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Entrevista

Jozailto Lima

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Saumíneo Nascimento: “Cinco municípios sergipanos concentram 60% da riqueza do Estado”

Publicado em  29  de dezembro de  2018, 20:00h

“Como o céu, o limite do Grupo Tiradentes também é infinito”

Saumíneo da Silva Nascimento. Ou simplesmente Saumíneo Nascimento. Eis aí um grande leitor e intérprete das realidades socioeconômicas de Sergipe, do Brasil e do mundo. Um leitor generoso. Uma espécie do já ido Luiz Antonio Barreto, que não é avaro no compartilhamento dos seus conhecimentos na área de economia.

E o faz com uma didática para lá de simples, demasiadamente inclusiva, como bem o leitor vai perceber nesta longa Entrevista que ele concede ao Portal JLPolítica. Praticamente segmentada em quatro áreas - mundo, Brasil, Sergipe e Grupo Tiradentes -, esta Entrevista com Saumíneo Nascimento tem muitíssimo a dizer.

No geral, Saumíneo Nascimento, 50 anos, se posta como um economista otimista. Nada cético. Mas isso não o impede de apontar problemas sérios das esferas abordadas aqui. Acha, por exemplo, que o desemprego beirando os 12% no Brasil é um entrave grave a ser dissipado se se quiser evolução socioeconômica.

“Na minha visão, esse é um dos maiores problemas do Brasil. Diante destes dados, o Brasil é classificado internacionalmente como um país de economia emergente, classificação dada pelo Fundo Monetário Internacional – FMI”, diz Saumíneo Nascimento. Ele não abre fogo contra Jair Bolsonaro. Age como quem prefere esperar pra ver no que vai dar.

Mas Saumíneo faz um cálculo do tanto de tempo que o Brasil, que é fisicamente a quinta maior nação do mundo, com a quinta maior população mundial, levaria para, crescendo a 2,5% ao ano, ocupar a 5ª economia mundial. “Levaríamos 15 anos para alcançar o Reino Unido, mantendo-se todas as demais economias estagnadas. Mas não vejo como impossível se um dia o Brasil conseguir chegar a ser a 5ª economia mundial”, diz.

Para Saumíneo Nascimento, com orçamento de R$ 9,8 bilhões para 2019, alto gasto com pessoal, déficit previdenciário de mais de R$ 1 bilhão por ano, e grande endividamento - quase R$ 3 bilhões - Sergipe vai continuar dependente de recursos externos, da União.

“De acordo com estudos do Tesouro Nacional, o Estado de Sergipe é o 5º mais dependente de recursos externos, atrás somente de Amapá, Roraima, Acre e Tocantins. Destaco que a nossa principal fonte de receita (38,8%) é o FPE - Fundo de Participação dos Estados -, além de dependermos de outras transferências federais da saúde e educação e operações de crédito”, diz ele.

Além dessa escassez de recursos, Saumíneo aponta o perigo da concentração do PIB do Estado em poucas cidades. “Como na maioria dos Estados do Brasil e especialmente na região Nordeste, a economia sergipana também é concentrada territorialmente. Os cinco maiores municípios sergipanos em termos de PIB na base de 2016 concentram 60,1% da riqueza do Estado e 48% da população. Nisso fica evidenciada a desigualdade regional no Estado de Sergipe e este é um desafio do Governo”, diz ele.

Executivo do Banco do Nordeste do Brasil, no qual aportou aos 15 anos como estagiário e do qual foi superintendente Regional, desde janeiro deste ano Saumíneo Nascimento empresta sua expertise em negócios e gestão ao Grupo Tiradentes de educação. A partir de outubro, ele assumiu o papel de CEO - superintendente Geral -, sucedendo a Jouberto Uchôa Júnior.

Ele assegura que está muito feliz nesta nova missão e prevê horizontes mais que largos para a instituição que, a partir de Sergipe, abriga 45 mil estudantes no Nordeste e gera mais de três mil empregos diretos.

“Como o céu, o limite do Grupo Tiradentes também é infinito e muitas ações e projetos serão realizados, solidificando a atuação do Grupo como uma das principais instituições de ensino superior do mundo. Sobre novos negócios, é um processo natural de ocorrência em um Grupo empresarial em crescimento constante”, diz ele. Segundo Saumíneo Nascimento, não tem a menor procedência os rumores de que um grupo americano estaria em vias de adquirir o Grupo Tiradentes.

“Sempre sou abordado sobre esta questão de venda do Grupo Tiradentes, mas são rumores e boatos. Claro que muitos gostariam de adquirir o Grupo Tiradentes pelo seu valor de marcado, calculado na sua qualidade de ensino, valores e perspectivas de crescimento, mas o que podemos informar é que o Grupo Tiradentes continua firme sob a propriedade da família Uchôa na busca de permanecer trilhando uma trajetória de crescimento sustentável e sólido”, diz ele.

Saumíneo Nascimento nasceu em Japaratuba em 19 de maio de 1968, filho de sergipanos de Estância e Muribeca. O avô paterno, João Rosa do Nascimento, foi vereador em Estância e presidente dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e dos Trabalhadores da Indústria do município de Estância.

A graduação em Economia dele foi feita na Universidade Tiradentes. Depois fez mestrado e doutorado em Geografia e pós-doutorado em Ciência da Propriedade Intelectual pela Universidade Federal de Sergipe. Ele tem, ainda, especializações em outras áreas, como Economia Empresarial, Administração Rural, Sensoriamento Remoto e Comércio Exterior.

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2006: Belivaldo Chagas ainda deputado estadual pelo PSB. Saumíneo, superintendente do BNB pela primeira vez
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Nasceu em Japaratuba em 19 de maio de 1968

DESEMPREGO, O ASSOMBRO DO BRASIL
“Temos uma taxa de desemprego de dois dígitos, em torno de 11,7%. Na minha visão, esse é um dos maiores problemas do Brasil. Existe uma perspectiva de saída da recessão com o crescimento do PIB tendo uma taxa de 1,3% em 2018”

JLPolítica - Como é que podemos fotografar economicamente o Brasil hoje, enquanto nação em desenvolvimento, no contexto internacional?
Saumíneo Nascimento -
Do ponto de vista dos indicadores macroeconômicos, o Brasil está com uma taxa de inflação anual de 4,05% (considerada baixa nos padrões internacionais), uma taxa de juros que é medida pela Selic (taxa utilizada no mercado interbancário para financiamento de operações com duração diária, lastreada em títulos públicos federais) em 6,50% ao ano (média para os padrões internacionais), mas esta não é a taxa efetiva que as pessoas pagam em suas operações de crédito. A paridade da nossa moeda com as duas principais moedas internacionais é de R$ 3,93/dólar e R$ 4,47/euro - é uma moeda desvalorizada no padrão internacional, mas aceita para câmbio em muitos países, especialmente no Mercosul. Existe uma perspectiva de saída da recessão com o crescimento do Produto Interno Bruto tendo uma taxa de 1,3% em 2018 e possivelmente recuperando-se em 2019 com uma perspectiva de 2,4% de crescimento desse PIB. E temos uma taxa de desemprego de dois dígitos, em torno de 11,7%. Na minha visão, esse é um dos maiores problemas do Brasil. Diante destes dados, o Brasil é classificado internacionalmente como um país de economia emergente, classificação dada pelo Fundo Monetário Internacional - FMI.

JLPolítica - Qual é a correlação, e a consequência, entre ser fisicamente a 5ª maior nação do mundo, com a 5ª maior população mundial, e ocupar o 9º lugar em economia?
SN -
Lá fora somos gigantes, tem uma consequência de bom posicionamento em disputas comerciais e representações institucionais, e por estas características o Brasil é considerado um país baleia - país de grande extensão territorial, grande população e grande economia. Foi a partir deste conceito que fizeram uma associação de cinco grandes economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, denominada de BRICS. Esses países possuem influência importantes nos assuntos regionais e todos são membros do G20 -grupo das 20 maiores economias do mundo - que veio a substituir o G-8, que era um grupo mais restrito e que o Brasil não fazia parte. O Brasil, pela sua importância em termos geopolíticos, é membro de vários organismos internacionais, mas tem muitos desafios a serem superados, especialmente em termos de desenvolvimento econômico.

JLPolítica - E como vai o país no Índice de Desenvolvimento Humano?
SN -
O Brasil está estagnado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH -, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. Veja: estamos apenas na 79ª posição, o que contrasta em ser o 5º país em território e população e a 9ª economia mundial, mas o problema é que ainda não resolvemos os dilemas existentes nas três dimensões básicas do desenvolvimento humano: distribuição de renda, educação e saúde para a população nos diferentes territórios do Brasil.

JLPolítica - Quais são os requisitos naturais e programáticos que poderiam levar o Brasil a estar entre as cinco economias do mundo?
SN -
As dez maiores economias do mundo, medidas pelo PIB em dólares são as seguintes: 1º - Estados Unidos (US$ 20,41 trilhões), 2º - China (US$ 14,02 trilhões), 3º - Japão (US$ 5,05 trilhões), 4º - Alemanha (US$ 4,1 trilhões), 5º - Reino Unido (R$ 2,92 trilhões), 6º - França (US$ 2,55 trilhões), 7º - Índia (US$ 2,50 trilhões), 8º - Itália (US$ 2,11 trilhões), 9º - Brasil (US$ 2,09 trilhões) e 10º - Canadá (US$ 1,78 trilhão). A nossa diferença de PIB para a 5ª economia mundial (Reino Unido) é de US$ 830 bilhões. Precisaríamos crescer o nosso PIB a uma taxa de 39,71% para alcançarmos a 5ª economia mundial, se ela e as demais economias ficassem estagnadas, o que é improvável nas próximas décadas. Seria o seguinte: mantendo esta taxa de 2,5% ao ano, levaríamos 15 anos para alcançar o Reino Unido, mantendo-se todas as demais economias estagnadas. Mas não vejo como impossível se um dia o Brasil conseguir chegar a ser a 5ª economia mundial, o que teria uma correlação, como diz a sua pergunta, em ser o 5º território e 5ª população. Do ponto de vista de requisitos naturais, temos uma grande fronteira agrícola em crescimento, temos também a 3ª maior fronteira terrestre do mundo, a 16ª posição em extensão litorânea e muitos recursos minerais a serem mais explorados.

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Na Unit, em 1994, contraiu diploma de economista

O FOSSO DA NOSSA 9ª ECONOMIA PERANTE O MUNDO
“A nossa diferença de PIB para a 5ª economia mundial (Reino Unido) é de US$ 830 bilhões. Precisaríamos crescer o nosso PIB a uma taxa de 39,71% para alcançarmos a 5ª economia mundial, se ela e as demais economias ficassem estagnadas”

JLPolítica - O senhor se dá por satisfeito com a comercialização das principais commodities brasileiras de forma in natura, sem passar por uma industrialização que gerasse mais empregos e riqueza?
SN -
Em seu relatório mais recente sobre as estatísticas do comércio exterior, 2017, a Organização Mundial do Comércio – OMC - classificou o Brasil como o 26º maior exportador e o 29º maior importador de mercadorias. No quesito exportações de serviços, ocupamos a 35ª posição e nas importações de serviços ficamos na 23ª posição. Exportamos apenas 0,64% de todo que é exportado no mundo.

JLPolítica – E o que é que o Brasil exporta?
SN -
Neste mesmo relatório da OMC é informado que das exportações brasileiras, 37,9% foram manufaturadas, 41,5% de produtos da agricultura e 20,6% de outros produtos. Já nas importações, compramos 77,1% de produtos manufaturados, 8,7% de produtos da agricultura e 14,2% de outros produtos. Com estes dados, portanto, fica o meu registro de que não estou satisfeito. Gostaria que o nosso país fosse mais industrializado e com uma industrialização menos concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Se exportássemos mais bens de capital - bens que auxiliam em outras produções, exemplo de máquinas/equipamentos -, certamente geraríamos mais emprego e renda para a população brasileira.

JLPolítica – Mas qual é o balanço da exportação nacional em moeda, em recursos?
SN -
No Brasil, para o ano de 2018, até os últimos dados disponíveis - terceira semana de dezembro de 2018 -, as exportações somam US$ 230,068 bilhões e as importações, US$ 175,603 bilhões, com saldo positivo de US$ 54,466 bilhões. Isso revela uma taxa de crescimento das exportações de 14% em relação ao ano anterior. O Brasil ainda é um grande exportador de commodities - termo da língua inglesa commodity que significa mercadoria. Ele é utilizado nas transações comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias, pois possuem cotação e negociabilidade globais. Os principais destinos das exportações brasileiras no ano de 2018 foram China, Estados Unidos, Argentina, países baixos e Chile. Os nossos principais produtos exportados em 2018 foram soja (14%), petróleo (10%), minérios de ferro (8,3%), farelo de soja (2,8%), carne de frango (2,4%), carne bovina (2,3%), automóveis (2,2%), café cru (1,7%), milho em grãos (1,5%), aviões (1,3%). Nesse contexto, o Estado de Sergipe ocupa a 25ª posição no ranking dos Estados exportadores, com uma participação de 0,03% das exportações brasileiras e responsável por 0,1% das importações brasileiras. De janeiro a novembro de 2018, Sergipe exportou US$ 69,25 milhões, numa queda de 17,88% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nas importações, o montante foi de US$ 184,6 milhões, crescimento de 49,62%, fazendo com que o déficit da Balança Comercial sergipana chegasse a US$ 115,35 milhões.

JLPolítica – E o que Sergipe exporta?
SN -
Os principais produtos de exportação de Sergipe foram suco de laranja congelado (55%), calçados (15%), diversos produtos manufaturados (4,5%), aparelhos térmicos de uso doméstico (4,3%), óleos de essências (4,0%), açúcar refinado (3,5%). Os principais produtos de importação de Sergipe foram adubos e fertilizantes (15%), trigo em grãos (14%), coque de petróleo (8,2%), fios, cabos e condutores para elétrico (5,5%), superfosfatos (4,5%), vários produtos manufaturados (4,3%), sulfato de amônia (4,1%), fios de fibras têxteis (4,0%). Sergipe ainda necessita da formulação de uma política de comércio exterior que possibilite a geração de mais emprego e renda.

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Em Salvador, ano de 1985. À época, bancário aprendiz do BNB, onde chegou aos 15 anos. Na imagem, o time de futebol da Instituição

PARA ONDE E QUANTO O BRASIL EXPORTA
“Os principais destinos das exportações brasileiras no ano de 2018 foram China, Estados Unidos, Argentina, países baixos e Chile. Os nossos principais produtos exportados em 2018 foram soja (14%), petróleo (10%), minérios de ferro (8,3%), farelo de soja (2,8%), carne de frango (2,4%), carne bovina (2,3%)”

JLPolítica - Como é que o Brasil está no contexto dos tratados e das organizações comerciais do mundo?
SN -
 O Brasil tem a Presidência da Organização Mundial do Comércio e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO. Já teve a Presidência da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento – UNCTAD - e esteve perto de ter um presidente da ONU, com o Sérgio Vieira de Mello, que faleceu em missão daquela organização em Bagdá no Iraque em 2003.

JLPolítica - Qual seria o papel da cooperação técnica estrangeira no avanço do desenvolvimento nacional brasileiro?
SN -
O Governo brasileiro tem como pressuposto fundamental de que a cooperação técnica recebida do exterior deve contribuir significativamente para o desenvolvimento socioeconômico do país e para a construção da autonomia nacional nos temas abrangidos. A mesma preocupação aplica-se à cooperação técnica prestada pelo Brasil a outros países. É para isso que dentro da estrutura do Ministério das Relações Exteriores temos uma Agência Brasileira de Cooperação que tem o objetivo de contribuir para o adensamento das relações do Brasil com os países e a ampliação dos seus intercâmbios para a geração, disseminação e utilização de conhecimentos técnicos, para a capacitação de seus recursos humanos e para o fortalecimento de suas instituições, por meio do compartilhamento de políticas públicas bem sucedidas. Veja que o corpo diplomático brasileiro está presente em quase todos os países do mundo. Sediamos sete organismos internacionais, a exemplo do Instituto Interamericano para Pesquisa em Mudanças Globais - IAI -, temos a representação no Brasil de 31 organismos internacionais, a exemplo da Organização Internacional do Trabalho - OIT. Além disso, o Brasil é signatário dos principais tratados internacionais e participa das mais importantes organizações internacionais, sendo um importante país no cenário político mundial.

JLPolítica - O senhor tem observado com preocupação os tropeços do futuro presidente Jair Bolsonaro no campo da diplomacia mundial?
SN -
É um importante que qualquer governante seja bem assessorado nos diversos temas que compõem a sua gestão. No quesito de política externa, é necessário que os assessores do presidente eleito do Brasil para o mandato de 2019-2022 orientem sobre o gerenciamento das relações e atividades externas de um país do porte e da importância do Brasil - e isto é bem distinto da política interna. A política externa envolve desenvolver objetivos, estratégias, medidas, diretivas pelos quais os governos de um país conduzem suas relações entre si, com organizações internacionais e com os países. Imagino que aos poucos o novo Governo irá entender a realidade do que é necessário examinar cuidadosamente nas políticas dos países para realizarmos parcerias que viabilizem bons negócios para o Brasil nos diversos campos. É importante o fortalecimento da diplomacia pública para que a promoção da imagem do Brasil no exterior fortaleça o nosso desenvolvimento econômico, pela via das exportações. Eu particularmente defendo um Ministério das Relações Exteriores que seja mais atuante na nossa política comercial, especialmente agora que não teremos mais um Ministério que cuida com exclusividade do comércio exterior. Então, não estou ainda preocupado com as declarações que já ocorreram. Prefiro aguardar as ações efetivas da política externa e que elas visem atender aos anseios dos brasileiros e da comunidade internacional.

JLPolítica - Quais as consequências para o Brasil de um alinhamento incondicional com a política americana e a ideologia de Donald Trump?
SN -
Imagino que não teremos um alinhamento incondicional com a política americana e o com a ideologia de Donald Trump. O Brasil é muito diferente dos Estados Unidos e os próprios presidentes, o de lá e o futuro daqui, não possuem tantos paralelismos que viabilizem uma lógica dessa. Mas vamos para algumas breves comparações: Donald Trump tem um ano de Governo na frente de Jair Bolsonaro, daí a possibilidade de mirar e imaginar uma replicação de ações. Mas os problemas dos Estados Unidos e suas relações externas são bem distintos dos problemas do Brasil e de nossas relações internacionais. Donald Trump, 70 anos, é o 45º presidente dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, 63 anos, será o 38º presidente do Brasil. Nossa República é mais jovem que a americana. Donald Trump graduou-se em 1964 na academia, onde alcançou a patente de capitão e depois, em 1968, formou-se em Economia na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia. Jair Bolsonaro é formado pela Academia Militar das Agulhas Negras, possui uma formação exclusivamente militar, mas conta a favor a sua experiência no parlamento brasileiro. A religião de Donald Trump é cristã presbiteriana. A religião de Jair Bolsonaro é católica, mas a esposa é evangélica. A renegociação de acordos comerciais com a China, que Donald Trump pretende fazer, não cabe ao Brasil, pois a China é um importante parceiro comercial, e o principal destino das exportações brasileiras e temos possibilidades de ampliar ainda mais o comércio. Lá, o Donald Trump tem buscado aplicar uma lei de imigração mais rígida, inclusive com a construção de um muro ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México. O Brasil não tem este problema na recepção dos imigrantes e nunca precisamos e nem iremos precisar construir muros. Talvez ocorra convergência de opiniões sobre as questões que envolvem o aquecimento global e o Acordo de Paris, mas ainda não há uma definição clara sobre este assunto.

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Logo chegou ao time dos superintendentes regionais do Banco

DA IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃO TÉCNICA ESTRANGEIRA
“O Governo brasileiro tem como pressuposto fundamental de que a cooperação técnica recebida do exterior deve contribuir significativamente para o desenvolvimento socioeconômico do país e para a construção da autonomia nacional nos temas abrangidos”

JLPolítica - O senhor visualiza perspectiva de uma crise universal ao final de 2019 e 2020?
SN -
Segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA -, depois de dois anos de crescimento relativamente robusto, é provável que ocorra uma desaceleração da economia mundial nos próximos anos. Vale destacar que a previsão é de que tenhamos um crescimento global de 3,7% em 2018. Essa desaceleração não deverá ser muito forte, conforme as previsões do Fundo Monetário Internacional, mas chega a preocupar diante de algumas características da economia mundial neste momento, associadas às políticas implementadas após a crise financeira internacional de 2007-2008: um possível esgotamento dos instrumentos de política econômica, que poderiam impedir que a desaceleração se transforme em recessão, e o elevado nível de endividamento do setor não-financeiro em escala global. A grande preocupação é a constante queda do crescimento da China, que deverá crescer 6,6% em 2018 e deverá cair para 6,2% em 2019. Estudos do IPEA já apontam que diante da perspectiva de desaceleração da economia mundial e do aumento de riscos haverá uma reavaliação dos preços dos ativos e aumento da volatilidade nos mercados financeiros.

JLPolítica - No aspecto geral da economia, o que se pode esperar do governo de Jair Bolsonaro?
SN -
A visão das entidades de classe do setor empresarial é de otimismo. A Confederação Nacional da Indústria, uma das maiores entidades empresariais do Brasil, apontou em sua última sondagem industrial do mês de novembro/2018 que a atividade industrial ainda segue em ritmo lento, com queda da produção e do emprego, e a utilização da capacidade instalada ainda distante da esperada. Todavia, os empresários da CNI estão encerrando o ano com otimismo em relação do futuro Governo de Jair Bolsonaro, pois a intenção de investir também está em elevação. Além disso, existe expectativa de crescimento da demanda, de crescimento da compra de matérias-primas e insumos, expectativa da geração de mais empregos e de continuidade do crescimento das exportações.

JLPolítica - Há instrumentos seguros para medir o nível de confiança do empresariado?
SN -
Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo - CNC -, aponta que o índice de confiança do empresário do comércio cresceu 5,7%. E mais: a pesquisa revelou que três em cada quatro varejistas pretendem contratar mais nos próximos meses. Todo governo novo gera boas expectativas. Eu, como economista, sempre sou otimista. Mas recomendo moderação nas expectativas mais realistas, pois o novo Governo ainda necessitará realizar muitos ajustes para colocar nos eixos os rumos da economia do país.

JLPolítica - Como é que o senhor viu a organização ministerial de Bolsonaro, sobretudo o Superministério da Economia? Isso tem alguma implicação negativa?
SN -
Primeiro, quero registrar que o futuro Governo terá 22 Ministérios, o que implicou em uma redução de 24% em relação ao Governo que está encerrando um ciclo no Brasil, que tem 29 Ministérios. As principais economias do mundo possuem um número reduzido de ministérios. A Alemanha e os Estados Unidos têm 15 Ministérios. A França 16 e o Japão, 19. Ter menos ministérios não significa necessariamente que teremos uma redução substancial dos gastos com dinheiro público na administração central, pois em geral grande parte das estruturas das pastas que desaparecem permanece após as fusões, sob novas denominações. Mas espero que esta estrutura mais leve e enxuta facilite o acompanhamento das ações do novo Governo e fique mais fácil a governança do país. Sobre o Superministério da Economia, que vai unir Fazenda, Planejamento e o Indústria e o Comércio Exterior, vai facilitar a orientação econômica. Só faltou juntar Agricultura e Minas e Energia aí, sim, seria um Superministério da Economia. A questão vai ser a dicotomia que existe na pasta de arrecada com a pasta que em geral trabalha com incentivos fiscais - talvez juntos busquem um melhor equilíbrio nesta equação. A possível implicação negativa seria ter um ministro mais poderoso que os demais e que queira sobrepor ações, mas não acredito que isto ocorra. Em geral, após alguns meses de trabalho e entendimento do funcionamento da máquina federal eles deverão ter o sincronismo necessário para o bom funcionamento da máquina estatal federal.

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Em 2008, no Governo Lula, foi nomeado diretor administrativo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - Sudene

DO ALINHAMENTO ENTRE JAIR BOLSONARO E DONALD TRUMP
“A renegociação de acordos comerciais com a China, que Donald Trump pretende fazer, não cabe ao Brasil, pois a China é um importante parceiro comercial, e o principal destino das exportações brasileiras e temos possibilidades de ampliar ainda mais o comércio”

JLPolítica - O senhor considera Paulo Guedes o homem mais talhado para conduzir a economia nacional sob Bolsonaro?
SN -
O futuro ministro Paulo Roberto Nunes Guedes, de 69 anos, é um economista brasileiro com formação no nível de mestrado e doutorado no exterior, pela Universidade de Chicago nos Estados Unidos. Já foi professor universitário em importantes instituições de ensino do país e no exterior, como Chile, já fundou banco, instituição de ensino, instituição de pesquisa e conhece do mercado financeiro. Tem currículo e formação acadêmica para o cargo, mesmo nunca tendo exercido uma função pública. Sobre ser o mais talhado, esta é uma escolha sempre pessoal dos presidentes - ele também formou uma forte equipe de secretários, o que irá auxiliar bastante na condução do Ministério da Economia. Fico na torcida e na expectativa de que ele consiga ter um desempenho satisfatório e que conduza ao crescimento e ao desenvolvimento econômico o nosso país.

JLPolítica - O que é que Sergipe poderá com um orçamento de 2019 abaixo de R$ 10 bilhões?
SN -
O orçamento de R$ 9,8 bilhões previsto para 2019 é equivalente a aproximadamente 25% do PIB do Estado. Registre-se aí que pessoal e encargos consomem quase 62% do orçamento, as outras despesas correntes quase 25% do orçamento, 5,2% serão para pagamento de dívidas e seus serviços, 0,2% para as reservas e 8,1% para os investimentos. Cabe aqui registrar que de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, os Estados não devem exceder o limite de 60% da relação despesa com pessoal/Receita Corrente Líquida.

JLPolítica - Para além dessas despesas carimbadas, que mais impacta na questão orçamentária de Sergipe?
SN -
Um grave problema orçamentário para o Estado de Sergipe é a evolução do custo do regime de Previdência estadual. Importante ressaltar que entende-se como custo do regime de Previdência estadual o aporte realizado pelo Tesouro Estadual para cobrir o déficit previdenciário de todos os poderes. Ou seja, o montante de recursos gastos além dos vinculados à Previdência. Para o ano de 2019, o montante vai ser superior a R$ 1 bilhão, o que implica mais aportes por parte do Tesouro Estadual. Convém lembrar que Sergipe adota o Regime Financeiro de Repartição Simples, no qual as contribuições pagas pelo ente federativo, pelos servidores ativos e inativos e pelos pensionistas são fixadas sem objetivo de acumulação de recursos e no caso de insuficiência financeira, o ente deve aportar recursos com o objetivo de cobri-las. Assim, o crescimento do déficit da Previdência é indício do problema da insustentabilidade do regime de Previdência estadual, tendo em vista o consumo cada vez maior de recursos financeiros, que poderiam ser direcionados para atender e ampliar os serviços básicos exigidos pela sociedade. Pela previsão do projeto de lei, o Governo de Sergipe pretende melhorar os indicadores nas áreas de educação, saúde e segurança pública. Também pretende expandir a atuação territorial do desenvolvimento, especialmente para os municípios menos desenvolvidos, porém com pouco menos que R$ 800 milhões para os investimentos, sendo um montante aquém das necessidades da população. Porém é o que é possível. Não existe mágica. Será feito o que for viável e mais necessário. Infelizmente, ainda temos em Sergipe muitas famílias em condições de vida de pobreza e que necessitam dos serviços do governo para atender suas demandas básicas. A busca da melhoria da infraestrutura econômica será o fator principal para ampliação do cenário de atração de novos investimentos para Sergipe.

JLPolítica - Qual a dependência do Estado de recursos externos para investir e no que isso implica?
SN –
Infelizmente, Sergipe é um Estado dependente de recursos externos. De acordo com estudos do Tesouro Nacional, o Estado de Sergipe é o 5º mais dependente de recursos externos, atrás somente de Amapá, Roraima, Acre e Tocantins. Destaco que a nossa principal fonte de receita (38,8%) é o FPE - Fundo de Participação dos Estados -, além de dependermos de outras transferências federais da saúde e educação e operações de crédito. A principal receita gerada no Estado é o ICMS, mas ele representa pouco menos que 35% de nossas receitas, o que gera o fator de dependência muito forte e, sendo assim, caso a economia nacional não for bem, sentiremos bem mais que outros Estados que não possuem esta dependência. Para ficarmos mais autônomos em geração de receitas, necessitamos de mais atividades econômicas e setores produtivos atuando no Estado de Sergipe. Registre-se que muitos investimentos previstos para serem realizados pelo Governo Estadual dependerá da efetivação das operações de crédito previstas.

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Em 2 de fevereiro de 2009, assinou termo de posse que lhe fez presidente do Banco do Estado de Sergipe - Banese

DA QUANTIDADE DE MINISTÉRIOS DO BRASIL
“O futuro Governo terá 22 Ministérios, o que implicou em uma redução de 24% em relação ao Governo que está encerrando, que tem 29. As principais economias do mundo possuem um número reduzido de ministérios. A Alemanha e os Estados Unidos têm 15 Ministérios. A França 16 e o Japão, 19”

JLPolítica - O que o senhor visualiza como de maior carência na infraestrutura do Estado de Sergipe e que deve ser resolvido para que o Estado avance?
SN -
É um item já previsto nos compromissos do Governo Estadual: a interiorização da infraestrutura econômica. Também precisamos criar mais distritos industriais em outros territórios além de Nossa Senhora do Socorro e Estância, que são atualmente os principais. A região do entorno do Porto de Sergipe, que já está abrigando o maior investimento privado do Estado no setor de energia, pode ser transformada em uma nova fronteira de indústrias e centros de distribuição de grandes atacadistas do país. Li que na Lei Orçamentária existe a previsão de implantação do corredor turístico do litoral norte. Eu acho importante, porque poderia abrigar grandes empreendimentos hoteleiros, como existe no litoral do vizinho Estado da Bahia e não perderíamos a força do turismo da capital, apenas integraríamos mais para que os turistas ficassem mais dias em Sergipe.

JLPolítica - Como está o grau de endividamento do Estado?
SN -
Sergipe ocupa a 11ª posição entre os Estados que mais devem no Brasil. A dívida de Sergipe é de R$ 2.932 bilhões, possuindo um grau de endividamento de 58% da sua receita corrente líquida. Sergipe pagou no ano passado de serviços da dívida R$ 430 milhões (mais da metade do valor previsto para investimentos em 2018). Os principais credores do Estado de Sergipe são a União – R$ 1.148 bilhão, bancos federais – R$ 1.075 bilhão, e R$ 709 milhões de dívida externa. De acordo com o último Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais publicado pela Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda, todos os Estados sem capacidade de pagamento possuem nota “C” no indicador de poupança corrente. Assim, a relação entre receitas e despesas correntes indicando pouca margem para o crescimento das despesas obrigatórias estaduais foi responsável pela perda da capacidade de pagamento. Mas alguns Estados, além de terem baixa poupança corrente, ainda possuem baixa disponibilidade de caixa, evidenciando que o volume de obrigações de curto prazo das fontes de recursos não vinculadas do Estado é superior aos recursos em caixa. Sergipe tem nota C em termos de capacidade de pagamento, o seu endividamento Dívida Consolidada/Receita Corrente Líquida é de 71,03%, o que aponta nota B nesta variável. Mas a notícia boa é que Sergipe possui nota B na Poupança Corrente Despesa Corrente/Receita Corrente Ajustada. Então está na lista dos Estados que ainda podem conseguir operações de crédito. Uma saída para redução do grau de endividamento pode ser um programa de privatizações, mesmo que moderado, pois a receita com privatizações de empresas estatais pode ser utilizada para amortização de parcela da dívida consolidada.

JLPolítica - O senhor aposta que os propósitos de Belivaldo Chagas têm chances de sucederem-se bem a partir de que ano da futura gestão?
SN -
O atual governo tem como missão cuidar das pessoas, especialmente pela elevação da qualidade na prestação dos serviços de saúde, educação e segurança pública, e promover os valores culturais, construindo um futuro de prosperidade em base sustentável e inclusiva do Estado de Sergipe. Já a sua visão de futuro é a de que Sergipe seja uma referência na melhoria dos indicadores de educação, saúde e segurança pública, prevendo-se a expansão do ciclo de desenvolvimento sustentável, estendendo-o especialmente aos municípios menos desenvolvidos, a fim de diminuir as disparidades espaciais de renda e de condições de vida. Pelas condições orçamentárias existentes e o cenário econômico nacional, imagino que somente na segunda metade do Governo será possível avaliar se ocorreu êxito nos propósitos. Estes primeiros anos serão de estruturação, ajustes e adequação da máquina administrativa para o enfrentamento de um horizonte mais restritivo na capacidade de investimentos. Sergipe tem um elevado índice de despesas com pessoal no total das despesas primárias do Estado, sendo o 7º índice do Brasil, com um percentual de mais de 50%, e teve o 4º maior crescimento das despesas com pessoal nos últimos dois anos. Além disso, continuam crescentes e fora da curva as despesas com inativos, e isto é desafiante para qualquer governante que queira realizar um eficiente ajuste fiscal. O receituário exige medidas amargas, a exemplo de redução de despesas de pessoal que é o principal componente das despesas correntes. Os gastos com o funcionalismo público são os maiores entraves para a melhora das finanças públicas estaduais, e por conta disso que os governantes optam por evitar novas contratações e aumentos salariais, além de rever o número de funcionários terceirizados. Também têm que ser monitoradas as outras despesas correntes e a recomendação é adotar medidas que enxuguem a máquina pública, sendo saída a abertura de capital de empresas estatais e a concessão de rodovias estaduais. Julgo importante salientar que a maioria dos Estados brasileiros presenciou aumento real da arrecadação própria, impulsionada pelo crescimento da receita de ICMS, sinalizando que o esforço arrecadatório dos entes surtiu efeito em 2017, Sergipe também teve este impacto, inclusive em 2018. E isto pode continuar melhorando em 2019 com a modernização da máquina arrecadatória via investimentos em máquinas e qualificação de profissionais para combater a sonegação fiscal. Mas as receitas de transferências diminuíram em quase todos os Estados e este risco de continuidade de diminuição em 2019 poderá retardar os propósitos do Governador Belivaldo Chagas.

JLPolítica - Contempla-lhe a distribuição do PIB do Estado pelas suas regiões territoriais ou existe algo muito sério a ser corrigido?
SN -
Como na maioria dos Estados do Brasil e especialmente na região Nordeste, a economia sergipana também é concentrada territorialmente. Os cinco maiores municípios sergipanos em termos de PIB na base de 2016 concentram 60,1% da riqueza do estado e 48% da população. Nisso fica evidenciada a desigualdade regional no Estado de Sergipe e este é um desafio do Governo: buscar equilibrar a riqueza entre os municípios sergipanos, o que poderia ajudar a resolver vários problemas urbanos nas maiores cidades. Esta questão de riqueza concentrada nas atividades do setor público, especialmente a administração pública, é muito ruim. Precisamos de mais empreendedorismos nos municípios e maior participação do setor privado na vida econômica dos municípios.

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No Governo Déda, também chefiou a Sedetec, Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia

O CUSTO PREVIDENCIÁRIO QUE SOLAPA SERGIPE
“Um grave problema orçamentário para o Estado de Sergipe é a evolução do custo do regime de Previdência estadual. Para o ano de 2019, o montante vai ser superior a R$ 1 bilhão, o que implica mais aportes por parte do Tesouro Estadual”

JLPolítica - O senhor está se sentindo bem no comando executivo do Grupo Tiradentes?
SN -
Sim, estou muito contente e feliz de trabalhar no Grupo Tiradentes. Trata-se um dos maiores grupos educacionais do Brasil e que possui fortes valores - ética, cooperação, inovação, humildade, responsabilidade social e valorização do ser humano. Além disso, tem a missão de inspirar as pessoas a ampliar seus horizontes. O Grupo Tiradentes inicia a sua trajetória em 1962 com o sonho do professor Jouberto Uchôa em implantar uma escola que oferecia cursos de 1º e 2º graus e foi evoluindo com o apoio de sua esposa Amélia Uchôa e de seus filhos, além dos diversos profissionais para ser um dos grupos econômicos mais importantes de Sergipe e do Brasil. Tenho tido a oportunidade de aplicar os conhecimentos adquiridos na minha experiência executiva oriunda do setor público, buscando cumprir um plano de trabalho que possibilite cumprir os objetivos estratégicos da empresa com ações executivas que viabilizem o crescimento e desenvolvimento das atividades que pautam pela busca de um modelo educacional que tem um forte foco na aprendizagem dos alunos. Buscamos cumprir o planejamento estratégico do grupo avaliando as tendências, cenários e oportunidades do mercado de educação superior, pautado por um modelo que tem a inovação como ponto focal das ações.

JLPolítica – Depois de André Tavares, o senhor é o segundo executivo externo a ser acolhido pela família Uchôa na gestão dos negócios. Qual a foi a cultura deixada por André ali?
SN –
Devo registrar que já há algum tempo a família Uchôa tem executivos em suas principais posições de comando. Cheguei no Grupo Tiradentes em janeiro de 2018 e lá já estavam o superintendente Acadêmico, Dr. Temisson (Engenheiro Químico), que antes de trabalhar no Grupo Tiradentes já possuía experiência no setor privado no ramo industrial; o superintendente de Relações Institucionais, o professor Ihanmarck (também Engenheiro Químico), que antes de trabalhar no Grupo Tiradentes já era executivo do setor de educação superior em outras instituições de ensino. O comando principal, o CEO (superintendente Geral) era do professor Jouberto Uchôa Júnior (advogado), que, como membro da família, passou gradualmente por praticamente todas as funções e depois em um processo sucessório natural chegou a CEO. Além disso, no nível de Diretorias que ficam abaixo das Superintendências, temos diversos executivos com experiência, competência e profissionalização adequada para a condução dos negócios e nas unidades Operacionais (Universidade, Centro Universitário e Faculdades) temos diversos executivos com competência para uma boa gestão das atividades. Então o André Tavares foi mais um dos diversos executivos que a família acolheu e, como tal, pautou a sua condução pela lógica do desenvolvimento e do crescimento empresarial do Grupo, contemplando a cultura da profissionalização da gestão familiar. Cheguei para ser o substituo do André Tavares, que foi para outros desafios no setor de educação superior. Cheguei como superintendente Administrativo Financeiro e a partir de abril de 2018 fiquei interinamente no comando geral como CEO do Grupo e depois fui efetivado em outubro de 2018, em face do processo de transição da profissionalização do Grupo Tiradentes, em que membros da família atuam mais como conselheiros em pautas mais estratégicas e visionárias para o futuro da empresa e foi isso que aconteceu com o professor Jouberto Uchôa Júnior, que passou para o Conselho de Administração e eu fui o seu substituto.

JLPolítica - Como é que o senhor vê a institucionalização dos CEOs nas empresas privadas nordestinas?
SN -
Vejo como muito positivo para que os principais desafios sejam superados, a exemplo de manutenção da competitividade, profissionalismo nos negócios, manutenção do controle estratégico dos negócios nas mãos da família e é por isso que muitas empresas passam adiante o controle da administração da empresa para um membro não familiar, inclusive numa lógica de perpetuação e transmissão do legado para as demais gerações. A institucionalização de CEOs nas empresas privadas prima pelo profissionalismo que tem a ver com a manutenção de altos padrões de desempenho e da ética no ambiente de trabalho. O importante é que os membros da família de uma empresa familiar estejam bem preparados e motivados para a ocorrência dessa nova fase que precisa também de um fortalecimento da Governança Corporativa, e este processo ocorreu de forma bem natural no Grupo Tiradentes.

JLPolítica - Qual é a radiografia que se tem hoje do Grupo Tiradentes no contexto da educação superior particular?
SN -
O Grupo Tiradentes tem em Sergipe a maior e mais importante instituição de ensino superior privado, que foi reconhecida como Universidade em 1994 - a Universidade Tiradentes, mais conhecida como Unit. Também faz parte do Grupo Tiradentes a Faculdade São Luis de França, que vem passando por crescimento na oferta de cursos e vagas. Em Alagoas temos um Centro Universitário que é também a maior instituição de ensino superior privado daquele Estado, e em Pernambuco temos um Centro Universitário e uma Faculdade de Medicina. No Grupo Tiradentes os alunos podem trilhar uma carreira de sucesso em um ambiente que estimula o desenvolvimento da formação profissional com a oferta de ensino, pesquisa e extensão capazes de gerar um qualificado profissional para o mercado de trabalho. Temos o ensino com perspectiva interdisciplinar como um caminho moderno de aprendizagem e formação. Uma notícia muito importante foi divulgada agora no fim do ano que foi a posição dos nossos mestrados e doutorados que fez com que ficássemos entre as 10 instituições com os melhores mestrados e doutorados do Brasil, segundo o MEC. Nos mestrados, ficamos na 8ª posição e nos doutorados, na 5ª posição. Isto revela o compromisso com a educação de qualidade e investimento na formação de pessoas. No quesito de qualidade avaliado pelo Índice Geral de Cursos, também estamos evoluindo e buscando investir mais na qualidade e na formação dos professores e alunos. Os resultados dos nossos recredenciamentos (geral e individualmente por cursos) apontam que temos sempre recebido notas elevadas e em geral, a mais alta, por esta busca constante da melhoria da qualidade.

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Em 3 de fevereiro de 2015, volta ao posto de superintende regional do BNB

DÍVIDA SERGIPANA VAI A QUASE R$ 3 BILHÕES
“A dívida de Sergipe é de R$ 2.932 bilhões, possuindo um grau de endividamento de 58% da sua receita corrente líquida. Sergipe pagou no ano passado de serviços da dívida R$ 430 milhões (mais da metade do valor previsto para investimentos em 2018)”

JLPolítica - Quantos alunos, entre presenciais e à distância, tem o Grupo Tiradentes?
SN -
Aproximadamente 45 mil estudantes nos diversos níveis: graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

JLPolítica – Qual é o céu desse Grupo? Qual o limite dele e onde quer chegar? Tem projetos para diversificação dos negócios?
SN - O Grupo Tiradentes tem um forte foco na internacionalização. Temos um ambicioso projeto de universidade internacional. Estamos buscando disseminar a cultura internacional na comunidade acadêmica por meio de um calendário de atividades internacionais, atendimento bilíngue, sinalização do campus e website trilíngue. Pretendemos aumentar o número de estrangeiros estudando no Grupo Tiradentes e ampliar as possibilidades de experiências internacionais para os nossos estudantes, registrando que temos diversos acordos de cooperação com universidades do mundo inteiro permitindo estas experiências internacionais. Além disso, o Instituto Tiradentes em Boston, Estados Unidos, tem um plano de trabalho com diversos projetos que viabilizam o crescimento da internacionalização no Grupo Tiradentes. Destaco que este processo de internacionalização que tivemos no decorrer de 2018 mostra uma nova trajetória para a educação. Além disso, a visita de membros da Comunidade Européia do Institute of Evaluation Programme auxiliou o nosso processo de internacionalização através de uma avaliação internacional com o foco na internacionalização, a fim de evoluirmos mais ainda neste processo. Como o céu, o limite do Grupo Tiradentes também é infinito e muitas ações e projetos serão realizados, solidificando a atuação do Grupo como uma das principais instituições de ensino superior do mundo. Sobre novos negócios, é um processo natural de ocorrência em um Grupo empresarial em crescimento constante.

JLPolítica – Qual o faturamento anual do Grupo?
SN -
Por questões de sigilo profissional e considerando-se que o Grupo Tiradentes não é uma companhia aberta, não posso informar o faturamento anual do Grupo. Mas posso dizer que é um dos grandes empregadores de Sergipe e do Nordeste, com mais de 3 mil colaboradores entre professores, pessoal administrativo, estagiários e jovens aprendizes nos Estados de atuação do grupo, especialmente em Sergipe, onde fica a sede e a maior unidade, que é a Universidade Tiradentes com os campi da Farolândia, Centro, Estância, Itabaiana e Lagarto e as diversas cidades onde possuímos Polos de Educação a Distância e forte atuação também em Alagoas e Pernambuco, mais as unidades de educação à distância na Bahia e que chegam até o Rio Grande do Norte.

JLPolítica - Qual a importância daquele recente Prêmio Google na esfera da educação para o Grupo Tiradentes?
SN -
 O Prêmio do Google reforça que a Universidade Tiradentes deu mais um passo rumo ao ensino superior integrado com a tecnologia. Ele significou que tivemos o reconhecimento mundial pelo programa Universidade de Referência - Google for Education, iniciativa do Google que reconhece transformações culturais na educação superior. Foi a primeira universidade do mundo a receber a premiação e o reconhecimento. Isto é fruto de muito esforço, dedicação e trabalho dos colaboradores envolvidos. Para uma instituição de ensino superior se tornar universidade de referência do Google for Education, precisa conduzir seu modelo de aprendizagem à transformação tal qual a Unit fez, com o número expressivo de chromebooks (tipo de notebook, só que mais leve, com bateria que dura por mais de 11 horas e trabalha exclusivamente on-line), e adesão de mais de seis mil usuários, englobando alunos e professores. É também o reconhecimento do espírito inovador reitor da Unit-SE, Jouberto Uchôa de Mendonça, seus coordenadores e professores, em promover uma educação sempre de excelência, transformando o aluno em protagonista desde a sala de aula, que saiba trabalhar em equipe e explorar o desconhecido sem perder a base técnica. Foi um projeto bem conduzido pelo diretor de Inteligência do Grupo Tiradentes, o professor Domingos.

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Mas já em 2006, teve seu mérito de competente técnico da área pública reconhecido. Em novembro daquele ano, a Alese lhe outorgou a Medalha da Ordem do Mérito Parlamentar

DO PRAZO PARA O ÊXITO DE BELIVALDO CHAGAS NO GOVERNO
“A sua visão de futuro é a de que Sergipe seja uma referência na melhoria dos indicadores de educação, saúde e segurança. Pelas condições orçamentárias existentes e o cenário econômico nacional, imagino que somente na segunda metade do Governo será possível avaliar se ocorreu êxito nos propósitos”

JLPolítica - Em que consiste a metodologia do Google for Education?
SN -
A metodologia do Google for Education permite a formação de futuros profissionais de educação, especificamente dos cursos de Licenciatura e Pedagogia da Unit com capacitação diferenciada e conectada com novas tecnologias, sendo um diferencial competitivo em sua empregabilidade. Então uma universidade de referência Google objetiva construir projetos que levem tecnologia para a sala de aula, que coloque metodologias de ensino ativo em prática. Vale registrar que no próximo ano, teremos a inauguração do Innovation Center, que será um espaço para discutir o futuro da educação, atraindo edtechs (tecnologia educacional), e tornando um centro de formação de professores no Nordeste em Google for Education com programas de capacitação e certificação. O objetivo do Grupo Tiradentes é levar o Google for Education e Chromebook para todos, implantar mais salas modelo Google e começar também a desenvolver produtos para o equipamento, incentivando startups para que ofereçam o serviço de provas e desenvolvimento de aplicativos para instituições de ensino.

JLPolítica - Procedem os rumores de que um grupo americano estaria em vias de adquirir o Grupo Tiradentes?
SN –
Não. Sempre sou abordado sobre esta questão de venda do Grupo Tiradentes, mas são rumores e boatos. Claro que muitos gostariam de adquirir o Grupo Tiradentes pelo seu valor de marcado, calculado na sua qualidade de ensino, valores e perspectivas de crescimento, mas o que podemos informar é que o Grupo Tiradentes continua firme sob a propriedade da família Uchôa na busca de permanecer trilhando uma trajetória de crescimento sustentável e sólido.  

JLPolítica - O senhor vem de uma cultura da iniciativa pública e caiu na atividade particular. Qual a diferença entre uma esfera e outra? Qual mais lhe agrada?
SN -
Existe uma questão importante, que é quem é dono do negócio. No setor público, existe em geral uma adequação de praticamente tudo às políticas governamentais vigentes e aos projetos de governo que estiver atuando, o que faz com que seu orçamento, seu direcionamento de verbas e sua linha de atuação estejam perfeitamente alinhados com o que o governo pretende. Mudando os governantes, alteram-se as prioridades e orientações e existe um nível de burocracia mais rígido, em face de um amplo controle social. Já no setor privado, as diretrizes são dos donos, que alinham com o planejamento estratégico da empresa e com planos de trabalhos que viabilizem a participação em um cenário de muita competitividade e riscos. Os princípios, os códigos de condutas e os objetivos de resultados são parecidos, então me sinto atualmente muito bem na iniciativa privada, como também quando estava no setor público. Gosto dos dois, mas pretendo ter agora uma trajetória fora do setor público e consolidar-me neste segmento, e sendo educação superior, me agrada mais ainda. E se for um grupo da terra, com excelentes fundamentos e princípios, a motivação é maior. Já tive convite na esfera federal e em outros Estados para atuação no setor público. Mas o meu interesse é continuar onde estou.

JLPolítica - O senhor tem arrependimento em ter feito uma carreira, desde os 15 anos, ligada a bancos e não à iniciativa particular?
SN -
Não tenho arrependimento. Foi a oportunidade que surgiu naquela época. Eu era um estudante do ensino médio e fui fazer o concurso de estagiário do Banco do Nordeste. Tinha 15 anos, tive êxito e iniciei a minha trajetória profissional. No ano seguinte, fiz o concurso para funcionário efetivo e naquela época era permitido ser funcionário de um banco federal, mesmo sendo menor de idade. Então, mais uma vez passei e aos 16 anos saí da casa dos meus pais e fui para Salvador ser bancário aprendiz do Banco do Nordeste, e no BNB fiz minha carreira profissional até chegar a ser superintendente estadual dele. Mas tive a oportunidade de experiências fora, como na Sudene, onde fui diretor de Administração e diretor de Planejamento. Tenho muito carinho pela Sudene. Também tenho gratidão ao falecido governador Marcelo Déda, por ter formulado convite para que eu tivesse a honra de ser presidente do Banese, instituição à qual tenho profundo respeito pelos profissionais que lá trabalham e também a experiência de ter sido secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e Ciência e Tecnologia. Foi muito gratificante por poder trabalhar em prol da atração de investimentos que gerassem emprego e renda e ampliação das ações de ciência e tecnologia. Também tive experiência docente no ensino superior na UFS e na Faculdade São Luis de França, além de trabalhos para o Ministério da Indústria e Comércio Exterior. Tudo valeu a pena, e agora tenho buscado direcionar meus conhecimentos e experiências para os objetivos do Grupo Tiradentes. A vida é assim: feita de passagens que devemos cumpri-las da melhor forma possível.

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Mas na Unit, vê sua competência para além do setor público . Em outubro deste ano, se tornou superintendente geral de uma das principais instituições de ensino privado, de terceiro grau, do pais