Interviewer 9c963a73b5519178

Entrevista

Jozailto Lima

Compartilhar
Cover image 430555ea74e0a31b

Kaká Andrade: “Não há civilização sem ciência e tecnologia. E o ITPS é isso”

Publicado em 19  de janeiro de  2019, 20:00h

Canindé não pode e nem merece ser administrada sem um sonho por trás”

Aos 58 anos, cabe a Antonio Carlos Porto de Andrade, o Kaká Andrade, tocar em frente uma das instituições mais importantes da vida pública e particular sergipana, que é o Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe - o velho, ativo e imprescindível ITPS de 96 anos, uma autarquia fundada pelo governador Graccho Cardoso com o apoio do professor Archimedes Pereira Guimarães lá em 1923.

Numa dessas casualidades da vida pública, Kaká Andrade no ITPS é o homem certo no lugar certo: ele é um engenheiro químico, um químico industrial e é, sobretudo, um político e um gestor público com conhecimento de causa em passagens reais por executivos e legislativos.

Já foi de vereador da sua Nossa Senhora de Lourdes (em 2000, e o mais votado) a senador (este como segundo suplente, é claro), passando por bons períodos como secretário do complexo e outrora rico município de Canindé de São Francisco, sob a gestão do irmão Orlandinho Andrade e um pequeno período na de Ednaldo Vieira de Barros, o Ednaldo da Farmácia, atual gestor, com quem é rompido politicamente desde o ano passado.

E é do alto dessa expertise que Kaká Andrade se dá em depoimento aberto a esta Entrevista. Ele começa por reconhecer o peso e a importância da ciência, da pesquisa e da tecnologia no desenvolvimento dos países e Estados, e por inserir-se pessoalmente com naturalidade nessa esfera.

"Em primeiro lugar, (o IPTS) é o terceiro mais antigo Instituto de Tecnologia do país. Antes dele, havia apenas os Instititos de São Paulo (IPT)  e o do Rio de Janeiro (INT).  O ITPS é um órgão que presta serviço ao Estado e que tem a delegação do Inmetro - ou seja, é o Inmetro no Estado de Sergipe - e é um órgão que tem laboratórios que também prestam relevantes serviços”, diz ele

“Até hoje a gente ainda vê os orçamentos para a ciência e a tecnologia, em nível de Brasil, muito baixos. E é preciso entender que a soberania de um país está intimamente ligada ao desenvolvimento dessa área, porque senão vamos ficar eternamente dependentes de fora. Não há civilização sem ciência e tecnologia. E o ITPS é isso em âmbito de Sergipe”, reforça ele.

Na condição de engenheiro químico e químico indústria, Kaká Andrade sente-se um peixe dentro d’água no comando do IPTS. Para ele, tudo “facilita”. “Com a formação que a gente tem, já se começa utilizando tecnicamente a mesma linguagem. A relação com os técnicos num órgão de pesquisa, de ciência e tecnologia fica mais fácil quando se é um deles”, delimita.

Mas Kaká é também, e talvez sobretudo, político. No próximo dia 31 deste janeiro, faz oito anos que é o primeiro suplente de senador de Eduardo Amorim, PSDB, a quem chegou a suceder por 121 dias, e por quem admite respeito e admiração. Kaká avisa que nesse pequeno lapso de tempo deu pra ser feliz e fazer algo de positivo.

“Foi uma passagem curta, mas intensa e efetiva. Nós apresentamos oito projetos de lei em diversas áreas, como o de uma política de revitalização do Rio São Francisco. Presidi a sessão do Senado por 14 vezes e uma coisa que foi marcante foi ter representado o Senado na Assembleia Geral da Organizações das Nações Unidas, em Nova York. A pessoa passar quatro meses no Senado e nesse período ser representante do Senado lá fora, é de dar muito orgulhou”, diz ele.

Ainda pela condição política, Kaká Andrade tem um pé no ITPS e outro em Canindé, onde foi secretário municipal de Gestão Governamental e Meio Ambiente sob as gestões do irmão, e de Turismo e Cultura sob a do sucessor dele no pós-morte, o Ednaldo da Farmácia.   

O pé em Canindé se transforma em crítica a atual gestão que Kaká pensa em suceder em 2020. Para Kaká, diferentemente de Orlandinho, Ednaldo da Farmácia faz uma administração pouco criativa, cansada e sem sonhos. Em prejuízo às carências e necessidades do município.

“Canindé não pode e nem merece ser administrada sem um sonho por trás. Não tenho nada a ver com a Prefeitura e se tiver será com o município, na busca por melhorias. Eu acho que nele (Ednaldo) falta isso. Para pegar um município como Canindé, ou você tem um sonho, um propósito bem definido, ou nada avança. Como dizia Raul Seixas, basta ser sincero e desejar profundo. Acho que ou falta esse desejo em Ednaldo ou o desejo dele é uma coisa que não se manifesta. É rasa”, aponta.

Para Kaká, o povo de Canindé vê nele uma extensão do sonho sonhado por Orlandinho em favor do futuro da cidade. E isso, acredita, pode lhe ajudar, política e eleitoralmente. “Muitas das coisas que acontecem comigo na direção de uma futura candidatura decorem do fato de eu ser irmão dele”, diz.

511d8eeb3f761d78
Comanda o ITPS desde junho do ano passado
Internal image c24aac10be758aa4
Em 2014, permaneceu senador por durante 121 dias

O ITPS NO TEMPO E NO ESPAÇO
“Em primeiro lugar, é o terceiro mais antigo Instituto de Tecnologia do país. Antes dele, havia apenas os ITPS de São Paulo e do Rio. O ITPS é um órgão que presta serviço ao Estado e que tem a delegação do Inmetro - ou seja, é o Inmetro no Estado de Sergipe - e tem laboratórios que também prestam relevantes serviços”

JLPolítica - Em linhas gerais, o que é o Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe?
Kaká Andrade -
Em primeiro lugar, (o IPTS) é o terceiro mais antigo Instituto de Tecnologia do país. Antes dele, havia apenas os Instititos de São Paulo (IPT)  e o do Rio de Janeiro (INT).  O ITPS é um órgão que presta serviço ao Estado e que tem a delegação do Inmetro - ou seja, é o Inmetro no Estado de Sergipe - e é um órgão que tem laboratórios que também prestam relevantes serviços.

JLPolítica – Quais são eles?
KA -
Nós temos os Laboratórios de Água, que faz a análise de água para todos os fins - potabilidade, irrigação, viveiros de camarão e demais usos. Um Laboratório de Microbiologia, que faz a análise de alimentos e de água, para ver a questão sanitária; um Laboratório de Química do Solo Agrícola, que tem certificação da Embrapa, de universidades importantes; um Laboratório de Bromatologia, que faz a análise de alimentos, inclusive da qualidade de alimentos através da tabela nutricional, e de novos produtos lançados.

JLPolítica - Tem algum sendo montado agora?
KA –
Sim. É o Laboratório de Orgânica, que é extremamente moderno, com equipamentos de ponta e já tem todas as instalações. Ele é preparado para fazer a análise de combustíveis, biocombustíveis e também agrotóxicos, que é uma coisa para a qual estamos nos preparando. Nesse momento, inclusive, há um treinamento, por parte da fabricante dos equipamentos, dos nossos técnicos para que possamos começar a desempenhar essa atividade. E também temos o Laboratório de Análise Foliar, que verifica, numa fase subsequente da plantação, se a adubação feita anteriormente surtiu o efeito necessário e se for identificada a deficiência de algum nutriente, para haver a devida correção.  

96868f9fe0ac7e37
2014: com Eduardo Amorim, quando ele tentou pela primeira vez, chegar ao Governo de Sergipe: perdeu para Jackson Barreto

DE BRAÇOS DADOS COM O MUNDO ACADÊMICO
“Temos parcerias com todas as universidades na medida em que oferecemos estágios para pelo menos sete instituições. Nossa relação com a comunidade acadêmica é muito boa e produtiva. Mas a gente entende que ela deve ser ampliada ainda mais, visando a somação de esforços”

JLPolítica - A realidade dos agrotóxicos em Sergipe hoje está à solta, sem alguém a que monitore especificamente?
KA -
Eu desconheço, até porque a análise de agrotóxico não pode ser feita por qualquer equipamento, são equipamentos e ponta. Os nossos são os mais modernos que existem no Nordeste. E a gente sabe do uso indiscriminado de agrotóxicos que existe e que há até históricos no Estado de índice de câncer em regiões onde há projetos de irrigação. Isso é um indicador de que pode haver contaminação de pessoas pelo uso indiscriminado e por um longo tempo de agrotóxicos.

JLPolítica - Qual a parceria que o ITPS tem com as instituições de ensino superior e técnico do Estado de Sergipe?
KA -
Temos parcerias com todas as universidades na medida em que oferecemos estágios para pelo menos sete instituições. Temos parceria com a Universidade Federal de Sergipe – UFS –, a Universidade Tiradentes – Unit. Há uma relação bem mais próxima, naturalmente, com a UFS, de apoio com laboratórios. De troca. Temos pessoas da UFS que nos prestam serviço - a UFS e a Unit são parte do nosso Conselho. A gente também tem parceria com o Instituto de Tecnologia da Unit. Nossa relação com as universidades, a comunidade acadêmica, é muito boa e produtiva. Mas a gente entende que ela deve ser ampliada ainda mais, visando a somação de esforços.

JLPolítica - Qual a importância de uma instituição sergipana de pesquisa ter uma certificação da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz - Esalq?
KA -
A Esalq é uma Faculdade de Agronomia da USP, que é uma das instituições mais importantes do Brasil e termos essa certificação, de uma das melhores escolas da área do país é motivo de orgulho. Somos nordestinos, sergipanos, mas não temos espírito de vira-lata. Queremos sempre estar na vanguarda.  

1e17f2037e43dd23
2016: com a vitória do irmão, Orlandinho Andrade, retornou à prefeitura de Canindé. Mas rompeu com o sucessor de Orlandinho, Ednaldo da Farmácia

SER ENGENHEIRO QUÍMICO ABRE CAMINHOS NO COMANDO
Facilita. Com a formação que a gente tem, já se começa utilizando tecnicamente a mesma linguagem. A relação com os técnicos num órgão de pesquisa, de ciência e tecnologia fica mais fácil quando se é um deles

JLPolítica - O que é aferido para ter a certificação de uma instituição dessa?
KA -
A gente sempre participa de ações eventos interlaboratoriais. É uma coisa espontânea, onde diversos institutos do país submetem suas análises a uma determinada instituição. Isso a gente faz com a Embrapa, de que que o Laboratório de Química também tem certificação, e com outras universidades, como a de Lavras, em Minas Gerais. Essa da Esalq a gente tem especificamente para o Laboratório de Análise Foliar, que pouca gente em Sergipe desconhece que o ITPS realiza. Mas depois que a gente deu, ao longo 2018, divulgação disso, aumentou a quantidade de análise foliar que temos realizado.

JLPolítica - O fato de o senhor ser um engenheiro químico facilita o comando da instituição?
KA -
Facilita. Com a formação que a gente tem, já se começa utilizando tecnicamente a mesma linguagem. A relação com os técnicos num órgão de pesquisa, de ciência e tecnologia fica mais fácil quando se é um deles. Então, o abismo que existe da linguagem técnica com pessoas de fora pode levar tempo para se eliminado, e no meu caso isso não existiu. Gostaria também de registrar que o ITPS foi o meu primeiro emprego após a formatura. Passei três ou quatro meses e muito me orgulha de ter começado a minha carreira aqui e ter voltado. 

 JLPolítica - Mas o senhor não é do quadro... 
KA –
Não. Eu sou funcionário da Adema. 

3700e68f4d3fdb59
2018: com larga experiência e formação de técnica, foi convocado pelo Governo de Sergipe para gerir o ITPS

UMA PARCERIA ATIVA COM O INMETRO
“O Inmetro é uma instituição federal de quem recebemos a delegação de desempenhar aqui as demandas dela. Temos ações com balanças e feito um trabalho diuturnamente no sentido de retirar do mercado as irregulares, piratas. Também estamos com uma demanda crescente da aferição de medidores de pressão arterial”

JLPolítica - O ITPS tem um orçamento próprio? É de quanto?
KA -
Sim. Ela é uma autarquia especial que tem orçamento próprio. Para 2019, é de RS 15,3 milhões. Deste valor, R$ 6,82 milhões são oriundos do Tesouro do Estado, R$ 8 milhões do convênio com o Inmetro, e R$ 504 mil, em recursos próprios.

JLPolítica - Qual o quadro funcional da instituição?
KA - Atualmente, o ITPS possui 189 colaboradores. São 128 servidores (efetivos e comissionados), nove bolsistas (sendo cinco de inovação tecnológica, dois de iniciação científica e dois pós-doc), 11 funcionários terceirizados que atuam na vigilância e na limpeza e 41 estagiários de cursos da área de química, farmácia, saneamento ambiental, engenharia de alimentos, engenharia civil, nutrição, biologia, direito, publicidade, entre outros.

JLPolítica - O fato de ele ser parceiro do Inmetro permite que tipo de mais ações em defesa da comunidade?
KA -
O Inmetro é uma instituição federal de quem nós recebemos a delegação de desempenhar aqui as demandas dela. Temos ações com balanças, que precisam ser calibradas anualmente, e temos feito um trabalho diuturnamente no sentido de retirar do mercado as balanças irregulares, piratas. Também estamos com uma demanda crescente da aferição de medidores de pressão arterial, que é fundamental e pouca gente sabia que fazíamos - inclusive vários médicos e clínicas não tinham essa informação. Hoje estamos até estendendo nosso horário para atender à demanda. Também analisamos bombas de gasolina, brinquedos infantis, e mais de 600 itens. 

D8d1d8c380a42bad
Foi discutir com Eunício Oliveira (MDB), presidente do Senado, a revitalização do Velho Chico: em fevereiro do ano passado

A CIÊNCIA PATROCINA A SOBERANIA DOS PAÍSES
“Até hoje a gente ainda vê os orçamentos para a ciência e a tecnologia, em nível de Brasil, muito baixos. E é preciso entender que a soberania de um país está intimamente ligada ao desenvolvimento dessa área, porque senão vamos ficar eternamente dependentes de fora”

JLPolítica - De um modo geral, os sergipanos sabem o real papel e a importância do ITPS?
KA -
Eu acho que ainda não. Mas a gente tem procurado divulgar, cada vez mais, as ações do ITPS para que o sergipano se aproprie desse patrimônio que criado há 95 anos por pessoas visionárias como o governador Graccho Cardoso e o professor Archimedes Pereira Guimarães, pessoas que passaram problemas de dificuldades, que ouviam que a tecnologia não era algo importante. Até hoje a gente ainda vê os orçamentos para a ciência e a tecnologia, em nível de Brasil, muito baixos. E é preciso entender que a soberania de um país está intimamente ligada ao desenvolvimento dessa área, porque senão vamos ficar eternamente dependentes de fora. Não há civilização sem ciência e tecnologia. E o ITPS é isso em âmbito de Sergipe. Países como Coreia, Estados Unidos e tantos outros, que hoje são potências, o são porque desenvolveram ciência e tecnologia. E é preciso que a gente entenda que ciência e tecnologia não entram na contabilidade como despesa e sim como investimento para o futuro. 

JLPolítica - O senhor acha que as pessoas são desatentas com relação à eficiência dos institutos de pesquisa?
KA -
Acho. Primeiro, porque o trabalho de pesquisa leva tempo para aparecer, e também pelo histórico das universidades de se tornarem ilhas, sem relação com a sociedade. Recentemente, numa reunião da Abipt - Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa, Tecnologia e Inovação do País -, que congrega 156 institutos, coloquei pra eles que a universidade tem que derrubar os muros que as isolam da comunidade. A universidade, muitas vezes, é uma ilha de prosperidade, mas a comunidade em volta delas é desassistida. Tem que se abrir mais. Interagir mais. 

 JLPolítica - O senhor diria, então, que o desconhecimento da pesquisa e tecnologia, por parte da comunidade, talvez não seja somente culpa dela?
KA -
Sim. Eu acho que é mais de dentro pra fora. Entendo que as instituições de ensino e pesquisa têm que se mostrar mais. Dizer para o que servem, o que uma pesquisa pode ocasionar para o futuro, porque o que está acontecendo hoje já foi motivo de estudo no passado. 

12293a421409727a
Em 2001, na usa posse como vereador de Nossa Senhora de Lourdes

DA BOA QUALIDADE DA ÁGUA ANALISADA
“Nós analisamos 81 pontos de rios e lagos de Sergipe, determinando a qualidade e a quantidade de água disponível. Quanto à água distribuída para a população, é de boa qualidade. Naturalmente que desses 81 pontos, há os que não necessariamente contém água para ser utilizada como potável”

JLPolítica - Da ação do Laboratório de Química da Água, é possível detectar como está a qualidade da água servida aos sergipanos para beber e para outras atividades?
KA -
Sim. Nós temos, inclusive, um convênio com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, que virou Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade, onde nós analisamos 81 pontos de rios e lagos de Sergipe, determinando a qualidade e a quantidade de água disponível. Quanto à água distribuída para a população, é de boa qualidade. Naturalmente que desses 81 pontos, há os que não necessariamente contém água para ser utilizada como potável. E esse trabalho é justamente para identificar a qualidade e a quantidade para determinar para quais usos ela está mais adequada. Se pode ir para a irrigação, ser captada, etc. Mas de uma forma geral, a qualidade da água em Sergipe, ao menos a servida oficialmente à população, é de boa qualidade. 

JLPolítica - O ITPS aponta riscos com relação à quantidade de água existente no Estado?
KA -
Não chegamos a esse nível ainda. Esse trabalho a gente faz e encaminha à Superintendência de Recursos Hídricos, que é o órgão que faz o planejamento e a gestão desses recursos no Estado. 

 JLPolítica - Que prêmio foi este de Proficiência dado pelo Instituto Kekulé?
KA -
Esse instituto é de renome no país e faz periodicamente o interlaboratorial. Ou seja, convida diversos laboratórios do país para que se faça uma espécie de concurso de água a partir de determinados parâmetros. Eles têm o padrão deles e mandam para esses diversos laboratórios. O nosso laboratório nesse último interlaboratorial que teve ficou na melhor colocação. Isso significa que fomos o laboratório que alcançou o resultado mais próximo ao que o Instituto Kekulé previa.

F7860796002cb18e
Kaká Andrade, abraçado à irmã Ana Rosa Andrade, que faleceu, e em companhia de outra irmã, a advogada Mônica Porto de Andrade e do irmão caçula Roberto Porto de Andrade

REDETEC POTENCIALIZA ARRANJOS PRODUTIVOS DO ESTADO
“O Redetec é um Programa que envolve a Fapitec, o Estado e o ITPS, através do qual vamos a diversas empresas - 35 já foram visitadas, e a meta é chegar a 80. Às queijarias, passamos seis meses dando assistência técnica na elaboração de um manual de boas práticas sanitárias, no manual de procedimentos operacionais padronizados”

JLPolítica - Qual a contribuição do Programa Redetec para a microempresa sergipana e sua funcionalidade?
KA -
O Redetec é um Programa que envolve a Fapitec, o Estado e o ITPS, através do qual nós vamos a diversas empresas - 35 já foram visitadas, e a meta é chegar a 80. Às queijarias do interior, por exemplo, nós passamos seis meses dando assistência técnica na elaboração de um manual de boas práticas sanitárias, no manual de procedimentos operacionais padronizados. Oferecemos análise da água, do produto, porque historicamente eles têm uma relação não muito boa com a falta de higiene. Ao final do sexto mês, nós voltamos lá com o manual pronto e com a conscientização de como devem proceder os que estão por lá.

JLPolítica – Há casos de reação ao Programa Redetec por algum empreendedor?
KA -
Veja, existe uma fábrica de vinagre em Itabaiana à qual fomos oferecer os nossos serviços e eles não quiseram. A contrapartida é algo em torno de R$ 1 mil para uma assessoria dessas - de seis meses, com consultores, extensionistas, etc. Em outro lugar, não custaria menos de R$ 30 mil, podendo chegar até a R$ 40 mil. Essa fábrica itabaianense não quis a nossa assessoria e depois a Vigilância Sanitária foi lá e fechou o estabelecimento. Eles correram aqui rapidinho e nós realizamos a assessoria. Hoje ela opera e gera muitos empregos. Hoje nós prestamos esse serviço em fabriquetas de leite, de arroz em Telha, a uma cooperativa de macaxeira a vácuo em Canindé. Também na área de móveis.

JLPolítica – Não é redundante a existência do ITPS e da Fapitec?
KA
– Não. O ITPS é o órgão operacional. Diria que eles são complementares.

F72b75b82b4aa4f3
Com o pai, Orlando Porto de Andrade

UMA VISÃO POSITIVA DO SENADO E DO MANDATO
“Não fui um suplente que ficou alheio ao que acontecia no Senado ou no mandato do titular. Sempre fui a Brasília. Sempre frequentei o gabinete. Sempre ofereci minhas sugestões dentro do que era possível. Essa experiência me possibilitou entender a amplitude e a importância do Senado”

JLPolítica - Que tipo de experiência lhe rendeu ficar oito anos na condição de segundo suplente de senador de Eduardo Amorim?
KA –
Primeiro, não fui um suplente que ficou alheio ao que acontecia no Senado ou no mandato do titular. Sempre fui a Brasília. Sempre frequentei o gabinete. Sempre ofereci minhas sugestões dentro do que era possível. Essa experiência me possibilitou entender a amplitude e a importância do Senado, tirar de mim velhos preconceitos com relação de que os políticos, em linhas gerais, não são pessoas sérias. Existem muitas pessoas sérias e as laranjas podres existem em todo cesto. Lá tem muita gente boa, que gera uma legislação útil ao povo brasileiro. Acho que a população deve separar o joio do trigo e, por isso, a experiência no Senado me foi riquíssima, porque eu pude ver a importância do parlamento brasileiro e entender como ele funciona, além de que é fundamental para uma sociedade que quer prosperar ter um parlamento bem escolhido, onde a sociedade esteja vigilante e que não cruze os braços no sentido de simplesmente criticar os parlamentares que lá estão, quando, na verdade, deve estar mais vigilante, cobrando e acompanhando o mandato de quem votou. É assim que o país vai melhorar. 

JLPolítica - Nos 121 dias, deu para apresentar algum projeto no Senado?
KA -
Ah, deu. Nós apresentamos oito projetos de lei em diversas áreas, como o de uma política de revitalização do Rio São Francisco. Presidi a sessão do Senado por 14 vezes e uma coisa que foi marcante foi ter representado o Senado na Assembleia Geral da Organizações das Nações Unidas, em Nova York. A pessoa passar quatro meses no Senado e nesse período ser representante do Senado lá fora, é de dar muito orgulhou. Foi uma passagem curta, mas intensa e efetiva.

JLPolítica - Eduardo Amorim lhe foi palatável enquanto titular do mandato?
KA -
Foi, sim. Sempre mantive com o senador Eduardo Amorim uma relação amistosa e de respeito recíproco. Não tenho nada a diminuir da pessoa dela.

Ef91da0ac6401c3f
A mãe de Kaká é Leonice Andrade, que trouxe ele ao mundo em 7 de abril de 1960

“EDUARDO AMORIM É UM CIDADÃO SÉRIO E BEM INTENCIONADO”
“Eu diria que a expressão rompimento é um pouco forte. Não terminamos no mesmo projeto, porque ao longo do caminho resolvi, juntamente com a minha família, caminhar por um outro lado. Mas não foi em decorrência de desentendimento político com o senador. Tenho respeito por ele”

JLPolítica - E por que o senhor terminou o mandato rompido com ele?
KA -
Eu diria que a expressão rompimento é um pouco forte. Eu diria que não terminamos no mesmo projeto, porque ao longo do caminho eu resolvi, juntamente com a minha família, caminhar por um outro lado. Mas isso não foi em decorrência de desentendimento político com o senador. Tenho respeito por ele. É um cidadão sério e bem intencionado.

JLPolítica - O senhor está em sintonia com o núcleo político da sua família, formado pelo deputado Jeferson Andrade e observado pelo conselheiro Ulices Andrade?
KA –
Sim. Inclusive um dos motivos pelos quais houve um afastamento político do senador Amorim foi esse. Conversei com Orlandinho e meu pai e resolvemos nos unir ao projeto do qual o deputado Jeferson Andrade faz parte e no qual meu tio Ulices Andrade também está inserido. Então, a família Andrade resolveu caminhar unida num mesmo projeto. 

JLPolítica - Qual foi o impacto para sua família da morte precoce de Orlando Andrade em pelo exercício do mandato de prefeito em Canindé de São Francisco?
KA – (Aqui, Kaká trava. Entala, e pede um tempo para se recompor da emoção) -
A morte de Orlandinho veio dois anos e quatro meses depois de termos perdido uma irmã com 44 anos de idade. A seguir, foi minha mãe e depois Orlandinho. Foi um período difícil. É como você estar se levantando de uma pancada, depois receber uma outra. A de Orlandinho, talvez pela fragilidade com que já se encontrava, foi mais impactante. Nós tínhamos um projeto. Ele estava cheio de sonhos. Nós estávamos alinhados. Conversávamos muito. Havíamos conseguido a aprovação de uma lei no Congresso Nacional que devolvia a Canindé os cálculos do ICMS, que já está surtindo efeito agora. Ele tinha muitos sonhos e queria trabalhar pela recuperação de Canindé, que tem passado por dificuldades. A morte dele foi prematura demais. A gente estava acompanhando ele a médicos e a doença dele não tinha voltado, mas uma hemorragia veio e o levou, deixando todos nós atônitos. Até hoje estamos num processo de recuperação - eu, meu pai de 93 anos e meus outros irmãos. Todos tentando se fortalecer, levando a sua mensagem, o seu sonho e fazendo dele a mola propulsora para que a gente continue na política.

7a1b74cdf1262a7b
Kaká Andrade é casado com Cristiane Souza Cardoso de Andrade

O TRISTE IMPACTO DA MORTE DE ORLADINHO ANDARDE
“Nós tínhamos um projeto. Ele estava cheio de sonhos. Nós estávamos alinhados. Conversávamos muito. Havíamos conseguido a aprovação de uma lei no Congresso Nacional que devolvia a Canindé os cálculos do ICMS, que já está surtindo efeito agora”

JLPolítica - Qual foi a herança administrativa e de carisma que Orlandinho lhe deixou em Canindé?
KA -
No carisma, ele é algo incomparável. Nunca vi nada igual em ninguém. Orlandinho fazia política como nunca vi ninguém fazer: entrava no meio do povo, se misturava com a comunidade para entender os anseios e as necessidades e de lá tirava as demandas e nos propunha a resolução. Ele me tinha como o braço operacional dele e toda vez que saía, voltava cheio de ideias e demandas. Por isso sei que nunca mais vai existir alguém igual a ele nesse aspecto. Pelo menos alguém com quem eu teria essa convivência. Ele saía por Canindé para olhar se havia lâmpadas queimadas nas ruas, buracos nas estradas. Enfim, era um cara que não era omisso em nada e que conhecia as pessoas de Canindé pelos apelidos. Então seria muita pretensão minha pensar em ser como ele no componente político, mas aprendi muito com Orlandinho. No componente administrativo, como ele me tinha como uma pessoa que protegia ele, ele se lançava. Era um cara avesso à burocracia e às vezes até se chateava comigo porque as coisas demoravam. Os oito anos de Canindé ao lado dele me serviram para aprender sobre gestão pública, área em que fiz um curso para pelo menos começar a entender essa linguagem. A experiência foi riquíssima.

JLPolítica - Ele lhe fez falta?
KA –
Faz, demais. Eu disse na missa do sétimo dia dele que nós éramos, desde pequenos, como carne e unha. Tínhamos uma pequena diferença de idade e sempre caminhamos juntos. Desde Nossa Senhora de Lourdes, quando ele assessorava meu pai. Eu sempre fui uma espécie de guardião dele, embora nunca tenha precisado ir para a linha de frente, porque politicamente ele levava isso ao pé da letra.

JLPolítica - Como está o município hoje sob a administração de Ednaldo da Farmácia?
KA -
O município passa, seguramente, por uma das piores situações. Está num tremendo desequilíbrio entre despesa e receita, e eu não tenho visto ações concretas no sentido de reação. O primeiro passo seria estancar a sangria e depois promover ações de recuperação do município. Não é fácil, como não é fácil para tantos municípios no Brasil - mas Canindé sofreu um pouco mais pela perda do ICMS da Chesf, mas também porque faltou uma ação nesse sentido. Porque, com certeza, se Orlandinho estivesse vivo e fosse o prefeito o município estaria sim com as dificuldades, mas bem longe das atuais, porque ações corajosas e choque de gestão teriam sido dadas. Ele tinha essa característica.

8f4fd3b7503d6728
É pai de João Victor Cardoso de Andrade, 19 anos, e de Pedro Henrique Cardoso de Andrade, 15

CANINDÉ PASSA POR SUA PIOR CRISE
“O município passa, seguramente, por uma das piores situações. Está num tremendo desequilíbrio entre despesa e receita, e não tenho visto ações concretas no sentido de reação. Se Orlandinho estivesse vivo e fosse o prefeito, o município estaria sim com as dificuldades, mas bem longe das atuais”

JLPolítica - Que tipo de incompreensão entre o senhor e Ednaldo fez suspender a sua cooperação como secretário do município?
KA -
Eu diria que Ednaldo não me queria no governo dele e que eu, portanto, não me sentia parte desse governo. Eu era parte do governo de Orlandinho. Um governo que sonhava. Que procurava em todos os cantos parcerias e soluções. Me senti um peixe fora d’água e, sem brigas ou falações, comuniquei-lhe que queria a minha exoneração. Saí, e não me arrependo. Considero uma decisão acertadíssima. Estava, digamos assim, adoecendo, porque havia ali um ambiente pesado em que colocavam meu nome em xeque e não sou disso. Tenho uma vida pautada na verdade. Na clareza das ações e intenções. Ninguém sai de uma conversa comigo enganado. Se eu posso, posso; se não, digo que não posso.

JLPolítica - Mas o Ednaldo não sonha administrativamente?
KA -
Como eu passei a não frequentar muito a Prefeitura, até para deixar claro que não fazia mais parte - até hoje tem gente que acha que ainda estou lá -, eu não tenho nada a ver com a Prefeitura e se tiver será com o município, na busca por melhorias. Eu acho que nele falta isso. Para pegar um município como Canindé, ou você tem um sonho, um propósito bem definido, ou nada avança. Como dizia Raul Seixas, basta ser sincero e desejar profundo. Acho que ou falta esse desejo em Ednaldo ou o desejo dele é uma coisa que não se manifesta. É rasa. Só sei que Canindé não pode e nem merece ser administrada sem um sonho por trás.

JLPolítica - O senhor acha que Ednaldo vai para uma reeleição de prefeito?
KA -
Esta é uma pergunta que deve ser feita a ele. Ele tem o direito. Se vai ou não, não sei.

E6a5d697263b189c
É irmão de Orlandinho Andrade (último a direita), eleito prefeito de Canindé do São Francisco por três vezes e que faleceu em março de 2017

A COMUNIDADE VÊ EM KAKÁ O SONHO DE ORLANDINHO
“Quando eu falei do sonho de Orlandinho, que foi embora precocemente, tendo a crer que a população automaticamente transferiu esse sonho para mim, e aí eu estou pavimentando a estrada para, se lá na frente eu tiver que trilhar esse caminho, ele não esteja com buracos”

JLPolítica - Em que pé está a sua intenção de disputar a Prefeitura de Canindé?
KA -
Quando eu falei do sonho de Orlandinho, que foi embora precocemente, tendo a crer que a população automaticamente transferiu esse sonho para mim, e aí eu estou pavimentando a estrada para, se lá na frente eu tiver que trilhar esse caminho, ele não esteja com buracos.

JLPolítica - O senhor se sente com base eleitoral suficiente em Canindé para pleitear uma eleição de prefeito em Canindé, para “trilhar esse caminho”?
KA -
Sinceramente, e sem falsa modéstia, sim. Sinto. É o que tenho visto. Vou a Canindé praticamente todos os finais de semana e o que tenho visto na maioria das pessoas e em todas as regiões da sede e dos povoados é que o meu desempenho enquanto gestor apoiando Orlandinho criou laços e hoje o que se busca é um gestor. As pessoas entendem que Canindé precisa de gestão. Na esfera política aí tem a questão sentimental, por eu ser um irmão de Orlandinho, mas também a questão da gestão em si. As duas se somam.

JLPolítica - Esse gráfico que o senhor faz do carisma de Orlandinho pode lhe beneficiar?
KA –
Pode, sim. E beneficiará. Muitas das coisas que acontecem comigo na direção de uma futura candidatura decorem do fato de eu ser irmão dele. O fato de ser irmão dele abre portas, mas compete a mim entrar nessas casas com respeito e conquistar, ao meu modo, essas pessoas. A abertura é forte. O nome de Orlandinho me ajuda e ajudaria a qualquer pessoa. É uma senhora grife.

102d477424379966
Diz que tende a crer que a população de Canindé, automaticamente, transferiu o sonho de Orlandinho para ele