ENTREVISTA

‘Se Palocci cometeu algum erro, só ele sabe’, diz Lula ao desdenhar de delação

Em entrevista a uma rádio do Nordeste, petista voltou a afirmar que colaboradores são forçados a incriminá-lo

Por O Globo
25 abr 2017, 12h22

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na manhã desta terça-feira, em mais uma entrevista a uma rádio do Nordeste, que não se preocupa com uma possível delação do ex-ministro Antonio Palocci. Preso desde setembro, Palocci vem dando sinais de que pretende negociar um acordo com a Justiça e chegou a dizer, na semana passada, que teria informações que dariam “mais um ano de trabalho ao juiz Sérgio Moro”.

Segundo reportagem publicada na edição desta terça-feira do jornal “Valor Econômico”, Palocci teria dito a uma pessoa próxima que acompanha as tratativas de delação que ele e Lula receberam um terço da propina paga durante a criação da Sete Brasil, empresa destinada à exploração do pré-sal, em 2010. Ainda de acordo com o jornal, o ex-ministro fez a afirmação na semana passada, ao consultar um advogado criminalista sobre a possibilidade de delação premiada.

— O Palocci é fundador do PT, foi sindicalista, ministro, deputado, é uma das figuras mais inteligentes que esse país tem — afirmou Lula, em entrevista à rádio 94 FM, do Rio Grande do Norte. — Se cometeu algum erro, só ele sabe. Se vai fazer delação ou não é decisão dele. A mim também não preocupa. O que me preocupa é estar preso há seis meses sem nenhuma prova, é o arbítrio.

Lula voltou a dizer que se preocupa com a forma como as delações premiadas são feitas na operação Lava-Jato. Na opinião dele, os investigados estão sendo pressionados a incriminá-lo. A defesa do ex-presidente já fez duas reclamações à Procuradoria-Geral da República pedindo que sejam investigadas notícias de jornais que dizem que o Ministério Público Federal (MPF) só aceitaria a colaboração do ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, se ele indicasse algum crime cometido por Lula.

Na semana passada, o executivo afirmou, em depoimento a Moro, que o tríplex do Guarujá reformado pela OAS pertence a Lula.

— Esse Leo Pinheiro, mesmo. Agora parece que aceitaram a delação dele porque ele prometeu que vai falar o meu nome. Até entendo, o cara está condenado a 26 anos, 27 anos… Aí vê na TV delator que roubou milhões, devolve um pouco e vai morar em condomínio de luxo. O Leo Pinheiro deve ter visto aquilo e pensou: ‘Eu também vou delatar’. O cara delata até a mãe — disse Lula, que continuou.

— Segundo os jornais, (o investigado) é pressionado para dizer o nome do Lula — disse o ex-presidente, que continuou: — Delação sob pressão, não deveria fazer. Você condena alguém a 31 anos de cadeia… Imagina dizer pro Fernandinho Beira-Mar: ‘você pode fazer delação’. Ele ia falar que quem matou, fez os crimes foi até a mãe dele.

CAIXA DOIS PARA CAMPANHA

Durante a entrevista, o petista também foi questionado sobre a afirmação dada nesta segunda-feira pelos marqueteiros João Santana e Mônica Moura de que a ex-presidente Dilma Rousseff sabia que havia caixa dois na sua campanha presidencial de 2014. Lula saiu em defesa da ex-presidente.

— Duvido que a Dilma tenha conversado sobre caixa dois com o João ou quem quer que seja. Finanças de campanha não se discute com presidente. Ele tem que ter noção que isso não se discute. Tem que fazer campanha para ganhar eleições. Finanças é com a direção do partido, comitê de financiamento.

O ex-presidente afirmou acreditar que a Lava-Jato faz parte de uma estratégia de seus adversários políticos para impedi-lo de concorrer às eleições presidenciais em 2018:

— Sempre apanhei. Desde que deixei governo. Aliás, nunca me trataram bem nem quando eu era governo. Nem quando eles ganharam muito dinheiro. Você sabe que eu apanho. O que eu acho que preocupa meus adversários, que sonham em me destruir para eu não concorrer em 2018, é que quando fazem uma pesquisa, eu apareço em primeiro lugar.