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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Acidentes de trânsito deixam um rastro de sangue e morte

Que política de matar é esta? Será que vale mesmo concluir que “o maior vilão do trânsito, sem dúvida, é o próprio condutor imprudente, que insiste em descumprir as normas”? Sem política de Estado rígida, acidentes de trânsito geram pânico, mutilação e morte

Há alguns meses, a jornalista Andréa Oliveira sofreu um acidente de trânsito. Ela estava numa moto, parada no sinal, quando o carro que estava atrás da motocicleta, uma Hillux, simplesmente a arrastou por alguns metros, junto ao mototaxista que a conduzia. Depois de sair do hospital, foram dois meses em casa até, enfim, poder voltar à rotina, que ainda inclui, nove meses depois, alguns cuidados.

“Foram dias muito difíceis. Sentia muita dor e fiquei com o psicológico abalado também, por causa da gravidade do acidente. Mas graças a Deus, vivi para contar essa história”, lembra Andréa. Em menor ou maior proporção, o caso da jornalista é apenas mais um no ranking dos acidentes de trânsito no Brasil e em Sergipe.

De acordo com os dados estatísticos de acidentes motociclisticos do Hospital de Urgência de Sergipe - Huse -, de janeiro a dezembro de 2015, foram registradas 7.512 vítimas de acidente com moto. No mesmo período de 2016, foram 6.968 vítimas. Já entre janeiro e agosto deste ano, foram registradas 3.965 vítimas de acidente com moto.

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Deputado Luciano Pimentel chamou a atenção para a necessidade de ações mais efetivas nessa área

DEBATE POLÍTICO

Alguns políticos já se atentaram para isso, como o deputado estadual Luciano Pimentel, PSB. Aproveitando a realização da Semana Nacional de Trânsito, encerrada no último dia 25 de setembro, ele levou o debate para a Assembleia Legislativa em um de seus pronunciamentos.

“Os acidentes de trânsito têm uma repercussão muito grande na vida das pessoas, das famílias, e na saúde pública. Fizemos um levantamento para verificar a situação do país e em particular do Estado no que se refere a trânsito, e saímos preocupados”, disse o parlamentar.

"Em 2015, foram 37.306. Isso é muito mais do que muitas guerras sangrentas pelo mundo afora”,
Luciano Pimentel 

“Acompanhamos pela imprensa a campanha que está sendo feita pelo Detran, pelo SMTT, e que mostra a grande preocupação que se tem hoje em relação aos acidentes de trânsito. Creio, no entanto, que é necessário fazer muito mais”, disse ele, à ocasião.

Luciano Pimentel mostrou que essa “crença” na necessidade “de se fazer muito mais” está fundamentada nos números que fazem do trânsito uma verdadeira guerra civil, tanto nos acidentes, nas mortes e mutilações, quanto nos furtos de veículos.

“Um dos maiores custos da saúde pública no Brasil vem dos acidentes com veículos e motos. E tem crescido assustadoramente, apesar de ter havido uma pequena redução a partir da lei seca, com as pessoas começando a ter um processo educacional, adotando maior cuidado na direção. Mas os dados são bastante tristes: no ano de 2011, 43.236 pessoas foram mortas em acidentes de trânsito. Em 2015, foram 37.306. Isso é muito mais do que muitas guerras sangrentas pelo mundo afora”, revela Luciano.

ESTATÍSTICAS GRAVES

Segundo levantamento do deputado, a cidade de Itabaiana é a detentora do maior número de automóveis no interior de Sergipe, com 50,6 mil. Em seguida, vem Nossa Senhora do Socorro, com 42,9 mil; Lagarto tem 42,4 mil e São Cristóvão, 22,2 mil. O parlamentar do PSB deu dados do número de acidentes no Estado. Segundo ele, isso se materializa nas 1.512 ocorrências de 2014, nas 1.712 de 2015, nas 1.352 de 2016 e nos 882 registrados até o mês de 2017 deste ano.

“O número de acidentes com morte tem superado todas as marcas”, diz Luciano. “Em 2013, 669 pessoas faleceram em Sergipe. Em 2015, houve uma redução, mas foram 546. É muita gente que tem perdido as suas vidas em acidentes de trânsito”, informou.

"Basta uma visita ao Huse e vamos constatar que a questão do trânsito é gravíssima ”,
Maria Medonça

A deputada Maria Mendonça e o deputado Georgeo Passos fizeram apartes durante o pronunciamento de Pimentel e acrescentaram dados que contribuíram com o debate. “Quero me solidarizar com o posicionamento. Este é um tema que tem ceifado vidas. Basta uma visita ao Huse e vamos constatar que a questão do trânsito é gravíssima. E que requer do Governo do Estado políticas públicas que possam amenizar esta situação”, disse Maria. Georgeo deu um dado que ele mesmo considerou “estarrecedor”. “Em 2016, o Brasil gastou R$ 56 bilhões com acidente. Esses recursos dariam para construir 1.800 hospitais e 28 mil escolas”, afirmou.

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Atividade de conscientização desenvolvida pela SMTT de Aracaju durante Semana do Trânsito 2017

SEMANA DO TRÂNSITO

Luciano reconheceu a importância da semana do trânsito. Ele acha que há evolução, como a da obrigatoriedade do cinto de segurança por uma lei específica. Mas ponderou. “Que não fique somente na campanha. Além das políticas públicas de educação, de segurança e de fiscalização, é preciso também um trabalho de melhoria das estradas, porque é comprovado que quanto mais conservada e sinalizada uma via, uma rodovia, menor o número de acidentes. E, infelizmente, no nosso Estado o número é enorme de rodovias sem condições de trafegabilidade”, ressaltou.

De acordo com a Assessoria de Comunicação da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito – SMTT – de Aracaju, as ações da Semana Nacional de Trânsito têm o objetivo justamente de tentar melhorar esses números. Para isso, segundo a SMTT, foram realizadas diversas ações de caráter educativo; palestras em escolas e empresas, comandos educativos na rua, desafio intermodal e apresentações teatrais.

"Até 31 de agosto deste ano, foram registrados 2.817 acidentes em Aracaju",
SMTT

A Assessoria informou ao JLPolítica que, até 31 de agosto deste ano, foram registrados 2.817 acidentes em Aracaju. Há apenas dois anos, ou seja, em 2015, o número neste mesmo período era de 4.014 acidentes.

“Apesar de ter registrado uma queda no número de acidentes no período de 1º de janeiro a 31 de agosto, em comparação ao mesmo período do ano passado, o objetivo mesmo é reduzi-los cada vez mais e preservar vidas”, diz a SMTT. Dos 2.817 acidentes registrados neste ano, 966 envolveram motos.

REGULAMENTADAS, E AGORA?

Aliás, a quantidade de acidentes envolvendo esses veículos é diretamente proporcional ao número deles. Inclusive, um dos motivos que levaram à regulamentação dos ciclomotores conhecidos como Cinquentinhas foi exatamente esse. A ideia era que, com um condutor habilitado e, portanto, mais consciente, o índice de acidentes reduziria.

E segundo a SMTT, em Aracaju, reduziu. “Em 2015, foram 1.306 acidentes envolvendo motocicletas de janeiro a agosto. Neste ano, foram 966. Sem dúvida, as novas regras contribuíram para isso, mas para se ter uma dimensão mais exata, é preciso uma análise mais detalhada”, informa a Ascom da SMTT. De fato, é preciso sim uma avaliação mais cautelosa.

“Em 2015, foram 1.306 acidentes envolvendo motocicletas de janeiro a agosto. Neste ano, foram 966",
SMTT

Principalmente porque, com o emplacamento obrigatório das Cinquentinhas, a partir de 2015, uma boa quantia de recursos foi injetada nos cofres públicos dos órgãos ligados ao trânsito.

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"Dos 2.817 acidentes registrados neste ano, 966 envolveram motos", segundo a SMTT

FISCALIZAÇÃO

Fazendo uma conta simples, chega-se ao montante de R$ 2.093,520 só aqui no Estado. Mas será que os veículos são fiscalizados? Ou, ainda, será que esse montante tem feito a diferença no modo de prevenir/tratar acidentes?

Segundo a própria SMTT, “a arrecadação com autuações é aplicada no trabalho diário da SMTT, o que, claro, envolve os trabalhos de prevenção de acidentes e educação para o trânsito”.

"A receita arrecadada com a cobrança das multas de trânsito será aplicada, exclusivamente, em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito”,
Código Brasileiro de Trânsito 

Já no campo do Departamento Estadual de Trânsito – Detran –, a receita arrecadada com a cobrança de multas segue o que estabelece o Artigo 320 do Código de Trânsito Brasileiro – CTB –, que diz: “a receita arrecadada com a cobrança das multas de trânsito será aplicada, exclusivamente, em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito”.

“O Detran destina a arrecadação de multas para despesas de fiscalização e educação para o trânsito. Focamos em diversos temas e ações educativas, entre elas, a obrigatoriedade do uso de capacete e ciclomotores”, garante Ricardo. 

No entanto, fiscalização ainda é artigo de luxo nas cidades do interior, como reconhece Ricardo. “A fiscalização fica por conta dos órgãos fiscalizadores: CPTran, BRPv e SMTTs”. Mas ela também é feita nas cidades do Interior? “Depende dos órgãos fiscalizadores”.

RESPONSABILIDADE DOS CONDUTORES

Para o major Fábio Luiz Silva Machado, especialista em Trânsito Urbano pela Polícia Militar do Estado de São Paulo e ex-comandante da Companhia de Polícia de Trânsito de Sergipe, a CPTran/SE, o que faz um trânsito seguro são as próprias ações dos condutores e pedestres. Ou seja, são as escolhas e comportamentos pautados no cumprimento das normas de segurança do trânsito, baseando-se sempre em ações de civilidade e educação e respeitando todas as regras – independentemente da existência ou não da fiscalização.

“O maior vilão do trânsito, sem dúvida, é o próprio condutor imprudente, que insiste em descumprir as normas de trânsito”, define major Fábio. Segundo ele, como essa autoconsciência não está presente em todos, o CTB sofreu diversas alterações nos últimos anos, cujo objetivo do legislador foi o de endurecer as normas, focando sempre na preservação da vida.

“O maior vilão do trânsito, sem dúvida, é o próprio condutor imprudente",
Major Fábio Machado

“E, naturalmente, tivemos uma melhoria no trânsito. Porém, é necessário que a sociedade de fato se eduque e mude completamente seus hábitos no trânsito, ou seja, precisamos realmente ter uma mudança comportamental no trânsito no que se refere à educação e à consciência do papel e responsabilidade que todos têm para que, de fato, tenhamos uma melhoria significativa”, opina.

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Major Fábio acredita que houve melhoras no trânsito, mas que elas precisam ser mais efetivas

LEGISLAÇÃO

O major considera que a regulamentação das “Cinquentinhas”, por exemplo, sem dúvida alguma representa mais segurança no trânsito, pois até então esse tipo de veículo estava imune à fiscalização, já que não eram nem registrados nem emplacados.

“Por conta disso, eram conduzidos livremente sem a possibilidade de qualquer punição por condutores que não possuíam nenhuma condição técnica de transitar na via, o que o tornava um acidentado em potencial, e consequentemente mais uma vítima fatal para as estatísticas do trânsito”, ressalta.

"A regulamentação das Cinquetinhhas representa mais segurança no trânsito"
Major Fábio Machado

A partir da regulamentação, segundo ele, os órgãos de fiscalização têm como exercer o controle e impedir, através da fiscalização, todos os absurdos e abusos que antes existiam com frequência, “a exemplo de jovens e crianças que conduziam esse tipo de veículo, como um mero brinquedo, de forma inconsequente”.

Quanto ao retorno financeiro sobre a regulamentação das “Cinquentinhas”, o major garante que em nenhum momento a legislação teve esse propósito. “Infelizmente, esse é o primeiro pensamento que muitas pessoas ou críticos têm em mente quando se referem às mudanças na legislação de trânsito, principalmente quando se refere à penalidade. Porém, vale destacar que todas as normas previstas no Código de Trânsito Brasileiro visam exclusivamente um único objetivo, que é a preservação da vida”, destaca.

Vale lembrar que, este ano, o Código de Trânsito Brasileiro – CTB – completa 20 anos de existência. “Ao longo de todos esses anos, suas alterações e inovações tiveram o objetivo de salvar vidas, buscando a conscientização e redução dos acidentes de trânsito, que hoje no Brasil, são a segunda maior causa de morte no Brasil’, diz o major Fábio.

De fato, mesmo que as alterações não sejam motivadas pura e simplesmente pelo viés financeiro, fica claro que esse aspecto deve ser definido com mais clareza. Afinal, ele pode custar – literalmente – a vida de alguém.

VÍDEO -  O CUSTO SOCIAL DOS ACIDENTES NAS RODOVIAS 

A estimativa é que os acidentes tem um custo social médio R$ 40 bilhões anuais. Clique aqui e confira video importante sobre o assunto, veiculado no PORTAL BRASIL