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Entrevista

Jozailto Lima

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Maria Celi Teixeira Barreto: “Não existe aposentadoria para mim”

“A Celi Mall é um patrimônio de Sergipe”
3 de agosto - 20h00


Uma mulher que trabalha duro. Trabalha e reza. Uma mulher que trabalha, reza e dança. Uma mulher que aos 74 anos, de uma família próspera, trabalha, reza, dança e dá de cotoveladas na ideia de aposentadoria, de passar o leme dos negócios para herdeiros.

Sim, esta mulher existe e chama-se Maria Celi Teixeira Barreto. Uma empreendedora cercada de otimismo e esperança por todos os lados. Uma figura que se recusou a sentar no trono de ouro simplesmente por ter seu nome no topo da maior empresa de construção civil e de incorporação do Estado de Sergipe, a Construtora Celi.

Há quase 40 anos, quando Maria Celi Teixeira Barreto decidiu que não se resumiria funcionalmente ao posto de esposa de Luciano Barreto e fundou a Celi Mall Decor, ouviu uma zomba da grande figura humana que foi seu pai, o empresário Oviedo Teixeira.

““Menina, você é doida?”. Ele me chamava assim, de menina. Ele disse que eu ia procurar sarna para me coçar. E aí eu lhe disse: “Papai, quem herda, não furta”. E hoje estou aqui e ele teve a oportunidade de ver a empresa crescendo e realmente aqui tem um pouco do sangue dele”, diz Maria Celi.

Ali, Maria Celi Teixeira Barreto era uma jovem de 36 anos. Mais do que “hoje estar aqui”, a sua determinação, otimismo e força de trabalho erigiram em Aracaju, Sergipe, uma das mais bem conceituadas lojas de móveis, decorações e designs. Uma loja para a qual o resto do Brasil, os parceiros representados, os clientes, perfilam em continência.

E que ninguém pense que essa Maria Celi, do alto dos seus 74 anos, da condição mãe de três filhos, avó de seis e bisavó de um - do pequeno Luciano Mitidieri Barreto -, se dá por vencedora, tipo aquelas que acham que chegou a hora de entregar o leme para que outra pessoa conduza a nau, a embarcação que ela mesma comanda tão bem no mar dos negócios.

“Digo sempre aqui à turma que não vou me aposentar. Não existe aposentadoria para mim. Porque eu tenho um espírito de trabalho e porque isso mantém a gente ativa tanto mental quanto fisicamente. Se você está meio indisposta, mas sabe que tem compromisso, você não entrega o corpo, e vai avante”, afirma Maria Celi, uma administradora de Empresas graduada pela Universidade Federal de Sergipe nos anos 70m durante a gestação do seu último filho, Luciano Júnior – o que não está mais aqui.

“Primeiro, o que eu faço, o faço por paixão. Claro que existe o compromisso de atender aqui, e é uma responsabilidade muito grande, porque são 80 famílias que dependem diretamente de mim. Se eu disser que não vou trabalhar, que vou ficar passeando muito - porque posso passear -, deixo de atender a essas 80 famílias. E meu trabalho não impede que eu passeie”, completa. Maria Celi nasce num 1º de maio. Será que isso ajuda a compreendê-la. É de 1945.

Maria Celi Teixeira Barreto não está alheia ao movimento das pessoas do seu entorno preocupadas com a sucessão dela na Celi Mall Decor. Mas não ela não tá nem aí, não dá bola e nem corda. “Todas as franquias me questionam sobre isso, porque existe hoje uma preocupação de já ir analisando pessoas que poderiam me suceder. É como se fosse uma preparação prévia. É uma preocupação que eles têm para que as suas marcas não desapareça daqui”, diz Celi.

“O Luciano, meu marido, já fez a cabeça de alguns netos para virem para cá. Mas ainda é cedo. Existe uma ala muito jovem das duas mulheres (ela refere-se às duas netas, Ana Celi, filha de Ana Cecília, e Maria Celi, de Alda Cecília), mas isso requer tempo. Eu não estou trabalhando isso ainda. Mas a empresa está preparada para quem vier a gerir. Ela também tem solidez, a linha é a mesma”, diz.

Nesta Entrevista, você vai conhecer uma Maria Celi Teixeira Barreto extremamente positiva, embora insatisfeita com o ritmo da economia brasileira – “Eu diria que estamos na reserva do oxigênio, esperando socorro e que está demorando demais” -, muitíssimo dada à filantropia, ciente do bem que ela e a sua família fazem pela assistência social com o Instituto Luciano Barreto Júnior, de bem com os seus 80 funcionários, protetora de uma gama de arquitetos que ajudam a disseminar o trabalho da empresa dela e muito serena diante de uma história pessoal de quem não nasceu abastada.

Ao casar-se com um durango Luciano Barreto, engenheiro recém-formado pela Universidade Federal da Bahia, não dispunham - sinta o peso dessa ironia - de casa própria para morar. Mais do que isso: não tinham dinheiro próprio, pessoal, para custear a lua de mel.

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Casou-se com Luciano Barreto em 11 de julho de 1964
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Tem 74 anos. É mãe de três filhos, avó de seis e bisavó de um

JLPolítica - Em se tratando de uma mulher bem-sucedida, com 74 anos identicamente bem-vividos, por que a senhora ainda trabalha tanto, aumentando seu o império comercial com novas e caras franquias?
Maria Celi -
Porque eu tenho um espírito de trabalho e porque isso mantém a gente ativa tanto mental quanto fisicamente. Se você está meio indisposta, mas sabe que tem compromisso, você não entrega o corpo, e vai avante. Digo sempre aqui à turma que não vou me aposentar. Não existe aposentadoria para mim.

JLPolítica - Mas, a essa altura da vida, com as filhas criadas e muito bem profissionalmente, não seria hora de desacelerar e curtir mais a vida sem tantas preocupações comerciais?
MC -
Primeiro, o que eu faço, o faço por paixão. Claro que existe o compromisso de atender aqui, e é uma responsabilidade muito grande, porque são 80 famílias que dependem diretamente de mim. Se eu disser que não vou trabalhar, que vou ficar passeando muito - porque posso passear -, deixo de atender a essas 80 famílias. E meu trabalho não impede que eu passeie. Existe um equilíbrio. 

JLPolítica - O que é que há de itabaianense nesse desejo de sempre ir mais além?
MC –
Eu acho que tem a corrente no sangue, de que todo mundo fala, e que é impressionante. Meus pais são de Itabaiana e falam muito que foram os judeus holandeses, fugindo de Pernambuco, que deram origem a essa turma de espírito empreendedor que muito me agrada.

JLPolítica - O que é o ato de trabalhar para a senhora?
MC –
Eu acho que tem a corrente no sangue que todo mundo fala que é impressionante, meus pais são de Itabaiana e falam muito que foram os judeus, holandeses, essa turma de espírito empreendedor que muito me agrada.

JLPolítica - Qual é o seu sentimento ao saber que há mais de 13 milhões de pessoas desempregadas e em busca d empregos no Brasil?
MC -
É o de uma angústia muito grande. Isso está em toda a população, tanto nos desempregados quanto nos empresários. Esses querem fazer, estão dispostos, mas o mercado não está permitindo que você faça grandes investimentos.

ESPÍRITO DE TRABALHO E NADA DE APOSENTADORIA
“Eu tenho um espírito de trabalho e porque isso mantém a gente ativa tanto mental quanto fisicamente. Digo sempre aqui à turma que não vou me aposentar”

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Com as netas: Ana Celi, filha de Ana Cecília, e Maria Celi, de Alda

JLPolítica – Sua empresa hoje tem 80 colaboradores diretos. Já foram mais?
MC –
Já tive mais. Eram 90, mas agora nessa ocasião tivemos que diminuir um pouco.

JLPolítica – Qual é a melhor metodologia para lidar com funcionários?
MC -
É a da atenção para com eles. Conversar, estar aberto para que eles deem opiniões e proporcionar oportunidades de eles se aprimorarem. Isso com palestras, cursos, e sempre investir na equipe, porque sem ela você não faz nada. Não vai a lugar nenhum.

JLPolítica – Por que a senhora esparge sobre a sua loja água benta todos os dias primeiros de cada mês?
MC -
Eu sou uma rezadeira e uma benzedeira. Mas uma dançarina também, porque gosto de dançar (risos). Acho muito importante, isso da água benta. Eu faço com o sentido de renovação de energias, de levar a energia divina para todo mundo que está no local. Tanto é que a história de eu benzer já chegou a outros setores de empresas da família - é isso já está fluindo. A turma das outras empresas já me pede. 

JLPolítica - O que é religião para a senhora?
MC -
É estar conectado com Deus, porque Deus é amor e hoje não se permite mais alguém ser dono da verdade. Não existe verdade absoluta. Existe fé. O importante é você praticar o amor, porque Deus é amor, independentemente de religião.

JLPolítica - Em que podemos ver Deus?
MC -
Ah, a gente pode ver Deus em tudo. Na natureza, por exemplo - quer falar com Deus, vá na natureza; no outro, na solidariedade, no carinho, no apoio que você dá às pessoas ao seu redor.

O SENTIMENENTO DIANTE DO DESEMPREGO
“É o de uma angústia muito grande. Isso está em toda a população, tanto nos desempregados quanto nos empresários. Esses querem fazer, estão dispostos, mas o mercado não está permitindo que você faça grandes investimentos”

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Maria Celi nutre uma relação de reverência e respeito com os profissionais da arquitetura e decoração

JLPolítica – Deus não está na brutalidade humana?
MC -
Eu acho que na energia. Porque Deus é a energia boa, a do amor. Mas existe a energia turva, que é a força do mal. E está junto a nós, lado a lado. Somos nós que decidimos, e mais ninguém.

JLPolítica – A senhora situa a Celi Mall em que lugar no status da decoração do Estado de Sergipe?
MC -
No lugar de uma loja que oferece ao público, sergipano e de fora, o que tem de melhor em vários setores. Pode não cair bem eu dizer isso, mas a Celi Mall é um patrimônio de Sergipe. Agora, com 74 anos, inventei de entrar com pisos e revestimentos, sem entender, quebrando a cabeça, mas sempre trazendo mais atividades, produtos e possibilidades para a pessoa fazer a casa completa.

JLPolítica – A senhora atua com quantas marcas aqui?
MC -
De franquias, temos cinco: Florence, Saccaro, Uniflex - de persianas e cortinas em tecido -, Tidelli - móveis de área externa -, e Caderode - móveis de escritório.

JLPolítica - Qual é o conceito do seu trabalho e da Celi Mall Decor entre os produtores de móveis, design e decorações do Brasil?
MC -
De modo geral, todos eles que vêm me visitar dizem que é uma loja que está completa. Sinto todos os fornecedores muito satisfeitos, porque nós temos o capricho de colocar aqui essas marcas e trabalhar por elas. É um capricho, uma dedicação, de ver todos os detalhes, e isso implica em tempo, paciência e dedicação para ter esse resultado que hoje a Celi Mall oferece tanto para a população quanto para os nossos parceiros.

JLPolítica – De que forma a senhora se mantém informada e atualizada sobre as novas tendências de mercado sua área?
MC -
Viajo muito. O Brasil é grande, a maioria das marcas está no Sul, as viagens são longas, mas não posso deixar de estar presente nos eventos, nos lançamentos das marcas.

DA ÁGUA BENTA SOBRE A LOJA TODO MÊS
“Eu sou uma rezadeira e uma benzedeira. Mas uma dançarina também, porque gosto de dançar. Acho muito importante, isso da água benta. Faço com o sentido de renovação de energias, de levar a energia divina para todo mundo”

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Com as filhas Alda Cecília e Ana Cecília: uma mãe acima de quaisquer outras demandas

JLPolítica - Conceitualmente, o que é uma casa bem vestida, bem envelopada, bem decorada?
MC -
É uma casa que faça você se sentir bem, em harmonia, e não implica em ter produto caro e sim em as coisas estarem harmonizadas e dentro do seu conforto e do orçamento que a pessoa tem.

JLPolítica – A Celi Mall é acessível a todos?
MC -
Aqui na Celi Mall nós temos opções para todo tipo de orçamento, e a pessoa vai escolhendo. Outra coisa que digo aos clientes é que ninguém faz nada de um dia para outro – então, traduzindo, você não conseguirá arrumar a casa de uma vez só. É preciso planejamento. E sempre estará precisando de outras e outras peças que devem ser repostas aos poucos, enquanto você vai vendo o acabamento.

JLPolítica - As pessoas, em geral, têm dificuldade em harmonizar uma boa decoração?
MC -
É essencial ter um profissional para acompanhar, porque senão você se perde e termina comprando uma coisa que depois se arrepende e aí já é tarde.

JLPolítica - Luciano Barreto teria feito gosto ruim quando a senhora decidiu, há quase 40 anos, que iria empreender fora do contexto específico da Construtora Celi?
MC –
Não, mas meu pai sim, fez. Na hora em que eu disse ia abrir uma loja, ele falou: “Menina, você é doida?”. Ele me chamava assim, de menina. Ele disse que eu ia procurar sarna para me coçar. E aí eu lhe disse: “Papai, quem herda, não furta”. E hoje estou aqui e ele teve a oportunidade de ver a empresa crescendo e realmente aqui tem um pouco do sangue dele.

JLPolítica - Quando o mercado imobiliário está ruim das pernas, a Celi Mall Decor sente?
MC –
Sim, e isso é lógico. É uma correlação direta. Aliás, não só a Celi Mall. Os lojistas todos da área sentem isso.

NO QUE SE PODE VER DEUS
“A gente pode ver Deus em tudo. Na natureza, por exemplo - quer falar com Deus, vá na natureza; no outro, na solidariedade, no carinho, no apoio que você dá às pessoas ao seu redor”

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Maria Celi em companhia de Jader Almeida, designer premiado internacionalmente pelo traço apurado do mobiliário brasileiro

JLPolítica - A senhora consegue medir a evolução do designer do bem morar, de decoração em Sergipe desde quando a Celi Mall promoveu as primeiras vitrines até hoje?
MC -
Sim, claro. Por isso que eu sempre estou investindo, porque fui pioneira nisso. Acho que os profissionais da área, inclusive, reconhecem isso e sentem bem aqui, porque além dos produtos, nós temos equipes preparadas para atendê-los. Nossos vendedores e gerentes ajudam a pesquisar o que o profissional está precisando também. Eles mostram diversos produtos.

JLPolítica - O Estado está bem suprido de arquitetos com expertise de decoração de interiores?
MC –
Ah, está sim. Para o tamanho do nosso Estado, estamos bem supridos.

JLPolítica – Há quem afirme que o evento Mostra Aracaju só se realiza se Dona Maria Celi bater o martelo apoiando profissionais do segmento de arquitetura e design de interiores. Isso procede e por que esse domínio?
MC -
Não. Isso não procede. Não existe esse domínio meu. Muitas outras lojas apoiam a Mostra. Este ano de 2019 se pensou em fazer a Mostra na empolgação. Foi uma decisão que surgiu em janeiro, no pós-eleição, aí a partir de fevereiro já se começou a sentir a bolsa cair, o dólar subir, aí vieram os sinais de que não era a época de realizá-la. E eu fui uma das empresárias que falaram que não seria bom fazer. Eu acredito que contribuí para que os meus colegas lojistas não assumissem esse compromisso, porque eu já estava antevendo essa situação. Todos nós acreditávamos que seria melhor em 2019, mas não foi.

JLPolítica - Se a senhora resolvesse parar hoje, quem seria a pessoa mais apta para dar continuidade ao seu Complexo Celi Mall Decor? Alguém da família lhe chama a atenção numa eventual sucessão?
MC –
(Entre risos – Celi é uma pessoal de riso fácil) - Todas as franquias me questionam sobre isso, porque existe hoje uma preocupação de já ir analisando pessoas que poderiam suceder. É como se fosse uma preparação prévia. É uma preocupação que eles têm para que as suas marcas não desapareça daqui. O Luciano, meu marido, já fez a cabeça de alguns netos para virem para cá. Mas ainda é cedo. Existe uma ala muito jovem das duas mulheres (refere-se às duas netas, Ana Celi, filha de Ana e Maria Celi, de Alda), mas isso requer tempo. Eu não estou trabalhando isso ainda. Mas a empresa está preparada para quem vier a gerir. Ela também tem solidez, a linha é a mesma.

JLPolítica - A senhora recorre a Luciano Barreto em quais tomadas de decisões?
MC -
Eu sempre ouço Luciano, porque ele tem uma grande visão empresarial. Sempre que estou com alguma dificuldade, peço ajuda a ele, e ele sempre me estimula e apoia. Por exemplo: a Construtora Celi assume toda a parte de obras daqui, de manutenção. O resto é de responsabilidade do próprio negócio.

DA DEDICAÇÃO E DO PRAZER DAS MARCAS
“Sinto todos os fornecedores muito satisfeitos, porque temos o capricho de colocar aqui essas marcas e trabalhar por elas. É um capricho, uma dedicação, e isso implica em tempo, paciência e dedicação para ter esse resultado que hoje a Celi Mall oferece”

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O bisneto Luciano Mitidieri Barreto, filho de Luciano Neto

JLPolítica - Qual é o peso da sua gerente Itanamara Lemos nas coordenadas diante das decisões que a senhora toma nos seus negócios?
MC –
É alto. Sim, ela está comigo desde o primeiro dia. Ela trabalhava na Construtora Celi, na parte Financeira. Eu a ouço muito. Aliás, ouço a todos e depois decido.

JLPolítica - Como é que foram os estudos da senhora? Foi pra fora de Sergipe, como Luiz Teixeira, seu irmão, ou Luciano Barreto, seu esposo?
MC –
Sim, fui. Estudei no Rio de Janeiro, num colégio interno, que na época era colégio de freiras. Lá eu terminei o clássico, que era o ensino médio. Eu já namorava o Luciano. A gente tinha aula de acordeom na Cinelândia, aí eu descia do bonde e ia para a aula e de lá aproveitava para vê-lo. Ele era estudante da Universidade Federal da Bahia, ele foi presidente da UNE na época e viajava muito. Ele chegou a levar a turma dele para uma viagem à Europa. Ele se movimentava muito.

JLPolítica - Por que a senhora veio fazer Administração de Empresas na UFS já grávida, concebendo Luciano Barreto Júnior?
MC -
Porque quando eu terminei os estudos, me casei logo. Quando nos casamos, eu tinha 19 anos e Luciano, 25.

JLPolítica – Quem, entre Oviedo e Alda, foi mais religioso e mais colaborou na sua formação nesta área?
MC -
Minha mãe. Eu sou muito parecida com ela na parte da religião, da fé, da devoção a Santa Terezinha. Também da dedicação, da paciência, e do meu pai tenho um pouco do espírito pro comércio. De ser ativa. 

JLPolítica – De quem a senhora herdou a maior cota da personalidade, entre Oviedo e Alda?
MC –
Eu diria que há um equilíbrio. Tenho muito da minha mãe, mas do meu pai também.

O QUE É UMA CASA BEM VESTIDA E DECORADA
“É uma que faça você se sentir bem, em harmonia, e não implica em ter produto caro e sim em as coisas estarem harmonizadas e dentro do seu conforto e do orçamento que a pessoa tem. Na Celi Mall nós temos opções para todo tipo de orçamento”

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Gerações: ela e Luciano com netos e o bisneto

JLPolítica - O que é filantropia para a senhora?
MC –
É você se dedicar a algumas causas, contribuir também financeiramente.

JLPolítica - A senhora faz algo na filantropia, para além das ações do Instituto Luciano Barreto Júnior, e que as pessoas não conhecem e que a senhora não revela?
MC –
Faço. Mas não gosto mesmo de dar publicidade a isso. E não vai ser agora que farei. Me sinto bem fazendo assim - é preciso ter discrição e foco, porque a gente não pode ajudar todo mundo.

JLPolítica - No campo da responsabilidade social, qual o significado do ILBJ para a senhora?
MC -
Para mim, o Instituto Luciano Barreto Júnior é um conforto. É um sentimento de que nosso filho está vivo, e também de tranquilidade e paz. Porque vejo através de vários jovens o encaminhamento de Júnior. E isso é uma prova de que ele está vivo e ativo.

JLPolítica - A senhora já colheu algumas histórias humanas reconfortantes de ex-alunos do ILBJ
MC -
Já. Lembro-me de um cliente aqui na minha loja me dizendo que tinha ido a Braga, uma cidade religiosa de Portugal, e lá, numa agência de câmbio, o atendente era sergipano e lhe disse que todo dia rezava para os dirigentes do ILBJ porque ele morava no Bairro Industrial, os pais bebiam muito, e ele teve a oportunidade de ir para o Instituto, a partir de onde foi parar na Europa. Ele disse à pessoa que ia abrir outra loja na Espanha. Para mim, essa história contado por esse cliente é muito importante. Para mim e meu esposo, essa é a grande recompensa do ILBJ, que dá paz e serenidade a mim e a ele.

JLPolítica - Como é que a senhora recebeu, há mais de 50 anos, a decisão de Luciano de batizar com o nome de Celi a construtora da família?
MC -
Isso foi numa fase difícil para nós. Estávamos começando a vida. Eu tinha uns 21 anos, e veio a separação da empresa Norcon, na qual ele era sócio com meus irmãos Luiz e Tarcísio. Luciano ficou em depressão. Falava-me sempre que ia perder o que construiu, e eu sempre dizia a ele que quem construiu uma poderia construir outra. Daí ele fundou a Construtora e optou por esse meu nome.

A TRADIÇÃO DO TRABALHO POR HERANÇA
“Na hora em que eu disse ia abrir uma loja, ele (Oviedo) falou: “Menina, você é doida?”. Ele me chamava assim, de menina. Ele disse que eu ia procurar sarna para me coçar. E aí eu lhe disse: “Papai, quem herda, não furta”

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Entende que o Instituto Luciano Barreto Junior é mais que filantropia

JLPolítica - Qual é o melhor exemplo da sua vida a dois com Luciano nestes mais de 55 anos?
MC -
Difícil responder a essa pergunta. Não existe um, são vários. Eu não saberia dizer um exemplo, porque até hoje continuam acontecendo.

JLPolítica - Luciano Barreto é um notável empreendedor e um linha dura, que enfrentou e enfrenta muitas contendas em favor de Sergipe, dos seus negócios particulares e da área a que pertence. Até que ponto ele lhe ouviu ou ouve em determinadas decisões?
MC –
Eu acredito que ele me ouve sempre. Ele conversa muito comigo. Desabafa. E acredito que, na medida do possível, no meu entendimento, eu procuro passar boas energias.

JLPolítica - Qual é a maior virtude de Luciano Barreto?
MC -
A persistência. A garra dele para enfrentar as coisas. Outra: ele tem um grande coração. É regido pela emoção, costuma sair para resolver problemas dos outros. O que prova esse grande coração é que hoje ele tem uma boa relação com a família Teixeira (isso é uma referência sutil às desavenças que os irmãos dela nutriram com Luciano e hoje eles se dão bem).

JLPolítica – E qual é a maior virtude de Maria Celi Teixeira Barreto?
MC – (Entre risos)
Eu digo sempre que sou uma mulher que não tem juízo, porque aos 74 anos e quando todo mundo está pensando em diminuir o ritmo, eu estou sempre buscando algo a mais.

JLPolítica - E os maiores defeitos de ambos?
MC -
Temos tantos defeitos (risos). O importante é faturar o positivo, porque eles, desde que não prejudiquem as pessoas, são aceitáveis. Mas o que prevalece é que ninguém é perfeito.

NÃO É HORA DE PASSAR O LEME DA CELI MALL
“Todas as franquias me questionam sobre isso, porque existe hoje uma preocupação de já ir analisando pessoas que poderiam me suceder. Eu não estou trabalhando isso ainda. Mas a empresa está preparada para quem vier a gerir”

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É administradora de empresas graduada pela UFS nos anos 70, durante a gestação do seu último filho, Luciano Júnior – o que não está mais aqui

JLPolítica - Tem uma régua para medir a dor de uma mãe diante da morte repentina de um filho ainda muito jovem?
MC -
Não. Isso não tem. Só se supera isso com muita fé, muita entrega, porque os filhos são nossos, mas nós não somos donos da nossa vida nem da vida deles. Nós somos donos apenas das coisas materiais. Então, se não somos donos dos nossos filhos, temos que aceitar a doação deles para uma outra vida. Devemos aceitar a realidade que é o fato de que aqui é uma passagem e que a morte não é morte para quem viveu o amor. A morte é uma partida para outra vida. Daí a necessidade de se ter responsabilidades nessa vida. Se você mentaliza, se tem consciência de que existe outra vida e fez essa daqui valer a pena, fazer uma vida de amor, você parte tranquilo e transfere isso para os entes, e ainda consegue passar essa energia para as pessoas. É o que eu busco. Eu sempre rezo e passo isso para as pessoas que tem entes que partiram.

JLPolítica - Foi dura ou confortável a sua vida com Luciano em Jequié por quase três anos, no final dos anos 60 e no começo do casamento de vocês?
MC -
É aquela história: não tinha muito conforto, mas de qualquer ambiente você pode tirar as coisas boas. Não tínhamos ar condicionado, e Jequié é uma cidade muito quente. Não tínhamos carro próprio, a gente andava no caminhão-pipa, desses de transportar água - quando Luciano dava um freada, vinha aquele jato de água de dentro do tanque (risos). Mas valeu a pena. Foi o nosso começo. A gente não tinha nem casa, foi a repartição que nos deu, assim como o transporte. (Luciano Barreto, recém-formado em Engenharia na UFBA, foi convidado para ser secretário municipal pelo prefeito Lomanto Júnior, (1924-2015), que terminou govenador da Bahia). Outro detalhe que eu sempre conto: a nossa lua de mel quem pagou fui eu. Eu economizei do dinheiro do meu enxoval. Meu pai dava o dinheiro para fazer o enxoval e eu fazia uma poupança, porque quando casamos, Luciano não tinha ainda salário. Casamos em 11 de julho de 1964, e ele só receberia salário no final do mês. Ele não tinha dinheiro. Até hoje ele diz que não conseguiu me pagar (risos). Conto isso porque a turma só vê o hoje e a essa loja grande (Celi concedeu a Entrevista dentro da Celi Mall Decor), mas nem sempre foi assim. Começamos pequenos. Sem nada. Fomos morar em Jequié porque a repartição enviou, sendo que as bagagens do enxoval já estavam em Salvador. Ele me comunicou e ele lhe disse: “Vamos”.

JLPolítica - A senhora tem por Lomanto Júnior, em memória, a mesma consideração que Luciano Barreto ainda tem por ele?
MC –
Sim, a mesma. Foi uma amizade que a gente fez lá em Jequié e que continuou. Ele foi o padrinho da nossa filha mais velha, Alda Cecília.

JLPolítica - A senhora tem tempo, e vontade, de acompanhar os problemas políticos e econômicos do Brasil e de Sergipe?
MC -
Não profundamente. Mas vejo, claro.

DO COMPANHEIRO LUCIANO BARRETO COMO ANTEPARO
“Eu sempre ouço Luciano, porque ele tem uma grande visão empresarial. Sempre que estou com alguma dificuldade, peço ajuda a ele, e ele sempre me estimula e apoia”

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É extremamente positiva, embora insatisfeita com o ritmo da economia brasileira

JLPolítica - Satisfaz-lhe ou lhe incomoda o ritmo lento do desenvolvimento econômico do Brasil e de Sergipe?
MC -
Está incomodando não só a mim, como a todos os brasileiros. Eu diria que estamos na reserva do oxigênio, esperando socorro e que está demorando demais. Essa é a angústia e dá um desânimo. Mas, por outro lado, é como se precisássemos passar pelas dificuldades para valorizar. Não há um mal que não tenha um bem embutido. Eu acho que essa crise ajudou todo mundo a enxugar despesas, a valorizar seu orçamento, e diminuiu o consumismo sem análise. Digo que isso até para a educação dos filhos é bom.

JLPolítica – A senhora ficaria triste se um dos seus netos quisesse avançar pelo mundo da política, disputando mandatos?
MC -
Não. A questão não é ficar triste. Mas se dependesse das minhas energias e da ajuda lá de cima, a de Deus, torceria para que ele não fosse. O Wagner Júnior teve um desejo repentino e passageiro. Mesmo porque considero que somos mais empreendedores do que propriamente políticos.

JLPolítica – A senhora não consegue ver em Luciano Barreto um político sem mandato?
MC -
Ah, vejo. E ele tem que continuar assim. Hoje ele está consciente de que a política dele é mesmo essa sem mandato. Ele pode ajudar, contribuir, mas não precisar de um mandato próprio. Ele adora a relação com a classe política.

JLPolítica - Seu pai Oviedo Teixeira ter perdido uma eleição de senador lhe marcou de algum modo?
MC -
Sim, porque é muito desgastante a vida na política, principalmente no Brasil.

JLPolítica – Como vão indo seus irmãos Luiz e Tarcísio Teixeira?
MC -
Eles estão passando por situações difíceis nos negócios e na saúde, no caso específico de Luiz, que está debilitado. Mas ninguém sabe o que está reservado para cada um de nós. O importante é você dar carinho, amor e enfrentar a vida, dentro do possível, não fazendo o seu problema maior e nem ficar lastimando muito.

DA HERANÇA DOS TRAÇOS DOS PAIS
“Eu sou muito parecida com ela (Alda, a mãe) na parte da religião, da fé, da devoção a Santa Terezinha. Também da dedicação, da paciência, e do meu pai (Oviedo) tenho um pouco do espírito pro comércio. De ser ativa” 

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“Primeiro, o que eu faço, o faço por paixão", exalta

JLPolítica - Dez pessoas derivam diretamente da senhora - três filhos, seis netos e um bisneto. Esta seria a sua melhor obra na terra?
MC -
Creio que sim e tento deixar mensagens boas para eles. Exemplos bons. É minha melhor obra e que possa deixar essa positividade, essa fé e essa alegria de viver.

JLPolítica – Como a senhora se autodefine?
MC -
Eu sou uma pessoa muito positiva, embora tenha momento de tristeza, mas não demoro muito nela. Gosto de dançar. Eu tenho sempre a oportunidade e a preocupação de falar com os jovens do Instituto e me benzo, peço iluminação para, em poucas palavras, passar uma mensagem que fique na cabeça deles. Essa mensagem é a que era de Luciano Júnior, de que sejam bons na terra, porque terão lugar reservado no céu.

ILBJ, MAIS QUE UMA OBRA DE FILANTROPIA
“Para mim, o Instituto Luciano Barreto Júnior é um conforto. Um sentimento de que nosso filho está vivo, e também de tranquilidade e paz. Porque vejo através de vários jovens o encaminhamento de Júnior”

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Maria Celi se dedica aos alunos do ILBJ e sempre os incentiva pelo caminho dos bons exemplos. Tem colhido resultados positivos.