Interviewer 9e83481dd7efcf8e

Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

Compartilhar
Newspapper report 327c4ef5bf651323

Cadê a construção civil que estava aqui? O Governo comeu!

A Fundação Getúlio Vargas considera o início do ciclo recessivo no segundo trimestre de 2014 e a construção amarga encolhimento de 21%. Para um dos setores que mais empregam no País, o baque no desemprego foi alto. Ela sofre com o desaquecimento do Minha Casa, Minha Vida e com a falta de investimentos públicos nas grandes obras de infraestrutura

O setor de construção civil encerrou o ano de 2017 com a redução de 0,5% sobre o impacto no Produto Interno Bruto - PIB - e com o fechamento de mais de um milhão de postos de trabalho. Foi um dos piores resultados dos últimos anos, quando o segmento vem sofrendo significativamente os efeitos da crise econômica, financeira e - porque não dizer - política que se abateu sobre o Brasil.

Sim, política, já que o setor estava diretamente atrelado ao programa Minha Casa, Minha Vida, aos subsídios do Governo e aos longos prazos concedidos por ele. Além, é claro, do boom de obras públicas. As construtoras tornaram-se quase que totalmente dependentes do sistema público e acabaram pagando o preço disso.

“O desempenho, digno de uma recessão econômica, está diretamente relacionado ao colapso das contas do Governo, que derrubaram as obras públicas, e aos escândalos de corrupção que atingiram as grandes empreiteiras. Apesar do setor da construção civil ser privado, é muito dependente dos investimentos públicos, principalmente nas grandes obras de infraestrutura”, confirma o economista Josenito Oliveira.

08612104d4d87529
Thiago: Nosso grande diferencial é a capacidade de resiliência
Newspapper report internal image 470246f73aad8488
Josenito: Desempenho está diretamente relacionado ao colapso das contas do Governo

PÚBLICO DIRETO

Mas, é claro, não foi só a falta de ação do Governo que colocou o setor em decadência. O próprio receio do consumidor final, aquele que sonha em ter um imóvel para chamar de seu, também impactou o mercado. Afinal, investir em épocas de crise não é nada fácil.

“Em época de recessão, só é recomendado investir em imóveis as pessoas que têm uma reserva financeira, que têm o poder de barganha para conseguir descontos e comprar à vista. Ou se tiver uma boa entrada para depender pouco dos financiamentos. Lembrando que comprar um imóvel é um investimento de longo prazo, requer planejamento”, analisa Josenito.

Foi o que fez o casal Raquel Moura e Victor Leonardo Vieira. Casados há quase três anos, eles já vinham pesquisando um imóvel para comprar e sair do aluguel. Agora, que o casal está à espera da primeira filha, resolveu que era a hora certa. “Já vínhamos procurando, conversando com amigos corretores e avaliando as possibilidades”, lembra Raquel.

92a6f6ba0518d21c
Construção civil é fundamental para a economia sergipana e dá sinais de recuperação (Foto Arthur Leite)

OPORTUNIDADE

O negócio foi fechado no início de 2018. “Procuramos um que tivesse bom custo-benefício, que coubesse no nosso bolso e fosse de acordo com a nossa renda, tanto a entrada quanto as parcelas”, explica.

Victor confessa que a crise serviu para que eles tomassem, de fato, a decisão de comprar. “Porque com a recessão, o valor caiu substancialmente. O preço inicial sugerido pela Construtora caiu muito, porque os imóveis estão parados. Isso permite uma negociação melhor entre construtoras e clientes, mesmo tendo financiado uma parte”, esclarece.

Assim como Raquel e Victor, outros sergipanos têm conseguido comprar a casa própria, apesar da crise. “O momento está muito propício ao comprador. Em todos os segmentos, a pessoa que pretende comprar um imóvel consegue uma boa negociação tanto na compra quanto na hora do financiamento bancário, conseguindo assim uma boa taxa de juros”, confirma Thiago Meneses, diretor Comercial da Construtora União.

RECUPERAÇÃO

De acordo com Thiago Meneses, a empresa tem observado um aumento na procura por imóveis já no final de 2017. “E para se ter ideia, a Construtora União teve o melhor mês de janeiro, agora em 2018, de todos os meses de janeiro da linha histórica da Construtora, o que mostra o interesse na procura tende a melhorar ainda mais”, revela.

Segundo Thiago, o mercado de imóveis de médio e alto padrão foi um dos mais impactados na crise econômica, e isso fez com que os estoques das construtoras neste perfil aumentassem. “Os empreendimentos econômicos sempre têm demandas e são os mais procurados”, ressalta.

Seria, então, a retomada do setor? Para o economista Josenito Oliveira, sim. “Os indicadores mostram que estamos saindo da recessão técnica, a inflação está em baixa, o Governo acena com queda dos juros, com a revitalização, apesar de tímida, do Programa Minha Casa Minha Vida e de alguns investimentos pontuais em obras públicas”, comemora.

7cbee034b89845ce
Singulare foi entregue agora em 2018 e ajudou a fazer o melhor janeiro da Construtora

RESILIÊNCIA

De acordo com Thiago, não houve redução no número de lançamentos de empreendimentos nos últimos anos. “O ritmo foi mantido. Em 2015, tivemos o nosso maior número de unidades lançadas desde 2010 (quando nem se falava em crise), e tivemos êxito em todos os empreendimentos lançados naquele ano. Já em 2017, nós tivemos um aumento de 110% em número de unidades lançadas em comparação ao ano de 2016”, compara.

Mas ele admite que a empresa precisou se reinventar, adequar projetos, para continuar operando normalmente. “Foi necessário dar um 360 graus em relação aos projetos e ações, e esse é nosso grande diferencial, essa capacidade de resiliência. No meio de todas as incertezas que a crise econômica trouxe, enquanto muitas construtoras do mercado se recolhiam e demitiam, a Construtora União foi uma das poucas que não demitiram seu quadro administrativo, que lançou novos empreendimentos, que contratou com agentes financeiros, que entregou empreendimentos”, ressalta.

O esforço valeu a pena. “Impacto sempre tem, mas não muito. Acredito que o programa popular mais impactado foi o Minha Casa. Minha Vida faixa 1, que praticamente já não operava bem aqui em Sergipe (e não por conta da crise), sendo uma faixa que a Construtora atualmente não atua. No entanto, em meados do ano de 2017, as incertezas com relação à Caixa, banco que fomenta certa de 75% do crédito imobiliário, em relação aos requisitos do Tratado de Basiléia, acenderam o sinal de atenção”, lembra.

E0949425b55adb3b
Em 2018, segmento deve voltar a crescer e fomentar economia sergipana ( Foto Arthur Leite

PERSPECTIVAS PARA 2018

O que esperar de 2018, então? “A construtora está com boas expectativas para o ano de 2018. Fizemos uma convenção de vendas com nossa equipe de corretores e conseguimos motivá-los ainda mais. Além disso, estamos com uma programação de lançamentos, contratações e entregas ao longo do ano, e já começamos com a entrega do Singulare, que foi em janeiro. Sem dúvidas, a construtora União estará com muitos planos e arrojados para 2018”, garante o diretor. 

É no que aposta também o economista Josenito Oliveira. “Esperamos, de forma vigorosa, a volta dos investimentos públicos e privados para recuperar a produção, a retomada do emprego, a geração de renda e consequentemente o aquecimento da demanda”, destaca. Isso porque, para ele, a indústria da construção civil é de suma importância para a economia sergipana.

“Além de ser um setor tradicional, possui empresas genuinamente sergipanas, com bastante experiência e tecnologia, a exemplo das grandes obras públicas e empreendimentos privados. Vale destacar ainda, que é um setor intensivo em mão de obra, ou seja, emprega muita gente. Tem que ser visto com bons olhos”, alerta.

Também procurada pelo JLPolítica, a Construtora Norcon Rossi informou que ainda há muitas definições a serem tomadas e que elas são consideradas estratégicas para serem tornadas públicas, ao menos por enquanto.