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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Arte de rua e seu apelo social, político e racial

Esta é cena rap, grafite, hip hop. Grito da Periferia, Mulheres de Luta, Sintonia Periférica, Passarela do Hip Hop, Nóiz no Centro e Som de Quebrada são grupos que reverberam a voz do hip hop. “Em Sergipe, é difícil viver dessa arte”, admite Anderson Clayton Passos, o rapper e apresentador Hot Black


Periférica. De rua. Revolucionária. Esses conceitos traduzem uma arte mais urbana, com apelo social e político que, ao contrário das expressões artísticas tradicionais, canônicas, enche as ruas não só de cor ou história, mas também, e principalmente, de protesto. 

Anderson Clayton Passos, o rapper e apresentador Hot Black,é um dos agentes e propagadores dessa arte em Sergipe. Ele é presidente estadual da Nação Hip Hop Brasil e apresenta o programa Periferia, na TV Aperipê.

“O entendimento e a prática do fazer e sentir como essa revolução se dá, depende do mergulho de cada um ou uma na forma de viver e encarar o hip hop”, define Anderson Hot Black, que, questionado pelo JLPolítica, afirma não acreditar que esse tipo de expressão esteja inserido no que se convencionou chamar de arte.

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Manu Caiane: resistência e empoderamento através da arte
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Periferia é a grande inspiração de Anderson Hot Black

É PROTESTO

Já pensando pelo lado do escritor, poeta, cronista que vai compor algo que reflita suas aspirações, Anderson se reserva ao exercício diário de ler, ouvir e escrever algo toda semana. “Se vai servir para algo, os dias seguintes dirão”, comenta.

A inspiração, geralmente, vem da periferia. Do povo que vive nela. Que sobrevive nela. “Esse ambiente é o grande inspirador: vejo a periferia como um estado de cultura. Sua complexidade e sua simplicidade me motivam a continuar no hip hop”, afirma Hot Black.

Isso porque, segundo o rapper, foi a periferia que lhe deu base social, embora essa consciência só tenha vindo quando o rap começou a fazer parte da vida dele, há mais de duas décadas. Estando há tanto tempo nesse cenário, Anderson o conhece bem e reconhece que a mão do poder público ainda não o alcançou de fato.

É MARGINALIZADA

“Institucionalmente falando, há espaço, mas não tanto quanto deveria. Faz 11 anos que temos um programa de rádio e TV no Sistema Aperipê e com os programas Império Periférico e Periferia podemos veicular e dialogar com os atores sociais as suas histórias e verdades. Mas, nada disso se deu forma natural”, admite.

Foi necessário, segundo Hot Black, fazer um hip hop mais participativo e dialogável. Por isso surgiu a Nação Hip Hop Brasil e tantos outros coletivos, para participar politicamente destes espaços. “Mas nada tira de nós a luta do movimento social”, assegura.

Por outro lado, ele diz que há espaço quando se fala de gente, grupos, coletivos que não conseguem acessar estes espaços e políticas. “De tempos em tempos, as coisas avançam e retrocedem, haja vista que já tivemos o maior chefe de Estado recebendo representantes do Hip Hop no Palácio do Planalto e hoje isso seria impossível de acontecer por dois motivos: representatividade e empatia”, avalia Anderson.

É NEGLIGENCIADA

Ele revela que o grupo tem buscado dialogar para a criação de um espaço, em Aracaju, de parceria com as Secretarias de Educação, Cultura, Juventude e Assistência Social para um circuito cultural que aproveite o potencial destes fazedores de cultura e ofertem aos seus usuários e assistidos um serviço de promoção, fomento e valorização do Hip Hop.

“Nesse sentido, temos dialogado sobre a realização da II Semana Municipal do Hip Hop, uma política pública assegurada por lei, mas que teve a sua única realização em maio de 2012; bem como a Semana Estadual do Hip Hop que existe desde 2015 e ainda não aconteceu. Espero que este ano as duas aconteçam”, ressalta.

Por isso, para Anderson, quando se fala em poder público, lê-se o poder do público. “E nesse, tenho total liberdade para ser revolucionário, contestador, estratégico e político”, garante. Por falar em político, Hot Black disputou as últimas eleições, incentivado pela própria Nação Hip Hop Brasil. “Não dá para pensar em alternância de poder sem ocupar outros lugares. Nesse caso, o centro do poder”, diz.

Segundo Hot Black, aquele era um momento de afirmação das representações – não diferente do momento atual – e o coletivo não queria votar em outra pessoa que não fosse do nosso meio, que não tivesse vivido e passado pelos problemas comuns a todos os agremiados. “Decidimos e fomos para a disputa. Foi simbólico para alguns, inadequado para outros, mas o que nutriu e minha decisão foi a compreensão de força centrípeta – da periferia para o centro”, destaca.

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Maior grafite da América Latina foi apagado pela gestão Dória, em São Paulo

É PLURAL

Quem também participa dessa cena artística é Emanuele Caiane Vieira, conhecida como a grafiteira Manu, 19 anos. Ela está há dois anos usando o Grafite como forma de expressão e já não tem dúvida de que “a arte salva”. “É preciso que a arte esteja no processo de crescimento das pessoas”, diz Manu Caiane.

Manu define a arte de rua como resistência, principalmente porque, segundo ela, não há valorização. “Por não valorizarem, as pessoas não veem como trabalho, e ainda acabam se expressando sobre algo que não conhecem”, critica.

Apesar de nova na cena, Manu já participou do Encontro Nacional de Mulheres do Hip Hop, que aconteceu em Pernambuco no ano passado, e esse ano será aqui em Sergipe – ainda sem data prevista, mas deve ocorrer em novembro.

“É um encontro de troca de vivências, de fortalecimento de mulheres, porque esse ambiente ainda é muito machista”, ressalta Manu, que garante: “se você faz grafite ou hip hop, em qualquer lugar você vai ser abraçado”.

É DISCRIMINADA

Manu diz que, geralmente, as pessoas confundem grafite com vandalismo. “É triste ver que a sociedade é insensível a ponto de se incomodar com uma tinta na parede e não com sangue derramado, por exemplo. É ignorância”, constata.

Segundo ela, isso acontece porque o grafite é visto como um padrão que não dialoga com a sociedade, quando, na verdade, é o contrário. “Prova disso é que as propagandas cobrem nossa arte a todo tempo. E a polícia, que vai nos tratar como bandidos mesmo a gente estando trabalhando de graça e embelezando o local”, ressalta.

Manu admite sofrer preconceito duplo, por ser grafiteira e também por ser mulher, mas que se sente mais acolhida dentro do Movimento. “Na sociedade, as pessoas acham que é um movimento marginalizado, até pela nossa forma de falar, que também é protesto contra o sistema. A gente se organiza e faz arte de protesto. Essa é a raiz”, reconhece.

É INVISÍVEL

Assim como Hot Black, Manu também acredita que a arte de rua não seja vista, como tem que ser, pelo poder público. “O poder público não enxerga a gente como ferramenta de transformação social e precisa abrir os olhos para isso. A arte e os artistas transformam a vida das pessoas”, reforça a grafiteira.

Manu lembra que essa falta de visibilidade acaba, muitas vezes, matando quem faz arte de rua. “Tem gente que morre fazendo isso”, lembra. Ela teme que o cenário se agrave. “É perigoso um governo conservador que só atrasa a nossa vida, que não nos dá apoio. É nós por nós”, diz. “É preciso que tenham mais respeito com o nosso trabalho como artista de rua, a gente está pintando e só quer que as pessoas reconheçam que é arte, que é protesto e que é nosso trabalho”, acrescenta.

Hot Black concorda. Mas vai além. “Não trato o Hip Hop como arte, apenas. Inclusive, a arte vem depois do movimento e da política. Se não servir para inferir no curso das coisas, é estética. Essa leitura veio com o passar do tempo, entre o sonhar e a realidade de fato. Já quis ser um artista com o nome entre os famosos, quem não? Mas, foi vivendo a realidade que as etapas de movimento e política foram chegando”.

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Cássio: “juízo de valor acerca do papel político ou social da arte não nos cabe”

É MILITANTE

Anderson Hot Black se autointutula um cara de CEP periférico e de pele preta, e sabe que essas condicionantes não o colocam num lugar blindado. “Pelo contrário. Elas me expõem ao mais alto risco de existência”, acredita. 

Após dez anos escrevendo para o Mensagenegra, o grupo de origem, Hot Black começou uma forte militância dentro do Hip Hop e desenvolveu oficinas nas quebradas e em alguns programas do governo. Foi aí que percebeu que só com a política poderia interferir diretamente na vida das pessoas. 

E embora saiba que isso “não é consenso no Hip Hop”, ele sabe que não pode negar o ser político que é. “Abster-se é o que esse fascismo quer que façamos. Usando um neologismo, o que queremos é 'negrar' a política. Ou seja, por mais pretos e pretas nos espaços de poder”, admite. 

É REACIONÁRIA 

O fascismo versa contra o pensar crítico das pessoas e, consequentemente, vai de encontro ao que a arte de rua prega. Isso preocupa Anderson. “Teremos uma forte repressão aos direitos estabelecidos, por outro lado, faremos uma vigilante campanha de resistência e manutenção do estado democrático de direito. A rua é o nosso palco”, define. 

Hot Black diz que foi o próprio hip hop quem o educou e preparou para ocupar o lugar que ocupa hoje, o de um artista extremamente dedicado ao que faz. “Já fiz shows e recebi cachês, mas transformamos em sistemas de som para fazer o que fazemos até hoje”, ressalta. 

Grito da Periferia, Mulheres de Luta, Sintonia Periférica, Passarela do Hip Hop, Nóiz no Centro, Som de Quebrada... todos esses grupos são os que reverberam a voz do hip hop a partir dos cachês iniciais de Hot Black. “Em Sergipe, é difícil viver dessa arte”, admite. 

É NECESSÁRIA 

Para Nino Karvan, um dos cantores e compositores mais conhecidos de Sergipe e um agente de cultura, a arte de rua é muito rica, vai dos malabares no sinal ao violeiro que canta nos bares aos rappers de quebradas e, por isso, acaba não sendo abarcada pelo mercado em sua totalidade.

“Algumas vertentes acabam tendo mais destaque, como o hip hop, que atingiu o mercado mundial, de Israel ao Havaí, sempre adaptado à realidade local”, afirma Nino Karvan. Ele explica que, embora o movimento seja de origem latina, ganhou força em Nova York, onde a comunidade negra se apropriou dele.

“A gente poderia fazer um contraponto com a embolada, por exemplo. São culturas muito ricas que sobrevivem sem poder público. E talvez esse seja exatamente o pano de fundo ideal para a difusão dessa arte”, explica. Isso porque, segundo Nino, todas essas expressões têm o protesto como ponto de partida.

“O discurso delas se remete, essencialmente, ao protesto contra o sistema político e econômico, que tem que estar sempre vivo. Então, essa arte é, antes de tudo, necessária”, ressalta.

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Conceição Vieira: desafio novo na Cultura abarca fomento à arte de rua

ARTE ARACAJUANA

Cássio Murilo Costa, presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju – Funcaju –, garante que os programas de fomento à arte e à cultura contemplam a arte de rua.  Segundo Cássio, um dos exemplos é o do edital de cadastramento de oficineiros da Escola Valdice Teles. “As oficinas serão realizadas na sede da escola e em dois polos, nos CEU’s dos bairros Olaria e 17 de março, e incluem várias linguagens artísticas”, diz ele.

Cássio explica que o prefeito Edvaldo Nogueira, a partir do planejamento estratégico realizado em sua gestão, coloca como um dos projetos prioritários da gestão a ocupação cultural do centro histórico de Aracaju, que tem a Praça General Valadão como marco zero da cidade.

É lá que muitos eventos de arte de rua devem acontecer. “O Centro Cultural de Aracaju, um dos equipamentos culturais mais importantes do Estado, tem posição estratégica para esse projeto de ocupação cultural. Tanto a Praça quanto as instalações do Centro Cultural são utilizados nos dois projetos de maior visibilidade cultural da gestão, que são o ‘Ocupe a Praça’ e o ‘Quinta Instrumental’”, diz.

DIÁLOGO

Ambos buscam o diálogo com a contemporaneidade e com as formas de expressões culturais urbanas e a construção de um sentimento de pertença da identidade. “A nossa produção cultural, independentemente do poder público, já dialoga com o mundo e os exemplos são inúmeros, nas mais diversas expressões artísticas. O que a Funcaju busca é fazer com que a nossa população conheça nossos valores”, ressalta.

E isso ocorre em exposições, documentários, espetáculos e espaços para interações, como é o caso do ‘Liquidifica Diálogos’, um dos momentos mais importantes do projeto ‘Ocupe a Praça’, por exemplo. “Já o ‘Quinta Instrumental’ hoje, torna-se um projeto nacional, dos únicos no país, que leva à praça pública nomes das cenas nacional e até internacional, interagindo com nomes da cena local”, esclarece.

Diante disso, Cássio Murilo assegura que não há uma predominância de incentivo à arte ‘tradicional’ em detrimento de expressões mais populares. “Nessa gestão, as questões centrais são definidas no planejamento estratégico e não está no condão da Funcaju definir os fluxos que são próprios do mundo da arte”, assegura. Pela primeira vez na história do Salão dos Novos, por exemplo, um prêmio foi concedido a um trabalho fotográfico.

SEM PREDILEÇÃO

Cássio reitera que o papel da Fundação é estimular a produção artística e cultural, respeitando a pluralidade, a diversidade, a inventividade, os posicionamentos políticos, jamais direcionando ou agindo de forma panfletária. “Como já dito antes, não é papel da Funcaju definir os critérios e os padrões estéticos do mundo da arte. O que seria uma arte mais crítica? Do nosso ponto de vista, o apelo político e social da arte é um dos princípios utilizados por alguns setores, mas há outras possibilidades com as quais também dialogamos”, destaca.

“O juízo de valor acerca do papel político ou social da arte não nos cabe. Procuramos sim entender e estimular as demandas artísticas e culturais do tempo presente, sem prescindir de nossa tradição e de nossa identidade. Qualquer olhar fora dessa perspectiva poderia ser interpretado como dirigismo cultural”, completa.

Conceição Vieira, diretora-presidente da Fundação Cultural Aperipê concorda. O órgão estadual, que antes era responsável apenas pela difusão de conteúdo do Estado, passou a abarcar o fomento à política de cultura. E ela garante: “vai apoiar o maior número possível de iniciativas”.

POLÍTICAS PÚBLICAS

Para Conceição Vieira, é importante integrar o erudito e o popular, de modo que toda expressão artística seja contemplada e valorizada. “O que dá valor à arte, de maneira geral, é essa junção. Se o popular nasceu pelo viés da cultura emocional, tanto faz se na erudição, numa música clássica, por exemplo, ou se numa dança de rua. A expressão cultural que precisa ser manifestada é a que está dentro de cada homem e mulher que compõe aquela comunidade”, opina.

É com esse entendimento, segundo ela, que as ações da Fundação estão sendo pensadas. “Arte popular, hip hop, reggae, grafiteiros, todos eles serão ouvidos. Inclusive, vamos iniciar uma conversa para o restauro do Gonzagão e queremos o pessoal do Grafite envolvido. Também vamos colocar em prática uma lei já aprovada que criou a Semana de comemoração ao hip hop”, detalha Conceição Vieira.

Hot Black sabe da importância desses incentivos para a propagação da arte de rua e, com ela, de toda a história social, política e, porque não, racial na qual está encrustada. “Achava que era só social, mas me deparei com esse racismo estrutural que nos mantém em estado de alerta 24 por 48 (um dia pelo outro) pondo rótulos sociais, raciais e culturais. Me dispus a contar essa história vivida e vista desse canto do Brasil”, afirma o rapper. Viva a arte de rua!

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“Sopa de Letras”, no Parque da Sementeira