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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Apressados: jogo político já apresenta nomes da disputa eleitoral de 2020

Sociólogo reitera que a antecipação faz parte da dinâmica da política, na qual os políticos, como peças de xadrez, se movimentam a depender de suas táticas de jogo. Há quem negue essa pressa

Não, esse ano de 2019 não tem qual eleição em vistas. Mas a julgar pelos debates políticos, até parece que não é bem assim. É que muitos dos agentes políticos já têm desenhado os cenários eleitorais do próximo ano, quando serão escolhidos os prefeitos, vices e vereadores das 75 cidades sergipanas. Há quem goste desse treino eleitoral tão antecipadamente e quem só se apresente mesmo ao soar do apito do juiz. Ambos compõem a diversidade de táticas do jogo da política.

Marcelo Ennes, doutor em Sociologia pela Unesp e professor do Departamento de Ciências Sociais do Programa de pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe, acredita que o debate em torno da política deve ser algo constante, ocupar as pessoas permanentemente, “porque é importante que os cidadãos, os políticos e a imprensa discutam, conversem sobre o tema, de maneira a apresentar ideias, propostas”.

“Isso possibilita conhecer possíveis candidatos e, sobretudo, que se chegue nas eleições com tudo amadurecido”, analisa Marcelo Ennes. O adendo que o professor faz é apenas com relação aos gestores que já estão no poder e que podem, por exemplo, perder o foco do mandato atual tentando conquistar outro.  

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Marcelo Ennes: “É difícil dizer se a antecipação atrapalha as gestões atuais. Há outros fatores que prejudicam muito mais”
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Edvaldo Nogueira: “A própria legislação eleitoral, que é a mais recente, encurtou o período eleitoral”

NOVA POLÍTICA?

O sociólogo acredita que a manipulação do povo também é ruim. “Fazer uma coisa em nome de fins eleitoreiros, mas demonstrando que é em benefício da população”, ressalta. Além de ser ruim, pode não ser efetivo, como explica Marcelo Ennes. “Hoje, no mundo da política, está tudo indefinido. Nada do que é feito agora será garantia na eleição. Mesmo as pesquisas, que são um retrato da realidade, se feitas hoje não têm nada a ver com o que vai acontecer daqui a um ou dois anos”, enfatiza.

Questionado se esse modelo “fere” a nova política, bastante defendida por ele, Marcelo Ennes diz já não ter clareza do que é a nova política, “porque às vezes o novo vem sob a forma do velho”. “É o que temos hoje em termos de governo federal, que é o mais velho possível sob a forma de um novo. Então, sou favorável ao novo, desde que ele seja sinônimo de transparência, de participação, de ética, do conhecimento sobre quem são as pessoas que vão nos governar”, diz.

Com relação a essas pessoas que vão governar, ele reitera que a antecipação faz parte da dinâmica da política. “Esse debate antecipado se refere a uma rotina do processo eleitoral, a   uma previsão de que teremos eleições e de que elas são o caminho para se chegar ao poder”, destaca.

O PODER

Por falar em poder, Edvaldo Nogueira, PCdoB, é um dos prefeitos que não vivem o dilema de entre lançar-se na disputa pela reeleição ou tocar a administração. Ele não avança. O ponto de vista de Edvaldo é o de que precipitar a eleição é um desserviço para a cidadania e a população. “Nós acabamos de sair de uma eleição. O país vive uma crise, os Estados e os municípios passam por dificuldades, não dá para ficar 18 meses falando de eleição”, argumenta Edvaldo.

Até dá, mas, segundo Nogueira, só para quem não quer o bem do povo. “Algumas pessoas vivem de especulação, do quanto pior, melhor. Eu não faço isso”, reitera o prefeito de Aracaju. Edvaldo continua: “essas pessoas não têm o que mostrar, não conseguem dar respostas para os problemas imediatos da sociedade e partem para debater uma eleição com tanta antecedência”.

Edvaldo Nogueira lembra de um aspecto importante da eleição, que é a legislação específica, e ela determina o prazo de debate em torno das eleições. “A própria legislação eleitoral, que é a mais recente, encurtou o período eleitoral justamente porque se percebeu que, no Brasil do passado, se passava muito tempo nesse processo”, ressalta.

LEGISLAÇÃO

Edvaldo diz, inclusive, que se fosse deputado federal, apresentaria um Projeto de Emenda à Constituição – PEC - para alterar a forma de realização das eleições. A ideia dele é de um processo único, anual, para todos os níveis, em abri/maio, que elegeria prefeitos, vereadores, governador e deputados estaduais, que discutiriam os problemas de âmbito municipal e estadual.

“E em outubro/novembro, seriam eleitos deputado federal, senador e presidente da República, com um debate em torno de problemas nacionais. Todos teriam mandato de cinco anos, sem reeleição”, enfatiza Nogueira. Enquanto não chega ao Legislativo, Edvaldo respeita a opção de quem prefere se antecipar.

“O direito à palavra é assegurado pela Constituição. Eu não vou discutir eleição agora, ninguém vai ter de mim nenhuma discussão eleitoral até maio do ano que vem. Mas eu defendo o direito democrático de todo mundo falar o que quiser”, garante. Edvaldo reitera que a responsabilidade que tem agora é com o município. “Tenho que colocar meus projetos, pagar salário em dia, cuidar da mobilidade, da saúde, da educação... Se eu for pensar em eleição, eu vou pegar meu governo e colocar a serviço de articulação eleitoreira e desviar meu foco”, completa.

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Gilmar Carvalho correu para ser o primeiro a se lançar candidato a prefeito de Aracaju

ANTECIPADA E IRREVERSÍVEL

Enquanto isso, o deputado estadual Gilmar Carvalho, PSC, garante que sua candidatura já é irreversível. E que ela é fruto do apelo das pessoas nas ruas. “Refleti depois de ouvir vários apelos da população e decidi atender a esses apelos. Percebe-se claramente que o grupo representado pelo atual prefeito, há tantos anos no poder, com breve intervalo na Prefeitura, sofre o maior desgaste de sua história”, justifica Gilmar Carvalho.

Ele diz ter absoluta convicção de que sua missão é levar o povo ao poder – independentemente se na Assembleia Legislativa, como atualmente, ou na Prefeitura de Aracaju, com a qual sonha. “Tenho ouvido pessoas de vários setores, espontaneamente, dizerem que chegou a hora de mudar. Juntos, faremos a primeira gestão eminentemente participativa, com um prefeito que amanhecerá nas repartições e nas ruas”, assegura.

Gilmar Carvalho diz que a prioridade de uma possível gestão como prefeito de Aracaju seria a saúde. “Tenho, inclusive, o nome da pessoa que, comigo, transformará a Saúde em Aracaju. Mas faremos muito mais, principalmente pelas camadas mais pobres”, diz Gilmar.

FUTURA GESTÃO

Gilmar continua a lista de ações. “Também pode anotar para nos cobrar se vencermos as eleições: faremos o que o atual prefeito prometeu e não cumpriu sobre o IPTU, em projeto que proporemos à Câmara no primeiro trimestre da administração. Já temos a proposta formatada, dependendo apenas de ajustes que faremos depois da posse”, revela.

Com essas informações, Gilmar Carvalho deixa claro que a antecipação ao se lançar pré-candidato a prefeito de Aracaju é bem consolidada. Ele está em seu quarto mandato de deputado estadual e ainda não teve uma experiência no Executivo. Mas não vê isso como um empecilho.

“Na profissão como radialista, dirigi emissoras no interior, fui diretor de jornalismo de uma rede de comunicação quando vim para Aracaju e da rádio Liberdade AM. Na Assembleia, participei da administração como segundo secretário. Se vencermos, levaremos o povo ao poder com a experiência que o atual prefeito não tinha quando foi levado ao comando da Prefeitura pelas mãos do querido amigo Marcelo Déda”, pondera.

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Padre Inaldo: “Nosso intuito de agora é administrar a cidade. Vamos, sim, pensar no processo eleitoral, mas isso na hora certa”

DISPUTA ACIRRADA

Nossa Senhora do Socorro passa praticamente pela mesma situação, embora talvez um pouco mais intensificada. O município, localizado na Grande Aracaju, é um dos mais importantes para a política estadual e, por isso, um dos mais cobiçados. Tanto que a cidade já tem alguns pré-candidatos a prefeito. Pelo menos, dois: o ex-prefeito Zé Franco e o deputado estadual Samuel Carvalho. 

Já o atual prefeito, Padre Inaldo Luis da Silva, vê toda essa antecipação como algo desnecessário. “A eleição ainda é no próximo ano”, diz Padre Inaldo, que apesar de preferir esperar até o momento para falar sobre eleição, entende a posição de Socorro no debate. 

“Socorro é o segundo maior município do estado. Isso atrai muitos olhares”, pondera. Ele garante que os opositores mais apressados não lhe preocupam. “Nunca me preocupei com adversários. A minha preocupação diária, de manhã quando eu acordo, até de noite, quando eu vou dormir, é de fazer uma boa administração e levar os benefícios necessários para o povo”, ressalta Inaldo. 

CAUTELA

Esse discurso só reforça o argumento de cautela adotado por ele e pelo grupo. “Nosso intuito de agora é administrar a cidade. Vamos, sim, pensar no processo eleitoral, mas isso na hora certa”, reitera o prefeito. 

Ele acredita que colocar-se no pleito agora pode trazer prejuízos ao seu mandato atual. “Precisamos dedicar todo nosso tempo e nosso trabalho para realizar as ações que nosso município tanto precisa”, diz. 

Vale lembrar que o padre tem total legitimidade para concorrer à reeleição. “Mas, como eu já disse, neste momento estamos empenhados em administrar Nossa Senhora do Socorro”, destaca. 

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Deputado Samuel Carvalho assumiu esse ano o mandato, mas já sonha com a Prefeitura de Socorro

MOMENTO CERTO

Segundo ele, “no momento certo”, o grupo vai se reunir e falar em campanha eleitoral. Até lá, outros nomes avançam na cena política do município. Um deles é o deputado estadual Samuel Carvalho, ex-PPS, que acabou de assumir o mandato na Alese, mas já sonha com o Executivo municipal.

“Quem não sonha tem um passado frustrado, um presente duvidoso e um futuro incerto. Sonhar é para os fortes”, diz o deputado. O ex-prefeito Zé Franco também já está no páreo: tentará governar a cidade de Socorro pela quarta vez.

E, de acordo com Zé Franco, isso poderá ser feito sem descartar harmonia nem com o grupo do atual prefeito, Padre Inaldo Luis da Silva, e nem com o do ex-prefeito, deputado federal Fábio Henrique. “Eu sou um homem de consenso. Eu não descarto aliança com nenhum grupo. Pelo contrário, eu quero é o bem de Socorro. E tenho disposição para uma pré-candidatura”, avisa Zé Franco.

BEM COLOCADO

“Com as pesquisas do jeito que estão, eu posso deixar de disputar?”, questiona ele. Recentemente, circulou uma pesquisa que dava a Zé Franco uma boa posição - a liderança -, entre os socorrenses. “Eu saí muito bem na da Padrão, e não fui eu que mandei fazer. Mas confio no Instituto Padrão, porque o dono é da região, é uma pessoa honesta e trabalha bem pesquisas”, diz Zé Franco.

“A minha grande virtude nisso tudo é que eu amo Socorro. Eu tenho residência fixa lá há muitos anos. Mais do que isso: eu me sinto bem em estar em Socorro. Eu me sinto bem em ver Socorro crescer e desenvolver”, ressalta. Aliás, Zé Franco tem pouca modéstia quando fala da relação entre ele e Nossa Senhora do Socorro.

“Tudo o que eu fiz no passado por lá está na Socorro de hoje. Não que os outros não tenham feito. Mas falo da Socorro do Shopping Prêmio, do comércio extraordinário, do polo industrial - dentro de Sergipe, disputam o primeiro lugar no desenvolvimento industrial ela e a cidade de Estância, com a quebra de Aracaju nesse setor”, afirma Zé Franco.

“Socorro não é mais uma cidade dormitório de Aracaju. Socorro tem hoje um shopping center no qual ninguém acreditava, mas que está gerando quase dois mil e quinhentos empregos. Eu tenho que agradecer isso ao meu trabalho e ao trabalho corajoso do empresário Emanuel Oliveira. O Shopping Prêmio já foi ampliado quatro vezes”, reitera.

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Zé Franco também quer a Prefeitura de Socorro e já colocou seu nome no jogo

PROPRIÁ

Candidato a deputado federal ano passado pelo PC do B, o advogado Márcio Doria, também está no hall dos ‘apressadinhos’ e já declarou que é pré-candidato a prefeito de Propriá nas eleições do ano que vem. “Está definido que vamos construir uma candidatura a prefeito de Propriá, mas não queríamos construí-la pelo PC do B. Por isso me desfiliei”, destaca Márcio.

Ele teve apenas 6.150 votos gerais na disputa de 2018 e foi o terceiro mais votado de lá - com 1.319 votos, ou 11,50% dos válidos, ficando atrás de Fábio Mitidieri, PSD, que obteve 1.520, e de Laércio Oliveira, com 1.941 votos. “Já recebi convite do PDT, do PV, do PSB. Mas nós só vamos definir a opção partidária um pouco mais à frente. Pretendemos ficar livres e ter exatamente a liberdade de conversar com os diversos blocos”, reitera.

Segundo o advogado, ele tem uma boa convivência com sua cidade natal e acredita que não terá dificuldade na montagem do projeto de sucessão. “Eu estive em campanha em Propriá em 2018 apenas duas vezes. Na próxima semana vamos abrir um escritório de trabalho lá, onde tenho um programa de rádio em que dou dicas de Direito. Eu estou conversando com todo mundo da cidade”, diz.

O prefeito da cidade, Iokanaã Santana, PSB, tem direito de tentar uma reeleição. Mas isso é uma incógnita. “Ele está na dúvida se vai ou não disputar a reeleição. No nosso caso, não há mais dúvidas. Estamos trabalhando e conversando com todo mundo para viabilizar essa possibilidade”, assegura Márcio.

ITABAIANA

A cidade de Itabaiana respira política e é uma onde o debate já está avançado. Por lá, Olivier Chagas, PT já se coloca como pré-candidato e sonha ser o candidato do deputado estadual Luciano Bispo, um dos líderes políticos locais, que, em 2016, viu o irmão, Roberto Bispo, ser massacrado por Valmir de Francisquinho nas urnas e pode não querer ariscar de novo.

Olivier já foi vereador pelo município e acredita estar pronto para novos e mais altos voos. “Estou preparado para ser prefeito de Itabaiana”, garante. O atual prefeito, Valmir de Francisquinho, PR, já foi reeleito e, portanto, não pode se candidatar no próximo ano. Mas deve indicar alguém. Procurado pelo JLPolítica, ele não respondeu aos questionamentos.

O fato é que, só o tempo, literalmente, dirá se as investidas antecipadas dos mais apressados ou a cautela dos mais tranquilos funcionou bem como tática de jogo, porque quando se fala em eleição, absolutamente tudo pode acontecer, mas uma coisa que não muda é o fato de que apenas um sai como vencedor.

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Olivier Chagas se diz preparado para comandar Itabaiana