NA CANDIDATURA AO SENADO EM 70
“Lourival conseguiu viabilizar a candidatura, mas quase perde na convenção por um voto para José Rollemberg Leite, que disputou com ele. Porque era a velha disputa da UDN e PSD, e a UDN fechou toda com Augusto Franco”

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Pesquisando nos arquivos da Baden Powell House, quando estava escrevendo a História do escotismo no Brasil - Londres - 2008

JLPolítica – Mas isso não se materializa?
JC -
É feita uma reunião no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe com as bases do MDB. Zé Carlos tem o controle da base do partido e nessa convenção ganha e, ao invés de Benedito, ele aprova o pacto com os Franco e o nome de Passos Porto como candidato a vice-governador. Jackson sai dali derrotado pelo MDB e imediatamente João e Valadares sentam com ele e dizem que aceitam o seu candidato a vice-governador. Jackson então anuncia o rompimento e indica o nome de Benedito Figueiredo como candidato vice-governador na chapa de Valadares.

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Colocando a própria foto na Galeria de ex-secretários - Último dia como Secretário de Estado da Educação - 06 de abril de 2018

JLPolítica - E podia? Benedito não era do PMDB?
JC -
Sentindo a onda, Jackson começou a filiar figuras do seu bloco em outro partidos, porque havia janela na legislação. Deu-se na chapa Valadares e Benedito, que foi a eleita. Aracaju elege Valadares num ano em que o único Estado onde o PFL fez o governador foi Sergipe. Os outros demais foram todos do MDB. Jackson consegue manobrar com Ulisses Guimarães e Sergipe é o único Estado onde o MDB tinha candidato e não recebeu a visita de Ulisses. Porque em Sergipe Zé Carlos havia se omitido na campanha das Diretas Já, causando uma mágoa em Ulisses.

JLPolítica - A ação do MDB teve que peso para que Sergipe sofresse mais ou sofresse menos os efeitos da ditadura militar?
JC -
Sergipe não sofreu nem mais nem menos. Sofreu como todos os demais Estados. Mas naquele momento de ditadura, a ação do MDB foi extremamente importante para que Sergipe mantivesse a esperança na democracia. Foi extremamente importante para que os democratas de Sergipe tivessem um guarda-chuva em uma área institucional. Há uma coisa que a história de Sergipe não pode deixar de reconhecer: sem José Carlos Teixeira, teria sido muito difícil que a oposição tivesse um partido sólido, consistente e forte em Sergipe. Carlos é um homem que merece dos que defendem a democracia todas as homenagens.

GESTÃO DE ZÉ CARLOS NA PMA E O SURGIMENTO DE DÉDA
“Zé Carlos faz uma gestão que encanta e ajuda a eleger Jackson prefeito com votação estrondosa sobre o candidato dos Franco, Gilton Garcia. Surge ali naquele 1985 Marcelo Déda, um jovem recém-formado em Direito pela UFS que tem mais voto do que Gilton”

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Homenageado pelos diretores regionais de Educação - Último dia como Secretário de Estado da Educação - 06 de abril de 2018

JLPolítica - Isoladamente, qual é o papel de Zé Carlos Teixeira no memorial da resistência à ditadura em Sergipe?
JC -
Isoladamente, José Carlos é o homem que fundou o partido que fez oposição à ditadura. Há dois homens que cumpriram o papel de correr atrás dos jovens líderes e trazer para dentro do partido. Um é ele. O outro é Jackson. Um homem que vai para as ruas.

JLPolítica - Quem vem à tona na cena política como consequência da busca que José Carlos Teixeira faz pela renovação junto à juventude sergipana nos anos 70?
JC –
Ah, muitas lideranças. Eu acabei de citar Jackson Barreto, a principal delas que nascem dessa busca de Zé Carlos. Mas temos Jonas Amaral, que foi vereador e deputado; Guido Azevedo se consolida como líder. Rosalvo Alexandre Lima é outro homem que nasce dessa busca – um jovem engenheiro agrônomo que é recrutado, que é um quadro do Partido Comunista e que vai cumprir esse papel. Jovens que estão aí até agora, que eram meninos no PCdoB, como Edvaldo Nogueira e aquela geração e que vai cumprir esse papel. Ou seja, há um conjunto. Leopoldo Souza, que era cunhado de José Carlos, irmão da professora Eugênia, esposa do Zé Carlos. Nelson Araújo é outro nome e que exerce um papel da maior importância. Wellington Paixão, que foi prefeito de Aracaju e que vem dentro deste movimento. Wellington Mangueira, que é o líder do Partido Comunista e que o MDB ampara.

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Homenageado no Centro de Excelência Professora Maria Ivanda de Carvalho Nascimento - Último dia como Secretário de Estado da Educação - 06 de abril de 2018

JLPolítica - Quais as consequências na renovação ou não do MDB de Sergipe na disputa entre autênticos e moderados?
JC -
O movimento dos autênticos foi uma luta nacional do MDB, que, como sabemos, surge como um grande guarda-chuva a abrigar muitos. Você tem os dissidentes do PSD que não quiseram apoiar a ditadura, e tem no MDB um homem como Tancredo Neves, que é da tradicional família mineira. Tem no MDB um homem como o baiano Josapah Marinho, figuras que vieram dos dois partidos. Aqui em Sergipe, por exemplo, Humberto Mandarino, um homem que vem da UDN e que vai se abrigar no MDB por discordar da ditadura. Ao mesmo tempo, tem jovens comunistas, como Jackson, Rosalvo, Wellington Mangueira, Wellington Paixão e tantos outros que acreditam que o caminho para a conquista do poder é o caminho institucional, não acreditaram na luta armada. Esses aí vão para o MDB, mas só que esses querem um MDB mais à esquerda, como Fernando Lira em Pernambuco, Alencar Furtado, um cearense no Paraná, Francisco Pinto, na Bahia. Então, o MDB termina, internamente, dividido em dois blocos: o bloco dos moderados, que são aqueles que o querem mais comportado institucionalmente, e o bloco dos autênticos, que são aqueles que querem um MDB mais rebelde. Em Sergipe, à medida que Jackson Barreto vê a sua liderança crescendo, ele vai se aproximando do bloco dos autênticos. E com a eleição dele como deputado federal em 1978, vai conviver dentro do Congresso Nacional com os autênticos dali e no Congresso ele vai ser um importante quadro de deputado de esquerda a manter relações com os movimentos de esquerda do país todo, a apoiar e a ajudar, e isso o faz um dos líderes nacionais do Movimento dos autênticos. E aqui em Sergipe ele e Zé Carlos Teixeira, que é nacionalmente um dos líderes dos moderados, se dividem. Jackson chefia os autênticos, como o professor Carlos Alberto Menezes, como o hoje promotor aposentado Elias Pinho, Bosco Mendonça, toda aquela juventude que era do MDB que se rebelava contra o status quo e que queria um MDB mais ativo à esquerda.

DOS CASTIGOS INTERNOS AO MDB EM 1986
“Jackson consegue manobrar com Ulisses Guimarães e Sergipe é o único Estado onde o MDB tinha candidato e não recebeu a visita de Ulisses. Porque em Sergipe Zé Carlos havia se omitido na campanha das Diretas Já, causando uma mágoa em Ulisses”

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Homenageado pelos funcionários da Secretaria de Estado da Educação - Último dia como Secretário de Estado da Educação - 06 de abril de 2018

JLPolítica - Que papel a história reserva a Celso de Carvalho na condição de vice-governador e sucessor de Seixas Doria cassado pela ditadura?
JC -
Celso de Carvalho sempre foi um político de perfil mais conservador. Um político ligado ao bloco PSD-PR, ligado à liderança de Leite Neto, e que vai para chapa de Seixas Dória exatamente para representar a Coligação PSD-PR. Lembremos que Seixas é um dissidente da UDN, era deputado pela banda de música da UDN. Ele foi preterido como candidato a governador em 1954, porque o candidato da UDN foi Leandro, que era o chefe do partido. E aí Seixas Dória achava que ia ser candidato a governador em 1958. Leandro impõe o nome de Luiz Garcia, e Seixas fica ressentido e entende que em 1962 é a vez dele. Quando chega 1962, Leandro Maciel aparece com o slogan “Ninguém se perde na volta”, e se relança candidato a governador. Seixas abre a dissidência, se aproxima da do bloco PSD-PR, vira o candidato do bloco a governador e o bloco escolhe Celso de Carvalho como candidato a vice-governador – se elegem. Com o golpe militar, Seixas é deposto e de madrugada os militares vão atrás de Celso dizendo-lhe: “A gente veio lhe dar poder”. Celso aceita a situação e assume o governo. Do ponto de vista do comportamento ético, da gestão, ele faz um governo corretíssimo, é um homem sério, sincero e que inclusive depois de passados os episódios ele é Seixas se reaproximam e voltam a conviver bem. Mas naquele momento, claro que ficou para Seixas a mágoa.

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Cumprimentando o Ministro da Educação, Cid Gomes - MEC - Brasília - Fevereiro de 2015

JLPolítica - Quanto tempo o senhor levou pesquisando o conteúdo que deu em “Memórias da Resistência?”
JC -
Eu comecei a pesquisa em 2008 e terminei de escrever o livro em 2018. Eu trabalhei durante 10 anos fazendo esse livro.

JOSÉ CARLOS TEIXEIRA COMO MARCO DA RESISTÊNICIA
“Há uma coisa que a história de Sergipe não pode deixar de reconhecer: sem José Carlos Teixeira, teria sido muito difícil que a oposição tivesse um partido sólido, consistente e forte em Sergipe. Zé Carlos é um homem que merece dos que defendem a democracia todos todas as homenagens”.

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Falando sobre o Fundeb - Comissão de Educação da Câmara dos Deputados - Brasília - 2017

JLPolítica - Quem o senhor gostaria de ter alcançado entre os seus 16 entrevistados para mais uma entrevista pro seu livro e não pode?
JC -
Eu queria que o 17º fosse João de Seixas Dória. Mas ele adoeceu e morreu sem conseguir me dar a entrevista.

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Com o Ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro - 2015 - Palácio do Planalto - Brasília

JLPolítica - Dos 2010 jornais consultados para a pesquisa do livro, quantos terminaram tendo acolhida de citações?
JC –
Foram 495. Quem já fez pesquisa em jornais sabe o que é ler uma edição do jornal da primeira linha da primeira página à última linha da última página. Eu trabalhei lendo todos eles, porque às vezes na página de esportes, que é o lugar mais improvável, tem uma nota de um discurso que o deputado foi fazer na festa do Confiança e chegou lá ele deu uma declaração que dali se extrai e puxa o fio de algo importante. Outras vezes, num anúncio do Armazém X, você descobre um fato político. Então, tem que ler tudo.

O PAPEL DE CELSO DE CARVALHO NA HORA TENSA
“Celso de Carvalho sempre foi um político de perfil mais conservador. Um político ligado ao bloco PSD-PR, à liderança de Leite Neto, e que vai para chapa de Seixas exatamente para representar a Coligação PSD-PR. Ele é Seixas se reaproximam e voltam a conviver bem”

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Com Carolina Ilídia - Sanção da lei de reforma do ensino médio - Brasília - 2017

JLPolítica - O senhor está escrevendo um livro sobre a figura de Jackson Barreto. Vai chamar-se como e sairá quando?
JC -
Estou terminando de escrever um estudo biográfico sobre Jackson Barreto. Ele é um homem que está com 75 anos e que desde 1972 até 2018 foi uma liderança ativa da política sergipana - exerceu mandatos por 46 anos. É claro que passou alguns períodos sem mandato, mas mesmo sem mandato, não deixou de ser líder político e é o maior líder da história da esquerda em Sergipe. Então, eu entendi que estava na hora de esse personagem ser biografado e estou terminando de escrever o livro “Jackson Barreto: Vitória Popular”. Vitória popular porque ele é um homem que vem da massa, vem da multidão. A previsão é para agora no segundo semestre botar o ponto final e colocar em circulação.

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Falando sobre o Fundeb - Comissão de Educação da Câmara dos Deputados - Brasília - 2017

JLPolítica - É certo ou errado dar JB como uma carta fora do baralho dos processos políticos sergipanos seguintes?
JC -
Creio que errado. Jackson Barreto já foi dado como morto politicamente algumas muitas vezes, e já identicamente ressuscitou. Vamos a exemplos: em 1982, quando houve o enfrentamento entre ele e Zé Carlos Teixeira, em virtude do embate das candidaturas Gilvan Rocha X Seixas Dória, todo mundo disse: “Jackson vai perder a eleição e estará morto”. Todavia, ali Jackson se elegeu deputado federal e saiu de lá para ser prefeito de Aracaju em 1985. Em 1988, quando ele foi submetido a uma cassação na Prefeitura de Aracaju depois da intervenção, disseram: “Agora, acabou a carreira política de Jackson”. E ele saiu daquela cena e se elegeu vereador em 1988 como o mais votado proporcionalmente da história do Brasil em todos os tempos. Em 1992, ele volta a ser prefeito da capital. Em 1994, vai disputar a eleição de governador do Estado e perde para Albano Franco num segundo turno, depois de ter sido vitorioso no primeiro - e lá vem a ladainha: “Acabou a carreira de Jackson”. Em 1998, ele se alia a Albano e perde pro Senado, e aí todo mundo: “Agora, ele não ressuscita mais”. Ele volta deputado federal em 2002, e como o mais votado. Em 2006, se reelege federal, em 2010 se faz vice-governador com Déda, em 2014 se reelege govenador e tromba pro Senado, de novo, em 2018. Ou seja: esse homem tem sete vidas. Não posso é assegurar se ele já gastou estas sete.

“VITÓRIA POPULAR”, UMA BIOGRAFIA DE JB QUE VEM AÍ
“Estou terminando de escrever um estudo biográfico sobre Jackson Barreto. Ele é um homem que está com 75 anos e que desde 1972 até 2018 foi uma liderança ativa da política sergipana - exerceu mandatos por 46 anos”

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Discutindo estágio dos estudantes dos cursos de licenciatura - Comissão de Educação da Câmara dos Deputados - Brasília - 2016

JLPolítica - Naqueles anos de chumbo, houve alguma espécie de Silvério dos Reis entre as figuras da reação sergipana à ditadura?
JC -
Eu não consigo identificá-lo. Eu acho que naquele momento tudo ficou muito claro: quem tinha uma posição de direita, foi para a direita, a Arena. Quem tinha uma de esquerda, foi para esquerda - o MDB.

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Como presidente do Rotary Club de Aracaju Norte - Entrega de certificado ao Tenente-Coronel José Fernandes Carneiro dos Santos Filho, comandante do 28 BC, que fez palestra no clube sobre o Exército brasileiro - 2018

JLPolítica - Olhando o panorama da política nacional, o senhor vê a possibilidade de um retrocesso no casco da democracia?
JC -
Eu não sei se há um retrocesso no casco da democracia. Jair Bolsonaro é um presidente que foi eleito constitucionalmente em eleições gerais que todo mundo viu, e com uma diferença enorme de votos. Num momento em que o mundo estava dando uma guinada à direita, o Brasil deu a sua. Bolsonaro galvanizou o sentimento dos que queriam dar essa guinada. O sentimento dos que não queriam dar essa guinada, mas que se sentiam indignados com algumas ações do Governo de esquerda. Aí ele chega com um discurso que faz a defesa de padrões éticos e morais. Agora, uma vez tendo assumido o poder, Bolsonaro tem demostrado alguns comportamentos que são preocupantes para a democracia. Explico: ele assumiu em nome da defesa desses padrões éticos, mas está fazendo de um tudo para que a sociedade não tome conhecimento das movimentações bancárias do filho senador Flávio Bolsonaro. E não conseguiu explicar de modo convincente um cheque do tal do Queiroz, assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que foi parar na conta da primeira dama. Resultado: para quem entrou na defesa dos padrões éticos, ter essa nódoa inicial é algo complicado. Ele é um homem que não reconhece os problemas seriíssimos e gravíssimos que o país tem, e está preocupado em regular a frequência do intestino grosso dos cidadãos - se é dia sim e dia não que se deve fazer aquilo. Ele está tomando posições, por exemplo, que assustam bases eleitorais dele, como o povo do agronegócio, que tem ficado em polvorosa diante de determinadas situações. Veja a história dos cargueiros do Irã parados no mar do Brasil sem que a Petrobras oferecesse combustível - não fosse a ação do STF nada teria acontecido. Aquilo representou um prejuízo de cerca de US$ 100 milhões para os brasileiros exportadores de milho. Não convencem as posições dele nas questões ambientais. A maneira como ele tratou o problema do sumiço do pai do presidente da OAB pela ditadura foi extremamente agressiva e desrespeitosa. O Brasil tem uma Constituição e uma legislação que condenam o sequestro e a tortura de pessoas pelo Estado, e o presidente faz apologia ao coronel Ustra toda vez que tem oportunidade. Me parece que isso não está correto do ponto de vista do ordenamento constitucional brasileiro.

É ERRADO DAR JB COMO MORTO POLITICAMENTE
“Jackson Barreto já foi dado como morto politicamente algumas muitas vezes, e já identicamente ressuscitou. Ou seja: esse homem tem sete vidas. Não posso é assegurar se ele já gastou estas sete”

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Ao lado da Secretária da Educação de Goiás e do Secretário da Educação do Rio Grande do Sul - Solenidade no Palácio do Planalto - Brasília - 2017

JLPolítica - Que tipo de falta faz Luiz Antonio Barreto na pesquisa folclórica e histórica de Sergipe?
JC -
O Luiz Antonio Barreto é um dos homens mais generosos que eu conheci sob todos os pontos de vista. E foi um homem que estudou de um tudo - política, economia, cultura, folclore, filosofia e história, e reuniu um acervo sobre a vida sergipana como ninguém jamais reunira em tempo algum. E esse acervo era um espaço à disposição de todos os pesquisadores. A ausência dele faz com que a gente não tenha alguém de alta significação para consultar - nos primeiros momentos da pesquisa de “Memórias da Resistência”, ele era uma pessoa a quem eu consultava sobre entrevistas e pessoas, até para que discordasse das posições dele. Eu, como pesquisador e que era muito amigo dele, sinto o vazio. Não tenho o amigo fraterno e nem o intelectual sempre disponível para discutir comigo, com você e com todos os temas de nossa história. Luiz Antonio Barreto nos deixa intelectualmente órfãos.