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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Bitcoin, a moeda virtual que mais avança sobre o mercado

O Brasil já é um dos maiores mercados de moedas virtuais do mundo. “Os seus preços são muito volúveis”, reforça um operador o bitcoin. Muito embora ela esteja custando aproximadamente R$ 30,5 mil hoje, no fim de 2018 estava em R$ 14,3 mil, depois de ter chegado a R$ 24,3 mil um ano atrás


Real, peso, dólar... bitcoin. O mundo abriu os olhos para as moedas virtuais, consideradas bem valorizadas e, portanto, um excelente negócio para investir para uns e um negócio volátil demais e, consequentemente, arriscado, para outros.

Mas o fato é que o bitcoin sofreu valorização recorde nos últimos anos, na maioria das vezes, bem acima da média da de muitos outros investimentos, o que o fez atrair o público brasileiro, e também o sergipano.

De acordo com o economista Emerson de Sousa Silva, mestre em Desenvolvimento Regional pela UFS e doutorando em Administração pela UFBA, o Brasil já é um dos maiores mercados de moedas virtuais do mundo.

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Especialista não acredita que Bitcoin deverá substituir outras moedas
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Emerson: “enquanto não aparecerem nos balanços dos bancos de modo ostensivo, não podemos dizer que sejam significativas”

INVESTIMENTO

Segundo ele, o retorno tem sido bastante consistente, embora ele prefira não falar em números. “Posso dizer que o valor investido já foi retirado do mercado e agora mantenho minhas operações com os ganhos”, revela o empresário.

Ele afirma que costumava fazer outros tipos de investimento, como em tesouro direto e certificado de depósito bancário – o CDB. “Para mim, a maior vantagem de investir em bitcoins e altscoins é, em primeiro lugar, a maior margem de retorno em um período mais curto, além de não ter taxas de custódia”, ressalta Antonio Henrique.

Isso porque, segundo o empresário, o único custo é no momento da compra e da venda das moedas. “A maior desvantagem no meu ponto de vista é a falta de uma regulamentação clara”, opina. Para ele, como qualquer outro investimento, se você não sabe o que está fazendo, o negócio se torna arriscado.


MEDIDA DE VALOR

Mas ele recomenda o investimento. “A emissão máxima de bitcoins é 21 milhões, não podendo ser “impressas” novas unidades. Diferentemente das moedas Fiat, por exemplo, que ano após ano novas entram em circulação causando uma inflação que só faz ela perder valor. E os grandes economistas internacionais preveem para o ano de 2021 uma nova crise global. Então, o bitcoin ele não só serve como investimento, mas também como uma reserva de valor”, argumenta Antonio Henrique.

Para o economista Emerson de Sousa, na verdade, as moedas servem como unidade de conta, meio de transação, medida de valor e reserva de riqueza em qualquer sociedade em que ela exista. E são várias as características que uma moeda precisa possuir para que seja assim considerada, mas, segundo Emerson, a principal é a aceitação geral da comunidade onde ela circula.

“As moedas virtuais, como o bitcoin, não são diferentes nesse sentido. Não fosse a aceitação geral nos meios onde ela circula, ela não seria uma moeda”, afirma Emerson de Sousa. De acordo com ele, para quem não vê sentido em correr riscos desnecessários, ela não é uma boa indicação de investimento. Isso por causa de sua grande volatilidade.

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Antonio: “posso dizer que o valor investido já foi retirado do mercado e agora mantenho minhas operações com os ganhos”

VARIAÇÃO

“Os seus preços são muito volúveis”, reforça. De fato, muito embora ela esteja custando aproximadamente R$ 30,5 mil hoje, no final do ano passado estava em R$ 14,3 mil, depois de ter chegado a R$ 24,3 mil há um ano atrás. “É muito risco envolvido. Para quem quer poupar, não indico”, ressalta Emerson.

Mas ele faz um adendo: a valorização nem sempre será maior do que a de outros investimentos. Vai depender, segundo Emerson, dos ventos do mercado financeiro. “Lembre-se de que é um ativo de extrema volatilidade. Um exemplo: do dia 11 para o dia 12 de junho, o ganho de quem comprou um bitcoin foi de 3,1%. Mas quem comprou há um ano e meio, ainda amarga hoje um prejuízo de 53%”, pondera.

Exatamente por essa característica de alta volatilidade, ele diz que o impacto das moedas virtuais na economia ainda é mínimo. “Depende muito. Mas para o dia a dia é pouco, uma vez que as transações cotidianas ainda são promovidas basicamente em reais, embora saiba de que já existem locais que o aceitam, mas são pontos bastante periféricos em termos de economia nacional”, explica Emerson de Sousa.


ALTERNATIVA

O economista reconhece que já é um ativo financeiro considerável, mas ressalta que como meio de transação ainda está muito longe de ser algo fundamental. “Ainda que elas venham se tornando de modo crescente uma alternativa de aplicação e suas tecnologias bases sejam alvo de algum interesse das instituições financeiras, enquanto elas não aparecerem nos balanços dos bancos de modo ostensivo ou, ao menos, não exótico, não podemos dizer que elas sejam significativas para o SFN”, analisa.

Também por isso, o economista não acredita que as moedas virtuais serão a moeda mais consumida no mundo. “Porque a moeda fiduciária, emitida sem o lastro de um ativo fixo, como o real e as moedas virtuais, precisa do amparo de um emprestador de última instância, como o Banco Central do Brasil. Essas moedas carecem desse predicado”, esclarece.

Quanto à valorização, Emerson de Sousa diz que ela não é maior em virtude de seu caráter especulativo. “Ainda me cheira a um Esquema de Pirâmide e lembra muito o Caso das Tulipas, na Holanda do Século XVII (a primeira bolha do mercado financeiro, que deu início a uma depressão econômica que durou vários anos e gerou uma considerável desconfiança a investimentos especulativos por parte dos holandeses). Sem falar que elas também podem facilitar transações econômicas não muito bem-intencionadas”, adverte.

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Ricardo Torres: “é necessário ainda conhecer os detalhes deste mercado e ter informações precisas sobre as corretoras”

RISCOS

Questionado sobre se um negócio totalmente virtual como esse é seguro, o analista de Suporte Ricardo Machado Torres, professor universitário, diz que uma das máximas do mercado financeiro é da de que quanto maior o risco, maior a lucratividade. Mas que, para entender os riscos no investimento em bitcoins, é preciso estar atento a pelo menos dois aspectos, o técnico e o do mercado.

“Considerando o aspecto de mercado, a coisa não se apresenta tão segura assim, já que este é um ambiente completamente digital sem nenhuma regulamentação governamental, o que não fornece nenhum mecanismo de segurança financeiro ao sistema”, esclarece Ricardo Torres.

Já quanto ao aspecto técnico, o analista ressalta que é preciso entender que o mercado de bitcoins está alicerçado em uma tecnologia denominada Blockchain, que funciona com uma cadeia de blocos de informações registrando todas as transações de forma criptografada. “Sendo assim, esta estrutura é formada por uma rede de servidores espalhados por todo o mundo, garantindo a segurança das transações do bitcoin”, esclarece.

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José Gabriel: “a questão é se essa inovação será duradoura ou não”

CONHECIMENTO

Ricardo Torres afirma que quando você faz a aquisição de bitcoins, estes registros financeiros são armazenados em uma carteira virtual, e como qualquer outro sistema de armazenamento computacional, esta carteira está exposta a diversos tipos de ataques virtuais, ou até mesmo a falhas pessoais que podem incorrer em perda do arquivo e consequentemente a indisponibilidade do recurso.

Para além disso, ele alerta que é importante ter em mente, num primeiro momento, que os valores investidos em moedas virtuais não devem comprometer o seu orçamento. “É necessário ainda conhecer os detalhes deste mercado e conhecer ter informações precisas sobre as corretoras ou os gestores das carteiras, sendo estes os pontos mais frágeis do mercado de bitcoins”, avalia.

Mas o professor garante que não é preciso, por exemplo, que o investidor tenha algum conhecimento na área de informática/tecnologia ou se cerque de alguém que o tenha. “O investimento em bitcoins segue o mesmo mecanismo operacional de outros investimentos financeiros, bastando conhecer a operação dos aplicativos que fazem a gestão de sua carteira e a interação com as corretoras”, reitera.

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Bitcoins ainda não são essenciais para o mercado financeiro, segundo economista

ASPECTOS JURÍDICOS

O advogado José Gabriel Macedo Beltrão Filho, presidente da Comissão de Estudos de Direito e Economia da OAB/SE, classifica o fenômeno do surgimento das moedas virtuais como um fenômeno econômico tecnológico natural neste momento, quando tecnologias inovadoras são tendência na economia. “A questão é se essa inovação será duradoura ou não”, ressalta José Gabriel.

Ele afirma que tramita no Congresso Nacional, desde 2015, o Projeto de Lei nº 2.303, que visa a regulamentar o tratamento jurídico desse fenômeno tecnológico e econômico. “Enquanto isso, a Comissão de Valores Mobiliários – CVM - regula o assunto por meio de uma Nota Técnica, lançada em 2017 para orientar a oferta inicial da moeda”, revela.

Além disso, segundo Christian Porto Cardoso, vice-presidente da mesma Comissão, há um Ofício que indica a vedação de que fundos de investimentos privados adquiram as criptomoedas. “Uma vez que a Comissão não reconhece as moedas virtuais como ativos financeiros”, ressalta Christian Porto. 

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Moeda caiu no gosto dos investidores, principalmente porque único custo é no momento da compra e da venda

ALERTA

Para ele, a principal característica do bitcoin, cujo surgimento segue essa tendência global de inovação disruptiva a partir do avanço tecnológico, é a diferença dela em relação às outras moedas, inclusive outras virtuais. “É a sua descentralização, ou seja, a sua capacidade de operar de forma independente”, diz ele. 

José Gabriel completa: “enquanto que as demais moedas dependem de uma autoridade central de controle, a exemplo dos Bancos Centrais, o bitcoin não necessita de intermediários, sendo suas operações validadas, registradas e publicadas de maneira descentralizada, por meio da plataforma Blockchain”. 

Ambos ressaltam que o segmento de criptomoedas já é uma realidade, inclusive com aceitação em algumas bolsas de valores. Mas que, no entanto, esse tipo de moeda não é amplamente aceito no mercado. “Muitos economistas são céticos em relação ao controle e ao real valor dela. Recentemente, o bitcoin esteve no centro de uma bolha econômica. O investimento em criptomoedas é um investimento de risco e por isso não deve ser feito por leigos”, orienta José Gabriel. 

E Christian Porto recomenda: procure um gestor de investimento. “Alguém que tenha expertise com criptomoedas, a fim de mitigar ao máximo os riscos do investimento”. 

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Christian: “Comissão não reconhece as moedas virtuais como ativos financeiros”