OPINIÃO

“O Estado de Sergipe deveria ser bem pensado e debatido, de forma permanente"

Confira artigo do Senador Valadares sobre o tema “Pensar Sergipe”, em discussão pautada por JLPolítica

Por Antonio Carlos Valadares
09 maio 2017, 18h29

 

O PENSAR SERGIPE

O Estado de Sergipe deveria ser bem pensado e debatido, de forma permanente, por exemplo, em conferências ou seminários com a presença ampla de segmentos do Governo e do legislativo e de segmentos produtivos de nossa economia do meio urbano e rural, envolvendo trabalhadores e empresários.

O tema principal seria a análise crítica da conjuntura atual, a atualização de dados sobre o nosso potencial em termo de infraestrutura, num debate construtivo que possa apontar alternativas viáveis para o nosso desenvolvimento.

Infelizmente, há muitos anos que iniciativas que importam em uma nova metodologia para desenvolver o Estado não são levadas à frente, ou sequer idealizadas, dando a entender que estamos vivendo uma fase de pleno marasmo, de descrença e de indiferença quanto aos rumos de nosso futuro.

Constituímos o menor Estado da Federação, que, por seu tamanho e, em virtude de estradas que o cortam de ponta a ponta, facilitam a comunicação até às mais longínquas fronteiras. Todo aquele que se dispuser a circular por nosso território chegará aos municípios rapidamente, qualquer que seja o trajeto escolhido, podendo contar a duração do destino, na maioria dos casos, em uns poucos minutos.

No entanto, ao falarmos em comunicação entre os políticos este assunto não acha um caminho curto e válido que possa encontrá-los em um só lugar, discutindo em conjunto, oposição e governo os temas de nossa realidade, na busca de saídas da crise que tanto nos atormenta. Verdade seja dita: aqui em Sergipe, como em todo o Brasil, há um descrédito generalizado em relação aos políticos.

Sem acusar a ninguém desse ramo especificamente, há de se reconhecer, todavia, que uns são personalistas, só trabalham puxando a brasa para sua sardinha, enxotando quem pode ajudar, com medo da sombra. Outros agem com ódio, mas, dependendo da conveniência, ou das circunstâncias, podem transformar de repente o ódio em amor.

Outros são useiros e vezeiros em atacar, com ciúmes de quem faz alguma coisa; enquanto outros se movimentam na miudeza, cuidando de sua pele, não entram em bola dividida, preferindo estar em cima do muro, só esperando a próxima eleição pra ficar seja lá com quem for, mas sem antes deixar de fazer mil contas em sua calculadora pra saber onde lhes cabe o mandato com mais conforto e segurança.

Claro que não vou generalizar. Em toda regra há exceção. Porém, se formos interpretar ao pé da letra o que disse Millôr Fernandes, poderá não haver exceção para ninguém: “Toda regra tem exceção. E se toda regra tem exceção, então, esta regra também tem exceção e deve haver perdida por aí uma regra absolutamente sem exceção”.

Sergipe hoje não é um Estado bem pensado, a não ser nos meios acadêmicos ou intelectuais, em alguns artigos publicados na mídia, onde sentimos alguma preocupação.

Se alguém do meio político inicia um debate e apresenta soluções para a execução efetiva de obras estruturantes de convivência com as secas ou de combate à pobreza, seja no Sertão ou no Baixo São Francisco, logo começam a desqualificá-lo, na tentativa de tomar a dianteira, ou procuram substituir por outro assunto para que esqueçam o primeiro.

Quero dizer que, em outros tempos não acontecia assim desse jeito. É só lembrarmos os debates envolventes que se travaram para a fundação da nossa universidade, a exploração de nossos minérios, a implantação da adutora do São Francisco, e a construção do Porto de Sergipe, sonhos que, com o tempo, tornaram-se realidade e serviram sem dúvida alguma para colocar o nosso Estado entre os primeiros do Nordeste em matéria de infraestrutura para viver melhor e para atrair investimentos.

Quanto à situação predominante na fase atual em que vive o Estado, não há iniciativas que possam gerar otimismo e confiança. O governo, que poderia ser o indutor de debates em torno dos grandes projetos que possam impulsionar o desenvolvimento local ou regional, esmera-se em embates infrutíferos contra adversários, ou em aumentar o seu grupo político, atraindo cristãos novos para suas hostes, com uso escancarado da máquina pública. Inchar o seu bloco político passou a ser prioridade, em detrimento do pensar no futuro.

Não se encontra no governo um plano de desenvolvimento econômico exequível para nos tirar da crise, e apontar alternativas para o futuro de nossa gente, a não ser, as mensagens laudatórias e enfadonhas que são lidas, anualmente, no recinto da Assembleia Legislativa.

E nas visitas a ministros de Estado, como notícias esporádicas, de intervenções do governo do Estado em assuntos que primam por sua falta de objetividade, somente para aparição na mídia, servindo apenas como justificativa pra lá na frente ter a desculpa que, se nada chegar a culpa recai sobre o governo da União. É preciso que se saiba: sem projeto coletivo e sem saber reivindicar, nada acontece.

Portanto, dessa forma não há como avançar e encontrar alternativas. Existe um modelo político em vigor que levou o Estado ao desequilíbrio financeiro, e a um retrocesso econômico. Um modelo que se assenta no conformismo, na prática política atrasada, na falta de gestão administrativa, e no apadrinhamento.

No entanto, devo assinalar que, por um imperativo de justiça, a luta pela sobrevivência existe, sim, entre trabalhadores com direitos ameaçados, vendo sumirem a cada dia os seus postos de trabalho; entre empresários e profissionais de todos os segmentos da economia, aos quais lhes são impostas obrigações tributárias escorchantes; entre os que vivem no meio rural enfrentando as secas e a queda da produção, entre servidores públicos mal pagos e que recebem seus salários em atraso; entre os que, são vítimas da violência e da insegurança; e os que, entre a vida e morte, sofrem à procura de vagas nos hospitais.

O governo existe não apenas para sobreviver ou para manter-se no poder. Existe para cuidar da causa que interessa a todos, sem escolher partidos, tendências políticas ou classes sociais. O governo existe para promover os meios para uma sociedade avançar e progredir.