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Entrevista

Jozailto Lima

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Overland Amaral: Será que esse cara faz chover?

Publicado em 23 de março de 2019, 20h00

“Sem previsões de tempo seria viver nas trevas, no escuro”

Chova ou faça sol em Sergipe, o nome dele é quase sinônimo de previsão de tempo. Isso equivale a monitorar precipitações chuvosas ou a ausência delas - os períodos de seca.

Ele é Overland Amaral. Ou Overland Amaral Costa, um geógrafo formado pela Universidade Federal de Sergipe em 1984 e que passou a vida inteira de cara pros equipamentos eletrônicos, nos cálculos matemáticos, auscultando indícios de chuva ou de seca.

Overland Amaral é um sujeito tão associado aos temas pluviométricos que nasce com ele o Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe, mantido pela Sedurb. Nasce e está sob o jugo dele desde o primeiro ano da década de 1990.

Overland Amaral é tão parapluviométrico que é alvo de piadas constantes no dia a dia, do tipo a que está no primeiro título desta entrevista, perguntando se ele é o cara que faz mesmo chover.

Popular exatamente pelo que faz, presente nas emissoras de TV e nos programas de Rádio numa boa constância, Overland Amaral pouco se importa com isso. Incorporou como algo afetivo inerente à sua atividade de pesquisador espacial.

“Encaro com muita tranquilidade. Não vejo tom pejorativo e, por isso, não me incomoda. Acho uma coisa engraçada. Quase afetiva. Até me divirto, porque me associam, lembram da minha imagem e, além disso, é uma válvula de escape para aqueles que estão com uma certa compulsão social e política”, diz.

Para bem além das brincadeiras de que é alvo, Overland Amaral diz que o serviço de previsão do tempo hoje é algo essencial às sociedades modernas - aos negócios e ao Estado. Uma essencialidade que o matemático e físico Arquimedes já experimentava lá pelos anos 230 antes de Cristo.

Overland sustenta que hoje seria impossível viver sem previsão de tempo. “Seria viver nas trevas, no escuro. Teríamos impactos muito grandes, intempéries. Sofreríamos sustos e perderíamos prazos”, diz ele.

“Não nos organizaríamos diante dos impactos, das mudanças. Porque clima em si é mudança, é variação. A própria palavra inclinação já diz. E agora, com as mudanças climáticas, você tem é que ampliar os estudos, para acompanhar as situações que levam às mudanças climáticas de grande impacto”, reforça.

Afora a falta de um radar meteorológico, o Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe, na visão de Overland, dá pro gasto, desempenha bem seu papel científico e o Governo do Estado até sabe da importância dele.

“Temos bons equipamentos, bons computadores. Mas é claro que precisamos modernizar cada vez mais, porque a tecnologia está sempre avançando, inclusive pelo armazenamento dos servidores, que vão ficando obsoletos. Na verdade, nós precisamos de um dos elementos fundamentais para a previsão, especialmente as imediatas, que é um radar meteorológico”, diz ele.

“O meu grande ideal é instalar um aqui em Sergipe para uma proteção maior contra as intempéries e eventos extremos. Porque o radar dá a previsão imediata, de antecipação, o que complementaria a nossa previsão”, reforça. O Centro é mantido por ele e por mais apenas três funcionários.

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Popular exatamente pelo que faz, presente nas emissoras de TV e nos programas de Rádio numa boa constância
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Nasceu no dia 15 de julho de 1952 no município de Nossa Senhora da Glória

 ATIVIDADE QUE COM O GREGO ARQUIMEDES
“A humanidade faz esse tipo de pesquisa desde que foi à luta pela sobrevivência, em busca pela produção de alimentos. Foi daí que nasceu a compreensão do tempo. Os gregos é que deram a contribuição para isso - e tudo começa com Arquimedes”


JLPolítica - Desde quando a humanidade pesquisa as previsões de tempo?
Overland Amaral -
A humanidade faz esse tipo de pesquisa desde que foi à luta pela sobrevivência, em busca de alimentos e também pela produção de alimentos. Foi daí que nasceu a compreensão do tempo. Os gregos é que deram, inicialmente, a contribuição para isso – e tudo começa com Arquimedes, que foi um dos grandes estudiosos para a previsão do tempo.

JLPolítica - Ele era um matemático...
OA –
Sim, e interpretou os elementos atmosféricos e teve uma grande contribuição ao temos e sabemos hoje.

JLPolítica - Tem algo de matemático em fazer previsão de tempo?
OA -
Sim, a previsão de tempo é fundamental matemática. Só existe matemática nesse cálculo. Hoje as previsões de tempo são modelos matemáticos pura. E com o computador, passou a ser binária, com a facilitação da elaboração da integração das equações para as previsões.

JLPolítica - Quando surge e quem funda o Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe, mantido pela Sedurb?
OA -
Na época, em 1991, quando o governador era João Alves, o Centro foi criado dentro da Codise, vinculado à Secretaria de Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia. Isso em decorrência da criação de um projeto do Ministério da Ciência Tecnologia, o Projeto Nordeste, do Governo Fernando Collor de Mello. Eu fui selecionado para participar desse grupo representando o Estado de Sergipe. Nós passamos um ano montando tudo, nos especializando, para posteriormente, nos unir a um grupo de todos os Estados. Fomos para o Ceará, aplicamos por seis meses as tecnologias de previsão do tempo e climática. Porque uma grande pergunta do Governo Collor na época era a seguinte: “Como resolver o problema da seca?” Então, o ministro de Ciência e Tecnologia da época, respondeu: “Com tecnologia. Monte um grupo de estudiosos e pesquisadores para estudar o problema da seca no Nordeste”.

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Overland sustenta que hoje seria impossível viver sem previsão de tempo

NA ORIGEM DO CENTRO DE PESQUISAS ESPACIAIS DE SERGIPE
“Como técnico, posso dizer que sou fundador do Centro de Pesquisa. Em 1991, quando o governador era João Alves, o Centro foi criado dentro da Codise, vinculado à Secretaria de Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia”


JLPolítica - Então o senhor diria que é o fundador do Centro?
OA -
Como técnico, posso dizer que sou fundador do Centro de Pesquisa. Inclusive, eu me lembro de que, na época, tinha meteorologia, recursos hídricos, estudos de sensoriamento remoto, todos integrados contribuíam para a compressão do cliente no ambiente do Estado de Sergipe como uma todo.

JLPolítica - Quem mais tira proveito da previsão do tempo: o agronegócios ou os governos na prevenção de tragédias?
OA –
Eu diria que Todos. Todos, porque toda a nossa previsão é voltada para todas as atividades da sociedade, tanto para o agronegócio, em suas ações sazonais de produção agrícola, produção de pecuária, quanto para os governos, para defesa Civil, para a proteção. Para a gestão dos recursos hídricos, hoje um problema sério e grave. Enfim, todos lucram para a gestão dos recursos hídricos. A sociedade como um todo lucra. Pontualmente, o agronegócio e o governo nas suas ações para a sociedade.

JLPolítica - O senhor diria que hoje seria impossível viver sem previsões de tempo?
OA -
É impossível. Seria viver nas trevas, no escuro. Teríamos impactos muito grandes, intempéries. Sofreríamos sustos e perderíamos prazos. Não nos organizaríamos diante dos impactos, das mudanças. Porque clima em si é mudança, é variação. A própria palavra inclinação já diz. E agora, com as mudanças climáticas, você tem é que ampliar os estudos, para acompanhar as situações que levam às mudanças climáticas de grande impacto.

JLPolítica – Mas a tecnologia leva a lhe garantir 100% de acertos?
OA –
Creio que hoje muito mais do que antes. Exatamente pelo uso dos computadores, dos satélites, das grandes tecnologias. Tudo isso integrado em rede mundial, porque nós não estamos olhando só o nosso espaço interno, nacional, mas temos a compreensão mundial para o nosso espaço macro. Essa inclusive é uma das grandes especialidades nossas. Eu diria que Sergipe é um diferencial, porque tem esse espaço laboratorial. Toda a previsão feita aqui é totalmente diferente da do resto do Brasil.

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É tão parapluviométrico que é alvo de piadas constantes no dia a dia

IMPOSSÍVEL VIVER SEM PREVISÕES DE TEMPO
“Seria viver nas trevas e no escuro. Teríamos impactos muito grandes, intempéries. Sofreríamos sustos e perderíamos prazos. Não nos organizaríamos diante dos impactos, das mudanças. Porque clima em si é mudança, é variação”


JLPolítica - Nossa capacidade de acerto é maior?
OA – Sim.
É maior, pela compactação do Estado. Pela resolução dos nossos modelos, que são voltados para previsão. A escala que nós temos, de 5 km, não existe em qualquer outro lugar do país. Nós podemos visualizar uma área a 5 km. Podemos ver até a condição do nosso jardim, por exemplo.

JLPolítica - Qual a longevidade de espaço-tempo que uma previsão de tempo pode medir? Dá para dizer hoje que o ano de 2020 será de chuva ou sem chuva?
OA -
Aqui, temos que distinguir duas coisas: a meteorologia é composta de tempo e clima. Na previsão, o espaço máximo é de sete dias. Agora, na previsão do clima, é possível prever até três meses. Todavia, existem outros modelos que nós precisamos estudar, com base no ciclo, e aí estender até um ano ou dois anos. 

JLPolítica - Quantas pessoas tocam o Centro de Meteorologia com o senhor?
OA -
Somos internamente quatro pessoas: dois técnicos, eu e um consultor que nos auxilia no trabalho de desenvolvimento de modelagem de aperfeiçoamento do sistema meteorológico.

JLPolítica - É o suficiente?
OA -
Ainda não. Precisaríamos de mais recursos humanos para poder ter mais amplitude e desenvolvimento do setor.

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“Seria viver nas trevas, no escuro', diz ele, sobre não ter previsão do tempo

 LONGEVIDADE DAS PREVISÕES DE TEMPO
“Temos que distinguir duas coisas: a meteorologia é composta de tempo e clima. Na previsão, o espaço máximo é de sete dias. Agora, na previsão do clima, é possível prever até três meses”


JLPolítica - No aspecto técnico e científico, como está constituído o Centro de Meteorologia de Sergipe? Tem bons equipamentos?
OA –
Temos, sim, bons equipamentos, bons computadores. Mas é claro que precisamos modernizar cada vez mais, porque a tecnologia está sempre avançando, inclusive pelo armazenamento dos servidores, que vão ficando obsoletos. Mas ele é top de linha. Tanto em computadores quanto em estações de monitoramento e uso de satélites. Na verdade, nós precisamos de um dos elementos fundamentais para a previsão, especialmente as imediatas, que é um radar meteorológico. O meu grande ideal é instalar um aqui em Sergipe para uma proteção maior contra as intempéries e eventos extremos. Porque o radar dá a previsão imediata, de antecipação, o que complementaria a nossa previsão.

JLPolítica - Quanto custaria um radar desse?
OA -
Têm vários modelos. Mas custam de R$ 1 milhão a R$ 6 milhões.

JLPolítica - Não seria nada impossível...
OA -
Não, não seria. Com planejamento seria viável, já que há várias formas de se adquirir um.

JLPolítica – O Governo do Estado reconhece o real valor da ação do Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe?
OA -
De certa forma, reconhece. Mas necessitaríamos de um aporte maior para a nossa infraestrutura. Temos certas carências. Eu entendo a situação de demanda do Estado em todas as áreas, mas nós temos também que desenvolver a nossa área de pesquisas espaciais, exatamente em virtude da nossa contribuição para a sociedade.

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"Nós temos também que desenvolver a nossa área de pesquisas espaciais", defende

DA FALTA QUE FAZ UM RADAR METEOROLÓGICO
“Temos bons equipamentos, bons computadores. Na verdade, nós precisamos de um dos elementos fundamentais para a previsão, especialmente as imediatas, que é um radar meteorológico”


JLPolítica - O senhor acha que a popularização da previsão do tempo nos grandes canais de TV e no rádio teve que contribuição para essa área?
OA -
Foi fundamental, porque, na verdade, não tem sentido eu desenvolver uma pesquisa de previsão e não ter uma interlocução com a sociedade, com o cidadão. Eu, pessoal individual, não tenho a voz para chegar até o cidadão - então uso os canais jornalísticos. A TV, o rádio, que possibilitam isso.

JLPolítica – Qual é o seu conceito da ação diária de Maju Coutinho no Jornal Nacional tratando desse tema? Tem algum erro ali?
OA -
O conceito é bom e não erro. Ninguém é perfeito, existem pequenas coisas. A questão da escala, por exemplo, mas é tudo dentro do padrão esperado. O trabalho da Maju Coutinho é excelente.

JLPolítica - O senhor a conhece?
OA –
Conheço. Ela inclusive se reporta a mim, me trata muitíssimo bem. Ela tem um contato conosco quando se trata de informações sobre Sergipe. Ela mandou um livro dela pra mim, e realmente eu tenho muito apreço por Maju.

JLPolítica - O senhor diria que há mais acertos do que erros nas previsões de tempo?
OA –
Atualmente, sim, há mais acertos. Mas há erro, e esse muito vem da interpretação de quem usa a previsão, porque muitas das vezes a pessoa espera que aconteça uma coisa mas a previsão está dizendo outra. E aí ela acha que a previsão está errada. Por exemplo: se a gente não prevê chuva, e a pessoa esperava chuva, ela vai achar que está errado. O erro está na expectativa de quem consome.

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"Atualmente, sim, há mais acertos", avalia, sobre as previsões

DO RECONHECIMENTO DO REAL VALOR PELO GOVERNO
“Temos certas carências. Entendo a situação de demanda do Estado em todas as áreas, mas temos também que desenvolver a nossa área de pesquisas espaciais, exatamente em virtude da nossa contribuição p
ara a sociedade”


JLPolítica - Qual é a explicação científica para que o semiárido nordestino seja tão sofrível no aspecto de precipitações pluviométricas?OA - Na verdade, isso é decorrente de eventos climáticos que provocam essas secas cíclicas na região Nordeste como um todo e em Sergipe. Fundamentalmente, vem do efeito do El Niño, que é um fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico.

JLPolítica – Como o El Niño inverte as coisas?
OA -
Ele inverte a circulação na atmosfera de tal forma que, ao longo do Equador as circulações são alísios de Sudeste e alísios do Nordeste. Quando o El Niño está presente no Pacífico, no Peru, essa situação se inverte. Ela vem do Oeste e sobe convectivamente na costa do Peru, chove bastante lá e desce seco, quente. O Nordeste tem três períodos chuvosos: do Norte do Nordeste, que vai de fevereiro a maio, e cobre o Ceará, Rio Grande do Norte, por um período chamado sistema de convergência intertropical. O segundo é o Leste do Nordeste, que vai agora de abril a agosto. Esse é o segundo regime, que recebe o sistema de frentes frias. O terceiro é do Sul e Oeste do Nordeste, que é praticamente toda a Bahia, o sul do Maranhão e tem chuvas de novembro a maio. Quando o El Niño está instalado, tudo isso se altera. Fica uma massa seca, e pesa sobre a região Nordeste.

JLPolítica - Quem descobriu o El Niño? Desde quando se monitora ele?
OA -
Desde o final do século passado, o século XX, o matemático Gilbert Walker, meteorologista inglês, trabalhando na Índia, observou que havia um efeito de desbalanço da circulação do globo e foi verificar se havia uma relação com o Pacífico. Chegando na Costa do Peru, Walker percebeu que algumas vezes, na região, ele escutava os pescadores falando que era uma região de águas de profundidade, ao contrário de onde há ressurgência de águas frias no oceano, que traz plâncton que serve de alimento aos peixes. Quando as águas se aquecem, não há ressurgência e os peixes não surgem, alterando a circulação e o clima. E aí ele chegou a escutar os pescadores a denominação de El Niño, pelo fato de isso sempre surgia no Natal - daí veio o nome de El Niño, uma referência ao Menino Jesus.

JLPolítica - Quem mais contribui para a formação de nuvens de chuvas - os oceanos ou as florestas?
OA – Ah, os oceanos. A contribuição deles é bem maior, cerca de 80%. Todavia, as grandes florestas, como a Amazônia, também dão sua contribuição.

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"Minas é a caixa d’água do Brasil", dimensiona

MAIOR CONTRIBUIÇÃO ENTRE OCEANOS E FLORESTAS
“A contribuição dos oceanos é bem maior (na formação das chuvas), cerca de 80%. Todavia, as grandes florestas, como a Amazônia, também dão sua contribuição”


JLPolítica - Entre os nossos sete biomas, de onde vem o maior contributo para a formação das chuvas?
OA -
Da Amazônia, sem dúvida. Sem ela, nós teríamos um grande deserto no Brasil. Assim como grande escassez aquífera.

JLPolítica - Qual seria os impactos para as Américas e para o mundo com uma suposta destruição total da Amazônia?
OA -
Para o mundo, um desequilíbrio total do clima. E para as Américas, o surgimento até de áreas desérticas, redução de aquíferos. Por isso, é fundamental preservá-la, assim como todos os demais biomas. A nossa caatinga, por exemplo, guarda o nascimento de muitos rios do Nordeste.

JLPolítica – Qual o conceito de rios voadores?
OA -
De certa forma, a circulação de vapor que surge da Amazônia desce para o sul e forma o período chuvoso do centro-oeste e sudeste do Brasil. Ou seja, são vapores de água que descem por circulação. Chega na Costa dos Andes, bate e vem para o sudeste do Brasil. Então toda a chuva do sudeste depende disso. Caso esses rios voadores não existissem, o centro-oeste e o sudeste seriam um grande deserto. Os rios terrestres morreriam, não existiriam.

JLPolítica - A sociedade sabe o real valor da Amazônia?
OA -
Eu acredito que não. Precisa de conscientizar mais. O uso da Amazônia tem que ser racional, gestacional, seminal, a fim de preservar esse patrimônio.

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"Nosso trabalho é mais atmosférico", observa

O PODER AQUÍFERO DA AMAZÔNIA
“Sem ela, nós teríamos um grande deserto. Assim como grande escassez aquífera. É fundamental preservá-la, assim como a nossa caatinga, por exemplo, que guarda o nascimento de muitos rios do Nordeste”


JLPolítica – O Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe mede os aquíferos subterrâneos?
OA -
Não, não mede. Nosso trabalho é mais atmosférico, o que está acima. Mas entendemos que as chuvas, a atmosfera e a terra têm grandes contribuições para a manutenção dos aquíferos.

JLPolítica - A humanidade corre perigo de extinção total das águas?
OA -
Corre. Pelo mau uso, pelas grandes degradações ambientais, as devastações de nascentes dos rios. Tudo isso aponta para uma grande tendência de perda de recursos hídricos.  

JLPolítica - O que fazer para corrigir isso?
OA -
Em primeiro lugar, precisamos de preservação ambiental, especialmente das áreas de recarga dos rios, que são as nascentes, a base florestal das nascente, que são elas que vão alimentar os aquíferos subterrâneos. Se você quer matar um rio, acabe com as áreas de recarga.

JLPolítica - Um rio morre pela nascente ou pela foz?
OA -
Sim, pela nascente. Pela falta de preservação dela, de algo que a irrigue, que a mantenha, que a alimente, como as áreas de recarga.

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"Tenho o maior amor pelo que faço", exalta

CORRE-SE PERIGO DE EXTINÇÃO TOTAL DAS ÁGUAS?
“Corre. Pelo mau uso, pelas grandes degradações ambientais, as devastações de nascentes dos rios. Tudo isso aponta para uma grande tendência de perda de recursos hídricos”


JLPolítica - Qual é a importância de Minas para o provimento de águas do Nordeste?
OA -
Minas é a caixa d’água do Brasil. É aquilo que eu disse: tem que preservar as nascentes, as áreas de recarga, as caixas d’água. Por isso Minas é fundamental para os recursos hídricos.

JLPolítica - O senhor acha viável um modelo em que estimulasse donos de terras nas bacias dos rios a ser remuneradora por manutenção de florestas?
OA -
Isso seria fundamental. Eu chamo isso até de renaturalização das bacias hidrográficas. Há pessoas que defendem isso e veem como fundamental, porque se você alimentar o agricultor, o fazendeiro com um subsídio, uma espécie de royaltie água, você teria mais quantidade de água. Ele seria um multiplicador. Se na sua propriedade um rio nasce e você cuida, claro, você precisa ser remunerado, já que vai servir a toda a sociedade. Minas e Bahia fazem um pouco disso, estimulando essa ação.

JLPolítica – Como está o Estado de Sergipe do ponto de vista de provimento de recursos hídricos?
OA -
A situação não é muito boa não. Temos uma escassez muito grande por causa de vários fatores, como preservação, gestão e governança dos recursos captados. É preciso integrar esses fatores para haver melhoria, além de fazer uso racional, proporcional e adequado desses recursos. Inclusive, no Estado de Sergipe existe uma lei dos recursos hídricos instalada desde o governo Albano Franco, mas tem que fazer uso dessas leis para fazer a gestão. Afinal, existe uma política de recursos hídricos no Estado.

JLPolítica - É civilizado que a Deso perca quase 50% da água captada e tratada?
OA -
Não é. Tem que ter mais técnica para reduzir essas perdas.

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"Tudo isso aponta para uma grande tendência de perda de recursos hídricos", lamenta

IMPORTÂNCIA DA CAIXA D’ÁGUA DO BRASIL
“Minas é a caixa d’água do Brasil. É aquilo que eu disse: tem que preservar as nascentes, as áreas de recarga, as caixas d’água. Por isso Minas é fundamental para os recursos hídricos”


JLPolítica - Qual a interlocução do Centro de Pesquisas Espaciais de Sergipe, da Sedurb, com a UFS e os IFSs?
OA -
É muito boa. Há uma integração com pesquisadores, com estudantes, acadêmicos. Participo, inclusive, de trabalhos. Nós temos agora um grupo, o Comitê de Monitoramento da Seca no Nordeste, no IFS, onde estão pesquisadores, doutores da universidade, que se integram. Claro que a gente também monitora a seca, que é o outro lado do clima.

JLPolítica – O senhor é alvo de muitas piadas nos encontros sociais, nas ruas? Perguntam-lhe muito se o senhor faz chover?
OA -
Sou, mas encaro isso com muita tranquilidade. Até me divirto, porque me associam, lembram da minha imagem e, além disso, é uma válvula de escape para aqueles que estão com uma certa compulsão social e política. Não vejo tom pejorativo e, por isso, não me incomoda. Acho uma coisa engraçada. Quase afetiva.

JLPolítica - Dá para citar eventos trágicos que teriam sido evitados por previsões espaciais?
OA -
Sim. Na época do governador Marcelo Déda, em 2010, nossos modelos de previsão apontavam já antecipadamente, há mais de 10 dias, a chegada de um sistema de chuva alto - inclusive nessa época também ocorreu em Alagoas e em Pernambuco grandes inundações. Em Alagoas, houve mortes e aqui em Sergipe chegamos a emitir os boletins antecipadamente, eles chegaram até o governo e houve tempo de Déda agir, como bom administrador que sempre foi. Me chamaram para confirmar, e eu confirmei, pois fui eu que fiz e eu confiava e dava a vida por aquilo. De tal forma que posteriormente, cinco dias após, iniciou-se o evento de fortes chuvas - e nós fomos monitorando tudo. Foi criada uma sala de situação, que foi uma inovação muito grande para a época, e no final Marcelo Déda falou que graças a essa ação nenhuma vida foi ceifada, porque para ele e para nós o mais importante é a defesa do cidadão.

JLPolítica – Qual o conceito mundial do INPE?
OA -
É excelente, está no nível da NOA - Nacional Ocean Atmosfera - dos Estados Unidos, e da Nasa. Mas é importante, como no caso daqui, que se invista mais, se estruture mais o Instituto, porque ele é importantíssimo e estratégico para o país, para mais conhecimento e defesa.

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"Fico muito grato pela sociedade ter uma boa interação comigo', agradece

AFINAL, O SENHOR GOSTA DO QUE FAZ?
“Eu amo. Tenho o maior amor pelo que faço e fico muito grato pela sociedade ter uma boa interação comigo. Desde jovem eu resolvi que deveria estudar e isso me trouxe até aqui”


JLPolítica – Tem alguma coisa hilária advinda de erros que vocês cometeram?
OA -
Não lembro tanto, mas às vezes acontece.

JLPolítica - Afinal, o senhor gosta do que faz?
OA -
Eu amo. Tenho o maior amor pelo que faço e fico muito grato pela sociedade ter uma boa interação comigo. Inclusive, desde jovem, quando me perguntavam porque essas variações do clima, eu resolvi que deveria estudar e isso me trouxe até aqui.

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"Tem que ter mais técnica para reduzir essas perdas", recomenda, sobre as perdas de água da Deso