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Entrevista

Jozailto Lima

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Sérgio Passos: “Água não pode servir de lucro pra ninguém”

PUBLICADO EM  12 fev 2017, 20h00

O governador Jackson Barreto, PMDB, pode até privatizar a Deso – Companhia de Saneamento de Sergipe –, como intenciona. Mas deve encontrar uma reação dura da sociedade. A começar pelo Sindisan – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Sergipe.

Na manhã de ontem, o Sindisan fez um plenária de fundo jurídico para discutir meios de enfrentar a guerra. “Não existe nada que possa substituir a água. Se você não tem energia elétrica, acende uma fogueira, uma vela, e resolve o problema. Com a água não. Por isso que a gente defende que a água tem de ficar como monopólio estatal e não pode servir de lucro para ninguém”, diz Sérgio Passos, presidente do Sindisan.

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A briga promete ser de cachorros grandes. O “osso” que está em questão é composto de um aparato imenso

JLPolítica - Por que o senhor e seu Sindicato acham que a Deso não deve ser privatizada?
Sérgio Passos - Primeiro, por seguirmos alguns dados da ONU, instituição de respaldo internacional, que apontam que um Governo que tenha compromisso social com seu povo não privatiza sistemas de água. Porque, ainda segundo a ONU, água tratada e saneamento básico são direitos fundamentais do homem. Veja este outro dado: em cada R$ 1 investido em saneamento básico, economiza-se R$ 4 outros com saúde. E segundo, somos contra a privatização baseados na visão de grandes especialistas de que a próxima grande guerra mundial não será por petróleo, e sim por água. Veja que nós somos a maior reserva de água doce do mundo, e a gente sabe que têm muitos países e muitas empresas multinacionais de olho nessa riqueza. Então, se nossos governos municipais, estaduais e federais tivessem de fato compromisso verdadeiro com as populações jamais iriam entregar as políticas desse líquido tão precioso e vital para os grandes países e as multinacionais. Alguém me diga aí porque nos Estados Unidos, que é a maior potência do mundo, a água não é privatizada? Tudo lá é privatizado, inclusive a saúde. Menos água. A água é muito importante para a humanidade. Você pode ficar sem se alimentar por um certo período, pode ficar sem energia. Você pode ficar sem celular. Pode ficar sem a TV, mas sem águia não. Não existe nada que possa substituir a água. Se você não tem energia elétrica, acende uma fogueira, uma vela, e resolve o problema. Com a água não. Por isso que a gente defende que a água tem de ficar como monopólio estatal e não pode servir de lucro para ninguém.
 
JLPolítica - Na sua concepção de trabalhador da Deso há 30 anos e de sindicalista, o que está por trás desse interesse da privatização?
SP - O que acontece é que os políticos, não só esse que está no Governo mas também os que passaram, fizeram uma sangria desatada na empresa, usando-a sempre em benefício político. Segundo informações de companheiros mais velhos, foi feita uma pesquisa no final dos anos 70 e a Deso foi considerada a quinta melhor companhia de saneamento do país. Esses mesmos companheiros registram que a partir dos anos 80 a interferência política na Deso foi muito grande e abusiva, elegendo-se deputados, vereadores a partir da estrutura dela. Fez-se e faz-se indicação de cargos políticos na estrutura administrativa da Deso. E para políticos que não conhecem nada da empresa. Eu defendo que nunca houve e nem há necessidade de colocar pessoas de fora da Deso na sua gestão, porque internamente existem quadros muito preparados, e que às vezes estão ociosos. Não por querer, mas porque são colocados no isolamento. Para se ter ideia, companheiros da Deso foram ser diretores de outros órgãos do Estado e chegaram até a ser secretários.
 
JLPolítica - Voltando à questão inicial, um Governo que tivesse a preocupação social com seu povo, deveria dar que tratamento à Deso?
SP - Eu ouvi uma dessas entrevistas do governador Jackson Barreto na qual ele disse que teve uma conversa com o presidente da Caixa Econômica Federal, que já foi superintendente aqui em Sergipe, conhece a realidade do Estado, estava preocupado e falou à Jackson que tomasse empréstimo. Investisse mais na Deso para que a companhia pudesse levar água a um maior número possível da população sergipana. Como eu acho que o governador sempre foi tido como um político próximo das camadas sociais mais humildes, deveria era estar preocupado com esta população, porque 60% dos sergipanos pagam hoje R$ 30,80 de tarifa, que dá para uma família de quatro pessoas passar um mês. Essa é a tarifa mínima da Deso. Não é a tarifa social, que é de 50% a menos quer essa, e custa R$ 15,40.

GUERRA MUNDIAL:
"Somos contra a privatização baseados na visão de grandes especialistas de a próxima grande guerra mundial não será por petróleo, e sim por água"

JLPolítica – A Deso cobre quanto por cento dos sergipanos?
SP – Os dados que dispomos indicam que 99% da população de Aracaju dispõem de água tratada pela Deso. E em todo o Estado, 90%. Considero que sobretudo o índice do Estado poderia ser melhor. Até porque não temos muitos problemas de mananciais, de fontes provedoras de água. Temos o Rio São Francisco, o sistema Cabrita/Poxim aqui em Aracaju, temos pequenas outras adutoras, como Piauitinga. Mas precisa de mais cuidados. Por, exemplo, quando fizeram a Adutora do Alto Sertão, os técnicos da Deso apontaram para os riscos dela e pediram mais cuidados. Não usaram ferro fundido. Usaram material de fibra de vidro, e isso estoura muito. Para se ter ideia, no mês passado houve 14 vazamentos nela, por não resistir à vazão.
 
JLPolítica – O senhor não acha que o governo esteja fazendo adutoras com material ruim para depois alegar dificuldade de manutenção e facilitar, com isso, a privatização da companhia?
SP – Veja o caso da Adutora do Alto Sertão: ela não foi licitada pela Deso. Veio do Ministério das Cidades, vai Semar, e entregou para a Deso com um “tome aqui, e você vai acompanhar esta adutora”. Houve objeção, mas como o Governo é acionista majoritário, disse que tinha de ser assim mesmo, tem segurança do fabricante e hoje temos 14 vazamentos que atingem Glória, Carira, Frei Paulo, Aparecida. As populações têm de saber que quando há um vazamento numa adutora a equipe técnica fica no mínino de 10 a 12 horas lá reparando. Deslocam-se uma quantidade muito grande de pessoas, retroescavadeira, e com isso para as redes de distribuição dessas cidades serem reabastecidas leva de cinco a seis dias. Quando a cidade é mais distante, demora ainda mais. Tem cidades aí no sertão sergipano que quando acontece um problema desse levam até 10 dias sem água em algumas partes delas. Esse é um gargalo da Deso que não é culpa do seu pessoal. É culpa do Governo Federal, que enviou um material de péssima qualidade, e do Governo do Estado que, mesmo sob alerta dos técnicos, aceitou esta adutora.
 
JLPolítica – A Deso é muito carente de investimentos? Estaria sucateada?
SP - A Deso hoje precisaria ampliar ou até construir novas Estações de Tratamento de Água, que nós chamamos ETA. Veja este exemplo: a ETA de Itabaiana foi feita no início dos anos 80 e sinta a diferença de população daquela época para agora. Falo da de Itabaiana, mas todas as ETAs precisam ser aumentadas em suas capacidades de tratamento de água. Devemos ampliar ou fazer novas. Existem outras necessidades, que é a da troca das redes de distribuição das cidades. As atuais são velhas. Por isso que em Aracaju você encontra vários vazamentos . E a população diz “esse vazamento está aí há não sei quanto tempo e a Deso não vem trazer as providências”. Não sabe a população que é por causa desse sucateamento.
 
JLPolítica – Entre gatos e vazamentos, a Deso perde que percentual de seus recursos hídricos?
SP – Eu acredito que perde mais de 50% da sua água tratada. Já começa com o vazamento nas suas estações, porque a Deso não faz uma manutenção preventiva.
 
JLPolítica – Qual a empresa que perde 50% da sua mercadoria e é rentável: Isso não é muito grave?
SP – Sim, é muito grave. Nenhum empresa sobreviveria a isso. O Governo deveria fazer tudo isso que falamos acima, tendo a reparação das ETAs como ponto de partida. Depois vem para a redistribuição, e a seguir pros gatos. A Deso tem de formar uma equipe de pessoas que parta para fazer um recadastramento e combater os gatos, mas para isso necessitamos do suporte da segurança, porque se chegar numa periferia dessa e cortar a água você é ameaçado de morte. Isso é um problema de Estado.

JOSUÉ MODESTO DOS PASSOS SOBRINHO
"Eu sou irmão é de Josué Modesto dos Passos Subrinho e não do secretário do Fazenda do Estado. Nossos interesses são antagônicos"

 JLPolítica – Os 1.670 servidores são o suficiente ou pouco para tocar uma empresa que atende a quase 643 mil unidades de consumidores?
SP - Esses funcionários seriam suficientes se fossem bem distribuídos. Hoje tem setores com carências e outros com excesso de pessoal. Acho que é uma questão de gerenciamento. A Deso tem que se adequar e remanejar. Para construir uma adutora ou uma ETA, é claro que deve contratar terceiros. Mas os serviços de manutenção da empresa os efetivo seriam suficientes.
 
JLPolítica – E nessa onda de privatização, o Governo por acaso consultou o Sindisan?
SP – Nunca. Há cerca de seis meses fomos atrás de um deputado do PMDB muito próximo ao Governo e ele ficou de marcar uma audiência e até agora não nos foi dado resposta.
 
JLPolítica – Qual é o conceito do senhor para o ato de se planejar a privatização da da companhia sem sequer dar uma satisfação aos trabalhadores?
SP – Eu acho que isso certifica a falta de compromisso que ele tem com os trabalhadores da Deso. Como a maioria votou nele, parece fácil. Na época da eleição avaliou-se que entre os dois, Jackson era o mais confiável e na base aliada dele tinha dois partidos que sempre atuaram contra a privatização das estatais, que são o PC do B e o PT.
 
JLPolítica – Pelo que o senhor conhece de política e de economia no Brasil, a empresa vai ou não vai ser privatizada?
SP - Se depender do Governo, vai. Porque esses governos não foram eleitos para defender os interesses do povo. Foram para defender os interesses do grande capital. No sistema capitalista, qualquer Governo que entre só vai fazer a defesa do grande capital. Os pequenos eles querem quebrar para ficar só os grades monopólios. A gente não tem nenhuma ilusão com a política do nosso país. Poderia ser Jackson ou outro qualquer, faria a mesma coisa que Jackson está fazendo hoje. Mas neste sábado fizemos um ciclo de debates jurídicos para saber o que a gente pode tentar fazer juridicamente para tentar impedir essas intenções. E vamos definir algumas ações políticas para abrir o diálogo com a sociedade. A gente vai tentar contactar a OAB, a Diocese, o MST, o movimento estudantil, os partidos políticos e vários sindicatos para que possamos sair em defesa da Deso.
 
JLPolítica - O senhor defende o monopólio estatal da água. Mas a sociedade sabe dessa importância?
SP – Estamos há um mês debatendo esse tema e já verificamos que grande parte da sociedade está contra a privatização da Deso. Mas há três meses era preocupante, porque a maioria se posicionava favorável. E evocava a qualidade dos serviços que a Deso presta. A gente discorda, mas respeita a opinião pública - algumas dessas pessoas alegaram que como melhoraram as telecomunicações, a energia e etc. Melhoraram, vírgula. O Governo vai ter de injetar dinheiro nas telecomunicações. Da energia, se você ver uma lâmpada numa choupana de um povoado, tem dinheiro do Governo. Aí eu pergunto: se com a Deso estatal há quem reclame dos serviços, será que privatizada ela vai chegar melhor nas camadas mais pobres?
 
JLPolítica – O senhor é naturalmente contra, mas se a Deso fosse de ser vendida acha que ela valeria quanto?
SP – Tem estudos aí que apontam que o valor da Deso seria de R$ 3 bilhões. Eu pessoalmente não tenho este dado. Apenas ouvi comentários.

ETA
"A Deso hoje precisaria ampliar ou até construir novas Estações de Tratamento de Água, que nós chamamos ETA. Veja este exemplo: a ETA de Itabaiana foi feita no início dos anos 80 e sinta a diferença de população daquela época para agora"

JLPolítica - Preocupa ao senhor que uma dinheirama dessas nas mãos do Governo se pulverize, como foram pulverizados os US$ 570 milhões da venda da Energisa e não gere nada de positivo em favor do Estado?
SP – A minha preocupação é exatamente essa, porque na época da privatização da Energisa dizia-se que ia praticamente salvar o Estado. E agora eu pergunto: qual foi a grande obra que foi feita com o dinheiro da venda da Energipe? Construiu-se algum grande hospital? Alguma ponte? Alguma rodovia foi feita? Pelo que eu conheço, não. Nada.
 
JLPolítica – O senhor está preparado para um aventual embate entre a sua pessoa e a de Josué Modesto dos Passos Subrinho, seu irmão e secretário de Estado da Fazenda, e que possivelmente vai encapar a tese da privatização?
SP - Eu sou irmão é de Josué Modesto dos Passos Subrinho e não do secretário do Fazenda do Estado. Nossos interesses são antagônicos.
 
JLPolítica - Até por essa linha de ter votado nele, vocês do Sindisan não protegem os interesses de Jackson Barreto?
SP – Não. O Sindisan é um sindicato autônomo de partidos políticos e de Governo. Esse é o nosso estatuto.
 
JLPolítica – Mas filiado à CUT, que é uma defensora de Governos. O senhor não acha que com esse alinhamento estão perdendo espaço na sociedade?
SP – A gente está na CUT por que avalia que a CUT de Sergipe é diferente da CUT de outros Estados. Eu faço essa avaliação, porque tivemos aí um Governo do PT e a CUT de Sergipe chegou pesado. Mas acho que as centrais sindicais estão pagando por ter esse alinhamento às políticas de partidos A ou B. As centrais, assim como os sindicatos, têm de ser instituições autônomas e dos trabalhadores. Eu não sou filiado a partidos políticos.
 
 JLPolítica – O governador insinuou que entre estes 1760 servidores da Deso há muita gente que não trabalha. O que o senhor teria a dizer sobre isso?
SP – Do pessoal da Deso quem não trabalha não é porque não queira. É porque quem está exercendo as atividades dessas pessoas são terceirizados. Por exemplo, o governo terceirizou o setor de projetos, a leitura das contas e o atendimento ao público. Então, se tem algum trabalhador lá parado é por culpa também do governador, por falta de gerenciamento, porque quem escolhe a Diretoria é ele. A culpa, então, não é dos trabalhadores. É da própria Deso que prefere terceirizar. Não tem nenhum trabalhador da Deso de braços cruzados dizendo “eu não quero trabalhar!”. Todos estão querendo. 
 
JLPolítica – Segundo a estimativas, a companhia tem um faturamento médio de R$ 47 milhões. Poderia ser maior, e em que grau?
SP -  Sim, poderia. Acho que facilmente poderia chegar a R$ 60 milhões.
 
JLPolítica – Mas um faturamento de R$ 47 milhões para uma folha de pessoal de R$ 19 milhões é razoável?
SP - Não é razoável. É preocupante. Uma folha muito alta em comparação ao faturamento. Mas com poucos esforços nós chegaríamos tranquilamente aos R$ 60 milhões. De 1999 a 2001, a Deso tinha superávit de R$ 1 milhão por mês. Hoje caiu muito, mas paga tudo e não é uma empresa deficitária.