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Entrevista

Tanuza Oliveira

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Única entre 12 homens, Sônia Meire quer transformar realidade através do Senado

Publicado em 12  de agosto de  2018, 20:00h

Ela diz que o PSOL tem chances reais de disputa e discute se há ou não necessidade concreta da existência do Senado

“É pra valer”. Essa é a definição da professora Sônia Meire Santos Azevedo de Jesus, PSOL, sobre a sua candidatura ao Senado. Aos 55 anos, esta é a terceira vez que ela concorre a um mandato eletivo - a primeira foi em 2014, ao Governo do Estado, e a segunda, à Prefeitura de Aracaju, em 2016.

E engana-se quem pensa que a candidatura de Sônia é de brincadeira ou até inviável: em 2014, ano da primeira candidatura, ela teve quase 50 mil votos. Ok, quase 50 mil votos não a elegeram e não a elegeriam ainda este ano.

Mas, sem dúvida, quase 50 mil votos mostram que o projeto do PSOL é solido e tem, sim, chances. “Poderemos não ter uma votação extraordinária diante do quadro que estamos vivendo, mas com certeza será o maior diferencial na política nessa conjuntura. Uma candidatura de esquerda, que defende os trabalhadores e não faz conciliação de classe”, diz Sônia.

Chances para que? Para fazer o que ela chama de transformação da realidade. “É pelo Senado que poderemos, inclusive, provocar uma revisão completa em muitas leis que foram aprovadas, inclusive da emenda que retira investimentos, como a emenda constitucional 55, que congela por 20 anos os recursos”, ressalta.

Professora há 36 anos, recém-aposentada, ela atuou da educação básica até a universidade, na formação de professores e também na pesquisa. “Com o trabalho de extensão que desenvolvemos, criamos os maiores programas de educação com as populações excluídas, que são as camponesas”, admite Sônia.

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Projeto do PSOL é solido e tem, sim, chances
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Professora há 36 anos, é recém-aposentada

IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO FEMININA
“Não podemos permitir que homens, e homens brancos, muito ricos, que é inclusive o perfil de quem está no Senado hoje, permaneçam nesses espaços, elaborando leis e apoiando projetos que são para destruir a nossa vida”

JLPolítica - A senhora é a única candidata mulher ao Senado nesta eleição. Como avalia esse quadro?
Sônia Meire –
Após a crise e o golpe, houve uma afronta ainda maior às mulheres, principalmente às mulheres negras. Nós hoje estamos numa situação muito mais delicada, com o desemprego, com a falta de assistência e de proteção, e temos mais condições ainda de colocar como exigência a ocupação desses espaços. Não podemos permitir que homens, e homens brancos, muito ricos, que é inclusive o perfil de quem está no Senado hoje, permaneçam nesses espaços, elaborando leis e apoiando projetos que são para destruir a nossa vida. A senadora Maria do Carmo tem mandato inexpressivo e apoiou o golpe. E sabemos que a classe trabalhadora é quem vem sofrendo mais com as perdas de direitos e com as reformas. Nós mulheres precisamos estar presentes, colocar nosso nome à disposição para as lutas e para a defesa de um projeto de transformação do Estado e do país.

JLPolítica – Para a senhora, falta incentivo para as candidaturas femininas?
SM –
Na verdade, não considero que seja falta de incentivo. O que temos é que, historicamente, o lugar da mulher sempre foi o do mundo privado, criado a partir de uma cultura patriarcal e machista. Inclusive, isso vem da compreensão de que as mulheres existiam apenas para procriar. As mulheres começaram a ser incluídas no mercado de trabalho, mas de forma precarizada, sem direito a creche e passando por assédio e violência. E as eleições, por conta de tudo isso, também não foram feitas para as mulheres, que sempre colocaram a possibilidade de elas votarem, mas em segundo plano ou como escada para os homens chegarem ao poder.

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Além de professora, ela é militante dos movimentos sociais e sindicalista

MULHERES NÃO PODEM SER APENAS COADJUVANTES
“Em Sergipe, por exemplo, tivemos - e ainda temos - mulheres apenas ocupando espaços de vice, como Eliane Aquino na Prefeitura de Aracaju e agora como candidata a vice do Estado. Precisamos nos posicionar contra isso também”

JLPolítica – Como a senhora vê a situação sergipana em si?
SM –
Em Sergipe, por exemplo, tivemos – e ainda temos – mulheres apenas ocupando espaços de vice, como Eliane Aquino na Prefeitura de Aracaju e agora como candidata a vice do Estado. Precisamos nos posicionar contra isso também. E há outros pontos, como o financiamento e a forma que podemos nos colocar. Consideramos um absurdo a forma de distribuição do fundo partidário, que toma como referência a quantidade de parlamentares para enviar o quantitativo às regiões. Acaba sendo desproporcional, e o Norte e o Nordeste têm mais perdas. E é muito dinheiro, nosso dinheiro, para financiar a campanha daqueles que retiram nossos direitos. É imoral, absurdo. Deveria ser um financiamento menor e igual para todos. Isso seria justo. Os trabalhadores estão endividados, sem casa para morar, e pagando para esses sujeitos defenderem as próprias candidaturas deles. Então, nos somamos aos que estão revoltados com isso. É tudo construído para inviabilizar as mulheres. E essa é uma luta das mulheres também nos partidos de esquerda. Recentemente, tivemos uma aprovação de destinação de 30% dos recursos para as candidaturas femininas. É importante. Mas mesmo assim temos que lutar dentro do partido para termos mais recursos e mais tempo de TV, então é uma luta de todas nós.

JLPolítica – A senhora já foi candidata ao Governo, à Prefeitura de Aracaju e nunca foi eleita. O que a motiva a continuar?
SM –
O fato de entendermos que o processo da eleição, de acordo com a forma que ela é estruturada, de forma burguesa, coloca chances mínimas para que possamos ter, por exemplo, visibilidade nos meios de comunicação, acesso às comunidades. Nós não negociamos as eleições com empresários, sejam da construção civil, do transporte ou da limpeza urbana –, porque quem paga a conta da eleição agora, cobra depois. E a conta está sendo paga pelos eleitos colocando nossa vida em risco – sem saúde, sem educação, sem saneamento. Então, não fomos eleitos, mas continuamos na luta, todos os dias, com um projeto de sociedade que nós sabemos que não vai acontecer nas eleições. É um projeto que vai acontecer quando a maioria da população ampliar o seu nível de consciência. A eleição é o momento de incentivar essa consciência.

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Atuou da educação básica até a universidade

AS ELEIÇÕES VÃO BEM ALÉM
“Não fomos eleitos, mas continuamos na luta, todos os dias, com um projeto de sociedade que nós sabemos que não vai acontecer nas eleições. É um projeto que vai acontecer quando a maioria da população ampliar o seu nível de consciência”

JLPolítica – Não cansa esse ideário dos partidos menores, que ficam sempre abaixo de uma casa decimal de votos? A senhora nunca pensou em ser um pouco mais pragmática e somar-se a grupos mais abertos da política? 
SM –
Não, porque nós fizemos frente de esquerda, em todas as eleições, até a de 2016, com partidos de esquerda e movimentos sociais, que compõem a nossa aliança. Não construímos o processo de eleição com o pragmatismo que os partidos de direita ou de centro costumam fazer, trocando de alianças e se juntando ou separando a depender dos espaços institucionais. Isso é um desserviço à população, é deseducativo e só mantém privilégios. Se for para ser pragmático a esse ponto, nós vamos continuar onde estamos. Inclusive, nessa eleição, tentamos fazer uma aliança com outros partidos de esquerda, como por exemplo, o PSTU, mas o PSTU faz defesas que não têm como a gente fazer, eles acreditam, por exemplo, que não houve um golpe institucional. Enquanto nosso partido foi o único em que todos os parlamentares votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff – não porque estivéssemos felizes com o Governo ou acreditássemos que seria o projeto que a classe trabalhadora necessitava, mas porque as razoes pelas quais ela foi levada ao impeachment são justamente as de executar as políticas no corte de orçamento com mais rapidez. Tanto que o motivo, as pedaladas, é praticado por todos os governadores e depois de três meses não foi mais considerado crime. É a mesma situação que levou Lula à cadeia. Eu não sou do PT, nosso partido tem candidato próprio, mas nós defendemos Lula livre e candidato, porque sabemos que essa justiça tem partido, não é neutra. A Operação Lava Jato só atende aos interesses da direita.   

JLPolítica – O que Sergipe pode esperar de um possível mandato de senadora da senhora?
SM –
Nós temos diversas propostas. A primeira delas é a luta para revogar todas as medidas do governo Temer; a segunda, de defender o direito das aposentadorias das pessoas, então vamos lutar pela não aprovação da reforma da Previdência, porque a consideramos um crime contra os mais pobres. Também vamos lutar por um modelo de segurança pública que não criminalize os trabalhadores, por uma segurança que não seja militarizada. Nós não defendemos intervenção militar. Inclusive a Força Nacional está aqui em Sergipe e com toque de recolher nas periferias. Vamos defender todos os direitos ao trabalho e à titulação de terras, com uma reforma agrária de fato, principalmente das terras indígenas e quilombolas, porque não podemos continuar com o extermínio dessas populações por conta do modelo econômico do agronegócio. Além disso, vamos defender todos os direitos da mulher, inclusive os reprodutivos. Somos a favor da vida, e da vida das mulheres que não têm direito de ter acesso à saúde pública. Hoje, acontecem mais de um milhão de abortos por ano, e não são as mulheres ricas que morrem. Precisamos taxar as grandes fortunas, fazer uma auditoria da dívida pública, acabar com os altos salários dos parlamentares. Inclusive, nós queremos debater com a sociedade a necessidade de existir o Senado, porque achamos que é possível ter apenas um parlamento e não dois (Câmara e Senado). Por que os velhos coronéis de Sergipe e os novos que trazem resquícios dos velhos estão querendo ir para o Senado? Porque é lá onde se aprovam as medidas. 

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É cidadã sergipana

ESQUERDA ENVIESADA DIFICULTA
“Tentamos fazer uma aliança com outros partidos de esquerda, como por exemplo o PSTU, mas o PSTU faz defesas que não têm como a gente fazer, eles acreditam, por exemplo, que não houve um golpe institucional”

JLPolítica – E o Guilherme Boulos presidente, vem em nome de que projeto político? O universo dele se restringirá ao problema da moradia popular brasileira?
SM –
O Boulos vem somando conosco num projeto que tem alguns desses elementos que pontuei. Mas tem outro, que é o direito à cidade. Porque como ele vem de um movimento de luta por moradia, tem isso com muita força. O direito à cidade significa trabalho, moradia, saneamento, educação pública, saúde, escola que não seja da mordaça, liberdade religiosa. E Boulos defende esse projeto. Para isso, também apoia os projetos que defendemos, como a taxação de grandes fortunas, políticas de energia, políticas sociais, etc. E principalmente o direito à luta pelos trabalhadores e a não criminalização dos movimentos sociais. A candidatura de Boulos se diferencia das demais, porque não está preocupada em fazer nenhum processo de conciliação de classes, como o PT e outros partidos da base aliada fizeram.

JLPolítica – Professora, parece-lhe que Boulos tenha que perspectivas eleitorais neste momento em que o PT se afigura destroçado na cena brasileira?
SM –
A perspectiva de entender esse projeto é muito grande, porque a população está sofrendo muito com o que vem com a crise e o golpe. Nesse sentido, a população não quer mais votar nos mesmos nomes, embora Lula continue. Lula é figura carismática e continua sendo, caso possa se candidatar, o mais cotado. Como explicar isso? Lula foi forjado na política para isso. Mas o PT não tem outras figuras como Lula. E nós temos construído nossas lideranças na luta, e não apenas uma liderança. São mulheres e homens que, organizadamente, podem assumir a direção de um país. Essa é uma linha muito importante, porque temos na história da política um cenário de um nome, de personalismos, e nossa campanha não fortalece isso. E pela primeira vez nós teremos uma mulher indígena como candidata a vice-presidente, que é a Sônia Guajajara. Ela vem com um movimento social fortíssimo e essa junção entre ela, Boulos, movimentos sociais e PSOL mostra a nossa possibilidade nas eleições. Poderemos não ter uma votação extraordinária diante do quadro que estamos vivendo, mas com certeza será o maior diferencial na política nessa conjuntura. Uma candidatura de esquerda, porque para nós que defendemos uma sociedade socialista essa demarcação é importante, que defende os trabalhadores e não faz conciliação de classe.

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Márcio Souza é o candidato de seu partido ao Governo

SERÁ QUE O SENADO É NECESSÁRIO?
“Achamos que é possível ter apenas um parlamento e não dois (Câmara e Senado). Por que os velhos coronéis de Sergipe e os novos que trazem resquícios dos velhos estão querendo ir para o Senado? Porque é lá onde se aprovam as medidas”

JLPolítica – A senhora é doutora em Educação. Como avalia os índices educacionais do pais e do nosso Estado?
SM –
Dos anos 80 para cá, nós tivemos um crescimento do acesso à educação e alcançamos a universalização do ensino fundamental – anos iniciais. Mas na medida em que fomos avançando com o direito à educação, houve um movimento dos Governos de destruição da escola pública do ponto de vista dos direitos dos trabalhadores, do acesso à educação de quem vivia e vive no meio rural. Também conseguimos diminuir o número de pessoas não alfabetizadas, conhecidas como analfabetos e agora esse número aumentou. Temos um abandono da escola pública e uma terceirização da educação; corte no pagamento dos professores, corte de bolsas de pesquisa na universidade, índice educacional vergonhoso. Tivemos uma reforma do ensino médio que não consultou os professores, que é seletiva, e que foi aplicada em Sergipe antes mesmo de Temer aprovar. Sergipe foi um dos pilotos. Sergipe não vem investindo na educação, a não ser com os recursos federais que chegam. Então, temos um quadro muito difícil, uma educação para atender aos interesses dos empresários e não às nossas crianças, aos jovens e à população. E é preciso lembrar que um estado e um país que não têm perspectivas na educação, não têm perspectivas de futuro. E isso é culpa dos mesmos governante que agora, de forma desavergonhada, vão prometer melhorias.

JLPolítica – Inclusive, a senhora tem experiência em educação para jovens e adultos e do campo. Estes setores têm avançado nos últimos anos?
SM –
Com o trabalho de extensão que desenvolvemos, criamos os maiores programas de educação com as populações excluídas, que são as camponesas. Nós lutamos para que os trabalhadores do campo e seus filhos pudessem ter acesso à escola. Mas nos últimos anos, nós tivemos, só em Sergipe, mais de 400 escolas rurais fechadas. Os jovens estão sendo jogados para estudar à noite, porque muitas classes foram fechadas pela falta completa de investimento na educação. 

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"Uma candidatura de esquerda, que defende os trabalhadores e não faz conciliação de classe”, diz Sônia

A CANDIDATURA DE BOULOS A PRESIDENTE
“A candidatura de Boulos se diferencia das demais, porque não está preocupada em fazer nenhum processo de conciliação de classes, como o PT e outros partidos da base aliada fizeram”

JLPolítica – Até que ponto um mandato de senador pode inferir para melhorar as práticas da educação pública brasileira?
SM –
Podemos interferir porque é pelo Senado que poderemos, inclusive, provocar uma revisão completa em muitas leis que foram aprovadas, inclusive da emenda que retira investimentos, como a emenda constitucional 55, que congela por 20 anos os recursos. Nós, trabalhadores, não vamos ficar nem com a cuia na mão, porque não teremos sequer a cuia. Precisamos revoga-la urgentemente, fazer plebiscito no país inteiro, e no Senado nós poderemos fazer isso. Não basta eleger uma pessoa, e sabemos que também que não haverá uma renovação completa na Câmara e no Senado. Mas se chegarmos, e nós vamos chegar, é com a força da classe trabalhadora. E é com ela que vamos caminhar no Brasil inteiro para peitar a institucionalidade burguesa.

JLPolítica – O que a senhora conhece do seu companheiro de chapa, na disputa também pelo Senado, Jossimário Mick? Vão fazer uma campanha casada ou será cada um por si?
SM –
Jossimário é um camarada recém-filiado ao PSOL, que é um partido de correntes. Ele faz parte de uma e nós de outra. Colocamos o nosso nome e achávamos que o PSOL poderia ter saído com uma candidatura única e bem fortalecida, assim como nós apoiamos a candidatura de Márcio Souza ao Governo. Mas o partido votou por ter duas candidaturas. Nesse sentido, construímos um programa e todos os outros candidatos terão que defendê-lo, aí nós vamos caminhar juntos, com a mesma base. O PSOL entra na campanha com um programa construído coletivamente.

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Tem atuação intensa em diversos movimentos sociais

TEMOS UMA EDUCAÇÃO NOTA ZERO
“Sergipe foi um dos pilotos. Sergipe não vem investindo na educação, a não ser com recursos federais que chegam. Então, temos um quadro muito difícil, uma educação para atender aos interesses dos empresários e não às nossas crianças”

JLPolítica – Qual á a avaliação que a senhora faz do candidato ao Governo de Sergipe pelo seu partido, Márcio Souza? Ele tem maturidade para tocar a gestão de Sergipe, caso eleito?
SM –
Sim, com certeza. Ele é um dos fundadores do PSOL. Um camarada que sempre foi de esquerda, tem uma militância, traz pautas importantes dentro desse programa que elaboramos. Ele está construindo também a candidatura de Boulos e Sônia Guajajara aqui e, juntos, assinamos embaixo essa campanha de Márcio e Ana Simone, que também é uma trabalhadora, uma militante de movimento sindical. As candidaturas do PSOL são de pessoas que trabalham na base. Márcio vem da Polícia Militar e é um camarada de muito valor. Nós esperamos fazer uma campanha como fizemos em 2014. Lamento que a gente venha a ter espaços pequenos nos meios de comunicação de massa, mas teremos a oportunidade de mostrar à população nosso programa e para que a classe trabalhadora comece a perceber que ela tem uma opção, ela não precisa votar nos mesmos.

JLPolítica – O PSOL é um partido de esquerda, com bandeiras bem especificas. Qual seria o diferencial da sigla em relação a outras também de esquerda, como PSTU?
SM –
O PSTU faz a crítica da política de conciliação de classes do PT, mas considera que não houve golpe e que tem que estar todo mundo preso, sem uma análise, ao nossos ver, mais aprofundada, de que esse Judiciário é seletivo. Nós defendemos que corruptos e corruptores têm que estar na cadeia, mas não estamos dizendo que todos que estão no Congresso o são. Além disso, para ser preso, tem que ter provas e não apenas delação. Porque a nossa classe já amarga sendo encarcerada sem provas. Por isso não podemos fazer um discurso generalizado e não estamos caminhando juntos. Há uma diferença pragmática. Para nós, também é preciso refletir sobre com quem outros partidos que se colocam como de esquerda estão se juntando, porque ao se juntar com Renan Calheiros e outros coronéis, como aqui em Sergipe, o fazem para se manter no poder. Apoio é uma coisa, subir no mesmo palanque e fazer campanha juntos, apoiando os candidatos, é outra. E isso não vai garantir nenhuma transformação da realidade. Por isso nós nos diferenciamos deles. Até o PSTU, que defende alguns pontos comuns, ao fazer um chamado à rebelião neste momento, se distancia. Mas queríamos muito que o PSTU estivesse conosco, como o PCB está. Teremos candidaturas em separado, que nós respeitamos. Vera Lúcia é uma mulher negra, de história de luta, mas nós temos o nosso candidato.

JLPolítica – A corrupção é um dos fatores que têm afastado os eleitores. Inclusive, as pesquisas apontam um alto índice de abstenções. Como romper com essa barreira?
SM –
Vai depender muito de como a população vai nos ouvir, não só ao PSOL. Porque as abstenções têm se dado por uma falta de esperança da população, que foi educada para apostar sua esperança na eleição e hoje se vê frustrada. Nós dizemos o contrário, dizemos que a vida só muda com muita luta. A população nunca se viu como a própria mudança. Tanto é que no Governo do PT não era a classe que estava lá, era um representante de um partido que tem o nome dos trabalhadores. Fica difícil a pessoa de fato acreditar no voto depois de votar por anos e não ver nada acontecer. Se a gente conseguir, não só o PSOL, ir ampliando esse entendimento, penso que isso pode mudar, mas não acredito que seja nessa eleição. Mas se não colocarmos nosso projeto, mas distante essa esperança ficará.

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"Minha história de vida é uma história de luta pelos direitos dos trabalhadores”, define

PT X PSOL, MAS EM CAMPOS SEPARADOS
“Estamos unidos a todos os partidos que foram contra o golpe numa unidade tática nas lutas, mas nós não defendemos o projeto que o PT defende. Então, nas eleições, nós estamos em campos separados”

JLPolítica – A senhora já foi integrante do PT, de quem o PSOL foi um aliado histórico. Como é essa relação hoje?
SM –
Estamos unidos a todos os partidos que foram contra o golpe, numa unidade tática nas lutas, mas nós não defendemos o projeto que o PT defende. Então, nas eleições, estamos em campos separados, com candidaturas separadas. Nas lutas, sempre estaremos juntos. Nisso, sempre haverá unidade.

JLPolítica – A esquerda vem amargando perdas de espaço significativos, enquanto o conservadorismo vem avançando. O que motivou esse movimento e como revertê-lo?
SM –
Uma crise econômica que faz com que os mais ricos busquem se relocalizar internacionalmente, porque a questão não é no Brasil. Nós temos eleições de conservadores em outros países, inclusive onde há tradição e experiência mais da esquerda ou centro-esquerda e países importantes no cenário econômico, como os Estados Unidos, com Donald Trump. Mas nosso país, como vem de uma tradição histórica de um capitalismo mais atrasado, observamos que no momento de crise esses grupos dão mais vazão ao conservadorismo e eles se recolocam o golpe foi isso. Retira direitos e coloca a força da polícia. É por isso que temos o aumento do conservadorismo, não é porque a esquerda teve uma possiblidade e não aproveitou, porque nós nunca tivemos a condição de fato de os trabalhadores dirigirem a política. Estamos lutando pelas futuras gerações.

JLPolítica – A onda de conservadorismo ameaça o país?
SM -
Nas eleições, nós temos o dever de combater esses conservadores. Inclusive, um dos candidatos que vamos bater todos os dias é Bolsonaro. Não podemos toma-lo como um candidato irrelevante. Ele está se colocando nas redes, ele é perigoso, porque o que ele defende é contra a nossa vida, não é possível mais, é um retrocesso secular na nossa história e é preciso dizer isso aos jovens que estão sem esperança e que acham que a esperança é o armamento, é matar, é encarcerar. Um homem que não tem propostas, são apenas ideias fascistas, misóginas, que precisam ser combatidas.  Não podemos subestimá-lo, porque o poder econômico predomina, como tem predominado em Sergipe, com André moura. Ele não pode ser o representante, porque há, inclusive, o uso indevido dos recursos públicos, subliminarmente trocados por apoio nas eleições. Sergipe não pode ter este homem como representante. O homem que é líder do Governo Temer, que vem retirando todos os nossos direitos.

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É pelo Senado que poderemos, inclusive, provocar uma revisão completa em muitas leis que foram aprovadas", justifica