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Entrevista

Jozailto Lima

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Jorge Santana - Haverá um mundo novo e mais luminoso no pós-pandemia

“A pandemia antecipa e radicaliza mudanças que já estavam em curso”
8h00 - 26 de julho

Haverá um mundo novo e mais luminoso no pós-pandemia. O engenheiro civil, empresário e homem público em stand by Jorge Santana, 58 anos, não produziu literalmente nesta Entrevista Domingueira ao Portal JLPolítica a frase acima e em negrito.

Mas é como se a tivesse produzido, porque toda a síntese do pensamento dele remete e converge para isso e para compreensões e conclusões assemelhadas.Converge, e com fundamentos bem comuns a Jorge Santana, que, em seu raciocínio sempre elevado e aberto ao novo, mais se parece, quando fala e escreve, com um economista do que com um engenheiro.

E neste momento de pandemia, Jorge Santana chamou para si uma definição que o poeta americano Ezra Pound atribuiu aos poetas, a de serem eles a “antena da raça”. Ele se passa como uma afinada antena captadora e definidora deste instante pandêmico e sobretudo do futuro dessa pós-pandemia.

Por prefixar que “nada será como antes” é que vem esse seu “haverá um mundo novo e mais luminoso no pós-pandemia”. Mas Jorge Santana constata isso sem saudosismo. E nem espanto.

Aliás, ele vê o que prevê, inclusive como sucedâneo, ou continuador, de algo que já estava em curso mesmo antes de o vírus negado por Jair Bolsonaro se tornar uma realidade interplanetária. A pandemia, adverte, só agravou essa evolução.

“Acredito que a pandemia, enquanto catalisadora do colapso social, antecipa e radicaliza mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, o desenvolvimento sustentável e a cobrança da sociedade por mais responsabilidade social das empresas”, diz o empresário.

Portanto, reitera. “O coronavírus e a estratégia de distanciamento social estão provocando um vasto conjunto de efeitos, muitos deles certamente capazes de redesenhar, não somente agora, mas em definitivo, valores, hábitos de consumo, formas de trabalhar e de estudar, dentre muitos outros aspectos”.

No caso específico do Brasil, admite Jorge Santana, o pato dessas transformações vai sair um pouco mais rouco e salgado, em virtude das insolentes e descabidas visões públicas de um outro pato, o que preside a República Federativa que dá unidade física à nação.

“Como se não bastasse o vírus, temos como agravante ninguém menos do que o principal mandatário do país em seu incansável esforço para piorar a situação, seja praticando o negacionismo e se opondo ao isolamento social, seja fugindo da responsabilidade de formular e coordenar uma estratégia nacional unificada de enfrentamento à pandemia”, teoriza Jorge Santana.

Nesta Entrevista Domingueira, Jorge Santana, que já foi secretário de Estado sob Governos de Marcelo Déda e municipal de Aracaju sob Edvaldo Nogueira, vai falar dos ganhos de experiência nessas atividades e abordará o papel da Infox, sua empresa de software, que se prepara para cobrir os 27 estados brasileiros em breve.

Mas manifestará, também, crença de que o PT, partido para o qual ele levanta crachás, ainda pode fazer algo pelo bem do Brasil, dirá que aposta no projeto do petista Marcio Macedo na disputa pela Prefeitura de Aracaju este ano e vai estabelecer uma dicotomia entre o que é cientificamente política e a necessidade de um “grau de maturidade do conjunto da sociedade ao fazer suas escolhas” nesta esfera.

Jorge Santana de Oliveira nasceu no dia 7 de julho de 1961 em Capela e é filho João Xavier de Oliveira, de 98 anos, de Maria Lourdes de Oliveira, de 90.

Jorge é casado com a jornalista e ex-secretária de Estado da Comunicação Social, Eloisa Galdino, e é pai de Fábio Barros de Oliveira, 30 anos, Daniel Barros de Oliveira, 26, e de Maria Vitória Galdino de Oliveira, de 3. Já é avô de Benjamin Leal Cardoso Barros de Oliveira, de um aninho. Fez Engenharia Civil pela Universidade Federal de Sergipe, com conclusão em 1984 e reúne um ruma de especializações na área de Tecnologia da Informação, onde atua desde a graduação - a Infox tem 34 anos.

Jorge Santana é um homem social de tripla ação: atua na iniciativa privada, na pública e mete o bedelho em entidades de classe. Foi secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia de Sergipe - Sedetec - de 2007 a 2011 - e secretário Municipal da Indústria, Comércio e Turismo de Aracaju - Semict - de 2017 a 2018.

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Jorge Santana com Marcelo Déda e Belivaldo Chagas, na comemoração dos 48 anos
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Com a irmã Lenira e a irmão Jair: uma infância que vem dos tabuleiros de Capela

PARA ALÉM DO CORONA, UM OUTRO VÍRUS
“Como se não bastasse o vírus, temos como agravante ninguém menos do que o principal mandatário do país em seu incansável esforço para piorar a situação, seja praticando o negacionismo e se opondo ao isolamento social, seja fugindo da responsabilidade de formular e coordenar uma estratégia nacional unificada de enfrentamento da pandemia”

JLPolítica - O senhor acha que é possível medir os impactos das posturas anticientíficas do presidente Jair Bolsonaro nas positivações das pessoas pelo coronavírus e nas mortes delas pela Covid-19?
Jorge Santana -
A pandemia da Covid-19 por si só já trouxe impactos enormes, tornando-se um dos eventos mais devastadores da história humana do ponto de vista sanitário e das sequelas econômicas. Como se não bastasse o vírus, temos como agravante ninguém menos do que o principal mandatário do país em seu incansável esforço para piorar a situação, seja praticando o negacionismo e se opondo ao isolamento social, seja fugindo da responsabilidade de formular e coordenar uma estratégia nacional unificada de enfrentamento da pandemia. O que temos é o Ministério da Saúde acéfalo e os estados e municípios assumindo praticamente sozinhos o ônus do combate à pandemia, uma espécie de salve-se quem puder.

JLPolítica - O senhor consegue mensurar um dano real no PIB financeiro e na significação do país enquanto nação perante o mundo em decorrência dessas posições pouco palatáveis e insolentes do presidente?
JS -
Mesmo antes da pandemia, a imagem do país já vinha se deteriorando a partir das declarações que você definiu muito bem como insolentes e também de várias medidas erráticas que seguem na contramão do que se espera de um país civilizado e democrático.

JLPolítica - E no que o mundo nos vê como um país civilizado e democrático?
JS -
O mundo todo vem acompanhando com grande apreensão os diversos ataques ao meio ambiente intensificados a partir de 2019, com destaque para o aumento do desmatamento na Amazônia e outras agressões a nossa fauna e flora. Quanto ao dano econômico, de acordo com um levantamento recente que cruza previsões do Fundo Monetário Internacional com a edição mais recente do Boletim Focus, do Banco Central, nove em cada 10 países devem atravessar esta crise melhor do que o Brasil, que ficará na 171ª posição entre 192 países.

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Um momento paz em família: com a esposa Eloisa Galdino e a filhota Maria Vitória Galdino de Oliveira, hoje com três anos

QUEM GANHA COM A IDEOLOGIZAÇÃO DO CORONAVÍRUS
“Se alguém está ganhando alguma coisa é o presidente da República, na medida em que encontrou na pandemia um novo e poderoso nutriente para alimentar seu séquito, felizmente cada vez menor, que insiste em negar a realidade e acreditar nas suas teorias quixotescas e nas fake news produzidas e distribuídas ininterruptamente”

JLPolítica - Com nos sairemos sul-americanamente?
JS -
Na lista dos sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior e deve ficar em penúltimo lugar. Por outro lado, a acentuada queda do investimento externo direto, para além do fator pandemia, revela o aumento da aversão ao risco do investidor e está diretamente relacionada à inépcia com que o Governo Federal vem atuando no seu combate.

JLPolítica - Alguém ganhou com a ideologização do coronavírus e da doença Covid -19 no Brasil?
JS -
Se alguém está ganhando alguma coisa é o presidente da República, na medida em que encontrou na pandemia um novo e poderoso nutriente para alimentar seu séquito, felizmente cada vez menor, que insiste em negar a realidade e acreditar nas suas teorias quixotescas e nas fake news produzidas e distribuídas ininterruptamente por uma rede de apoiadores. Enquanto isso, o país segue acumulando perdas imensuráveis, sobretudo dezenas de milhares de vidas e milhões de empregos, números que poderiam ser bem menores se a pandemia fosse enfrentada com o mínimo de responsabilidade e de respeito à ciência.

JLPolítica - O senhor tem que visão das políticas públicas do Governo do Estado de Sergipe e da Prefeitura de Aracaju frente à pandemia do coronavírus?
JS -
Na ausência de uma estratégia unificada nacional de enfrentamento da pandemia, fica difícil julgar as políticas adotadas por estados e municípios. Vejamos o método básico e essencial para o controle da propagação da doença conhecido como TTT - Test, Track and Trace -, que consiste em testar a população, monitorar os infectados e rastrear os contatos sociais que o infectado teve antes de ser diagnosticado.

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Jorge Santana com os três filhos - Fábio, Daniel e Maria Vitória -, e o neto Benjamin

DA PREOCUPAÇÃO DO ABRE-E-FECHA DA ECONOMIA
“Não há como ignorar o grau de apreensão, em muitos casos chegando ao desespero, de empresários que estão há 90 dias com seus estabelecimentos fechados, principalmente aqueles cujas empresas são de micro e pequeno portes. Igualmente preocupante é a situação de autônomos e de empreendedores individuais, além da legião de informais”

JLPolítica - O Brasil desconsiderou o TTT?
JS -
Embora insistentemente recomendado pela OMS desde março, foi timidamente adotado pelo Ministério da Saúde, que se limitou a uma insuficiente produção, aquisição e distribuição de testes, inviabilizando a indispensável testagem em massa. Não esqueçamos que a tragédia não é maior porque o desmonte deliberado do SUS ainda não tinha se consumado na sua plenitude. De todo modo, acredito que as deficiências crônicas do sistema estadual de saúde prejudicam o combate à pandemia em Sergipe. No caso específico de Aracaju, ainda temos a acentuada queda da taxa de cobertura da população por equipes de atenção básica a partir de 2008.

JLPolítica - Qual é o seu conceito de fecha-e-abre das atividades econômicas em decorrência da pandemia, sempre em pauta nesta hora?
JS -
Não há como ignorar o grau de apreensão, em muitos casos chegando ao desespero, de empresários que estão há 90 dias com seus estabelecimentos fechados, principalmente aqueles cujas empresas são de micro e pequeno portes. Igualmente preocupante é a situação de autônomos e de empreendedores individuais, além da legião de informais, que se veem sem condições de sustentar suas famílias. Isso sem falar no crescente número de trabalhadores que estão amargando as perdas dos seus empregos. Ocorre que relaxar o isolamento e reabrir os estabelecimentos sem a adoção do citado protocolo TTT, que garantiria o isolamento social dos infectados e impediria que a disseminação da doença voltasse a ganhar impulso, a tendência é que novos períodos de isolamento sejam necessários e, como consequência, a recuperação econômica seja mais lenta e tumultuada com a alternância de aberturas e fechamentos dos estabelecimentos.

JLPolítica - No aspecto econômico, que mecanismo poderia ajudar a melhorar no isolamento nesta hora?
JS -
Vários países têm mostrado que a única forma de garantir o isolamento e conter a propagação da doença consiste em adotar mecanismos de socorro às pessoas e às empresas, principalmente por iniciativa do Governo Federal, que tem mais instrumentos para tal, mas que vem fazendo bem menos do que deveria e, ainda assim, a reboque do Congresso Nacional e a passos de tartaruga. Obviamente, medidas complementares originárias dos governos estaduais e municipais são igualmente essenciais.

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Com Eloisa Galdino na Maratona do Rio em 2919: as corridas de rua se tornaram um dos principais hobbies do casal

PERDAS ECONÔMICOS PELA PANDEMIA JÁ SÃO REAIS
“Os efeitos econômicos da pandemia já se instalaram e o debate atual é sobre o tamanho do estrago. No caso brasileiro, a situação é ainda pior, considerando que o país vinha crescendo na casa de 1%, atrás da maior parte do mundo, fruto da reconhecida incapacidade de políticas econômicas austericidas”

JLPolítica - É razoável a criminalização entre os que querem abrir e os que querem fechar tudo na esfera econômica?
JS -
Esse é um debate improdutivo, que em nada contribui para o enfrentamento de uma situação tão grave e que só existe por causa da irresponsável ideologização de um tema que deveria estar circunscrito à ciência, cabendo ao governo exercer a liderança em favor da compreensão, da unidade e da cooperação da sociedade. É isso o que temos visto mundo afora, e que tem dado certo.

JLPolítica - O senhor subscreve a tese de que no pós-pandemia do coronavírus virá uma pandemia de ordem econômica, ou as coisas não serão bem assim?
JS -
Os efeitos econômicos da pandemia já se instalaram e o debate atual é sobre o tamanho do estrago. No caso brasileiro, a situação é ainda pior, considerando que o país vinha crescendo na casa de 1%, atrás da maior parte do mundo, fruto da reconhecida incapacidade de políticas econômicas austericidas inverterem o ciclo da estagnação para a retomada do crescimento econômico. Para se ter uma ideia, sete em cada 10 países cresceram mais do que o Brasil no ano passado, segundo o FMI. A OCDE - o clube dos países ricos - considera que será a pior crise em 100 anos. Portanto, preparemo-nos para tempos muito difíceis pela frente.

JLPolítica - Este novo normal do pós-pandemia será o suficiente para pôr mais profundamente em xeque o capitalismo tal qual o temos hoje?
JS -
Não tenho dúvidas de que a pandemia acelera o processo de transição para um novo capitalismo, que já vinha sendo proposto a partir do esgotamento do modelo atual e sua incorrigível capacidade de produzir desigualdade social.

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Com Maria Vitória no colo, assiste afetivamente aos pais: João Xavier de Oliveira, de 98 anos, de Maria Lourdes de Oliveira, de 90

NASCERÁ UM CAPITALISMO MAIS HUMANO E SOLIDÁRIO
“Essa nova versão do capitalismo, mais humano e solidário, tem como fundamentos criar valor para os clientes, investir nos empregados e se contrapor à crescente precarização das relações de trabalho, promover a diversidade e inclusão, lidar com os fornecedores e os governos de maneira ética, apoiar as comunidades em que atuam e proteger o meio ambiente”

JLPolítica - Como seria esta nova realidade?
JS -
Essa nova versão do capitalismo, mais humano e solidário, tem como fundamentos criar valor para os clientes, investir nos empregados e se contrapor à crescente precarização das relações de trabalho, promover a diversidade e inclusão, lidar com os fornecedores e os governos de maneira ética, apoiar as comunidades em que atuam e proteger o meio ambiente.

JLPolítica – Mas já existe algo parecido.
JS -
Na verdade, não estamos falando de algo inédito, senão na disseminação da socialdemocracia consolidada em países do norte europeu, cujas políticas incluem um amplo e abrangente Estado de bem-estar social que se baseia, ao mesmo tempo, nos fundamentos econômicos do capitalismo de livre mercado. O protagonismo desse Estado universalista é destinado a aumentar a autonomia individual e a promover a mobilidade social, a antítese, portanto, do estado mínimo.

JLPolítica - Essa nova realidade fará que exigências para se tornar de fato real?
JS -
Todo esse cenário virtuoso exige um sistema tributário mais progressivo, que calibre apropriadamente os impostos cobrados sobre a renda e o patrimônio. No caso do Brasil, será preciso atacar a elevada regressividade do sistema tributário, as isenções para rendas de capital e o fato dos impostos sobre rendas mais altas e heranças terem alíquotas muito baixas, quando comparadas com o que se vê em países mais avançados.

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Eliane Aquino, considerada pelo casal como uma amiga queridíssima, é recebida por Jorge Santana e Eloisa Galdino

DA TESE DO “NADA SERÁ COMO ANTES”
“Acredito que a pandemia, enquanto catalisadora do colapso social, antecipa e radicaliza mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, o desenvolvimento sustentável e a cobrança da sociedade por mais responsabilidade social das empresas. Os impactos, em alguns casos disruptivos, atingirão as mais diversas atividades econômicas”

JLPolítica - O senhor é signatário da tese de que “nada será como antes” no pós-pandemia do coronavírus na forma de existir e de fazer negócios. Mas quais os setores mais suscetíveis a impactos e mudanças?
JS -
O coronavírus e a estratégia de distanciamento social estão provocando um vasto conjunto de efeitos, muitos deles certamente capazes de redesenhar, não somente agora, mas em definitivo, valores, hábitos de consumo, formas de trabalhar e de estudar, dentre muitos outros aspectos. Acredito que a pandemia, enquanto catalisadora do colapso social, antecipa e radicaliza mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, o desenvolvimento sustentável e a cobrança da sociedade por mais responsabilidade social das empresas. Os impactos, em maior ou menor grau, em alguns casos disruptivos, atingirão as mais diversas atividades econômicas, com destaque para o comércio, a educação, a cultura, o entretenimento e o turismo. O trabalho remoto, a partir de casa ou de espaços de coworking, poderá acelerar o êxodo urbano, ou seja, a migração de muitas pessoas dos grandes centros para comunidades afastadas ou para cidades do interior.

JLPolítica - Qual é o futuro do emprego nesse contexto, precedido das mudanças que já vinham de antes do surto?
JS -
Os estudiosos já apontavam os problemas da desindustrialização em muitos países e da transformação digital nas organizações, com perda de empregos e sistemas inadequados para as pessoas passarem dos empregos antigos para a nova economia. Confesso que essa é minha grande preocupação, sobretudo com a atual política econômica neoliberal do governo, que rejeita políticas sociais inclusivas e medidas compensatórias, como a garantia de uma renda mínima para aqueles que não conseguirem se recolocar no mercado de trabalho, instrumento ainda mais indispensável no pós-pandemia.

JLPolítica - O senhor se espanta com o grau de intolerância política a que chegou a sociedade brasileira nos últimos tempos?
JS -
Sim, muito, embora não seja difícil encontrar a explicação historicamente comprovada, segundo a qual a intolerância sempre foi uma das principais táticas das catastróficas aventuras da extrema-direita. No nosso caso, há um consenso entre os sociólogos progressistas segundo o qual a intolerância travestida de toda sorte de preconceito já existia latente em grande parte dos brasileiros, que se viu diante de um espelho ao se deparar com o candidato que terminou por vencer o pleito eleitoral de 2018. O fato é que nossa ainda jovem democracia permitiu que um projeto nitidamente inspirado no fascismo prosperasse pelo voto direto para, em seguida, atentar sistematicamente contra a própria democracia. Certamente cada um tem uma parcela de responsabilidade e de culpa, desde os líderes políticos democratas, passando pelos partidos, pela mídia e pelas instituições, até o cidadão que não compõe o terço que ideologicamente entrou em sintonia com a extrema-direita, mas mesmo assim a ela deu o seu voto.

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Jorge Santana sendo homenageado pelo então coordenador do Fórum Empresarial, Juliano César, pelos serviços prestados ao setor quando esteve à frente da Sedetec

DO ESPANTO COM A INTOLERÂNCIA ATUAL NA POLÍTICA
“Embora não seja difícil encontrar a explicação historicamente comprovada, segundo a qual a intolerância sempre foi uma das principais táticas das catastróficas aventuras da extrema-direita. No nosso caso, há um consenso entre os sociólogos progressistas segundo o qual a intolerância travestida de toda sorte de preconceito já existia latente em grande parte dos brasileiros”

JLPolítica - Mas o senhor consegue visualizar um fim desse estado de coisas?
JS -
Como disse, a intolerância é ingrediente de um receituário e continuará sendo incentivada. O que mais preocupa é a timidez da reação, fazendo lembrar o poema de Eduardo Alves da Costa, erroneamente atribuído a Maiakoviski, que diz: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”.

JLPolítica - Aonde o senhor acha que vai dar o Movimento Somos 70%? A oposição convergirá em 2020 para amalgamar esses 70% que rejeitam Bolsonaro ou vai seguir dispersa?
JS -
Movimentos apartidários como o Somos 70%, Estamos Juntos e Basta! são essenciais enquanto mobilizadores da sociedade para tentar conter o assanhamento daqueles que sonham com uma ruptura institucional e com a implantação de um regime autoritário, mas como disse antes, os vejo ainda muito aquém do que deveria ser uma contundente reação a esse devaneio que, por mais surreal que possa parecer, traz embutido o risco de se tornar realidade. Quanto à unidade das oposições agora em 2020, pelo visto não veremos, contribuindo para fortalecer a extrema-direita. Oremos para que até 2022 essa unidade se estabeleça com capacidade para atrair todos os que valorizam a democracia e evite que esse projeto antidemocrático de desconstrução nacional se prolongue, muito embora seja difícil antever se ele sobreviverá até lá, ao menos sob os marcos do Estado Democrático de Direito.

JLPolítica – O PT, partido para quem o senhor levanta crachá, ainda reúne chances de apresentar um projeto em favor do Brasil?
JS -
Não precisa ser um cientista político para enxergar nos governos petistas o predomínio de políticas públicas inspiradas na socialdemocracia, de cujo ideário sou adepto convicto. Como acredito, e afirmei antes, que o mundo pós-pandemia vai exigir governos socialdemocratas, entendo que o PT reúne todas as chances de reapresentar esse projeto para o Brasil. Isso não significa que eu ignore os erros e os equívocos, alguns deles imperdoáveis, praticados por alguns membros desse partido.

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Quando coordenou o Fórum Empresarial de Sergipe no começo dos anos 2000, Jorge Santana botou em pauta bons temas do desenvolvimento do Estado

DO ESPAÇO AINDA RESERVADO AO PT NO BRASIL
“Não precisa ser cientista político para enxergar nos governos petistas o predomínio de políticas públicas inspiradas na socialdemocracia. Como acredito que o mundo pós-pandemia vai exigir governos socialdemocratas, entendo que o PT reúne todas as chances de reapresentar projeto para o Brasil. Isso não significa que ignore erros e equívocos praticados por alguns membros desse partido”

JLPolítica - O senhor acha que Márcio Macedo está preparado para encarar a missão da candidatura e de um eventual governo se for o eleito?
JS -
Acredito que Márcio Macedo tem experiência política e administrativa acumulada suficientemente para encarar essa missão. A partir de um programa de governo construído de forma participativa e sintonizado com o presente e com uma visão de futuro de Aracaju, privilegiando o planejamento urbano, as políticas sociais inclusivas e o desenvolvimento econômico, e tendo como inspiração as gestões de Marcelo Déda, entendo que Márcio poderá inaugurar uma fase de transformações positivas há muito demandadas pela nossa cidade.

JLPolítica - Qual é o seu conceito da gestão que o prefeito Edvaldo Nogueira faz em Aracaju?
JS -
Em minha opinião, uma gestão convencional, tipo mais do mesmo, baseada no binômio obras e zeladoria, muito distante do projeto desafiador e inovador que elaboramos como seu programa de governo em 2016. Por outro lado, depois das gestões de Marcelo Déda a administração municipal de Aracaju secundarizou a mais essencial das suas funções, o planejamento urbano, a ponto de termos um Plano Diretor datado de 2000.

JLPolítica - Na área em que o senhor atuou, Edvaldo conseguiu fazer de Aracaju uma cidade de fato inteligente ou está faltando algo a mais nesse QI?
JS -
Iniciar a jornada em direção a uma Aracaju inteligente, humana e criativa foi o principal eixo programático da chapa Edvaldo-Eliane e se transformou no slogan da gestão. Meu principal papel nos 15 meses em que participei da administração municipal era dar os primeiros passos dessa jornada, uma vez que não se trata de um projeto ou de um programa, e houve algum resultado, mas faltou e acho que continua faltando uma compreensão mais ampla do tema e a devida priorização. Sem essa visão, teremos apenas iniciativas isoladas, partes dissociadas de um todo.

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De um tempo de secretário de Estado: foram frequentes as audiências com o governador Marcelo Déda levando empresários dispostos a investir em Sergipe

DO ESPÓLIO DAS PASSAGENS PELA VIDA PÚBLICA
“Minhas passagens pela administração pública foram enriquecedoras, especialmente no comando da Sedetec. Sem falsa modéstia, dei o melhor de mim em favor das políticas de desenvolvimento econômico e de turismo, assim como de fomento à ciência, tecnologia e inovação, tendo colhido resultados que superaram nossas mais otimistas expectativas”

JLPolítica - Quando, enfim, para o senhor a política será uma instituição 100% a serviço do bem-comum e da civilidade?
JS -
Partindo da definição clássica de Nicolau Maquiavel, segundo a qual a política é “a arte de conquistar, manter e exercer o poder”, acredito que não devemos alimentar visões românticas sobre ela. Os partidos e seus líderes, mesmo ocupando posições diametralmente opostas no espectro ideológico, apresentam seus projetos subordinados ao ideário da parte que representa, mas sempre acreditando que estão a serviço do bem-comum. A grande questão, acredito, reside no grau de maturidade do conjunto da sociedade ao fazer suas escolhas políticas.

JLPolítica - No poema “Resíduo”, lá em “A Rosa do Povo”, Drummond tem um verso famoso, no qual diz que “De tudo fica um pouco / Fica um pouco de teu queixo / no queixo de tua filha”. Para o senhor, ficou algo de positivo nas suas passagens pela esfera pública do Estado de Sergipe e do município de Aracaju?
JS -
Minhas passagens pela administração pública foram enriquecedoras, especialmente no comando da Sedetec. Sem falsa modéstia, dei o melhor de mim em favor das políticas de desenvolvimento econômico e de turismo, assim como de fomento à ciência, tecnologia e inovação, tendo colhido resultados que superaram nossas mais otimistas expectativas. Encontramos uma repartição envelhecida, cartorial, a vetusta Secretaria da Indústria e Comércio, e a transformamos em um dos motores do desenvolvimento de Sergipe, liderando a política industrial, implantando uma política efetiva de apoio às micro e pequenas empresas e de organização dos arranjos produtivos locais, além de resgatar o papel da Fapitec enquanto agência de fomento e do ITPS como uma instituição de pesquisa e de prestação de serviços à sociedade.

JLPolítica - Este momento pandêmico atrapalhou as ações da sua Infox?
JS -
A pandemia atrapalhou as atividades empresariais em geral, mas no nosso caso trouxe alguns benefícios, principalmente a comprovação de que o trabalho remoto - home office - tem eficácia para empresas como a Infox. Até então tínhamos dúvidas sobre essa efetividade. Ademais, como atuamos diretamente nos processos de transformação digital de organizações públicas e privadas, a pandemia aumentou a demanda por esse tipo de competência, tanto assim que não precisamos antecipar férias e nem suspender contratos ou reduzir a jornada de trabalho de nenhum colaborador. Ao contrário, estamos abrindo vagas.

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A Infox, 34 anos e planejando crescimento, tem um bom time de colaboradores

INFOX ABRIRÁ TENTÁCULOS SOBRE OS 27 ESTADOS
“Atualmente temos clientes em Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará e Distrito Federal, com filiais no Porto Digital do Recife e em Brasília. Até o final do ano, por conta de um cliente que tem atuação nacional, uma de nossas soluções estará presente em todos os 27 Estados”

JLPolítica - As suas passagens pelo poder público como executivo comprometeram o desempenho da Infox enquanto empresa?
JS -
Empresas do porte e da natureza da Infox costumam ter uma certa dependência do seu fundador, que termina sendo o timoneiro do barco e inspirador da tripulação. Por esse motivo, houve algum grau de comprometimento do desempenho da empresa enquanto estive afastado para exercer função pública, tanto assim que me vi obrigado a pedir a Marcelo Déda que me dispensasse do seu segundo mandato, embora meu desejo e o dele era de continuidade, não necessariamente na Sedetec.

JLPolítica – Mas acaso lhe ajudaram a auferir algum bom proveito?
JS -
Proveito empresarial, nenhum. Ao contrário, a empresa ficou impedida de contratar com órgãos estaduais, por exemplo. Os ganhos, como disse, foram de ordem pessoal, a partir de aprendizados, ampliação da rede de relacionamentos e satisfação em contribuir com o desenvolvimento da minha terra. Ter trabalhado sob a liderança de um político da estatura de Marcelo Déda serviu para confirmar minha percepção de que é possível governar com seriedade, competência e honestidade.

JLPolítica - A Infox está presente em quantos Estados brasileiros?
JS -
Atualmente temos clientes em Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará e Distrito Federal, com filiais no Porto Digital do Recife e em Brasília. Até o final do ano, por conta de um cliente que tem atuação nacional, uma de nossas soluções estará presente em todos os 27 Estados. A principal expertise da Infox é automação de processos de negócio utilizando plataforma tecnológica própria e em nosso acervo consta a concepção e o desenvolvimento do Sistema de Processo Judicial Eletrônico – PJE - para o TRF da 5ª Região, produto que depois foi padronizado para todo o judiciário brasileiro pelo Conselho Nacional de Justiça.

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Jorge Santana com o amigo José Teófilo, em viagem pela Califórnia, Estados Unidos

DA REVALIDAÇÃO E DA REPOTENCIALIZAÇÃO DA TI
“A pandemia está acelerando o processo de transformação digital das organizações, processo este que se tornou urgente e requisito para a sobrevivência de muitos negócios. Estamos falando da transição do analógico para o digital, com foco na experiência do cliente, buscando engajá-lo ao invés de apenas fidelizar”

JLPolítica - O mercado de produção de software não estaria saturado no Brasil pelo excesso de concorrência?
JS -
Ao contrário, ainda há uma imensa demanda reprimida que em parte é atendida com softwares importados e outra parte por softwares nacionais, como os nossos. O Brasil sempre teve uma tradição de produzir software de qualidade em um segmento altamente competitivo, onde predominam produtos estrangeiros, sobretudo dos Estados Unidos.

JLPolítica - Qual é o peso de Sergipe na carta de negócios da Infox?
JS -
Atualmente temos poucos clientes em Sergipe, algo que representa menos de 10% do nosso faturamento, mas pretendemos aumentar nossa presença no mercado local, tanto no setor público quanto no privado.

JLPolítica – O pós-pandemia revalida e repotencializa o universo da Tecnologia da Informação?
JS -
A pandemia está acelerando o processo de transformação digital das organizações, processo este que se tornou urgente e requisito para a sobrevivência de muitos negócios. Estamos falando da transição do analógico para o digital, com foco na experiência do cliente, buscando engajá-lo ao invés de apenas fidelizar. Isso implica em adaptação ou até substituição de modelos de negócios que passam a demandar operações digitais, ou seja, atividades cada vez mais suportadas pela tecnologia. E essa necessidade de transformação digital cobre praticamente todas as organizações, independentemente do segmento e do porte, ampliando significativamente as oportunidades para as empresas de Tecnologia da Informação.

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Inauguração da sede da Infox em 2001