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Entrevista

Jozailto Lima

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Verônica Paiva: A favela se arma de solidariedade contra a Covid-19

“Previsão da ONU é que o Corona empurre até meio milhão de sergipanos para a pobreza”
12 de abril 8h00

Em tempos de pandemia de Coronavírus, os perigos rondam a todas as pessoas no mundo inteiro. Ninguém entre os 7,7 bilhões de habitantes do planeta terra está livre dos tentáculos da doença Covid-19, provocada pelo vírus que se originou na China e hoje está disseminado entre todos os continentes. Isso na saúde e na economia.

Embora não tenha sido esse o roteiro dos primeiros casos no mundo e no Brasil, mas certamente os mais pobres serão os mais contemplados e sacrificados se a pandemia não tiver contidas as suas curvas iniciais e o vírus não for interditado ao máximo.

Essa é uma preocupação frontal e direta da Central Única das Favelas - Cufa -, seccional sergipana. E, diante desses riscos, a Cufa já botou seu exército nas ruas e está atuando em busca de atenuantes. Nesta hora, a favela e sua entidade representativa se armam de solidariedade e partem contra a Covid-19 e as suas consequências.

“A maior preocupação da Cufa é com a população da periferia estar mais exposta aos efeitos dessa pandemia. A ação da Cufa vem ajudar a mitigar essa situação, doando cestas básicas, produtos de limpeza, gerando programa de transferência de renda, como o Projeto Mães da Favela, e gerando informativos sobre os cuidados no enfrentamento à Covid-19”, diz a presidente estadual da Cufa em Sergipe, a futura pedagoga Verônica Paiva.

Verônica Paiva parte do princípio de que o estrago feito sobre as camadas sociais que já vivem socialmente debilitadas e privadas de determinados acessos pode ser grave se não se tiver gesto de solidariedade.

“A previsão da ONU é que o Corona empurre até meio milhão de pessoas sergipanas para a pobreza. Isso é muito significativo para o Nordeste, que concentra o maior número de pessoas em extrema pobreza”, diz Verônica.

“O estrago e os efeitos do vírus já estão sendo expostos pelos pesquisadores e autoridades que acompanham a pandemia. À Cufa cabe lutar para amenizar o sofrimento”, diz Verônica.

Nessa hora, a Cufa entende que é importante se associar a todos os organismos sociais que queiram mitigar os perigos do Coronavírus e da Covid-19.

“Nossas relações institucionais baseiam-se no respeito, pois entendemos que a força do nosso alcance está nas boas relações. Temos interlocução com todos que buscam a melhoria da qualidade de vida dos moradores em situação de favelas”, diz ela.

“Somos uma rede de colaboradores que tem como objetivo desenvolver ações utilizando os eixos cultural, de educação, esporte, empreendedorismo e bem-estar como suporte à inclusão social das pessoas em situação de vulnerabilidade”, avisa.

Verônica Paiva nasceu no dia 20 de julho de 1982, em Aracaju, Sergipe, e é filha de Ridelson Antônio de Paiva e de Terezinha Souza Santos. Ela é casada com Eliezer Paiva e é mãe de Misac França, de 15 anos.

Verônica Paiva está concluindo o curso de Pedagogia e atua na Cufa desde de 2010. O papel de presidente estadual ela passa a desempenhar a partir de 2014. Mas já teve atuações em esferas sociais diferentes antes, como na Apae de Aracaju, onde começou a colaborar aos 14 anos.

“Na época meu irmão, com 23 anos, era atendido por esta instituição e eu me sentia grata pelo ação prestada e queria colaborar de alguma maneira. Após o falecimento dele, me afastei”, diz.

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Com as mulheres da vida dela - a mãe, dona Terezinha, e a renca de sobrinhas
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Verônica Paiva é casada com Eliezer Paiva e é mãe de Misac França, de 15 anos

O CORONAVÍRUS E A PREOCUPAÇÃO DA CUFA
“A maior preocupação da Cufa é como a população da periferia estar mais exposta aos efeitos dessa pandemia. A ação da Cufa vem ajudar a mitigar essa situação, doando cestas básicas, produtos de limpeza, gerando programa de transferência de renda”

JLPolítica - Qual é a maior preocupação da Cufa com este momento do Coronavírus e da Covid-19?
Verônica Paiva -
A maior preocupação da Cufa é com a população da periferia estar mais exposta aos efeitos dessa pandemia. A ação da Cufa vem ajudar a mitigar essa situação, doando cestas básicas, produtos de limpeza, gerando programa de transferência de renda, como o Projeto Mães da Favela, e gerando informativos sobre os cuidados no enfrentamento a Covid-19.

JLPolítica - A senhora consegue visualizar o grau de estrago caso o vírus se dissemine mais agressivamente sobre as comunidades?
VP -
O estrago e os efeitos do vírus já estão sendo expostos pelos pesquisadores e autoridades que acompanham a pandemia. À Cufa cabe lutar para amenizar o sofrimento.

JLPolítica - Em que consiste a campanha “Cufa contra o vírus”?
VP -
A campanha #cufacontraovirus consiste em ser um braço de luta nesse momento. Uma grande corrente foi formada junto às pessoas físicas, parceiros institucionais, empresas e outras organizações para gerar uma rede de solidariedade com objetivo de fornecer cestas básicas com alimentos e material de higiene para as famílias em vulnerabilidade social que estão nas favelas.

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Ponto de Arrecadação de Alimentos numa das lojas Assaí: porque a fome pede solidariedade

O QUE JÁ PODE SER FEITO ATÉ AGORA
“Até o momento, 2,5 toneladas de alimentos foram arrecadadas e em torno de três mil famílias já foram beneficiadas em Aracaju, na Grande Aracaju, em Umbaúba e em Porto da Folha”

JLPolítica – Já rendeu bons resultados?
VP -
Até o momento, 2,5 toneladas de alimentos foram arrecadadas e em torno de três mil famílias já foram beneficiadas em Aracaju, na Grande Aracaju, em Umbaúba e em Porto da Folha. Só da empresa Assaí Aracaju recebemos uma tonelada e no decorrer da semana mais alimentos serão retirados da loja.

JLPolítica - Mas o que é mesmo o Projeto Mães da Favela?
VP -
É um programa para arrecadar recursos a serem distribuídos para mães das favelas em todo o país. Segundo o Data Favela e Instituto Locomotiva, cerca de 40% das famílias são chefiadas por mulheres, mães solteiras sem renda fixa e que cuidam dos idosos. A base de estudos e pesquisas, inclusive sobre o programa Bolsa Família, diz que o dinheiro da assistência à mulher gera muito mais impacto social o que o dado a homens da família.

JLPolítica – Como esses recursos chegarão às mães da favela?
VP -
O auxílio será recebido pelo celular a partir de uma parceria com a empresa de pagamentos e transferência PicPay, mediante cadastramento do CPF pelo telefone. O dinheiro do benefício está sendo arrecadado pela Cufa por meio da campanha lançado na última semana. A fase piloto começou com cinco mil mães e hoje são 20 mil, mas já tem 30 mil cadastradas. Nossa intenção é atender mais mulheres e estender o período de concessão de bolsas.

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Na Campanha de Vacinação do município de Nossa Senhora do Socorro: o lado saúde da Cufa

EM SERGIPE 650 SERÃO ANTENDIDAS PELO VALE-MÃE
“20 mil mães serão beneficiadas em todo o país e foram destinados para Sergipe 650 auxílios, que chamamos carinhosamente de vale-mãe. O recurso de R$ 120 será pago nos meses de abril e maio”

JLPolítica - Qual é o alcance destes R$ 120 para Sergipe? Quantas mães podem ser contempladas aqui?
VP -
Ao todo, 20 mil mães serão beneficiadas em todo o país e foram destinados para Sergipe 650 auxílio, que chamamos carinhosamente de vale-mãe. O recurso de R$ 120 será pago nos meses de abril e maio.

JLPolítica - Qual é a situação da pessoa em condição de favela frente ao Cadastro Único do Governo Federal?
VP -
O CadUnico contribui para que essas famílias saiam da invisibilidade social e tenham acesso às políticas públicas.

 JLPolítica - A Cufa terá um aplicativo específico para ajudar as pessoas da favela nesta hora?
VP -
Nosso maior meio de comunicação e levantamento de dados informativos é através do trabalho em rede e pesquisas. Até o momento não foi criado um aplicativo específico. Pode ser os próximos passos.

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Recebendo da deputada Kitty Lima a Comenda Jacinta do Amor Divino, concedida pela Alese

A CUFA E A LIBERDADE DE PARCERIAS
“Seguimos um planejamento nacional com liberdade para criar agendas locais que atendam a necessidade da população. As ações são desenvolvias em parceria com instituições que dedicam parte do seu tempo pelo próximo”

JLPolítica - Com quais instituições a Cufa estabelece parcerias nesta hora?
VP -
Em Sergipe, com o Instituto Rahamim, Aliados pelo Versos, Rede de Desenvolvimento Cidadão, governo, com a Rede Globo local, Ministério Público no intuito de construir ações que beneficiem as populações em situação de favelas. A Cufa está aberta para ser parceira em ações de enfrentamento do Covid-19, com foco nas periferias.

JLPolítica - Qual é a real missão da Cufa junto às favelas e as suas comunidades para além do Coronavírus?
VP -
É a da organização da população periférica, empreendedorismo, geração de renda e ocupação, ações de enfrentamento à violência, saúde pública, esporte e bem-estar.

JLPolítica - A Cufa tem um orçamento próprio anual a ser cumprido e de onde iriam os recursos dela?
VP -
Seguimos um planejamento nacional com liberdade para criar agendas locais que atendam a necessidade de nossa população. As ações são desenvolvias em parceria com outras instituições, órgão públicos ou simplesmente através de voluntários que dedicam parte do seu tempo pelo próximo. Os recursos adquiridos chegam através de editais, doações de pessoas físicas ou empresas.

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Campeões Taça das Favelas 2019, na entrega com o secretário Antonio Hora e a atleta Mariana Dantas

O CORONAVÍRUS VAI GERAR MAIS POBREZA
“A grande maioria da população sergipana vive em periferias urbanas ou bolsões de pobreza no interior. Dados oficiais de 2019 já mostravam o avanço da pobreza depois de anos no Brasil, e a previsão da ONU é que o Corona empurre até meio milhão de pessoas sergipanas para a pobreza”

JLPolítica - A senhora estima que entre os 2,4 milhões de sergipanos, quantos existem em condição de favela?
VP -
Não tenho o dado exato, mas a grande maioria da população sergipana vive em periferias urbanas ou bolsões de pobreza no interior. Dados oficiais de 2019 já mostravam o avanço da pobreza depois de anos no Brasil, e a previsão da ONU é que o Corona empurre até meio milhão de pessoas sergipanas para a pobreza. Isso é muito significativo para o Nordeste, que concentra o maior número de pessoas em extrema pobreza.  

JLPolítica - Como é que está distribuída a representatividade da Cufa em Sergipe? Ela está apenas em Aracaju ou tem extensão nos demais municípios?
VP -
O escritório estadual encontra-se em Aracaju, mas temos base em Nossa Senhora do Socorro e em Umbaúba. Porém nossas ações alcançam outras favelas e regiões periféricas do Estado.

JLPolítica - Para além de Aracaju, quais são os municípios sergipanos com mais moradores em condição de favela?
VP - A Grande Aracaju, os grandes centros urbanos do Estado e os bolsões de miséria do interior.

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Projeto Cultural Memórias: mais pelas comunidades

DE ONDE SURGEM AS FAVELAS NO BRASIL
“A favela foi gerada pela história de exclusão dos negros e dos pobres no Brasil. O Brasil é dos países mais desiguais do mundo”

JLPolítica - Até onde vai a omissão do Estado para com as favelas e os moradores delas?
VP -
O Estado não está ausente como um todo, mas precisa aproximar-se mais e esse momento é um forte teste.

JLPolítica - Econômica e sociologicamente, o que é e quem gera a favela?
VP -
A favela foi gerada pela história de exclusão dos negros e dos pobres no Brasil. O Brasil é dos países mais desiguais do mundo.

JLPolítica - Como é a relação da Cufa com o Movimento Hip Hop de Sergipe?
VP -
A Cufa nasce da união de jovens que usavam o movimento Hip Hop como forma de protesto, entendendo que poderia realizar feitos maiores e passou a realizar ações com objetivo de dar voz aos excluídos, tornando-os protagonistas de suas próprias histórias.

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Num reunião nacional da Cufa- Brasil, no Rio de Janeiro

UM ANO SEM A TAÇA DAS FAVELAS
“Por causa da pandemia, a terceira edição foi adiada. Mas o projeto proporciona oportunidades para além do campo, abre espaços para novos talentos, além de ser um mecanismo de integração social entre os participantes”

JLPolítica - Para a senhora, o Movimento Hip Hop é representativo até que ponto?
VP -
Essa é uma pergunta a ser feita ao movimento. Não há uma disputa com o Hip Hop, até porque a solidariedade é o norte das periferias do Brasil. Sem ela, a vida na periferia não seria possível.

JLPolítica - A Taça das Favelas é realizada há quanto tempo em Sergipe?
VP -
A Taça das Favelas Sergipe caminha para sua terceira edição.

JLPolítica – Este ano ela ocorre?
VP -
Por causa da pandemia, a terceira edição foi adiada. Mas o projeto proporciona oportunidades para além do campo, abre espaços para novos talentos, além de ser um mecanismo de integração social entre os participantes.Com isso buscar fomentar a economia local, gerando empregos.

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Firmando parceria para o Projeto Taça das Favelas de 2019, com Jorgilho Filho e Luiz Carlos Bossa Nova. Ao lado dela, o esposo Eliezer Paiva

DAS RELAÇÕES COM O MTST DE SERGIPE
“Apesar da Cufa Sergipe nunca ter firmado parceria com o MTST, esse pode ser um momento para estreitar laços, pois saúde, emprego, renda, diversão e moradia são agendas necessárias para a população brasileira”

JLPolítica - Com quais outras instituições do terceiro setor a Cufa tem melhor interlocução em Sergipe?
VP -
Temos interlocução com todos que buscam a melhoria da qualidade de vida dos moradores em situação de favelas.

JLPolítica - Há conflito ou é boa a relação entre a Cufa e o MTST de Sergipe?
VP -
Somos uma rede de colaboradores que tem como objetivo desenvolver ações utilizando os eixos cultural, de educação, esporte, empreendedorismo e bem-estar como suporte à inclusão social das pessoas em situação de vulnerabilidade. Nossas relações institucionais baseiam-se no respeito, pois entendemos que a força do nosso alcance está nas boas relações. Apesar da Cufa Sergipe nunca ter firmado parceria com o MTST, esse pode ser um momento para estreitar laços, pois saúde, emprego, renda, diversão e moradia são agendas necessárias para a população brasileira.

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Verônica Paiva num momento do Prêmio Direitos Humanos no Ministério da Justiça: reconhecimento

JLPolítica - Qual é o planejamento da Cufa para se fazer representada no Poder Legislativo dos municípios de Sergipe a partir da próxima eleição?
VP -
A Cufa não é um movimento político partidário. É um movimento social que dialoga com todos os atores, religiões e segmentos da sociedade que trabalham para a melhoria das condições de vida da periferia brasileira e sergipana. Toda a formação adquirida com os trabalhos realizados consiste em formar cidadão para fortalecer a política social.

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Verônica Paiva em ação pelo Giro Preventivo, com Sheila Galba e Silvânia Mãozinha