E AGORA?

Tucanos querem renúncia, mas o pós-Temer preocupa partido

Jereissati assume a cadeira do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), com a sigla profundamente dividida em relação ao comportamento que deve ter diante da crise

Por Folha de São Paulo
19 maio 2017, 10h34

A ascensão do senador Tasso Jereissati (CE) à presidência do PSDB se deu em meio à maior crise já vivida pelo partido e deve significar uma guinada no comportamento da sigla em relação ao claudicante governo do presidente Michel Temer, do PMDB.

Jereissati assume a cadeira do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), com a sigla profundamente dividida em relação ao comportamento que deve ter diante da crise. Ele próprio, antes de a bomba lançada pela JBS no Palácio do Planalto explodir, criticava a adesão irrefreada de Aécio aos projetos de Temer e dizia que o PSDB poderia acabar cometendo um “suicídio político” ao abraçar como se fosse sua a gestão de outro.

O temor ganhou ares de profecia nesta quinta (18), quando de uma vez só caíram as defesas tanto do presidente Temer como de Aécio, que afiançava aliança do PSDB com o PMDB e se portava como uma espécie de primeiro-ministro informal.

Assim como parte expressiva do partido, Tasso hoje entende que a renúncia seria o caminho menos traumático para o país. Por que os tucanos não defendem o gesto abertamente, então?

Sabem que, para tirar Temer, é preciso definir o que virá depois. E, por enquanto, o caminho não está claro.

O Congresso, ainda atônito com o tsunami que desaguou no governo, sabe que chegará a sua vez de ser exposto na delação da JBS e que as gravações que afastaram Aécio Neves do Senado e levaram sua irmã Andrea para a cadeiasão apenas um aperitivo do que virá.

Para bancar uma eleição indireta, opção favorita dos tucanos, os parlamentares precisam saber, primeiro, quem será capaz de parar de pé à medida que as informações prestadas pelos delatores Joesley e Wesley Batista forem sendo divulgadas.

Hoje, muitos tucanos defendem que a sigla lance o próprio Tasso como opção à Temer numa eleição conduzida pelo Congresso, caso o presidente renuncie ou seja afastado pela Justiça Eleitoral.

As pesadas acusações que fulminaram Aécio Neves, o tucano que mais chegou próximo da Presidência nos últimos 15 anos, deixaram gosto amargo e despertaram um instinto de sobrevivência nos quadros da legenda.

O pragmatismo deverá servir de base para as decisões que serão tomadas de agora em diante. E, embora Aécio trate seu afastamento como temporário, a sigla já decidiu que, sem crucificá-lo publicamente, vai se afastar dele, para tentar sobreviver.

O desenrolar desta sexta-feira (19) será definitivo.

Os tucanos queriam ouvir o grampo de Temer para fazer um juízo de valor. Ouviram. Agora, ou desembarcam em bloco do governo federal entregando ministérios e abrindo o cadafalso do peemedebista, ou pagarão o preço de tentar sustentar seu governo. Tasso, há tempos, mostra mais simpatia à primeira opção.