ACUADO

Ex-presidente do TCE decidiu delatar

Antes, porém, tentou votar processos engavetados de propinas em grandes obras

Por O Globo
30 mar 2017, 10h10

O conselheiro licenciado Jonas Lopes de Carvalho era um homem acuado quando deixou a sede da Polícia Federal, após depor sob condução coercitiva, no dia 13 de dezembro do ano passado. Ele sabia que tinha pouco a fazer diante do conteúdo das delações que o envolviam com pagamento de propina de empreiteiras. Porém, o que mais o afetou foi ver o filho, Jonas Lopes Neto, também levado à força para a PF.

Antes de chegar em casa, Jonas já havia decidido: ele próprio viraria um delator.

Quando surgiram as primeiras denúncias contra o Tribunal de Contas do Estado (TCE), reveladas pelo GLOBO em junho do ano passado, Jonas adotou a estratégia paliativa de desengavetar os processos que encontraram irregularidades nas grandes obras do governo Sérgio Cabral. Foi assim, por exemplo, com os processos da reforma do complexo do Maracanã, finalmente votados pelo plenário do TCE após anos de espera, com o bloqueio de quase R$ 200 milhões em repasses para as empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez.

Mas a estratégia de limpeza das gavetas, continuada pelo sucessor na presidência, Aloysio Neves, não colou. As investigações avançaram nas frentes da Lava-Jato no Rio, Curitiba e Brasília, com novas delações apontando para o TCE, e Jonas viu o cerco se fechar. Foi então que, orientado pelos advogados Gustavo Teixeira e Rafael Kullmann, ele submergiu e se preparou para colaborar. Pediu férias e, depois, licença especial de três meses. Desde então, nunca mais pisou no tribunal.

As investigações envolvendo o TCE estão sendo conduzidas pelo subprocurador-geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada, com a colaboração da força-tarefa da Operação Calicute. Bonifácio concordou em ouvir Jonas em São Paulo, longe das pressões que o delator poderia sofrer se tivesse permanecido no Rio. O alcance do que contou ainda é desconhecido. Por enquanto, os camburões da PF pararam na porta de cinco dos conselheiros, do deputado Jorge Picciani e da Alerj.

Foto: Urbano Erbiste