MARINA SILVA

"Proposta de reforma política é aberração"

Em evento nos EUA, ela afirma que Lava-Jato mostra que houve 'abuso de poder econômico’ em 2014

Por O Globo
07 abr 2017, 13h52

Marina Silva, ex-candidata presidencial e fundadora da Rede, afirmou nesta sexta-feira, nos Estados Unidos, que a proposta da reforma política apresentada no Congresso é exatamente o contrário do que quer o cidadão. Ela abriu a Brazil Conference at Harvard & MIT, que ocorre até sábado nas universidades de Harvard e Massachusetts Intitute Of Tecnology (MIT), em Massachusetts.

— O cidadão quer participar e a reforma (proposta) traz como resposta mais exclusão, menos participação e mais poder àqueles (líderes políticos) que acham que podem substituir seus representados — disse Marina.

Ela criticou a proposta do financiamento público de campanha, o que chamou de “super-fundo partidário” e o voto em lista fechada. Marina lembrou que a crise política se abate sobre os partidos e a sociedade quer mais participação. Em sua opinião, os caciques políticos sairão fortalecidos se a reforma política avançar como foi apresentada.

— Da forma como está posta é para institucionalizar a aberração que está criada com a história da classe política — disse.

Em sua opinião, apesar de defender recursos públicos para financiar as eleições, ela é contra a atual fórmula, pois seria baseada no abuso de poder econômico que existe no país e que, segundo ela, está ficando claro com a Operação Lava-Jato.

— A política deixou de solucionar problemas e começou a criar problemas — disse ela, que ainda criticou o valor da proposta, de R$ 2 bilhões.

A ex-senadora afirmou ainda que a Justiça Eleitoral precisa ser “exemplar” para evitar que os problemas e abusos voltem a ocorrer. Ela ainda criticou fortemente a proposta de anisitia ao crime de caixa 2 e ao projeto de lei que pune o abuso de autoridade, que segundo ela seria uma forma de tentar barrar a Lava-Jato.

Marina afirmou que apoia a Lava-Jato sem o “mas” comum dos políticos e que a operação está realizando, de fato, uma reforma política no país. Voltou a dizer que ainda está “em seu processo de discernimento” se será candidata a presidente em 2018, mas que não tem como projeto ser presidente, e sim fazer o Brasil melhor, embora se diga responsável com o país e com os mais de 20 milhões que votaram “na proposta que representou” em 2014. Criticou que a Rede terá apenas 12 segundos de TV em 2018 e muito menos dinheiro que os partidos tradicionais. E afirmou ainda que foi vítima de muitos ataques e de meias-verdades na última campanha presidencial:

— (Defendo que nas eleições de) 2018, para os que vão concorrer, não haja mais essa violência (que foram as acusações que sofreu, muitas delas, em sua opinião, baseadas em meias-verdades) e também que não tenhamos nenhum tipo de fraude eleitoral, pois o abuso do poder econômico é uma fraude eleitoral e uma fraude à democracia — disse.

A ex-candidata à presidência e ex-ministra do Meio Ambiente voltou a criticar a forma como os governos agem no Brasil. Ela afirmou que “fulanizar ou partidarizar” conquistas como o Plano Real ou as políticas sociais do PT é um problema para o país. Questionada sobre o peso do Estado na transformação que o Brasil precisa passar, indicou que o momento está mais nas mãos da sociedade brasileira

— O Estado tem um papel importante, mas talvez a sociedade talvez tenha um papel mais importante ainda — disse ela, que citou a si mesma como exemplo — Quando estava no Ministério do Meio Ambiente reduzimos o desmatamento em 80% por 10 anos, que agora voltou a subir, ao transformar em políticas públicas as boas experiências que já estavam dando certo na iniciativa privada e nas organizações sociais.

Mariana afirmou que o mundo vive um conjunção de crises: política, econômica, social, ambiental e de valores, que se transformam em uma crise civilizatória, a que chegou a comparar com o fim das civilizações gregas e romana. Em sua opinião, se por um lado a atual crise é mais dramática por ser global, agora a sociedade tem a consciência de que está vivendo a crise.

— Crises civilizatórias não são fáceis de serem enfrentadas — disse.

Questionada especificamente sobre a crise no Brasil, entre coxinhas e mortadelas, brincou:

— Faltou incluir os vegetarianos — disse, arrancando risos da plateia.

Marina afirmou que o país precisa retomar a capacidade de diálogo; que o debate baseado sobre os rótulos prejudicam o país; e que pior do que a mentira é a campanha baseada em meias-verdades:

— O Brasil precisa ser passado a limpo.