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Entrevista

Jozailto Lima

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Mário Britto: “Sergipe não deixa a dever ao Brasil em artes visuais”

“Ida para a Bahia foi decisiva para Jenner Augusto ser Jenner Augusto”

As artes plásticas de Sergipe, as artes visuais, de há alguns anos para cá não podem se dizer órfãs de um olhar zeloso, crítico, estudioso, potencializador e protetivo.

Mas protetivo sem ser paternalista. Esse olhar vem de Mário Britto, 55 anos, um sujeito que joga, generosamente, em uma dezena de posições quando estão escaladas as atividades das artes visuais - pinturas, fotografias, esculturas - concebidas por sergipanos, além de atividades da memória ligadas a elas.

Mário Britto tanto fez e faz pela área que hoje é nome de galeria - ele mesmo tem uma das maiores e mais expressivas coleções de artes plásticas de Sergipe. Ele monta exposições, se envolve com salões e até, e sobretudo, com trâmites que colocam artistas plásticos sergipanos em contato com o mundo, em eventos internacionais. É, às vezes, caçado nas ruas e em eventos por quem garatuja um traço aqui e outro ali e quer chancela para ser artista plástico.

A ponta maior do iceberg protetivo e potencializador das artes plásticas em que se transformou esse tal Mário Britto, um advogado e procurador do Estado de Sergipe com formação pela Universidade Federal de Sergipe, está no arsenal de livros que escreveu sobre o tema: nada menos do que 22 ao todo.

Entre esses, quatro sobre a vida e a obra de Jenner Augusto da Silveira, o sergipano de Aracaju - muitos pensam que é de Lagarto – que na década de 1940 mudou-se para a Bahia depois de pintar os painéis do Cacique Chá e, de lá, a partir de Salvador, fez uma revolução no âmbito do Nordeste na pintura modernista, emparelhando-se a Di Cavalcanti e Cândido Portinari.

Aberta desde a última sexta-feira, indo até o dia 12 de abril, a “Exposição Aracaju, Seus Encantos e Talentos”, é a mais nova ação de Mário Britto. Ele é o curador. “Vai ter uma coletiva de artistas, que, através do seus olhares, trazem imagens de Aracaju nestes 164 anos. Temos fotografias, pinturas, desenhos e esculturas”, diz Mário.

Do alto dessa atalaia de observação da vida das artes plásticas sergipanas, Mário Britto não tem medo de errar em sua conclusão: “Sergipe não deixa a dever ao Brasil em artes visuais”, diz.

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Com gerações da família Britto Aragão
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Nasceu no dia 26 de setembro de 1963, em Propriá.

UMA TRADIÇÃO QUE REMONTA A HORÁCIO HORA
“De certa forma, até diferentemente das outras expressões, na parte de artes visuais tem um bom trilho sendo percorrido em Sergipe. O Estado tem uma tradição nas artes visuais que remonta do século XIX, com Horácio Hora”

JLPolítica - Do ponto de vista das artes plásticas, em produção e mercado, como está o Estado de Sergipe no contexto interno e externo?
Mário Britto -
De certa forma, até diferentemente das outras expressões, na parte de artes visuais tem um bom trilho sendo percorrido em Sergipe. O Estado tem uma tradição nas artes visuais, que remonta do século XIX, com Horácio Hora, que vai pra Paris e denuncia, no bom sentido, a existência de uma arte ainda no século XIX, início do século XX, acontecendo no Brasil e particularmente em Sergipe quando ele torna-se um dos importantes representantes do romantismo na cultura internacional. Isso já dá o tom dessa tradição. Jordão de Oliveira, também no comecinho do século XX, vai para o Rio de Janeiro, recebe uma bolsa e vai para a Escola de Belas Artes, levando o nome de Sergipe. Jordão era um bom anfitrião e recebia os contemporâneos, os conterrâneos muito bem, mantendo esse link de Sergipe com o eixo Rio-São Paulo, que foi onde sempre ocorreram os grandes eventos das artes plásticas. De modo que Sergipe não deixa a dever ao Brasil em artes visuais.

JLPolítica – E no aspecto da contemporaneidade?
MB -
Hoje, com as tentativas que se tem, com os fóruns, os debates, os festivais, a arte contemporânea tem alguns protagonistas importantes em Sergipe, pelo menos o grupo liderado por Fábio Sampaio, Bené Santana, Elias Santos, que eu diria que são artistas de vanguarda, que têm uma linguagem que é a que se fala hoje no mundo da contemporaneidade, da arte conceitual, que passa pelas questões sociais, ecológicas. É uma arte que denuncia, que questiona, que vai além de sua missão inicial que é a de emocionar. A arte contemporânea, essencialmente, traz um conceito no desenvolvimento e na manifestação da arte.

JLPolítica - O senhor está colocando os contemporâneos como mais importantes do que os do passado, os canônicos?
MB -
Jamais. Porque eu defendo que não há hierarquia na arte entre tempo e entre técnica. A arte tem que ser boa, produzida por gente talentosa. Se a obra foi feito no século XIX, XX e XXI, se é uma paisagem abstrata ou se é uma paisagem acadêmica, não importa, todas têm seu valor próprio.

JLPolítica - Há uma demanda interna ativa ou dormente em Sergipe?
MB - 
Eu acho que ativa e crescente, e me sinto feliz porque dentro das expressões da arte, na minha opinião, talvez por eu estar mais perto dela, a arte visual é a que mais aparece no cenário artístico nacional e internacional. As artes visuais compreendem não somente pintura, escultura e fotografia, mais, também, gravura, design, vídeos, produção cinematográfica e arquitetura. 

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Ao lado da célebre obra “O Grito”, de Edvard Munch, no Munch Museet, em Oslo, Noruega.

HÁ UMA DEMANDA INTERNA ATIVA OU DORMENTE?
“Acho que ativa e crescente, e me sinto feliz porque dentro das expressões da arte, na minha opinião, talvez por eu estar mais perto dela, a arte visual é a que mais aparece no cenário artístico nacional e internacional”

JLPolítica – Qual foi o momento na história das artes plásticas em que o Estado mais falou alto?
MB -
Eu acho que no momento de Jenner, porque foi um pós-modernismo atrasado que aconteceu no Nordeste exatamente com ele, e que repercute na Bahia, quando ele foi para lá em 1949, e já se envolve com toda a efervescência cultural que acontecia lá. Então Sergipe sempre teve essa ligação com a Bahia, e com Jenner. Ele fez lá o que Jordão de Oliveira fez no Rio, recepcionando os artistas sergipanos. São dois momentos importantes derivados de Sergipe, nos quais circula nesse entorno o Antônio Maia, o Zé de Dome, o Joubert, o Leonardo Alencar, então grandes artistas de uma fase mais próxima dos anos 80 passam por esse momento, enquanto que aqui em Aracaju se deve fazer justiça a Florival Santos, irmão de Álvaro Santos, que acaba tendo notoriedade ao imortalizar o nome dele com a primeira galeria pública de Sergipe, que tem mais de 50 anos. Mas Florival, que teve uma vida mais longa, também fazia de sua residência um ponto de encontro e de fomento às artes na recepção a esses artistas novatos.

JLPolítica – Nós somos nostálgicos ao ficaremos evocando nomes como Jordão de Oliveira, Horácio Hora, Álvaro Santos, Florival Santos, J Inácio, Jenner Augusto ou não existe o apelo suficiente entre os contemporâneos?
MB -
O nostálgico existe na medida em que se desperta hoje em Sergipe um interesse em resgatar esses grandes artistas do passado. Eles não ficaram no esquecimento. Eles ficaram na cobiça dos colecionadores, que, hoje, querem tê-los em suas coleções. Isso é muito gratificante, porque a ideia do colecionismo vem muito desse trabalho particular que eu venho fazendo como colecionador e como incentivador, dizendo a eles que não é apenas bacana ter uma parede com quadros e sim ter uma parede com histórias. E os quadros dessas figuras contam essas histórias.

JLPolítica - Quem é que de novo e novidadeiro levanta o crachá, e arma bem o cavalete hoje nesse setor, além desses nomes contemporâneos que o senhor citou?
MB -
Na fotografia, tem muita gente. Temos Gilton Rosas, que é um arquiteto que tem feito fotografias de repercussão; Fábio Pamplona, Leonardo Santana. A fotografia passa por um preconceito muito grande, como se ela fosse uma subarte. E quando eu digo que não há hierarquia é no sentido mais absoluto: a arte não pode sofrer nenhum tipo de hierarquia, muito menos de preconceito.

JLPolítica – Qual o limite da arte para ser chamada de tal?
MB -
Ela tem que apenas ser boa. Tem que ter essência. Na pintura, Elias Santos é hoje um grande ativista cultural, porque além de artista, ministra cursos de pintura no seu ateliê, e tem uma geração acontecendo, que estuda, que sabe que o talento é nato mas que também precisa de técnica, de conhecimento técnico. E Elias tem sido muito importante nesse cenário.

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Na sua Galeria de Arte Mario Britto

CONTEMPORÂNEO QUE PONTUA BEM FORA DE SERGIPE
“Fábio Sampaio é o nome que já pontua bem. Tive oportunidade, como curador, de levar quadros dele para fora do país - França, Áustria, por ocasião de eventos culturais importantes. O livro de Fábio Sampaio foi feito em português, francês e inglês”

JLPolítica – Quais são os nomes contemporâneos daqui que hoje pontuariam bem numa coletiva nacional?
MB -
Fábio Sampaio é o nome que já pontua bem. Eu já tive oportunidade, inclusive, como curador de Fábio Sampaio, de levar quadros dele para fora do país - França, Áustria, por ocasião de eventos culturais importantes. O livro de Fábio Sampaio foi feito em português, francês e inglês. Já para internacionalizar a obra dele. E o que você vê nas galerias do mundo hoje é exatamente o que Fábio Sampaio está fazendo aqui em Sergipe.

JLPolítica - Qual é o papel do Estado no fomento às artes plásticas?
MB -
Eu acho que o Estado tem, de fato, que perder essa natureza de ser a mãe. Ele não pode ter essa coisa do assistencialismo, mas precisa criar as oportunidades. Por exemplo, no âmbito municipal, a Galeria Álvaro Santos é um local importante para o fomento da arte, é a primeira galeria pública de Sergipe. Tem também o Salão dos Novos dela, que é um momento importante, no qual muitos nomes da pintura começam. Esse inclusive está ativado e vai ter uma edição esse ano. Então, em nível de município, eu citaria a Galeria Álvaro Santos como um bom palco para a manifestação das artes visuais.

JLPolítica – Qual foi o papel da antiga Secretaria de Estado da Cultura frente às artes plásticas?
MB -
Eu estive na Secretaria durante quase dois anos, convidado pelo então secretário Elber Batalha, que montou uma equipe com pessoas de conhecimento em áreas específicas. Representei as artes visuais, e continuo representando, pois sou membro do Conselho Estadual de Cultura nessa condição. O que posso dizer é que enquanto estive lá, houve um resgate do Corredor Cultural, que nada mais é do que um corredor transformado em galeria de arte, um patrimônio, onde mensalmente realizávamos exposições e tinham características muito específicas. Era uma oportunidade para convidar o pessoal novo a exposições coletivas, e que já traziam uma amplitude de possibilidades e iam além das pinturas. Tinha desenho, escultura, teatro, dança e tinha música - era um momento muito importante. Foi dado o nome de Irmão (Wellington dos Santos), um grande artista sergipano, economista, ex-funcionário da própria Secretaria da Cultura. Na verdade, o Corredor Cultural Irmão, que já existia no passado, foi resgatada exatamente nesse período em que eu estive na Secretaria. Como também dois grandes espaços que estão sendo reformados atualmente e que serão em breve reabertos, o Espaço Leonardo Alencar, da Biblioteca Pública, e a antiga Galeria J Inácio, que estava há anos sem nenhuma exposição e passou a ter certa frequência de exposições. De forma que eu entendo que é esse o papel do Estado, através de editais.

JLPolítica - Ficar sem esta Secretaria de Cultura fará falta?
MB -
A questão não é a Secretaria fisicamente em si. É a gestão. É preciso ter gestão. Você não precisa ter Secretaria para fazer. Mas precisa ter um gestor para fazer. Não é a nomenclatura ou o espaço físico que define as ações e as políticas de cultura. Evidentemente que uma Secretaria, dentro do seu status, facilita o processo de comunicação. Mas espero que mesmo transformando em Fundação, essas ideias que foram colocadas em prática e que deram bastante resultado e visibilidade sigam - até porque como os editais serão públicos, tivemos exposições de artistas de diversos lugares. E também é importante, na minha opinião, que o ente público foque o artista sergipano não só dentro da matriz sergipana. A forma de você tornar o sergipano conhecido é tirá-lo da redoma do Estado e levá-lo fora e trazer o de fora para cá. Não tenha dúvida: é esse intercâmbio cultural que fomenta e valoriza as artes visuais.

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Com os irmãos Cezar e Miguel

PAPEL DO ESTADO NO FOMENTO ÀS ARTES VISUAIS
“Eu acho que o Estado tem, de fato, que perder essa natureza de ser a mãe. Ele não pode ter essa coisa do assistencialismo, mas precisa criar as oportunidades. Não precisa ter Secretaria para fazer. Mas precisa ter um gestor”

JLPolítica - O senhor não sente falta de mais quantidade de grandes eventos, de grandes salões, públicos e particulares, de novatos e veteranos?
MB -
Sim. Tirando esses eventos públicos, feitos tanto pelo município de Aracaju quanto pelo Estado, o que sobra são as exposições feitas pelas galerias de arte de Aracaju, notadamente, a Galeria Jenner Augusto, da Semear, que tem uma política de fazer essas exposições de forma institucional e não é uma galeria comercial e se preocupa com cultural, a cidadania e o meio ambiente. A Galeria Jenner Augusto não vende obras de arte, mas abre espaço para que os artistas a ocupem.

JLPolítica - Quem consome artes plásticas em Sergipe, sempre e hoje?
MB -
De certa forma, a gente tem que desconstruir um pouco o discurso de que consumir arte significa ter dinheiro. Claro que qualquer relação de consumo passar pelo financeiro, mas consumir arte não é só no sentido de comprar. Consumir arte é apreciar. Então, é ir a uma exposição. Ter obra de arte em casa pode passar necessariamente por questão financeira, mas é muito acessível. Os trabalhos dos artistas sergipanos, por exemplo, não têm o valor que é praticado mercado de arte. Não são tão caros assim, mas é claro que existe as necessidades de aquisições e aí através de ordem financeira mesmo.

JLPolítica - Quantos quadros o senhor tem pessoalmente?
MB -
Tenho oficialmente uma coleção, que é um recorte que resultou em um livro, “Um sentir sobre as artes visuais em Sergipe”. Quando da comemoração dos meus 50 anos, eu elegi, sem nenhum critério mais específico, 50 artista sergipanos ou artisticamente considerados como tal, e desses escolhi 120 obras das quais resultaram o projeto. Hoje eu vou às escolas falar sobre esses artistas que saem do século XIX até o século XXI, passam pela arte popular, pela arte contemporânea, fotografia, desenho, enfim, é algo bem representativo. É um recorte da minha colação e ela não mais me pertence.

JLPolítica - Por que a Galeria Ana Alves não vingou? Ela não poderia virar uma pinacoteca oficial?
MB -
Acho que ela não vingou por vários fatores, e o principal deles é o de sempre: falta de vontade política. O espaço é fantástico. Eu tive a oportunidade de ver algumas exposições lá. Quando imaginaríamos que teremos alguns estudos Leonardo da Vinci em Sergipe? Mas ela não vingou por questão política, por má gerência. Mas acho que o espaço tem que ser ativado. Não sei se seria adequado para uma Pinacoteca. E aí não me refiro à questão física, mas por causa da salitre, exatamente em razão de sua localização perto do mar. Eu acho que uma exposição itinerante, por sua própria natureza, ela não sofreria tanto quanto uma permanente. Pelas características de uma Pinacoteca, acho que lá não seria lugar ideal. Mas tenho um sonho público - e esse assunto já foi revelado -, de que Sergipe tenha uma Pinacoteca. Ela pode ser, por exemplo, no prédio da prefeitura, no prédio da Receita Federal, que faz parte do cartier cultural de Sergipe. Eu já me prontifiquei como voluntário em colaborar para que essa Pinacoteca aconteça. Se o meu nome servir para alguma coisa, que seja para isso, para alavancar a obra e sensibilizar artistas. E eu teria muito prazer em ceder o meu próprio acervo para enriquecer essa Pinacoteca. Quando eu falo, lá atrás, que a minha colação é um recorte, visualizo que esse recorte pode estar dentro de um espaço, que não é mais a minha casa, porque essa coleção ficou muito maior do que o colecionador. Maior não do ponto de vista físico, mas do ponto de vista de sua importância.

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Como um grupo de artistas

DAS DIVERSAS MANEIRAS DE CONSUMIR ARTE
“Consumir arte não é só no sentido de comprar. Consumir arte é apreciar. Então, é ir a uma exposição. Ter obra de arte em casa pode passar necessariamente por questão financeira, mas é muito acessível”

JLPolítica - Os resgates e registros que o senhor tem feito em livros de grandes nomes, como de Jenner Augusto da Silveira, têm que poder de fixação do status das artes plásticas de Sergipe?
MB -
Já são 22 livros. Acho que eles contribuíram muito para definir uma trajetória visual, na medida em que retratam, em sua essência, os artistas sergipanos. Isso cria um sentimento de pertencimento, de querer ter uma obra catalogada, de querer saber importância daquele artista. Quem conta essas histórias é o livro, é a própria arte retratada por ele. O livro resgata um sentimento de pertencimento que é muito importante para desenvolver o apego ao que se tem, no sentido de chegar em casa e dizer: “Eu não vou sair hoje à noite. Vou ficar em casa vendo a minha coleção”.

JLPolítica - Qual a média de tiragem?
MB -
Tem livro de várias tiragens. Por exemplo, o primeiro de Jenner Augusto teve quatro mil exemplares e foi esgotado. Teve uma segunda edição, a convite do Banco do Brasil, de mais 2.500 livros. O que posso afirmar, e com muito orgulho, é que eu nunca ganhei um centavo com esses livros. Eles nunca tiveram como finalidade o lado comercial. Um detalhe: eu coloco nos meus livros a inscrição “venda proibida”. É como a mulher de Cesar: não basta ser honesta. Tem que parecer.

JLPolítica - Se Jenner Augusto da Silveira tivesse se mantido em Sergipe não ido para a Bahia ele seria esse Jenner Augusto da Silveira em que se tornou?
MB -
Infelizmente e provavelmente, não. A gente não pode afirmar uma hipótese do que não aconteceu. O que posso afirmar é que a ida para a Bahia foi decisiva para Jenner Augusto ser Jenner Augusto, considerando o histórico dele: um órfão de pai aos 6 meses de idade, sendo criado por uma professora primária, perseguida pela política da época - década de 20 – e, além de sustentar dois filhos - o Jenner e o Junot -, tinha mais quatro irmãs, todas sustentaras por esse salário. A condição de pobreza de Jenner infante e adolescente era muito grande. Ele vivia de favores de padre, da igreja, porque a mãe era envolvida nas questões religiosas, não só pelo lado político, mas também por ser uma oportunidade dos filhos serem coroinhas. Era a sobrevivência. Jenner era muito pobre. Ele namorou uma sergipana de classe média, da família Mendonça, de Laranjeiras. Jenner foi para Salvador e ela não pode acompanhá-lo e, ele, também, não poderia visitá-la,  casaram, por procuração. Ela foi a única mulher dele, a Luísa.

JLPolítica - Essa pobreza também alcança J Inácio...
MB -
De certa forma, sim. Mas a de Jenner teve a questão de ter saído de Aracaju. Ele chega em Salvador muito pobre e consegue se firmar no cenário nacional das artes. Não sei se Sergipe teria dado essa oportunidade a ele. Jenner volta a Sergipe para inaugurar o Museu de Sergipe, em São Cristóvão, que ele fez com o prestígio dele e através de amizade com artistas nacionais, consegue fazer o que é hoje o museu histórico de Sergipe, resgatando as obras de Horácio Hora.

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Com Ilma Fontes, ativista cultural

POR QUE A GALERIA ANA ALVES NÃO VINGOU?
“Não vingou por vários fatores, e o principal deles é o de sempre: falta de vontade política. O espaço é fantástico. Eu tive a oportunidade de ver algumas exposições lá. Não sei se seria adequado para uma Pinacoteca”

JLPolítica – Tirando Caã de J Inácio, não é tradição gerar descendentes nos pintores de Sergipe?
MB –
Veja, Jenner tem um filho, o Guel, e o neto, Zeca Fernandes, que são artistas conhecidos. Guel é nacional e internacionalmente celebrado. Eu já fiz exposições dos dois fora do país. Eles seguiram essa tradição.

JLPolítica - Aquela lei de que de só se inaugura prédios, mesmo que da iniciativa privada, com quadros de artistas locais no halls, está valendo e sendo cumprida?
MB -
Está valendo, sendo cumprida, mas não vejo que seja da melhor forma. Eu vejo ela ser cumprida por uma imposição meramente legal: precisa ter um quadro. Tem, está resolvido o problema. A melhor forma seria com editais, com escolha que valorizasse os artistas, sem a preocupação de colocar no hall de um prédio com apartamentos de R$ 2 milhões uma obra que custa R$ 100 no mercado.

JLPolítica - O senhor questiona, então, a qualidade das obras?
MB -
Sim, essencialmente a qualidade. Porque se atende ao requisito legal da presença da obra, mas não se tem o cuidado de que sejam obras representativas.

JLPolítica - São obras compradas ao metro quadrado?
MB –
É mais ou menos isso, o que é muito ruim, porque talvez essas construtoras que vendem tão caros esses apartamentos pudessem abrir um edital, adquirindo obras representativas. Assim não teríamos as cópias que temos.

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Com Jorge Lins, recebendo prêmio de destaque cultural

JENNER SERIA JENNER SE NÃO FOSSE PRA BAHIA?
“Infelizmente e provavelmente, não. A gente não pode afirmar uma hipótese do que não aconteceu. O que posso afirmar é que a ida para a Bahia foi decisiva para Jenner Augusto ser Jenner Augusto, considerando o histórico dele”

JLPolítica - Os pintores de Sergipe têm noção da importância e da unidade de classe, ou são fratricidas?
MB -
Dentro das manifestações artísticas, ainda acho que a que melhor tem inter-relação são as artes visuais. Infelizmente você não vê muito show de um cantor sergipano com outros cantores prestigiando, isso serve para o teatro e para a literatura. Nas artes visuais acho que há um pouco, mas muito aquém do que deveria.

JLPolítica - Qual é o formato da exposição que o senhor montou para celebrar os 164 anos de existência de Aracaju?
MB -
Essa exposição é festiva e emblemática. O 17 de março sempre teve a tradição de ser comemorado. No passado, a Rosa Faria comemorava essa exposição na casa dela. Eu tenho uma relação muito estreita com essa data. Um sentimento de procurar fazer dela uma manifestação cultural. Tive a oportunidade de fazer, no próprio Palácio Museu Olímpio Campos, o lançamento de um livro de Anderson Nascimento que organizei, resgatando esse trabalho de Rosa Faria. O 17 de março de 1945 foi quando foi feita a primeira exposição de Jenner Augusto, no Instituto Histórico e Geográfico, exatamente em comemoração ao aniversário da cidade. E a reforma do Cacique Chá, onde estou lhe concedendo esta entrevista e onde está o maior painel de Jenner em Sergipe, foi reinaugurado em 17 de março, completando agora 4 anos.

JLPolítica - Como e onde será a exposição?
MB -
Ela é no Palácio Museu Olímpio Campos, foi aberta na sexta, 15, e vai ter uma coletiva de artistas, que, através dos seus olhares, trazem imagens de Aracaju nestes 164 anos. Temos fotografias, pinturas, desenhos e esculturas.

JLPolítica - Como se encontram os espólios deixados por mortos recentes e notáveis, como J Inácio e Leonardo Alencar?
MB -
No caso de J Inácio, não houve espólio. Ele fez uma pintura de sobrevivência. Era uma pintura do dia a dia - isso não tira dele o mérito de ser um grande artista, mas prejudicou alguns trabalhos que foram feitos com esse intuito. E a própria família de J Inácio, que são os filhos dele, com os quais eu tenho uma relação de convivência, não ficaram com esse espólio. Já no caso de Leonardo Alencar, Cida, que era a mulher dele, conseguiu ainda preservar boa parte do espólio, que foi vendido inclusive.

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Com um grupo de amigos

É FALHA A LEI DOS QUADROS NOS HALLS DOS PRÉDIOS
“Eu vejo ela ser cumprida por uma imposição meramente legal: precisa ter um quadro. Tem, está resolvido o problema. A melhor forma seria com editais, com escolha que valorizasse os artistas”

JLPolítica - Já foi vendido?
MB -
Sim, uma parte. Não tenho acompanhado, mas como frequentador da casa posso lhe dizer ele deixou uma grande quantidade de obras de arte, assim como fez o Jenner. O Jenner, literalmente, fez o que a gente chamou de “coleção da viúva”. Ele tinha esse cuidado. Como ele nunca trabalhou com carteira assinada, a cada coleção que fazia, reservava alguns quadros como sendo espólio da futura viúva, porque ele sabia que ele morrendo, a família teria pelo menos esse patrimônio.

JLPolítica - Ainda tem inédito dele com a família?
MB - 
Tem, exatamente nessas coleções. Mas, com o falecimento de Luiza, a viúva de Jenner, eu trouxe essa coleção para Aracaju. Essa coleção era de 102 quadros e eles resultaram no projeto, num livro - eu já fiz quatro livros sobre Jenner, esse é mais um. Então, essa coleção voltou para Sergipe e vai permanecer em Sergipe. Ela está nas casas dossergipanos.

JLPolítica - Como o senhor recebeu a polêmica desenvolvida em torno da montagem do Largo da Sergipanidade ano passado?
MB -
Como qualquer coisa relacionada à cultura, a polêmica é inevitável. Jamais se pode falar em unanimidade. A arte por si só questiona, provoca, agrega e desagrega - é exatamente a função dela. Se a arte não inquietar, ela não cumpriu a função. Na questão do Largo, acho que alguns questionamentos são procedentes, outros não. A ideia do projeto é fantástica. É um espaço que se criou. Uma forma de mostrar a cara sergipana. Com relação aos questionamentos, principalmente com relação à autoria das obras, do porquê não ter sido feita por sergipano, será mesmo que em Sergipe não tem artista? Talvez sim, talvez não. Eu acho que poderia ter sido discutida melhor a questão da confecção das obras. E a representatividade? Se tivessem 10 estátuas, estaria faltando; se tivessem cem, estaria faltando. Então, não tem jeito. Ali tem que ser entendido como um momento, um recorte, um espaço.

JLPolítica - Mas soma?
MB -
Eu acho que ele agrega muito mais do que qualquer outra coisa. Se questiona: é prioridade? Claro. Se só se tiver uma obra pública de arte quando não tiver mais problemas em hospitais, na segurança, na educação, a arte nunca vai ter absolutamente nada. O que tem que ter é seriedade: dinheiro da cultura para cultura, dinheiro da educação para educação, dinheiro da segurança para a segurança.

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Com o jornalista e escritor Amaral Cavalcante, a quem orienta lançamento de um livro

DA EXPOSIÇÃO PELOS 164 ANOS DE ARACAJU
“É no Palácio Museu Olímpio Campos, foi aberta na sexta, 15, e vai ter uma coletiva de artistas, que, através do seus olhares, trazem imagens de Aracaju nestes 164 anos. Temos fotografias, pinturas, desenhos e esculturas”

JLPolítica - Os painéis de Jenner, recuperados no Cacique Chá, estão de fato preservados?
MB -
Sim. Eles são a maior obra de Jenner, felizmente preservadas depois de 10 anos de abandono, e são a maior referência do artista por vários motivos. Do ponto de vista artístico, por marcarem o modernismo no Nordeste - a deposição do desenho, essa ausência de preocupação com a escola clássica, acadêmica, uma coisa de Di Cavalcanti e Cândido Portinari, onde o que você quer dizer é muito mais importante do que o que você está vendo. Isso é muito significativo para as artes visuais e para um artista. A Monalisa não é a obra mais bonita de Leonardo da Vinci, mas ela é definidamente a obra mais importante do mundo. Ela marca a mudança de uma era. Então, uma obra que tem o poder de marcar uma época, que foi o caso dos painéis de Jenner, por si só é importante.

JLPolítica - E marca também uma diáspora, já que ele pinta no ano em que vai embora...
MB -
Sim. Ele tem aquela visão de que o Cacique já era um local de discussão política, de acontecimentos sociais. Um lugar de efervescência nas décadas de 50, 60. Onde mulheres não frequentaram num primeiro momento, e que depois passou a ser o lugar mais chique de Aracaju. Era um lugar que questionava. O Cacique Chá está para Aracaju assim como o Anjo Azul esteve para Salvador. O da Bahia não existe mais, mas era exatamente o lugar em que Jenner frequentava, assim como Dorival Caymmi, Jorge Amado, Carlos Bastos e todos os demais artistas dessa geração, assim como acontecia, guardadas as proporções, com o nosso Cacique. Ele tinha uma cozinha de vanguarda, tinha uma pegada diferente. Então esses painéis marcam a introdução do modernismo no Nordeste, através da pintura de Jenner, porque quebram paradigmas, por terem sido feitos num lugar que conta a história de Sergipe, com seus questionamentos e inquietudes; porque resgata o cacique como protagonista da história do Brasil e do Estado.

JLPolítica - Mas sociologicamente o painel sinaliza também algo forte da história do Estado, no embate entre índios e brancos.
MB
– Sim. São importantes pela história, pelo conteúdo, pelo resgate. São de uma importância extraordinária. Você vê que a visão do branco retrata o cacique com cérebro pequeno e ombros largos, porque para ele o que importava era a força. E além desses painéis, Jenner tem outros, como os que estão no foyer do Teatro Atheneu, o que ficava no restaurante do Hotel Palace, outro lugar tradicional de Sergipe, que reunia a classe alta do Estado. Tem o do Edifício Walter Franco e tinha dois no aeroporto, que estão numa sala sem visitação - o que é um crime, porque uma arte que não é visitada é uma arte assassinada. E outro foi resgatado pela Energisa. Sergipe, inclusive, tem o domínio em tecnologia de transporte de obra de arte, como esse do Hotel Palace, que não é uma pintura que está na parede e foi transportada. Foi a parede que foi transportada. Esses painéis vieram da cultura muralista, e Jenner, por ser um homem de muita vanguarda, trouxe-os para Sergipe. Tempos depois, na década de 60, dois importantes painéis feitos aqui por Jordão de Oliveira, que são os painéis que ornam o hall do Palácio Museu Olímpio Campos. Eles retratam a economia da época. E o próprio Jenner, assim como Leonardo Alencar, ajudou na montagem.

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Com a primeira dama de Aracaju, Danusa Silva; o prefeito Edvaldo Nogueira e Zeca Fernandes, neto de Jener Augusto