OPINIÃO

Lula, um caso de amor

Por *Delano Mendes
16 jul 2017, 18h40

É fácil perceber por que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desperta defesas acaloradas sempre que é criticado ou quando as acusações de corrupção chegam cada vez mais perto dele. Ou acabam confirmadas, como na semana passada, quando ele foi condenado a 9,5 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo juiz Sérgio Moro, responsável pelos julgamentos da Lava Jato em Curitiba.

DELANO MENDES: “Ele sabe que sua melhor saída para os deslizes éticos que cometeu ainda é apelar ao sentimento, à paixão, à manipulação, mesmo que o jogo de sedução seja para salvar a própria pele. Dará certo dessa vez?”

Lula tem uma história de vida que gera empatia em qualquer brasileiro. Foi pobre, não estudou, mas venceu na vida, depositou em si a esperança de mudança política num cenário em que só membros da elite chegavam lá.

Já eleito, teve a sorte de surfar na estabilidade econômica introduzida pelo antecessor e manteve, pelo menos em seu primeiro mandato, o compromisso de austeridade fiscal e viu o país nadar em dinheiro, graças ao boom das commodities no mercado externo.

Fazendo uma nova classe média surgir, com poder de compra e crédito fácil, seu poder de sedução foi irresistível. Como não se apaixonar por quem propicia casa, carro, roupa lavada, tudo parcelado a perder de vista e em juros subsidiados abaixo do mercado pela Caixa e pelo Banco do Brasil? Quem liga pra rombo no orçamento quando tem TV HD de 42 polegadas?

E quando se está apaixonado, pode-se perdoar pequenos deslizes do amante. Deslizes éticos, uma traição, uma escapulida, uma fraqueza, até um concubinato com o PMDB, com Maluf, com Sarney. Perdoa-se até um ménage a trois com Odebrecht, OAS e Camargo Correia no lupanar da Petrobras.

Lula foi perdoado em nome da paixão, que cega, que embaralha a consciência, e pela economia que andou bem e gerou uma sensação de riqueza, ainda que efêmera. Isso ofuscou até o Mensalão, que não foi suficiente para evitar a reeleição dele em 2006. Isso dá um nó na cabeça!

Como condenar quem aparentemente só fez bem? Como Dizia Freud, o pai da psicanálise: “A consciência não se aplica a nada que seja feito por amor ao objeto”, ao Lula, nesse caso.

A paixão pelo homem que matou a fome e permitiu o povão ter Fiat Uno ultrapassa a razão. E daí não adianta apelar para a realidade. Ela é suplantada pelas narrativas, sempre falsas, desculpas inventadas pelo conquistador pego com o batom na cueca para engabelar e subjugar o amante.

Moro condenou Cunha. Aécio e Temer estão nas garras do STF; Henrique Alves, líder do PMDB, está preso. Não! Isso não serve! O que a Lava Jato quer é prender Lula e tirá-lo da eleição de 2018, mesmo que a investigação tenha começado antes de Dilma ser reeleita.

O delírio da fuga da realidade por causa da paixão que cega vai além: “Lula foi condenado sem provas”, apressam-se a dizer os que o idolatram, mesmo que nem tenham lido uma linha sequer da sentença de Moro. Não interessa!

Para os amantes, o crime de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro deveria deixar rastro com escritura assinada e registrada em cartório em nome do ex-presidente!

Mas esse amor obsessivo é correspondido por Lula? Existem diversas formas de amar. A por interesse é uma delas. O homem que alimentou o sonho de milhões ainda apela ao mesmo discurso de quando iniciou na política há quase 40 anos.

Ele sabe que sua melhor saída para os deslizes éticos que cometeu ainda é apelar ao sentimento, à paixão, à manipulação, mesmo que o jogo de sedução seja para salvar a própria pele. Dará certo dessa vez?

Ainda haverá Amélias, a perfeita mulher de malandro, que são traídas, mas perdoam sempre? Como dizia o escritor Nelson Rodrigues, um especialista em amores e traições, “amar é dar razão a quem não tem”!

[*] É jornalista e bacharel em Direito.