OPINIÃO

Las trochas

Relato de uma travessia colombo-venezuelana. Reflexos de um país fragmentado

Por (*) Gabriel Varjão Lima
17 jul 2017, 10h59

Desde que havia começado as férias, tinha visitado seis cidades entre Equador e Colômbia. No primeiro país, conheci Quito e seus arredores, Montecristi com seus sombreros de paja toquilla, além da cidade histórica de Cuenca.

Depois subi para a nação vizinha e conheci Bogotá, Medellín e Cartagena. Ainda contava com três dias antes de voltar para São Paulo.

Estando Cartagena relativamente próxima da fronteira com a Venezuela, imaginei que levariam alguns anos para que voltasse a ter uma oportunidade parecida com aquela de conhecer esse lugar, estando em frangalhos ou não.

De maneira que aceitei o desafio de adentrar aquele país para tentar entender in loco o que estava se passando por ali.

A única maneira de chegar lá por terra seria comprando uma passagem até Maicao, cidade colombiana fronteiriça com a Venezuela. De lá, poderia pegar um transporte até Maracaibo, segunda maior cidade venezuelana, localizada no Noroeste do país, no estado de Zulia.

O plano era chegar a Maracaibo, passar um dia lá e pegar um ônibus em direção a Caracas, onde ficaria dois dias antes de voltar ao Brasil.

Não foi isso exatamente o que sucedeu, e a sequência de acontecimentos desde que cheguei a Maicao até finalmente sair de Maracaibo lhes conto aqui.

Chegando à última cidade colombiana antes da fronteira às seis da manhã, depois de fazer câmbio de meus pesos colombianos excedentes por bolívares, dei-me conta de que não haveria empresas que me levariam até Maracaibo.

No ônibus que me trouxe de Cartagena até ali, veio do meu lado Dona Rebeca, uma senhora venezuelana que vivia na Colômbia e que ia a Maracaibo levar mantimentos para seus familiares. Como ela me havia dito que ia a Maracaibo, relaxei e nem preocupei em saber por que meio de transporte isso iria acontecer. Para mim, estava claro que seria por ônibus.

Mas não. A verdade é que o governo venezuelano fechou a fronteira com a Colômbia para transportes terrestres, sendo possível a travessia, ao menos de maneira legal, somente a pé.

Assim sendo, o jeito foi oferecer às pessoas a travessia e a ida a Maracaibo de maneira ilegal, com frotas de carros grandes e antigos. É o que me coube.

Aceitei, então. Pela viagem, paguei 30.000 bolívares, algo em torno de 30 reais, com os quais na Venezuela de hoje se pode comprar não muito mais de três quilos de arroz.

Eu, Dona Rebeca, Fran, o motorista (na parte dianteira), e três outros venezuelanos (na parte traseira), embarcamos, então, num Ford Conquistador da década de 80, uma potência carcomida pelo tempo e pela ferrugem.

Começamos a viagem. Carimbamos passaportes. Cruzamos a fronteira. Depois de um pequeno trecho percorrido em asfalto, saímos da pista, caímos numa estrada de terra e nos detivemos diante de um portão de madeira. Estávamos prestes a percorrer la trocha.

Sob o teto do velho Ford Conquistador: país sob ferrugem

Como as estradas de asfalto estavam bloqueadas para impedir o fluxo internacional de veículos, a solução adotada pelos cidadãos locais foi contorná-las por caminhos de terra. Esses tinham a travessia agenciada por gente que acompanhava de moto os contratantes do serviço. Pagamos e iniciamos, escoltados, a travessia.

Ao longo do trajeto, pude perceber que os moradores da cercania da estrada de terra também queriam uma percentagem dos ganhos nesse negócio e improvisavam pequenos postos de pedágio com cordas amarradas em tocos de madeira. O baixar das cordas estava condicionado ao pagamento de 100 bolívares, equivalentes a poucas dezenas de centavos de real, desembolsados por nossa escolta motociclística.

Dois jovens iam na moto, e enquanto um pilotava o outro cuidava de distribuir uma nota a cada morador-cobrador à beira da estrada. Não contei ao certo o número de postos clandestinos de cobrança, mas imagino que havia algo em torno de trinta.

Vencida a faixa de terra, que tinha entre cinco e dez quilômetros, chegamos ao asfalto, e Fran nos propôs outro pagamento de 1.000 bolívares por passageiro para que uma dupla diferente de motociclistas nos acompanhasse por mais um trecho para garantir nossa segurança.

A justificativa para isso era a de que por aquelas bandas estava havendo muitos assaltos. Pagamos, e prosseguimos.

A impressão naquele cenário era a de estar em algum lugar do passado, como que há trinta anos atrás. Tudo parecia mais antigo. A frota de carros e o terreno ao redor, plano e de vegetação amarelada, contribuíam fortemente para alimentar essa impressão. Em alguns momentos, inclusive, chegava a imaginar de que estivesse num cenário prototípico de Mad Max.

A policia nos parou algumas vezes. Tive de mostrar o passaporte num par delas. Mas tudo bem. Incômodo mesmo foi quando Fran não viu a tempo aquele buraco na pista, lançando o pneu traseiro esquerdo em sua direção, entortando a jante de tal modo que o ar vazou instantaneamente. Depois de vinte minutos trocando o pneu – minha função nesse ato foi sinalizar aos carros para que não passassem muito próximo de nós na estrada -, partimos a mil para Maracaibo.

Fran nos deixaria cada qual onde fosse de nosso interesse. Pelos endereços listados, eu seria o primeiro a saltar do carro. Ficaria no Hotel Kristoff. Estava empolgado, já pensando no chivo con coco ou no pabellón criollo que iria comer no almoço.

Mas o fato é que Maracaibo não estava a fim de receptividades afáveis, nem para estrangeiros, nem para nativos. Nenhum de nós sabia que para aquele dia, 28 de junho, estava programado um trancazo. Das 12 às 16 horas, ficou mancomunado entre os marabinos que ruas da cidade seriam fechadas com troncos, pedras, lixo, o que quer que fosse, dificultando o trânsito de veículos.

Como chegamos próximo ao meio-dia, acompanhamos a alvorada da manifestação. Meu destino, no entanto, já não era possível de ser alcançado, por ser numa zona central da cidade.

Fran parou o carro o mais próximo que conseguiu do hotel e me disse que se eu descesse e caminhasse cinco quadras, chegaria nele. Declinei da proposta por considerá-la demasiado arriscada.

Assim, seguimos para tentar deixar os outros em seus destinos, enquanto eu ficaria num hotel próximo ao aeroporto ou mesmo no aeroporto, pois já estava desistindo de passar o dia ali e zarpar via ônibus para Caracas.

Dona Rebeca ficaria no subúrbio da cidade, e os três colegas restantes, na rodoviária, pois todos tinham cidades outras como destino final. No caminho, paramos no posto de gasolina para abastecer o bravo Conquistador. Fran sacou uma nota de 100 bolívares, mesmo montante utilizado para pagar cada pedágio extraoficial da trocha. Curioso, mirei as cifras na bomba enquanto infundia gasolina. Um bolivar por um litro. Esse era o preço.

A Venezuela extrai bastante petróleo. Exporta-o. Não produz gasolina, mas a compra e a subsidia para a população. Um algoritmo que me pareceu complicado e intrigante, com muitas aparentes variáveis ocultas de permeio. E o resultado é esse: com trinta centavos de real , você pode encher um tanque de combustível. Mas precisa de oito reais para comprar um quilo de arroz. Abastecidos, seguimos.

Aos trancos e barrancos, depois de fazer uma parada estratégica para tomar uma cocada, doce feito com coco, açúcar, leite em pó e gelo batidos, conseguimos deixar os três colegas na rodoviária. Sobramos eu e Dona Rebeca. Deixá-la em casa com nosso exclusivo esforço foi tarefa impossível. Ainda arrastei uma ou outra pedra para liberar passagem por algumas ruas, mas com o avançar da manifestação, mais e mais vias eram bloqueadas, com alguns manifestantes posicionados próximos às barreiras, inviabilizando minha função de rompe-obstáculos.

O jeito foi ligar para Carlos, neto de Dona Rebeca, e pedir para que ele viesse ao encontro dela. Nós o esperaríamos na rodoviária, mas um arrastão no terminal nos fez mudar de ideia e seguimos para uma rua paralela.

Enfim, Carlos chegou. Mas de moto. E dona Rebeca trazia mantimentos para alimentar um pelotão por um mês. Coube a nós, então, segui-lo enquanto ele mesmo desfazia os bloqueios. Como estávamos perto de sua casa e ele conhecia as pessoas ali, não foi um grande problema. A última travanca antes de deixá-la foi a que trouxe mais riscos, pois estava dominada por adolescentes com rostos ocultados por blusas e com pedras em mãos. Provavelmente nem sabiam pelo que estavam manifestando e faziam algazarra por pura e simples rebeldia.

O velho Conquistador em pausa para troca de pneu

Transpusemos o bloqueio, deixamos Rebeca, nos despedimos e eu que seria o primeiro a partir acabei sendo o último.

Tentamos seguir em direção ao aeroporto. Mas não havia passagem pela rota principal que nos levaria até lá. Nesse trecho, o movimento assumiu um tom mais bélico, pois até aquele momento estava vendo a manifestação como genuína demonstração de desacordo do povo em relação ao governo.

Mas alguns dos manifestantes começaram a cobrar pela passagem nas barreiras. Uns poucos, inclusive, empunhavam coquetéis molotov em mãos em tom de ameaça. Fomos coagidos, e nesse momento senti verdadeiro medo.

Fran notou e propôs que fôssemos à casa de um amigo seu, que ficava próxima dali e esperássemos até o arrefecimento da manifestação. Assim fizemos. Tomamos uma cerveja Regional Light, que ele fez questão de me apresentar, comemos alguns mamones, que aqui no Brasil chamamos de pitombas, mas lá eles as comem um pouco mais verde, porem não menos saborosas e, dentro de uma hora e meia, já perto do entardecer, partimos novamente.

Passamos numa borracharia para remendar o pneu avariado e, por 20.000 bolívares a mais, seguimos em direção ao aeroporto.

À noite, a cidade seguiu em manifestação, mas como o aeroporto é isolado e longe do centro, não senti nem seu bafo. Naquele horário, não havia mais venda de passagens. Dormi por lá mesmo e na manhã seguinte consegui um voo para Caracas às dez horas. Assim, despedi-me de Zulia e fui tentar aproveitar – e de fato aproveitei – meus últimos instantes de férias na capital da agitada e combalida Venezuela.

(*) É médico sergipano,
formado pela UFBA

e faz residência em
Radiologia pela USP.