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OPINIÃO
Por ISTOÉ | 11 de Jan de 2018, 07h56
O deboche de Dirceu
José Dirceu fez vídeo defendendo reação contra possível condenação de Lula
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José tenta insuflar por Lula

Apesar de ter sido condenado a 30 anos de prisão em segunda instância e de estar de tornozeleira eletrônica, depois de passar quase dois anos preso, o ex-ministro petista ousa pregar a desobediência civil às leis que podem tornar Lula inelegível

Ele não se emenda. Mesmo condenado no Mensalão e novamente na Lava Jato em segunda instância sob a acusação de receber propinas milionárias até mesmo quando esteve preso, o ex-ministro José Dirceu não se cansa de debochar dos brasileiros. Dessa vez, em mensagem de Ano Novo direcionada a militantes do PT, Dirceu afirmou que o País não pode se curvar a uma “ditadura da toga”. O alvo de suas críticas foi o Poder Judiciário que condenou o ex-presidente Lula por corrupção, o que pode levá-lo à cadeia e torná-lo inelegível. Amigos de longa data e fundadores do PT, Lula e Dirceu hoje têm mais um ponto em comum: participaram ativamente, com papel de chefia de quadrilha, do esquema que desviou bilhões de reais dos cofres da Petrobras.

Para o presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Roberto Carvalho Veloso, a postura firme do Judiciário ao processar políticos e poderosos, que “dilapidam o patrimônio público”, é que faz gerar críticas como as de Dirceu. “A opinião do ex-ministro reflete a posição daqueles que estavam acostumados com a impunidade, que se sentiam acima da lei, imunes à jurisdição criminal. A realidade hoje é outra. A Justiça está processando e condenando poderosos. Por isso, surgem essas acusações de que o Judiciário está usurpando a competência do Executivo e do Legislativo. Isso não é verdade”, disse Veloso à ISTOÉ.

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Dirceu está em situação ainda pior do que a de Lula. Solto graças a habeas corpus concedido em maio de 2017 pelo Supremo Tribunal Federal e monitorado por tornozeleira eletrônica, ele já foi condenado em segunda instância, teve os embargos de declaração negados pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e está na iminência de ser preso novamente. No Mensalão, foram oito meses atrás das grades. Na Lava Jato, foram mais de um ano e nove meses na penitenciária em Curitiba. Nesse período, Dirceu nunca cogitou delatar, ao contrário de outros companheiros de partido, que preferiram confessar os crimes praticados durante os governos petistas, como o ex-senador Delcídio Amaral e o ex-ministro Antonio Palocci. “O Zé morre na cadeia, mas não faz delação”, afirmou certa vez o advogado do ex-ministro petista, Roberto Podval.

Na prática, não há condenação que impeça Dirceu de continuar dando as cartas no PT, participando ativamente da vida política do partido e conduzindo a militância em suas estratégias eleitorais, como a atual de hostilizar a Justiça com o objetivo de tripudiar sobre eventual condenação de Lula na segunda instância. Ele tem articulado a candidatura de Lula, que ainda depende do julgamento no TRF4 marcado para 24 de janeiro, e para isso se utiliza de cartas, áudios e vídeos na internet. Numa das gravações, que veio a público no fim de 2017, o recado aos militantes foi claro: “A luta começa no dia 24 em Porto Alegre, onde vamos manifestar nossa revolta contra essa tentativa de cassar Lula, de impedir que ele seja candidato”.

Na mesma mensagem de Ano Novo divulgada no site “Nocaute” do escritor Fernando Morais, Dirceu convocou a militância a lutar para garantir a candidatura de Lula e comparou a situação do ex-presidente com a ditadura militar, que governava “por atos institucionais”. Falou em “golpe” aplicado na ex-presidente Dilma Rousseff, por meio do processo de impeachment, e criticou as articulações para implantar no Brasil um regime de semipresidencialismo. Novamente, as críticas foram direcionadas ao Poder Judiciário. “Querem usurpar o poder do Legislativo e do próprio Executivo, refazer a Constituição, violando direitos, garantias fundamentais. Tudo em nome de impedir Lula de ser candidato”, afirmou. Ele não citou nomes, mas desafiou: “juízes não foram eleitos”. O ex-ministro bufão defende que os petistas se unam para “não permitir a ditadura da toga”. Mesmo que o ex-presidente seja declarado inelegível, Dirceu acha que os petistas devem “combater para garantir a candidatura de Lula”.

Não dispõe de envergadura moral para tanto. Na Lava Jato, já foram duas sentenças proferidas contra Dirceu pelo juiz Sergio Moro. A primeira foi ampliada em dez anos pelo TRF4, passando de 20 para 30 anos de prisão. Somando com a outra sentença, as penas chegam a 41 anos de cadeia. Com 71 anos de idade, Dirceu sabe que jamais voltará para a vida pública. Só lhe resta atuar sorrateiramente nos bastidores do partido e usar a internet para suas insanidades. Ele até pensou em ir a Porto Alegre prestar solidariedade a Lula, mas está impedido pela Justiça de deixar sua casa em Brasília, onde cumpre prisão domiciliar. Lá permanecerá gozando os últimos momentos de liberdade antes de retomar à penitenciária, que é seu lugar. Preso, pelo menos o País ficará livre das bobagens que fala.

Transcrito de ISTOÉ