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Entrevista

Jozailto Lima

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Paulo Escariz: “A Escariz aposta no livro como uma fonte de transformação”

“Somos responsáveis pela venda anual de 300 mil livros em Sergipe”
21  de setembro - 20h00


Teria sido o acaso que transformou Paulo Pereira Carrera Escariz no maior livreiro de Sergipe? Qual o percentual dos dados da sorte na elevação do negócio dele, a Livraria Escariz, em 34 anos, ao posto de a maior livraria do Norte e Nordeste, entre as que são classificadas de regionais?

Possivelmente, essas perguntas não terão respostas fáceis, claras, diretas. O certo, no entanto, é que Paulo Escariz o é. Está aí, e fez, ao lado da sua leoa Fátima Escariz, do seu sobrenome o sinônimo de um bem-sucedido negócio umbilicalmente vinculado ao livro num país onde esse objeto é quase aviltado por uma realidade de mais de 50% de analfabetos funcionais.

Mas em vez de sentar seu traseiro de bronze sobre essa realidade, ficar olhando à distância, lamuriando e sem poder de intervenção, o descendente de espanhol Paulo Escariz partiu para a feitura do seu omelete mesmo com os ovos escassos da leitura.

E, a propósito disso, ele tem uma teoria magistral para seu sucesso empresarial e a elevação da Escariz à inserir-se entre as 25 maiores livrarias do país.

“Num país de descalços, se você produz calçados tem um mercado consumidor muito grande”, diz Paulo, na metáfora do economista que o é por formação.

Paulo Escariz e seu negócio homônimo inserem Sergipe e os sergipanos no mapa da rala civilização letrada brasileira. Da civilidade brasileira. Ouça isso: “A gente responde hoje por 0,5% de todos os livros vendidos no Brasil. E dos livros didáticos, por 1% de todos os livros comercializados no país”, diz ele.

Que tal isso? “Isso reforça a ideia do bom mercado sergipano e do quanto o sergipano lê”, diz ele. Para chegar aonde chegou, percebe-se que Paulo Escariz não faturou pessimismos, queixumes estéreis, apesar da fama de brigão que carrega sob as costelas.

Para os que apontam dificuldades de se viver de livros na nação de banguelas iletrados, Paulo Escariz, além da metáfora dos descalços, oferece a face de uma outra imagem. 

“Eu acho isso uma oportunidade. Sempre acreditei nisso. Sempre acreditei que a gente tem muito para crescer, apesar disso. A esperança é a de que isso se transforme. Você tem uma atividade onde existe muito ainda a ser trabalhado, e se a gente tiver políticas públicas voltadas para a educação nós vamos ampliar o número de leitores”, diz ele.

A síntese do pensamento desse baiano nessa esfera está na frase que dá o primeiro título desta Entrevista. “A Escariz aposta no livro como uma fonte de transformação”, diz ele. Sim, mesmo a despeito de ser uma frase de um comerciante, Paulo Escariz está certo.

Certo e seguro de que faz algo que lhe dá prazer. Já chegou a gerar 120 empregos diretos. Agora está com 80 - o que é uma queda média muito positiva para um país corroído pela corrupção que mata as inciativas individuais e desemprega a sua gente.

Paulo Escariz nasceu em Salvador, na Bahia, no dia 12 de janeiro de 1950 - é um sessentão, casado com Maria de Fátima Dorea Campos Escariz, seu braço direito nos negócios.

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Ao lado do jornalista Juca Kfouri
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É um sessentão que chegou em Aracaju aos 21 anos, em 1980

JLPolítica - O homem de negócios com livros nasceu do jornaleiro?
Paulo Escariz -
Sim, nasceu do jornaleiro. Em 1985, um concunhado me ofereceu uma estante de revistas que um amigo dele estava vendendo, encerrando a atividade de jornaleiro e eu achei que seria uma oportunidade. Começamos na garagem da casa de uma tia de Fátima. Eu tinha 26 anos, trabalhava na Alpargatas e comecei a fazer o negócio. Éramos apenas eu e Fátima. Mais tarde, chegamos a ter 10 bancas de jornais só em Aracaju.

JLPolítica - Como é que se deu esta transição da banca de jornal para as livrarias?
PE -
Quando veio o primeiro shopping de Aracaju, o Riomar, eu já colocar uma loja. Então, começamos ali, com uma loja de 20 metros quadrados, que hoje tem 200 metros.

JLPolítica - O senhor sente saudades do jornal impresso?
PE -
Não diria saudade, mas admito que a gente está ficando sem uma referência mais segura de informação.  

JLPolítica - Qual o maior risco de se lidar com livros num país com mais de 50% de analfabetos funcionais?
PE -
Eu acho isso uma oportunidade. Sempre acreditei nisso. Sempre acreditei que a gente tem muito para crescer, apesar disso. A esperança é a de que isso se transforme. Você tem uma atividade onde existe muito ainda a ser trabalhado, e se a gente tiver políticas públicas voltadas para a educação nós vamos ampliar o número de leitores. Num país de descalços, se você produz calçados tem um mercado consumidor muito grande.

JLPolítica - O que é o livro para o senhor?
PE -
A Escariz aposta no livro como uma fonte de transformação. Só quem está habituado a ler sabe a importância que o livro tem.

DO JORNALEIRO PARA O LIVREIRO
“Começamos na garagem da casa de uma tia de Fátima. Eu tinha 26 anos, trabalhava na Alpargatas e comecei a fazer o negócio. Éramos apenas eu e Fátima. Mais tarde, chegamos a ter 10 bancas de jornais só em Aracaju”

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Paulo Escariz, na mesa de almço da grande família espanhola

JLPolítica - O senhor só os revende ou também é um leitor?
PE -
Sou um leitor voraz. A ideia de montar a banca de revista foi porque eu era viciado em livrinhos de cowboy e ficava esperando os novos títulos chegarem, sentado na banca. Quando não chegavam, e os relia.

JLPolítica - As informações de que as grandes livrarias estão encolhendo, fechando, assustam-lhe? Elas podem acabar um dia?
PE -
As grandes livrarias estão se transformando. Na década de 90, início dos anos 2000, houve um boom em que surgiram as grandes redes e grandes lojas. Com isso, houve uma redução de pequenas livrarias, que praticamente foram engolidas pelas grandes. Mas agora esse perfil das menores está retornando. As duas maiores redes que hoje estão em recuperação judicial - Saraiva e Cultura - continuaram apostando em grandes lojas e descontos. Então, essas lojas não sobrevivem mais nem no Brasil nem em lugar nenhum do mundo. Hoje, a tendência é das livrarias menores, com uma curadoria melhor, e essa política de grandes descontos vai ficar para a internet, que não é a nossa briga.

JLPolítica - O que ganha um livreiro com o império da web se firmando a cada dia? Com o livro virtual?
PE -
O livro eletrônico não decolou em lugar nenhum do mundo. No Brasil, não ele não chega a 2%. Em mercados maduros, como Estados Unidos e Europa, chegou a 25%, mas já vem na casa de 15%. Ou seja: refluíram. Porque qualquer pessoa prefere ler no papel a ler numa máquina. 

JLPolítica – Mas o livro online, o da web, poderá suceder definitivamente o livro impresso?
PE -
A gente viveu um momento em que todo mundo dizia que o livro, finalmente, iria desparecer. E estamos vendo o contrário: o impresso se firmando cada vez mais e o livro eletrônico diminuindo. Se algum dia isso da sua pergunta tiver de acontecer, não vai ser tão próximo. Isso já é uma coisa aceita definitivamente pelo mercado. Eles vão conviver. As pesquisas que a gente tem apontam que quem tem o livro digital também é consumidor do livro impresso.

JLPolítica - O senhor acha que o brasileiro e o sergipano leem pouco?
PE -
Eu acho que não. O universo de leitores ainda é pequeno em ambos. Mas quando a gente começou a trabalhar com livros, já se falava que Sergipe era um lugar de não-leitores, e que as livrarias estavam fechando. A experiência que a gente teve até agora não foi bem essa. A minha percepção é a de que Sergipe tem um número proporcionalmente maior de leitores que o resto do Brasil, e de que a produção literária local é também muito grande. 

PRAZER DE LIDAR COM LIVROS NO PAÍS DA POUCA LEITURA
“Sempre acreditei que a gente tem muito para crescer, apesar disso. A esperança é a de que isso se transforme. Num país de descalços, se você produz calçados tem um mercado consumidor muito grande”

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Aqui, na companhia do tio Fernando, irmão de pai, o próprio pai, Fernando o irmão, e o tio Pepe - José Carrera

JLPolítica - Quanto por cento do negócio de uma livraria é feito de papelaria e outras perfumarias?
PE -
Depende do perfil de cada livraria. Na nossa, esse percentual é de 30%.

JLPolítica - Quando chegou a Saraiva em Aracaju os mais apressados disseram que a Escariz estava com os dias contados. Como o senhor sobreviveu a isso?
PE -
Sobrevivemos fazendo um trabalho sério, focado, tentando não concorrer em coisas que a gente achava que a conta não fechava - e não está fechando. E tentando trabalhar a qualidade de atendimento do público e não só no preço.

JLPolítica - No que a conta não fecha?
PE –
Nos descontos excessivos. Hoje, a gente tem uma política de desconto negociada com a editora e uma quantidade de livros muito grande com desconto. Mas descontos negociados com o fornecedor.

JLPolítica - Quantos empregos o senhor gera diretamente?
PE -
Já chegamos a ter 120 funcionários e hoje estamos em 80. Isso é em decorrência de redução de custos, de ter que adequar à realidade de cada negócio.

JLPolítica - De quantas lojas as Livrarias Escariz são compostas?
PE -
São cinco lojas, distribuídas entre os Shoppings Jardins e Riomar, avenida Jorge Amado, Unit e Hiper GBarbosa da Francisco Porto. Fechamos a da UFS, mas porque a Universidade pediu o espaço.

NA ERA DAS LIVRARIAS MENORES
“As grandes livrarias estão se transformando. Hoje, a tendência é das livrarias menores, com uma curadoria melhor, e essa política de grandes descontos vai ficar para a internet”

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Raízes da Espanha: nesta casa espanhola nasceu a mãe de Paulo, dona Elena Pereira Carrera Escariz

JLPolítica - O senhor já pensou em abrir uma loja fora de Sergipe?
PE -
Sim, pensamos. Antes da Saraiva vir, a gente pensou e até tivemos muitas ofertas para abrir em vários lugares, mas depois que a Saraiva chegou a gente entendeu que o ideal era manter a empresa dentro de Sergipe e focada em Sergipe. Pelo menos agora, esse pensamento não deverá ser retomado.

JLPolítica - Quem são mais visitadas, as Escariz dos Shoppings ou a da Jorge Amado?
PE -
As dos Shoppings, principalmente a do Jardins, até pelo porte e tamanho dela. Mas a que mais cresce é a da avenida Jorge Amado, no Garcia, por conta do espaço. Como eu disse, as livrarias mudaram o perfil e, hoje, são um ponto de encontro. A da Jorge Amado se adequa exatamente a essa finalidade: é lugar de reunião, o espaço ideal para uma livraria.

JLPolítica - O senhor revela ou esconde o seu faturamento?
PE -
Não escondo não. Mas em vez de falar em cifras monetárias, eu prefiro dizer que somos responsáveis pela venda anual de 300 mil livros em Sergipe. Isso nos orgulha bastante.

JLPolítica - O Estado brasileiro trata um comerciante de livros com mais atenção, por disseminar cultura e conhecimento, do que um empresário de outra área qualquer?
PE –
Não, mas deveria tratar. Existem áreas específicas do Governo que deveriam tratar. Ressalto, no entanto, a questão da isenção de imposto para os livros, que é uma garantida constitucionalmente.

JLPolítica - O senhor acha o livro brasileiro caro ou barato?
PE -
Eu acho muito barato. Veja: o “Código de Da Vinci”, que custa R$ 40, se fosse corrigido do dia do lançamento até hoje, estaria em mais de R$ 100. Uma das coisas de que se fala é que o mercado livreiro sofreu porque os preços ficaram estagnados.

OS SERGIPANOS SÃO BONS LEITORES
“Quando a gente começou a trabalhar com livros, já se falava que Sergipe era um lugar de não-leitores, e que as livrarias estavam fechando. A experiência que a gente teve até agora não foi bem essa”

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Quase todos os Escariz: Fernando , Carlos, Elisa, o pai, Alberto e Paulo

JLPolítica - Com seus 34 anos de atividade na área, o senhor conseguiu identificar um perfil do leitor do sergipana?
PE –
Especificamente, não. Mas detectamos algo mais importante: que é um público que lê acima da média brasileira. E que lê de um tudo. Dos autores locais, os mais procurados são os que se dedicam às histórias de Sergipe.

JLPolítica - Se tivesse de começar de novo sua vida empresarial, o senhor apostaria o ramo de livraria?
PE -
Com certeza, porque é maravilhoso trabalhar com cultura, com um produto que você sabe que de alguma forma está colaborando com o desenvolvimento e a transformação das pessoas.

JLPolítica - Um dia lhe deram o Título de Cidadania Aracajuana alegando que a sua livraria contribuiria com o desenvolvimento intelectual da cidade. Como foi esse episódio?
PE -
Foi interessante: o vereador Elber Batalha me procurou e disse que tinha sido relatado um fato de que uma pessoa tinha se formado em Medicina lendo os livros da área dentro da nossa livraria. Ele marcou um encontro com essa pessoa que disse que o encontraria na livraria, e essa pessoa relatou que ia com frequência ao nosso espaço e que tinha se formado assim mesmo, lendo lá. Algum tempo depois, mais duas pessoas relataram a mesma coisa. Elber achou que o título seria mais do que merecido e eu acabei recebendo em nome disso.

JLPolítica - A livraria moderna é um pouco biblioteca pública?PE – Sim, um pouco biblioteca pública melhor, porque acho que as bibliotecas ficaram um pouco ultrapassadas, principalmente em acervos. Praticamente não têm nenhum atrativo nelas hoje em dia. Dentro das livrarias, a pessoa consegue pesquisar, porque a gente sempre disponibilizou esses espaços para que e as pessoas lessem e pudessem pesquisar. Principalmente nessa loja da Jorge Amado, que tem o espaço perfeito para se fazer isso.

JLPolítica - Se a pessoa quiser ler um romance de 300 páginas dentro de uma livraria sua em 10 dias, pode fazê-lo?
PE -
Pode e deve. O ideal é que conserve o livro, mas no geral não existe qualquer restrição. É só chegar, folhear, pesquisar e ler.

JÁ TEVE UM MAIOR EFETIVO FUNCIONÁRIOS
“Já chegamos a ter 120 funcionários e hoje estamos em 80. Isso é em decorrência de redução de custos, de ter que adequar à realidade de cada negócio”

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Ao lado do escritor Jorge Carvalho: reconhecimento e reverência à literatura feita em Sergipe

JLPolítica - Qual o papel de Fátima Escariz, sua esposa, no contexto dos negócios?
PE -
Fátima tem um papel fundamental. É ela que trata de todos os eventos. É ela que está presente nas lojas, porque eu fico mais por trás, na parte administrativa, e vou muito pouco às lojas.

JLPolítica - Há muito roubo de livros dentro de uma livraria?
PE -
Há alguma coisa sim, mas acontece de vez em quando. O livro mais caro que a gente tem é um “Atlas de Anatomia Humana”, o Sobotta. Esse livro custa quase R$ 1 mil e não pode ser deixado fácil, tem que ficar guardado, porque se não as pessoas roubam. E é interessante que só tem perfil para esse livro os estudantes de Medicina.

JLPolítica – Mas qual o perfil dos gatunos?
PE -
Tem de todo jeito, até escritor (risos). Uma vez flagrei um deles. Mas entendo que a pessoa que vai roubar cultura, livro, não é um ladrão comum, apesar de, à medida em que você facilita que ele leia o livro na loja, não tem porque roubá-lo. Mas...

JLPolítica - O senhor está diversificando suas atividades empresariais?
PE -
Já diversifiquei e voltei ao leito normal. Na época que se dizia que o livro ia acabar e o digital ia assumir o lugar do físico, eu parti para a atividade de pecuária – cheguei a ter três fazendas arrendadas. Mas hoje já encerrei e vi que minha praia é a livraria. Estou cada vez mais dentro dela e me dá muito prazer. É gratificante trabalhar com algo que contribua para a evolução das pessoas.

JLPolítica - O senhor tem que noção da queixa do autor sergipano que diz que o senhor cobra percentual muito alto para revenda ou lançamento de livros nas Escariz?
PE -
Acho que há nisso uma falta de conhecimento. Nesse aspecto, uma concorrência foi importante, porque antes da chegada de outra livraria se dizia que a gente a Escariz era monopolista por estar sozinho. Mas veja: a gente sempre cobrou 40%.

SONHO DE ABRIR LOJA FORA FOI ADIADO
“Antes da Saraiva vir, a gente pensou e até tivemos muitas ofertas para abrir em vários lugares, mas depois que a Saraiva chegou a gente entendeu que o ideal era manter a empresa dentro de Sergipe e focada em Sergipe”

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Com Fátima, é pai de três moças - Paula, Renata e Marcela, todas Campos Escariz, de 33, 30 e 27 anos

JLPolítica - E qual o percentual das demais?
PE -
A concorrência veio para cobrar 50%. Eu sempre entendi que a gente precisava estimular, de alguma forma, leitores e escritores. Apoiando o autor sergipano, com certeza, também estaríamos tendo esse papel de estimular a leitura. E veja para os eventos de lançamentos nós cobramos 30% - então, sempre muito menos do que os demais espaços.

JLPolítica - O senhor não é pouco eventeiro no campo livresco?
PE -
Eu diria que não. Afirmo que a gente faz muito evento, sobretudo em escolas, e talvez isso não apareça. Por exemplo, agora em outubro a gente deve ter umas 5 ou 6 escolas fazendo feiras simultaneamente, por causa do Dia das Crianças, e a gente vai com o acervo para essas escolas. A gente faz todo sábado o Dia do Conto, lá na Escariz da Jorge Amado. A gente faz muito lançamento, pelo menos dois ou três na semana na Jorge Amado. A gente procura concentrar os eventos lá, porque o espaço físico é mais adequado.

JLPolítica - A Escariz se situa em que ranking no contexto das livrarias brasileiras hoje?
PE -
A Escariz está entre as 25 maiores livrarias do país. É a maior livraria do Norte e Nordeste, entre as que chamamos de regionais. Por exemplo, se pegarmos Salvador, veremos que não tem nenhuma livraria local. A gente responde hoje por 0,5% de todos os livros vendidos no Brasil. E dos livros didáticos, por 1% de todos os livros comercializados no país. Isso reforça a ideia do bom mercado sergipano e do quanto o sergipano lê.

JLPolítica - O autor sergipano tem motivos plausíveis e concretos para gostar da Escariz?
PE -
Estou certo de que sim, mas acho que falta um pouco mais de conhecimento deles para com o nosso negócio. Se você for em outras livrarias, vai ver a dificuldade que é para se colocar um livro nesses estabelecimentos. Por exemplo, em Salvador, que tem basicamente as grandes redes, o autor baiano não consegue colocar os seus livros. Quando consegue, colocam com 50% de desconto. A gente está aberto a todos os autores sergipanos. Inclusive, não precisa pedir para colocar. É só chegar e trazer o livro. Estamos de portas abertas. Nós temos duas pessoas na Escariz que cuidam especificamente das demandas dos autores sergipanos. Isso é uma coisa em que a gente investe e acredita que está prestando um serviço ao autor sergipano.

JLPolítica - Lagarto e Itabaiana não merecem uma Escariz? Não comportam ainda?
PE -
Eu acho que não.

O LIVRO BRASILEIRO NÃO É CARO
“Acho muito barato. Veja: o “Código de Da Vinci”, que custa R$ 40, se fosse corrigido do dia do lançamento até hoje, estaria em mais de R$ 100. Uma das coisas de que se fala é que o mercado livreiro sofreu porque os preços ficaram estagnados”

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A esposa Fatima Escariz com Maurício de Souza: ela cuida fortemente da agenda de eventos

JLPolítica - O senhor está atento ao mercado virtual de livros?
PE -
Sim. Nós já estamos com um site cuidando disso. Começamos muito acanhadamente, atendendo somente Aracaju, mas já vamos começar a atender agora todo o Estado de Sergipe. A Aracaju a gente atende com frete grátis e, dentro de 30 ou 60 dias, vamos começar a vender para o Brasil inteiro, através da plataforma marketplace. Veja a dimensão disso: os livros de autores sergipanos já vão ser vendidos nacionalmente através dessa atuação com o marketplace de outros. Vamos começar pela B2W e vamos para a Amazon. Estamos atentos a essa venda de internet, porque o que a gente quer é atender o nosso cliente nos vários canais disponíveis.

JLPolítica - Como se comporta a Livraria Escariz frente a eventos como a Bienal do Livro de Itabaiana?
PE -
A gente vê com bons olhos a Bienal do Livro de Itabaiana. A gente participou das três primeiras edições, mas depois a Bienal passou a ter um cunho mais comercial e a Escariz optou por não participar, porque entendemos que os espaços não eram economicamente viáveis. Ficou inviável. Depois desse formato, até cresceu muito, mas para nós não é viável. O valor do estande é de R$ 9 mil para passar quatro dias e num espaço de 27 metros quadrados. Seguramente, não se paga. Fora os riscos de viagem, despesas com deslocamento, hospedagem, etc.

JLPolítica - O senhor é zero mecenas? A Escariz já patrocinou algum livro de alguém?
PE – Não patrocinou. Essa não é a nossa atividade, apesar de alguns livreiros terem se transformado em editores, nunca foi a minha vocação.

JLPolítica - O senhor nunca pensou em montar uma editora?
PE -
Não, nunca.

JLPolítica - O senhor acha que existe uma literatura sergipana?
PE -
Não só existe, como é bastante grande. Para se ter ideia, já passaram pela nossa livraria aproximadamente 1.600 títulos de obras feitas em Sergipe.

RECOMEÇARIA TUDO DE NOVO NO REINO DOS LIVROS
“É maravilhoso trabalhar com cultura, com um produto que você sabe que de alguma forma está colaborando com o desenvolvimento e a transformação das pessoas”

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O jornalsta Zeca Camargo, num tour pela Escariz

JLPolítica - Quem é o líder de vendas entre os sergipanos?
PE -
Eu acho que é o Antonio Saracura. Ele vende muito bem, mas também trabalha bastante o livro dele. Saracura sempre está nas lojas conversando com os clientes. Além disso, toda última quinta-feira do mês, os escritores sergipanos se reúnem lá na loja do Shopping Jardins e na última sexta-feira no Riomar. Tivemos também a participação do grande Antonio Carlos Viana, o contista, que faleceu recentemente. Ele fez lançamento do livros nas Livrarias Escariz e promoveu uma série de cursos.

JLPolítica - E o desempenho do Murilo Mellins?
PE -
O Murilo Mellins vende muito também. Assim como o Expedito Souza, historiador. O pessoal compra muito para enviar a parentes.

JLPolítica - O senhor acha que Sergipe é um pouco carente com relação à produção sobre sua história?
PE -
Acredito que não. Existe uma produção satisfatória.

JLPolítica - O senhor encara o Museu da Gente Sergipana, no campo dos lançamentos de livros, como um concorrente?
PE -
De jeito nenhum. O espaço lá é sempre aberto e bacana. O que é preciso é ter mais eventos literários. Para mim, quanto mais, melhor.

JLPolítica - Qual a imagem que o senhor acha que o mercado tem da sua figura?
PE -
Confesso que não sei, mas suponho que seja uma imagem positiva. Tem gente que se surpreende por ter me conhecido, porque fico muito atrás do negócio. Nos bastidores. Quem aparece mais é Fátima, a minha esposa. Mas é bom saber que somos reconhecidos por esse trabalho, principalmente depois que a concorrência veio, porque isso criou um parâmetro.

DO PAPEL DA ESPOSA FÁTIMA NA ORGANIZAÇÃO
“Fátima tem um papel fundamental. É ela que trata de todos os eventos. É ela que está presente nas lojas, porque eu fico mais por trás, na parte administrativa, e vou muito pouco às lojas

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“A gente responde hoje por 0,5% de todos os livros vendidos no Brasil. E dos livros didáticos, por 1% de todos os livros comercializados no país”, diz ele.

JLPolítica - Quando é que o tronco espanhol da sua família migra para o Brasil?
PE -
Isso se dá nas décadas de 20, 30. Os espanhóis falavam em fazer a América. Nesse período, a Europa passava por dificuldade, pós-guerra, e se passava até fome. Os espanhóis vieram para o Brasil em busca de oportunidades. Eles vieram para a Bahia e posteriormente meu tio José Pereira Carrera, anestesiologista, casou-se com a sergipana Maria Amélia Rezende, filha de Guilhermino Resende, e veio morar em Aracaju. Ele foi o primeiro do tronco da família a vir para cá. Tios queridos que me acolheram quando também quis vir morar aqui. Minhas três filhas são sergipanas.

JLPolítica - O senhor como um sergipano/baiano, voltaria a morar em Salvador?
PE -
Não, de jeito nenhum. Escolhi Aracaju e tenho um carinho muito grande por aqui. Minhas filhas nasceram aqui. Meus netos também. Eu já me considero mais sergipano do que baiano

JLPolítica - O senhor acha que a vida foi inglória com seu irmão Fernando Escariz, com aquela morte tão trágica?
PE -
Muito. Eu nem consigo falar sobre isso. Ele era o mais velho, veio para Sergipe por minha causa (e aqui os olhos inundam de lágrimas, ele perde a fala e a entrevista se encerra).

MAS QUEM SÃO OS LADRÕES DE LIVRO
“Tem de todo jeito, até escritor. Uma vez flagrei um deles. Mas entendo que a pessoa que vai roubar cultura, livro, não é um ladrão comum, apesar de, à medida em que você facilita que ele leia o livro na loja, não tem porque roubá-lo”

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As suas livrarias reúnem um time de 80 colabodores