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Entrevista

Jozailto Lima

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Wagner Vieira: “Governo age de forma covarde para calar as universidades”

“Eles querem a escola com o partido da classe dominante”


A Universidade Federal de Sergipe é um patrimônio imaterial e cultural do povo sergipano, produz conhecimento e inclusão social, e não poderia jamais ser tratada pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, como o fora - como se uma casa perdulária e sem rendimentos. Portanto, a UFS é credora e merece mais que um pedido de desculpa por parte de todo o Governo Federal. Merece respeito e preservação.  

Em síntese, esta é a visão de Wagner Vieira, um dos coordenadores gerais do Sintufs - Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação da Universidade Federal de Sergipe -, que, em parceria com a Adufs - Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe -, saiu em defesa da UFS na primeira hora do ataque do Onyx.

Para Wagner Vieira e o Sintufs, não há meio termo em tudo isso e o ministro Onyx está simetricamente a serviço do que pensa o Governo de Jair Bolsonaro, que é em sucatear os meios de educação superior, assim como os da saúde, e repassá-los à iniciativa privada, em sua visão de estado mínimo.

“O governo age de forma covarde para tentar aprovar a Reforma da Previdência e também para tentar calar as universidades, que sempre foram um importante setor de combate aos governos”, constata Wagner.

E fundamenta: “E faz cortes alegando “contingenciamento”, utilizando argumentos de baixo calão, como o das fotos de pessoas nuas, para argumentar um corte que sabemos ter a intenção de sucatear e privatizar cada vez mais a educação e a saúde”.

Para este militante sindical, o antídoto a tudo isso haverá de vir das lutas sociais. “Torço para que (a reação ao Governo) venha da unidade entre estudantes, trabalhadores e desempregados. Porém, sabemos que a juventude se sobrepõe neste momento, dado o seu peso numérico na luta pela Educação. Ela, a juventude, sempre terá um grande impacto na reação contra o governo”, diz Wagner.

Para o presidente do Sintufs, os perigos representados pelo Governo de Jair Bolsonaro estão às claras e nas frestas. “É importante dizer que o escola sem partido é exatamente o inverso. É a escola com partido. Mas com o partido da classe dominante, que tem a intenção clara de destruir a criticidade do cidadão pensante, como o exemplo da suspensão das disciplinas de Filosofia e Sociologia tanto no ensino básico quanto nos cursos das universidades”, observa.

“Há algo mais doutrinador do que obrigar alunos da escola básica jurar a bandeira e dizer o lema do governo? Temos que lutar para derrotar qualquer tipo de intervenção que retire o pensamento crítico dos cidadãos e dos estudantes”, alerta Wagner Vieira.

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Para este militante sindical, o antídoto a tudo isso haverá de vir das lutas sociais
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Wagner Vieira Araújo nasceu em Aracaju, tem 35 anos

O GOVERNO DO DESMONTE E DO SUCATEAMENTO
“Já vimos que não é prioridade desse governo a Educação. Temos que entender que há uma intensificação do desmonte da educação e da saúde pública, e que o governo Bolsonaro vem tentar intensificar as privatizações e o sucateamento do serviço público”

JLPolítica - Para quais horizontes apontam as políticas públicas do atual Governo Federal na esfera do ensino superior brasileiro?
Wagner Vieira -
Para o pior. Já vimos que não é prioridade desse governo a Educação. Temos que entender que há uma intensificação do desmonte da educação e saúde pública e que o governo Bolsonaro vem tentar intensificar as privatizações e o sucateamento do serviço público.

JLPolítica - O corte de 30% no orçamento da educação poderá implicar a inviabilização geral e irrestrita da universidade pública nacional?
WV -
Sim. O governo age de forma covarde para tentar aprovar a Reforma da Previdência e também para tentar calar as universidades, que sempre foram um importante setor de combate aos governos. E o faz cortes alegando “contingenciamento”, utilizando argumentos de baixo calão, como o das fotos de pessoas nuas, para argumentar um corte que sabemos ter a intenção de sucatear e privatizar cada vez mais a educação e a saúde.

JLPolítica - Qual a implicação direta disso?
WV -
Esse corte vai implicar diretamente na avaria da assistência estudantil, nos trabalhadores terceirizados - que já vêm sofrendo com um trabalho e um vínculo de emprego precarizado -, sem insumos necessários para as aulas. Sem contar com a questão da segurança, energia, água e a própria internet das instituições, meios importantes para o trabalho atual.

JLPolítica - Escola sem partido e universidade sem filosofia servem ao quê e a quem?
WV –
É importante dizer que o escola sem partido é exatamente o inverso. É a escola com partido. Eles querem, portanto, a escola com o partido deles. Com o partido da classe dominante, que tem a intenção clara de destruir a criticidade do cidadão pensante, como o exemplo da suspensão das disciplinas de Filosofia e Sociologia tanto no ensino básico quanto nos cursos das universidades. Há algo mais doutrinador do que obrigar alunos da escola básica jurar a bandeira e dizer o lema do governo? Temos que lutar para derrotar qualquer tipo de intervenção que retire o pensamento crítico dos cidadãos e dos estudantes.

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“Já vimos que não é prioridade desse governo a Educação", constata

 

FARSA PERIGOSA DA ESCOLA SEM PARTIDO
“É importante dizer que o escola sem partido é exatamente o inverso. É a escola com partido. Mas com o partido da classe dominante, que tem a intenção clara de destruir a criticidade do cidadão pensante”

 JLPolítica - O Sintufs e a Adufs, em conjunto, já se manifestaram contrários às afirmações do ministro Onyx Lorenzoni. Mas que outros aspectos negativos o senhor apontaria na fala dele?
WV -
Além da fala mentirosa do ministro, é importante frisar que, novamente, há ali uma tentativa de sucateamento do serviço público para a privatização ampla que é o grande foco desse governo. O de acabar com o Estado e entregar nas mãos das empresas e bancos, além de entregar as nossas fortunas ao mercado financeiro.

JLPolítica - Além de preconceito ao pensamento livre e crítico, o senhor apontaria ali na fala do Onyx uma segregação ao Nordeste?
WV -
Bem provável, pois sabemos o quanto a ignorância e a desinformação de pessoas do Sul e Sudeste sobre o Nordeste esteja embutida em tal fala. É uma pena que muitas das pessoas que falam mal do Nordeste ou culpam o Nordeste não tenham aprendido na escola a verdade sobre as regiões, e aí incluo o Norte do país também, muito discriminado por falta de conhecimento básico nas escolas - até mesmo intencional.

JLPolítica - A fala dele seria passiva de um pedido de desculpa a Sergipe dele e do Governo da União?
WV -
Sem dúvida. O mínimo que qualquer pessoa digna faria era se desculpar depois de ato tão falho. Mas o que esperar de um desgoverno que só vem fazendo cagadas e asneiras?

JLPolítica – Qual é a sua concepção específica da importância da UFS nestes 56 anos?
WV -
A UFS é uma instituição respeitadíssima e produtora de conhecimento. O tripé ensino, pesquisa e extensão é de extrema importância para o Estado. Sendo a única universidade pública do Estado, com o maior número de cursos de graduação e pós-graduação do Estado, a UFS formou e contribuiu para o crescimento econômico, político e social do nosso Estado.

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“É importante dizer que o escola sem partido é exatamente o inverso", define

UFS É CREDORA DE PEDIDO DE DESCULPAS DO GOVERNO
“O mínimo que qualquer pessoa digna faria era se desculpar depois de ato tão falho. Mas o que esperar de um desgoverno que só vem fazendo cagadas e asneiras?”

 JLPolítica – O senhor acha que a gestão da UFS a defendeu à altura neste episódio?
WV -
Penso que podíamos ter uma defesa muito mais incisiva, cobrando responsabilidade do ministro, não só uma nota em defesa da universidade mostrando números.

JLPolítica - A desidratação de investimentos na UFS afeta que setores mais frontalmente?
WV -
Sem dúvida, a assistência estudantil, a manutenção do aluno na graduação, as pesquisas e os trabalhadores terceirizados serão os que mais sofrerão com os cortes.

JLPolítica - O senhor acha que a sociedade sergipana, além dos muros dos campi, sabe o peso da UFS e os perigos que ela corre agora?
WV -
Acho que nem dentro dos muros da universidade. Parte dos estudantes não entende os perigos que correm com tais cortes. Muitas das vezes, estes acreditam que é apenas exagero por parte dos movimentos políticos da universidade. E aí é que vemos a falta do pensamento crítico, da busca por respostas que servem apenas à manutenção da classe dominante.

JLPolítica - O senhor acha que o modelo de ensino público superior praticado pelas instituições públicas atendem às necessidades do Brasil enquanto nação em desenvolvimento?
WV -
Sem dúvida. Sempre podemos melhorar, mas é notório o número de trabalhadores formados pelas nossas universidades públicas. Apenas citando o exemplo do curso de Direito da UFS, que foi o primeiro colocado em aprovação na OAB, disputando com mais de mil instituições, as pesquisas feitas na universidade são essenciais para o desenvolvimento de uma nação soberana.

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"O que esperar de um desgoverno que só vem fazendo cagadas e asneiras?”, questiona

DESCONHECIMENTO GENERALIZADO DA UFS
“Parte dos estudantes não entende os perigos que correm com tais cortes. Muitas das vezes, estes acreditam que é apenas exagero por parte dos movimentos políticos da universidade”

 JLPolítica - O senhor não sente uma baixa interlocução entre a UFS, suas instituições internas, como Sintufs e Adufs, e a sociedade?
WV –
Sinto sim. Já tínhamos essa avaliação e ficou ainda mais claro recentemente que temos que melhorar, e muito, as interlocuções com a sociedade.

JLPolítica - Além do Estado mínimo que o liberalismo prega, a que outros pontos estratégicos o senhor acha que estariam atendendo as medidas deste Governo nos seus primeiros 100 dias?
WV -
Acho que aos interesses dos grandes empresários, banqueiros e dos políticos corruptos que nunca deixaram de estar no poder. A frase do Jucá, de que temos que fazer um grande pacto nacional, é exatamente para mostrar a quem serve o governo: um pacto para privilegiar e roubar do povo trabalhador que sustenta o país.

JLPolítica - Como é que o Sintufs encara a flexibilização da jornada de 30 horas?
WV -
A flexibilização é importantíssima, pois ela traz qualidade de vida para os trabalhadores, melhora o atendimento ao público e diminui o absenteísmo, que onera os cofres públicos.

JLPolítica - Quantos trabalhadores gerais tem a UFS e de quanto é a base do Sintufs?
WV -
Os servidores das UFS chegam em torno de 1.500, e destes temos uma filiação que beira os 1.100 do Regime Jurídico Único, funcionários públicos concursados. Quanto aos terceirizados, temos alguns filiados, mas por ter um vínculo de trabalho fragilizado, muitos temem filiar-se ao sindicato, sofrer perseguição e ser demitidos.

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“Parte dos estudantes não entende os perigos que correm com tais cortes", observa

UM GOVERNO DISSOCIADO DAS NECESSIDADES DO POVO
“A frase do Jucá, de que temos que fazer um grande pacto nacional, é exatamente para mostrar a quem serve o governo: um pacto para privilegiar e roubar do povo trabalhador que sustenta o país”

JLPolítica – Há divergências profundas entre o que pensam os servidores da base do Sintufs e os docentes?
WV -
Temos que entender que estamos trabalhando para desconstruir um conceito de que a universidade era formada por docentes e por não docentes. Hoje nós temos orgulho de falar que somos trabalhadores da Educação, título conquistado com muita luta. Mas, infelizmente, há ainda docentes que não entendem que os TAEs - Técnico-Administrativos em Educação - são servidores como eles e não seus empregados. Estamos diariamente trabalhando pra desconstruir isso. Hoje temos centenas de técnicos com mestrado e doutorado, muito bem capacitados, que desempenham funções diferentes das do trabalhador docente.

JLPolítica - O senhor acredita que o sindicalismo sergipano, brasileiro, escapará à Medida Provisória 873 adota pelo Governo Federal?
WV -
Sem dúvida. Foi uma tentativa de enfraquecer os sindicatos para aprovar a Reforma da Previdência. Pelo número de liminares favoráveis aos sindicatos nas últimas semanas, percebemos que essa medida não deve afetar as organizações a longo prazo, mas ela está sendo importante nesse momento para o enfraquecimento dos sindicatos. Inclusive entendendo que não deveria nem ser uma Medida Provisória, dado seu caráter.

JLPolítica - Qual é a interlocução que o Sintufs tem com a gestão da UFS? O reitor Ângelo Antoniolli é democrático ou fechado?
WV -
Nós temos uma relação boa de diálogo com o reitor, mas entendemos que uma boa gestão se faz com críticas e com proposições. Por isso seguimos vigilantes a todos os acontecimentos dentro e fora da universidade, mas acreditamos que o reitor deveria se impor mais frente ao governo.

JLPolítica - O senhor concorda com a tese dele, de que o Campus do Sertão poderia evoluir para uma nova Universidade Federal em Sergipe, independente da UFS?
WV -
Com certeza, os campi do interior têm uma importância fundamental para o desenvolvimento do Estado. Se fosse possível uma nova universidade federal no Estado, seria um bem para o povo sergipano, ainda mais por ser um Campus com uma metodologia de ensino mais progressista, não só - como diria Paulo Freire - uma “educação bancária”, onde o aluno só recebe o conhecimento, mas uma educação que faz o estudante pensar e criar seu próprio conhecimento. 

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"Foi uma tentativa de enfraquecer os sindicatos para aprovar a Reforma da Previdência", avalia, sobre a fala do ministro Onyx Lorenzoni

A UFS É UMA COMPOSIÇÃO DE MUITOS
“Temos que entender que estamos trabalhando para desconstruir um conceito de que a universidade era formada por docentes e por não docentes. Hoje nós temos orgulho de falar que somos trabalhadores da Educação”

JLPolítica - Qual é o relacionamento das entidades sindicais da UFS com os 11 membros da bancada federal de Sergipe no Congresso Nacional?
WV -
Nós entendemos que qualquer deputado ou senador deveria estar legislando e trabalhando para o bem do seu povo, mas como sabemos que a política ainda tem velhos costumes, sempre vamos exigir de todo e qualquer deputado que vote no que é melhor pro povo, não em causa própria ou no que é melhor para seu grupo político ou igreja. Por isso muitas vezes temos poucos aliados no Congresso.

JLPolítica - O senhor acha que poderá vir dos estudantes ou dos trabalhadores a maior reação ao Governo de Jair Bolsonaro?
WV -
Torço para que venha da unidade entre estudantes, trabalhadores e desempregados. Porém, sabemos que a juventude se sobrepõe neste momento, dado o seu peso numérico na luta pela Educação. Ela, a juventude, sempre terá um grande impacto na reação contra o governo.

JLPolítica - O Sintufs se somará à Greve Geral que está sendo convocada para o 14 de junho?
WV -
Sem dúvida. Fomos um dos protagonistas nas greves gerais que barraram a Reforma da Previdência no governo Temer e vamos continuar na luta pela melhoria da sociedade.

JLPolítica - O Sintufs não faz qualquer crítica à corrupção que se descortinou no Brasil sob os anos do PT?
WV -
O Sintufs sempre foi combativo com relação à corrupção em qualquer governo. É triste ver um partido, onde há muitos trabalhadores que acreditam em um país melhor, estar envolvido em corrupção. Mas temos que deixar claro que a corrupção não nasceu e nem se intensificou no governos do PT. Ela é uma herança maldita que temos que combater diariamente. Temos que agir com investigação e justiça, sem distinção ou apadrinhamento, diferentemente do que vemos diariamente no nosso país. No Brasil, alguns são presos de qualquer jeito enquanto outros não são sequer julgados, ou mesmo como vimos no governo de Fernando Henrique Cardoso, onde mais de 600 processos por corrupção foram arquivados.

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"Hoje nós temos orgulho de falar que somos trabalhadores da Educação”, exalta