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Entrevista

Jozailto Lima

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Ricardo Franco: “Há muito ninguém pensa bem Sergipe. Só temos Governos lugares-comuns”

Publicado 5 de fev 20h00 - 2017

Aos 44 anos, Ricardo Franco, um dos filhos de Albano Franco, primeiro suplente de senador de Maria do Carmo, é visto hoje como um empresário-político que arrasta as asas pensando numa candidatura de governador em 2018. Seria uma espécie e João Dória Júnior de São Paulo: viria para em quatro anos fazer um trabalho técnico e passar a bola de volta aos políticos tradicionais com o Estado saneado.

Ricardo Franco, por sua vez, faz um discurso diferente. “Eu acho que isso, nas pessoas, está muito mal concebido. Não trata-se de pegar um empresário e botar dentro do Governo que vai resolver. Eu acho que a minha ideia é a de melhorar a política. Veja: se a ideia for de botar um empresário por quatro anos, que faça um bom trabalho e depois vai embora, o que foi que adiantou?”, diz ele.

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Ricardo Franco trabalha desde os 19 anos. Tocou o Grupo Guararapes com o pai em Recife

JLPolítica – Qual a sua observação da cena política sergipana visando 2018? Ela está confusa, dividida?
Ricardo Franco – 
Eu não tenho a experiência dessa turma profissional da política. Prefiro ver as coisas como um sergipano, como um empresário. Nesse aspecto, eu não tenho dúvida: Sergipe falta ser melhor pensado. Falta-lhe projetos. Creio que tivemos o último bom Governo do Estado na pessoa de Augusto Franco, emendou com um bom primeiro Governo de João Alves, mas dali pra cá não tivemos a política de um “pensar Sergipe”. Entraram Valadares, João de novo, Albano e Albano, João novamente, Déda e Déda, agora Jackson, mas vejo todos eles como Governos lugares-comuns.

JLPolítica – O senhor inclui aí o seu pai?
RF – 
Totalmente. O que é que mudou? Aliás, Sergipe só perdeu. Nosso Estado foi considerado sempre como senhor de boas estradas e hoje temos um caos. Eu faço apenas uma concessão presente: se sair a termelétrica – e eu acredito, pelas movimentações, que vai sair, num trabalho começado por Déda e continuado por Jackson -, será para Sergipe um grande evento depois da Petrobras e da Petromisa. Mas ainda é pouco. Veja o desenho: nos últimos 50 anos, nós tivemos a Petrobras, a Petromisa, a Adutora do São Francisco e vamos ter a termelétrica. Sergipe acaba aí. Sergipe precisa e merece muito mais. 

JLPolítica – Mas como é que o senhor vê esta briga antecipada entre Jackson, Valadares, Eduardo Amorim visando o poder logo mais em 2018?
RF –
 Acho que isso não contribui em nada para o Estado. Creio que eles podem ser adversários, mas insisto que isso não é pensar Sergipe. Definir o que é bom para o Estado.

JLPolítica – É possível governar sem ter um projeto?
RF – 
É possível, e a prova está aí. Mas qual a consequência disso? Há mais de 30 anos que nós temos somente o mais do mesmo. Não é que não tenha sido feito coisas boas. Mas é que poderiam ter sido muito mais.

JLPolítica – Afinal, o que é que Sergipe necessita para 2018, 2022, 2016?
RF- 
Veja: Sergipe sempre teve oposição na classe política, mas na hora do vamos ver todos se uniam pelos interesses do Estado. Havia o mínimo de união pelos interesses sergipanos. E isso se perdeu. Isso é o primeiro passo de resgate que tem que ser feito nesse pensar Sergipe. Seja Governo ou oposição, deve haver a união quando os interesses de Sergipe entrarem em pauta. Nós tínhamos a características de na hora do vamos ver todos defenderem Sergipe.

AMBIÇÃO
"Eu apenas quero contribuir e tenho dito a todos o que penso e o que acho. E acho, inclusive, que a gente não contribui somente exercendo um cargo. Não. Contribui-se até muito mais sem exercer nenhum tipo de cargo. Eu não tenho, inclusive, ambição, e nem habilidade para fazer carreira política"

JLPolítica – Mas em 1990 tem-se um governo de coalizão, com seu pai se unindo a Joao Alves, a Valadares, e deu nesse mais do mesmo que o senhor está colocando aí. Não é uma contradição?
RF – 
Mas Governo e oposição trabalhavam juntos. Eu tenho uma lembrança vívida de Zé Eduardo senador de oposição, mas todos os projetos de Governo ele abraçava e defendia. Não defendo que Jackson e Valadares devam estar unidos politicamente, mas pelo menos coesos por Sergipe. Não quero aqui dizer que ela não seja importante, não quero diminuir o poder dos nossos perímetros irrigados, mas no momento em que a gente coloca uma emenda de R$ 100 milhões impositiva para a Codevasf a gente está deixando de lado uma lista enorme de outras prioridades, como a segurança, o campus da UFS no Sertão. É disso que falo. Por que não trabalharmos a importância da Codevasf via orçamento normal. E aí mostra a nossa falta de sensibilidade política. Faltou essa sensibilidade da oposição, faltou articulação do Governo. Mas como sergipano, acho uma tragédia se pegar R$ 100 milhões de emenda impositiva e mandar para a Codevasf. Reforço: não que ela não mereça. Mas e aí: não temos nada para segurança.

JLPolítica – O senhor teria, pessoalmente, um projeto para o Estado para 2018?
RF – 
Eu apenas quero contribuir e tenho dito a todos o que penso e o que acho. E acho, inclusive, que a gente não contribui somente exercendo um cargo. Não. Contribui-se até muito mais sem exercer nenhum tipo de cargo. Eu não tenho, inclusive, ambição, e nem habilidade para fazer carreira política.

JLPolítica – Mas o senhor, dentro dessa queixa de que deve haver mais por Sergipe, seria um nome que proporia, numa coalizão, a disputar mandato em 2018?
RF –
 É possível. Mas seria um projeto dentro de um máximo de conversas e teria de ser por um grupo muito amplo, porque se for para fazer o mais do mesmo, no grupo A ou no grupo B, eu não sirvo.

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Que a classe política dita convencional não se apoquente. Ricardo Franco jura que não cortará os punhos para entrar na disputa pelo Governo

JLPolítica – O senhor estaria fora?
RF – 
Não é nem que eu esteja fora. É que não sirvo mesmo, não tenho competência para exercitar o dia a dia político como têm todas pessoas do meio. Não é do meu perfil e nem do meu temperamento. Mas se a sociedade entender e estiver disposta a buscar um Governo que seja de transição, limitado a quatro anos, eu toparia. E não poderia ser mais do que isso, porque ai você já cairia na mesmice. Hoje só se discute 2018. E as pessoas que morrem pela violência, e o menino que está sem escola? Eu não escuto ninguém falando disso. E me deparo com um dado preocupante: nos últimos 30 anos em Sergipe os bons objetivos se submeteram à política. Para mim, a questão básica agora é: estamos preparados para que a política se submeta aos grandes e bons objetivos em favor da sociedade? Essa equação é fundamental. Sim, e mais: quais são os objetivos?

JLPolítica – Quais seriam, então, esses objetivos?
RF –
 Acho que o Estado tem de se concentrar em três áreas, que ainda hoje ele nega: educação, saúde e segurança. O resto, é regular e ser enxuto. Mas onde tem de gastar, gasta-se. E essas três áreas nunca foram contempladas na medida da importância que têm. A partir da resolução dessas três atividades que são do dia a das pessoas, vai-se a uma grande infraestrutura que gere emprego e renda. Eu preciso gerar futuro. Isso é fácil. E para isso preciso de 25 ou 30 secretarias? Não. Preciso é ter transparência e objetivos claros. Sem o custo previdenciário, pegue o gasto da Secretaria de Educação e divida pelo número de alunos e eu garanto que vamos chegar a um preço per-capta de escola particular. Nessa escola, o cara fez investimento, paga imposto, tem que ter lucro, e consegue dar uma educação decente. Por que o mesmo professor que dá aula na pública dá na particular e consegue excelentes resultados e na pública não? Isso é problema de gestão, de falta de metas. Aí, no caso do Estado, o desafio maior é trazer a família para a escola. Para mim, o sucesso da escola particular não é só do dono e nem do professor. É de você que paga e que cobra por ela. No Estado, tem de acontecer isso em todas as esferas.

JLPolítica – Mas para quem tem visão crítica de que nos últimos 30 anos o Estado não avançou, apresentar projetos somente para saúde, educação e segurança não é muito pouco?
RF –
 Não. Pegue o Ideb, a saúde e a segurança de Sergipe nos últimos anos e veja como são péssimos. Qualquer coisa que se faça e que melhore essas áreas, estaremos melhorando a qualidade de vida geral. O Governo não é um ser abstrato. Ele existe para melhorar esses índices e dar melhor qualidade às pessoas. Se não consegue, ele é um falido.

ESTADO ENXUTO 
"Acho que o Estado tem de se concentrar em três áreas, que ainda hoje ele nega: educação, saúde e segurança. O resto, é regular e ser enxuto"

JLPolítica – O senhor acha que um Governo de transição é o suficiente para eliminar essas deficiências?
RF – 
Não. Impossível. Mas acho que você pode, se tiver o apoio de pessoas corretas, fazer muito. Sem equipe, você não vai sair do canto. Você tem de gerar um fato que garanta essa mudança. Tenho que acabar com a busca perpétua pelo poder de um grupo que vem e passa quatro anos, quer renovar por mais quatro, e vem outro e quer mais quatro. Precisamos mudar. A sociedade quer esse tipo de mudança? Estamos pontos para abrir todas as contas do Governo? Eu acho que isso é básico. Tem transparência? Hoje é fácil ver o que o Governo gasta e faz? Não é. As pessoas têm de pegar o celular delas e ver quanto o Governo gasta em cada linha de ação. O Governo gastou tanto em comunicação? Mas onde foi, quem recebeu, de que maneira? Por qual secretaria? Quem usa celular público? Quais são as contas do celular? Porque não existe dinheiro público. O dinheiro é do contribuinte.

JLPolítica – O senhor acha que basta a sensibilidade empresarial ou necessita-se de sensibilidade política para fazer um projeto de transformação?
RF –
 Eu acho que o mais importante em quem se proponha a fazer é que entenda que precisamos melhorar. Se a pessoa está disposta não precisa nem ser um gestor de carreira. Basta cercar-se de pessoas. Tem que ter a vontade de fazer. Alguém teria coragem de abrir o Estado com 100% de transparência?

JLPolítica – O senhor teria?
RF – 
Sim. Claro que tem de abri-lo. Em 100%. Tudo: quanto o Estado repassa, para quem repassa? Quem são os seus cargos comissionados? Onde estão lotados? Isso é a obrigação elementar. A sociedade tem de controlar o Estado não apenas através do voto.

JLPolítica – Nos últimos tempos o senhor tem falado dessa sua visão de Estado. Que tipo de acolhida tem recebido?
RF – 
Eu disse numas conversas o que Sergipe precisava, mas não que seria eu a operar isso. Se me perguntarem se viu brigar para ser governador, eu direi que jamais.

JLPolítica – O senhor não se coloca como um pré-candidato ao governador?
RF –
 Não. Só me coloco como uma pessoa que quer ajudar Sergipe. Minha família é daqui, tudo que tenho vem daqui e invisto aqui.

JLPolítica – Mas o senhor não sonha em ver recair sobre a sua pessoa esta possiblidade?
RF –
 Pode ser. Mas jamais será uma bandeira, algo pelo qual vou lutar, matar, morrer. Jamais
 

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"Eu acho que a minha ideia é a de melhorar a política", diz

JLPolítica – Mas o senhor não sonha em ver recair sobre a sua pessoa esta possiblidade?
RF –
 Pode ser. Mas jamais será uma bandeira, algo pelo qual vou lutar, matar, morrer. Jamais.

JLPolítica – Mas os políticos lhe encaram com um pré-candidato.
RF –
 Eu agradeço. Converso com todos, e a reação tem sido mais positiva que negativa.

JLPolítica – Qual foi as experiência que o senhor colheu nos seus poucos meses no mandato de senador.
RF – 
Foi uma experiência boa. Aprendi a dialogar. A ouvir. Aprendi que é difícil, mas se você quiser fazer um bomtrabalho, pode.

JLPolítica – Não parece ter havido uma acerta frustração do senhor com dona Maria do Carmo, a titular do mandato?
RF – 
Nenhuma. A minha relação com dona Maria foi excelente. Agora, eu não concordei com as idas e vindas ao mandato, com a minha privação de voto no impeachment, por exemplo. Chegou um momento que eu disse: “aí não dá pra mim”. Mas não foi necessariamente uma briga. A gente tem de entender que numa relação dessas quem manda é o titular. Eu sou liderado. Quando você não concorda com quem lidera, o que é que você faz? Você entrega a carta, e foi o que eu fiz. Mas não precisar brigar de maneira nenhuma. Pelo contrário.

EMPRESÁRIO NA POLÍTICA 
"Se a ideia for de botar um empresário por quatro anos, que faça um bom trabalho e depois vai embora, o que foi que adiantou?Eu acho que isso, nas pessoas, está muito mal concebido. Não trata-se de pegar um empresário e botar dentro do Governo que vai resolver. Eu acho que a minha ideia é a de melhorar a política"

JLPolítica – Num comportamento meio a João Dória Júnior, prefeito de São Paulo, o senhor parece querer passar a ideia de que é possível levar um empreendedor ao Governo do Estado e deixar a política de lado. É isso?
RF –
 Eu acho que isso, nas pessoas, está muito mal concebido. Não trata-se de pegar um empresário e botar dentro do Governo que vai resolver. Eu acho que a minha ideia é a de melhorar a política. Veja: se a ideia for de botar um empresário por quatro anos, que faça um bom trabalho e depois vai embora, o que foi que adiantou?

JLPolítica – É favorável ou desfavorável para o senhor o fato de ser neto, filho e sobrinho distante de ex-governadores e ex-senadores?
RF – Eu acho que ajuda e atrapalha. Ajuda e tem também os contra. Mas não há nada que não seja indolor. Se eu tivesse de ser candidato a govenador não negaria as minhas origens de maneira alguma. Me apresentaria como eu sou. Mas se eu transformasse isso em bandeira seria um caos. Isso seria capitania hereditária.

JLPolítica – Qual a leitura que o senhor faz do momento Brasil com o Lava Jato?
RF – 
Tem sido muito importante, um negócio fantástico. Agora, é daqui a 10 anos que a gente vai ver o que isso realmente resolveu. Nós já tivemos crises, possivelmente não dessa magnitude – mas todos lembram da crise dos anões do orçamento no começo dos anos 90 – e teoricamente nós não poderíamos ter algo à semelhança do Lava Jato hoje se a correção daquilo tivesse ficando, de alguma forma, sacramentada.

JLPolítica – Para pensar Sergipe teria que se restituir o Condese de há 40 anos ou bastaria ir via Secretarias?
RF – 
Eu acho que você tem fazer funcionar e “enes” formas, O importante é ter gente que faça. Temos mecanismos para se fazer isso através de planejamento e não seria preciso reinventar a roda. Só precisa que as coisas andem. Como é que se justifica num Estado pequeno desse a gente estar há 40 anos prometendo o Canal de Xingó? A Petrobras, eu diria que é uma obra da natureza, que fez jorrar petróleo aqui. A Petromisa, algo parecido. A Adutora do São Francisco, sim, é uma obra estruturante.

JLPolítica – Na área industrial, Sergipe é carente de que atenção para mais avanços?
RF – 
Eu acho que é básico que Sergipe esteja atento para sempre trazer indústrias, mas não precisamos nos fiar somente na esfera do grande empresário. Se a gente quer gerar emprego, se quer gerar riquezas, o foco é a preocupação com o pequeno empresário, o pequeno produtor rural. Porque esses caras são uns heróis da pátria. O grande industrial, o funcionário público e o cara empregado numa grande indústria estão relativamente protegidos pelas leis. Ele pode até ser demitido, mas pela expertise dele vai ser recolado. Mas na pequena empresa o cara se estraçalha, fica sem dormir para pagar contas. Ele gera muitos empregos, embora o funcionário não tenha a certeza do salário, mas são esses caras que movem o país, que movem Sergipe. E não estou aqui falando apenas na questão do menos impostos para eles, mas sim na desregulamentação. Tem que reduzir as dificultações. Um dia desses mandei um contrato social para Jucese e voltou três vezes. Uma das razões é que a autenticação do cartório estava abaixo da linha. Ora, pelo amor de Deus! O funcionalismo público tem de parar com esta burocracia de já olhar o contribuinte como errado. Não pode ser assim. Acho que tem de haver uma relação mais amigável entre o poder público e a política, e aí eu insiro o pequeno empresário. Isso vai demandar gerações para que consigamos, mas é meu sonho.

JLPolítica – Mas o senhor não vê nada novo no horizonte?
RF –
 Hoje, nosso grande diferencial vai ser a termelétrica, pelo pólo de gasificação – vamos vender gás bem e trazer uma matriz energética para dentro do Estado. Mas afora isso, me diga uma obra que mudou o Estado. Afora isso, me aponte outra obra estruturante. Veja os vizinhos próximos: na Bahia, temos o Pólo Petroquímico. Em Pernambuco, Suape e teve recentemente a Refinaria da Petrobras que o Eduardo Campos conseguiu. Mas e nós? Precisamos melhorar nossa infraestrutura. Para o aeroporto, já tem dinheiro em caixa. As partes Sul e Norte da BR-101 precisam ser urgentemente concluídas. A 235 ficaria para uma segunda etapa – se nós não temos a 101 duplicada, quanto mais a 235.

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É casado e pai de um casal de filhos