MENSAGENS SECRETAS

Dilma alertou casal Santana sobre Lava Jato, diz delação

Troca de recados acontecia por duas contas secretas de e-mail, criadas, segundo os depoimentos ao Ministério Público, no próprio Palácio da Alvorada

Por Folha de São Paulo
12 maio 2017, 11h51

O marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, afirmaram ao Ministério Público que recebiam informações de Dilma Rousseff sobre avanços da Lava Jato.

Segundo o casal, José Eduardo Cardozo, então ministro da Justiça, era quem passava as informações para a ex-presidente.

Em delação premiada, Mônica disse que foi avisada por uma mensagem da petista de que havia um mandado de prisão assinado contra ela e o marido.

A troca de recados acontecia por duas contas secretas de e-mail, criadas, segundo os depoimentos ao Ministério Público, no próprio Palácio da Alvorada, na presença de Dilma.

As mensagens eram armazenadas como “rascunho”, ficando em uma caixa separada, fazendo com que os recados não circulassem pela rede.

“A metodologia adotada e combinada foi a seguinte: sempre que a presidente fosse municiada pelo então ministro da Justiça [Cardozo] sobre as informações da operação, Giles [Azevedo, assessor de confiança de Dilma] encaminharia uma mensagem no celular de Mônica com assuntos completamente irrelevantes, como por exemplo, “veja aquele filme”, “gostei do vinho indicado”, ou qualquer tipo de mensagem de conteúdo fictício, era o sinal para que a Mônica checasse o e-mail criado”, diz documento com o resumo da delação.

ENCONTRO

Segundo o casal, Dilma preferia falar sobre assuntos sigilosos caminhando pelo jardim, ou na varanda interna do Palácio do Alvorada, para preservar o conteúdo.

Em uma das vezes, em novembro de 2014, logo após a eleição, Mônica Moura foi chamada pela ex-presidente com urgência e tomou um voo às pressas de Nova York para Brasília, onde foi recebida pelo assessor Giles Azevedo.

Nesse encontro, a petista demonstrou preocupação com a conta do marqueteiro na Suíça, que a colocaria em perigo, pois “sabia que a Odebrecht tinha realizado o pagamento de suas campanhas através de depósitos de propinas na conta”.

Após essa conversa, segundo Mônica, Dilma lhe teria dito: “precisamos manter contato frequente de uma forma segura para que eu lhe avise sobre o andamento da operação, estou sendo informada de tudo frequentemente pelo José Eduardo Cardoso (então Ministro da Justiça).”

No mesmo momento, a mulher de Santana criou no computador da então presidente, na Biblioteca do Palácio do Alvorada, um e-mail Gmail com nomes e dados fictícios, cuja senha era de conhecimento de três pessoas: Dilma, Mônica e Giles.

Combinaram, então, segundo a delação, que qualquer coisa sobre a operação, a respeito do casal, deveria ser por ali comunicado.

Perto do dia primeiro de maio de 2015, o casal foi gravar um pronunciamento com Dilma e ela pediu para ficar a sós com Mônica. O tema da conversa foi de novo a operação.

“Dilma na ocasião demonstrou preocupação pois as coisas estavam avançando rapidamente e ela não tinha controle sobre a operação. Nesta data, diante das preocupações, e por sugestão da própria presidente, criaram um segundo e-mail, da mesma forma e local que o primeiro.”

De acordo com os delatores, os textos eram metafóricos, mas tratavam da proximidade da Lava Jato.

Mônica foi avisada, por esse método, que ela também estaria sendo investigada. Dessa vez, pelo impacto da informação, a mulher de Santana chegou a copiar o que estava no rascunho do e-mail para o computador, em um arquivo do programa Word, para poder ler depois.

“Logo em seguida, em uma sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016, foi avisada pelo meio secreto (e-mail), que já existia mandados de prisão assinados contra eles”.

O casal foi preso no dia 23 de fevereiro, por decisão do juiz Sérgio Moro na 23ª fase da Operação Lava Jato.

PROVAS

Como provas para corroborar o que foi dito, a delatora entregou as duas contas dos e-mails utilizados para troca de informações sigilosas, a passagem aérea de Mônica de Nova York para Brasília no dia 21 de novembro, o notebook em que foi criado o arquivo no Word, apontamentos de reuniões com Dilma, agenda pessoal com anotações do login e senha dos e-mails criados e comprovação de acesso no wi-fi do Palácio do Alvorada.

OUTRO LADO

José Eduardo Cardozo nega irregularidade e diz que agiu como em vários outros casos, sempre de forma legal.

“Sempre fui avisado das operações no momento em que o ministro da Justiça deve ser avisado, ou seja, no desencadear da operação”, disse o ex-ministro, ressalvando que só era acionado com antecedência em casos que exigiam alguma ação da pasta.

“Fiz isso em todos os casos, em cima de dados legais. No caso da prisão de João Santana e Mônica Moura, fui avisado no próprio dia e me reuni com a presidente Dilma Rousseff, cumprindo um modus operandi normal.”