“Lula não sairá da cena nem morto!”

Por Jozailto Lima
15 jun 2017, 13h00

Ele tem 48 anos e já foi um pouco de muita coisa na vida pública em Sergipe: militante da UNE no final dos anos 80 e começo dos 90, deputado estadual e federal, secretário de Saúde de Aracaju e do Estado de Sergipe e um candidato ao Senado em 2014 que ficou a apenas 31.104 votos de levar a vaga que coube a Maria do Carmo, DEM.

Em três eleições, já foi alvo de 555.613 votos dos sergipanos. Ele é Rogério Carvalho, um aracajuano nascido em 2 de agosto de 1968 e criado em Lagarto. É médico sanitarista, formado em 1993 pela Universidade Federal de Sergipe, com mestrado e doutorado em Medicina Preventiva e Social, professor adjunto da disciplina Saúde da Família na própria UFS e presidente estadual do PT.

Homem marcado pelo signo do incisivo e do polêmico, Rogério está vivíssimo no subsolo da política de Sergipe, atento a tudo que se passa no Estado e no país e, aparentemente mais sereno e sóbrio, disposto a cravar no seu currículo em 2018 aquilo que os 416.988 votos de 2014 não lhe garantiram: um mandato de senador.

Rogério Carvalho diz que se coloca à vontade no projeto pessoal de disputar o Senado mesmo imprensado possivelmente por dois tiranossauros da política de Sergipe, como Jackson e Valadares. “Me sinto seguro. Na disputa de 2018, o eleitor defenderá o seu futuro, votará na esperança e nas soluções dos seus problemas: desemprego, insegurança em relação ao futuro”, diz ele.

E neste contexto, Rogério dá o seu desgastado PT por ativíssimo. “O PT é o partido com maior militância e, apesar de toda a campanha feita contra, ainda é o mais lembrado nas pesquisas como opção da sociedade”, diz. Aliás, mais do que o PT, defende Lula. “Lula não sairá de cena nem morto!”, garante.

Nesta entrevista, Rogério fala de tolerância política, pede o desarme de uma eventual conflagração perante um possível Governo de Lula – “Quem não aceita a vontade da maioria, delinque contra a instituição democracia. Se Lula for eleito pelo povo, ou qualquer outro, deve ser respeitado, e o país terá paz” –, evoca o espólio positivo deixado por Déda, diz que todos têm “a obrigação de promover um debate sério, sem hipocrisia, sobre reforma política e gestão pública transparente” e diz achar “que Edvaldo deve ter mais protagonismo político”. Vale a pena a leitura.

JLPolítica – Para o senhor, qual é o papel reservado ao PT nas eleições estaduais de Sergipe de 2018?
Rogério Carvalho – O PT é o partido com maior militância e, apesar de toda a campanha feita contra, ainda é o mais lembrado nas pesquisas como opção da sociedade. Tem relação com todos os movimentos sociais e fez os maiores programas de consolidação da cidadania da história do país: Luz Para Todos, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos e tantos outros exemplos. Por isso, terá grande força na disputa de 2018.

 JLPolítica – O senhor vai conseguir consenso no partido para apoiar um candidato ao Governo indicado de Jackson Barreto?
RC – O PT já tem consenso sobre o nome para disputa majoritária e deve oficializar em 17 de junho após reunião do Diretório. Pode apoiar ou não, depende do candidato.

 JLPolítica – Quem o senhor vê como pré-candidatos plausíveis? Belivaldo Chagas o seria?
RC – Belivaldo é muito querido no universo político, mas diante da indefinição da política nacional, é cedo para falar em nomes.

 JLPolítica – O senhor sente-se inseguro no projeto pessoal de disputar o Senado imprensado por dois tiranossauros da política de Sergipe, como Jackson e Valadares, que eventualmente correrão atrás do mesmo pódio?
RC – Me sinto seguro. Na disputa de 2018, o eleitor defenderá o seu futuro, votará na esperança e nas soluções dos seus problemas: desemprego, insegurança em relação ao futuro. Os sergipanos e brasileiros vão escolher quem tiver respostas para esses problemas e demonstrar energia, seriedade, transparência de propósito e competência para fazer.

JLPolítica – Se cada eleição se encerra em si mesma, que serventia lhe teriam em 2018 os 417 mil votos obtidos pelo senhor para o Senado em 2014?
RC – Quem disse que uma eleição se encerra em si mesma? Aquelas 417 mil pessoas me deram o voto porque queriam um senador que representasse os interesses do Estado e do nosso povo. Essas pessoas continuam querendo senadores que cumpram esses propósitos. Dois anos depois do pleito, não há um só dia que não receba a solidariedade das pessoas e a reafirmação do voto. Elas dizem frases como “se não fossem as pesquisas…” e “a cadeira continua vazia…”.

JLPolítica – Dentro do debate da renovação de lideranças políticas sergipanas, em sucessão às que estão se exaurindo, que papel o senhor acha que lhe cabe?
RC – Cabe a mim e àqueles que se propõem a viver a vida pública se relacionar com a sociedade de forma transparente, séria e honesta. Tem que ter capacidade de apresentar inovações que melhorem a vida das pessoas. Chega de discursos vazios e de incompetência.

“O PT é o partido com
maior militância e,
apesar de toda a
campanha feita contra,
ainda é o mais lembrado
nas pesquisas como
opção da sociedade.
Tem relação com
todos os movimentos
sociais

JLPolítica – O tempo lhe aplacou mais as fúrias nos enfrentamentos políticos? O senhor se sente menos incendiário hoje?
RC – Todos amadurecemos. Eu me sinto cheio de energia, de fé e amor: sentimentos necessários para participar de uma construção política que mude a vida das pessoas.

JLPolítica – Para o senhor, que papel ainda é reservado ao PT perante o Brasil?
RC – O PT ainda é uma voz que os brasileiros querem ouvir no que têm a dizer. O PT fez muito pelos mais pobres e, se tiver a oportunidade de governar de novo, vai fazer mais. Tudo que aconteceu está servindo como vacina para os petistas que continuarão na luta política. Isso nos fará mais responsáveis e fortes.

JLPolítica – O senhor acha que Lula ainda corre risco de ser interditado politicamente por prisão, por algo judicialmente?
RC – Na insegurança jurídica em que vivemos, onde a hermenêutica substitui a lei, tudo é possível.

JLPolítica – Mas se Lula for tirado de cena, o PT se extingue definitivamente?
FC – Lula não sairá da cena nem morto! O PT é um partido nacional, organizado e com projeto. Não é uma sigla de aluguel. Portanto, continuaremos na luta política com força.

JLPolítica – O Brasil aceitaria um terceiro modelo Lula de administrar?
RC – Acho que é preciso dizer que no governo Lula o Brasil superou o complexo de vira-lata, de nação menor, que parte da elite usa pra subjugar os brasileiros aos seus interesses. O Brasil, com Lula, tirou 36 milhões de brasileiros da miséria, triplicou o número de universitários, criou mais escolas técnicas do que em toda a história do país, pagou a dívida externa, saiu das garras do FMI, deixou o Brasil como sexta economia do mundo e mais de U$ 300 bilhões de reservas. Ele foi um grande presidente. Acho que não devemos repetir os governos decorrentes de golpes, como o de Michel Temer, que está destruindo todas as conquistas dos brasileiros de séculos.

JLPolítica – Uma eleição de Lula ano que vem não correria risco de o Brasil manter-se politicamente conflagrado?
RC – A conflagração é decorrente de rupturas e da delinquência institucional. O que estamos vendo hoje é o resultado da delinquência de Aécio Neves, de Eduardo Cunha e de todos que forjaram um golpe, como senadores e deputados que votaram contra Dilma. Na democracia, respeitar as instituições é fundamental, e seu maior instituto é a vontade popular. Quem não aceita a vontade da maioria, delinque contra a instituição democracia. Se Lula for eleito pelo povo, ou qualquer outro, deve ser respeitado, e o país terá paz.

“Na democracia, respeitar
as instituições é fundamental,
e seu maior instituto é a
vontade popular. Quem
nãoaceita a vontade da
maioria, delinque contra
a democracia. Se Lula for
eleito pelo povo, ou
qualquer outro,
deve ser respeitado,
e o país terá paz!

JLPolítica – O senhor acha pouco o espólio de mal feitos do PT apontado pelas investigações da Lava Jato?
RC – A pedido do juiz Sérgio Mouro, a empresa de auditoria independente KPMG fez auditoria e isentou a atuação do presidente Lula na Petrobras de qualquer ato ilegal, afirmando no seu relatório que Lula não cometeu nenhuma irregularidade na Petrobras enquanto presidente. A conta do caixa 2 tem que ser paga por todos os partidos: PSDB, PP, PSD, PSB, PMDB, PT, PTB, DEM. Todos! Acho que todos nós, inclusive a imprensa, tem a obrigação de promover um debate sério, sem hipocrisia, sobre reforma política e gestão pública transparente. Eu defendo que os governos tenham seus processos todos públicos, que todos os passos sejam acompanhados em tempo real pela sociedade. Tenho projeto escrito sobre como tornar transparente toda ação do agente público, noutra oportunidade posso apresentar para você e seus leitores.

JLPolítica – O senhor acha que Michel Temer conclui o Governo?
RC – Não! O governo dele já acabou. Acabou a condição moral e política. Vai cair, apesar dos patrocinadores do golpe, os “arautos da moralidade”, que querem manter ele a qualquer custo. Cadê a moralidade? A ética? Onde estão os senadores e deputados que votaram em Aécio, em Cunha para presidente da Câmara e no golpe contra Dilma?

JLPolítica – Qual é o seu conceito para o modo como o secretário Almeida Lima encarou a Fundação Hospitalar de Saúde de Sergipe, criada em sua gestão?
RC – Há muito tempo, desde 2006, na Prefeitura, e de 2010, no Estado, sou mero expectador. Não indiquei nem um dirigente dessas instituições. Espero que ele saiba o que está fazendo. Pra você montar um serviço, leva anos. Para desmontar, dias. Humildade e refino técnico são fundamentais para o acerto. O povo espera de Jackson Barreto acerto.

JLPolítica – O último Processo de Eleições Diretas do PT apontou que diagnóstico de sanidade na militância do PT no Estado e nacionalmente?
RC – Nós não somos higienistas. Todos acertam e erram. O desafio é envolver a sociedade no reestabelecimento da democracia com eleições diretas, eleger um Congresso constituinte, com debate na sociedade e, num ambiente institucional democrático, legítimo, aperfeiçoar as instituições para atender os interesses dos brasileiros, submetendo os interesses corporativos econômicos e de categorias ao interesse público.

JLPolítica – Para o senhor, qual o legado deixado por Marcelo Déda na política de Sergipe?
RC – Marcelo Déda foi excepcional: faz parte de um seleto grupo de lideranças políticas de origem popular que chegou ao poder em Sergipe. Deixou em execução tanto na PMA quanto no Estado projeto de governo para mais de uma década, inovou quando apostou em realizar para transformar e ter o reconhecimento difuso e não fisiológico da sua ação política. Para mim, ele é uma referência de compromisso ético no exercício da prática política.

João Alves foi o
furacão da destruição
financeira e institucional
da PMA que se expressa
numa cidade mal cuidada
e em povo mal servido.
Acho que Edvaldo deve
ter mais protagonismo
político, e tenho certeza
que terá, assim que
arrumar minimamente
a casa

 JLPolítica –O senhor não se parece distante demais do Governo Municipal de Aracaju?
RC – Depois da posse, tive algumas reuniões com o prefeito Edvaldo Nogueira e senti a preocupação dele, nesse primeiro momento, em dar conta das dívidas com os servidores deixadas por João Alves, e de remontar a estrutura gestora da PMA. João Alves foi o furacão da destruição financeira e institucional da PMA que se expressa numa cidade mal cuidada e em um povo mal servido. Acho que Edvaldo deve ter mais protagonismo político, e tenho certeza que terá, assim que arrumar minimamente a casa.